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JOS RODRIGUES MIGUIS

A ESCOLA DO PARASO



Este volume faz parte da srie
Romances Portugueses - Obras-Primas do Sculo XX
coordenada e dirigida por David Mouro-Ferreira e assinala o XV aniversrio do Crculo de Leitores.
Capa de Antunes
Fotocomposto em Garamond 11/11 por Fotocompogrfica
foi impresso e encadernado no ms de Maro de 1986
por Resopal
em exclusivo para os Scios do Crculo de Leitores
Licena editorial por
cortesia da Editorial Estampa
Edio n. 1899. Depsito Legal n. 11 161/86



ESCORO BIBLIOGRFICO
Jos Rodrigues Miguis (de seu nome completo, Jos Claudino Rodrigues Miguis) nasceu em Lisboa, no dia 9 de Dezembro de 1901. A sua licenciatura em Direito, obtida
em 1924, levar-nos-ia a crer numa carreira escolar sem acidentes de vulto. Acontece, porm, que Miguis desenvolve, a par dos seus estudos, uma importante actividade
de interveno. Participou, "ainda estudante, dos combates cvicos do grupo inicial da Seara Nova" 1, revelando-se "como lcido doutrinrio e dotadssimo tribuno 
do campo democrtico". Surge como colaborador do jornal Repblica em 1922. Advogado, professor, articulista, cronista, assume, com Bento de Jesus Caraa, a direco 
do jornal O Globo (1932), o qual viria a ser proibido pela Censura aps o segundo nmero. O interesse de Miguis pela causa do ensino leva-o a Bruxelas, onde obtm 
a licenciatura em Cincias Pedaggicas (1933). Data de 1932 a publicao da sua primeira novela: Pscoa Feliz.
Acerca da sua formao como escritor, nada mais elucidativo do que as palavras do prprio Jos Rodrigues Miguis: "Cresci como escritor num vcuo; no havia praticamente 
literatura em Portugal: no se escrevia um conto, no se falava de teatro, no havia pginas literrias. O escritor estava desviado da sua natural
' David Mouro-Ferreira, ver, mais adiante, BREVE ANTOLOGIA CRTICA.
VII

funo e isolado do pblico leitor. O meu primeiro livro, Pscoa Feliz, foi publicado em 1932 por um sindicato de trabalhadores, os arsenalistas do Exrcito, de 
tendncia marxista, a quem fiquei a dever esse favor. " 2
 ainda em 1932 que Miguis casa "com uma colega de origem russa". Confessa o escritor: "A sua adaptao a Portugal foi muito difcil e o nosso casamento desfez-se. 
Foi ento que se concretizou a possibilidade de vir at aos Estados Unidos, onde tinha dois ou trs amigos, entre eles a minha actual mulher. "3
A fixao de Miguis nos EUA no se explica, todavia, por um fracasso sentimental. O desconforto que ter sentido em Lisboa, aps a sua passagem pela Blgica, resulta 
de motivos principalmente polticos. Em 1935 Miguis v proibida a sua colaborao no jornal O Diabo, onde publicara artigos e textos de fico. A poca era a da 
consolidao do Estado Novo, em vsperas do incio da Guerra Civil de Espanha. A vigilncia das ideias no incidia apenas na coisa escrita, mas tambm no mbito 
da profisso. Palavras de Miguis: "No encontrei condies para trabalhar em Portugal. "4
Em 1936, Miguis obtm o estatuto de imigrante nos Estados Unidos.  ameaado de priso, caso volte a Portugal. Colabora em jornais luso-americanos, em jornais e 
revistas hispano-americanos e nas revistas The Nation e The Protestant. Em 1941 assume o cargo de Assistant Editor da verso em lngua portuguesa das Seleces do 
Reader's Digest.
Adoece gravemente em 1943 e 1945. Depois -lhe permitido visitar Portugal "sob vigilncia da polcia poltica"5. S em 1946 consegue publicar, no Brasil, o seu segundo 
livro, Onde a Noite Se Acaba (contos e novelas). "Suspeito aos poderes e considerado "perigoso", regressei aos EUA e s tradues. Mas entre privaes e dores que 
omito aqui, o escritor sobreviveu. Escrevia agora
2 "Entrevista com Jos Rodrigues Miguis" (conduzida por Carolina Matos), in Gvea-Brown, Providence, R.I. (EUA), Vol. 1, n. 1, 1980, p. 43.
3 Ibid., p. 43. - Refere-se  Ex.ma Senhora D.a Camila Rodrigues Miguis.
4 Ibid., p. 43. 5 Ibid., p. 44.
VIII




crnicas-ensaios para a Seara Nova e outros peridicos. At que em 1956 o lanamento da noveleta Saudades para a Dona Genciana me deu uma nova celebridade. Voltei 
por dois anos a Portugal. Lah e Outras Histrias valeu-me o Prmio Camilo Castelo Branco, concedido pela primeira vez. Desde ento tenho sido apenas escritor - 
isto , renunciei a ganhar dinheiro! A vida obscura nos EUA permitiu-me recriar em livros a minha imagem de Portugal e dos Portugueses: uma tentativa de panorama 
deste nosso sculo portugus. "6
Desde ento (Lah e Outras Histrias  publicado em 1958) a fortuna editorial do escritor ter-lhe- sido menos adversa. Catorze anos separam Pscoa Feliz da publicao 
de Onde a Noite Se Acaba. E dez anos separam esta ltima obra da "noveleta" que relanou Miguis no seu pas de origem. O que - se meditarmos em que Onde a Noite 
Se Acaba  edio brasileira - significa vinte e quatro anos de desterro intelectual, desterro talvez mais doloroso do que as agruras do outro exlio.
Em 1959, surgem mais duas obras da autoria de Miguis: o romance Uma Aventura Inquietante e a narrativa autobiogrfica Um Homem Sorri  Morte com Meia Cara. Em 1960, 
outro romance: A Escola do Paraso; e um texto dramtico: O Passageiro do Expresso. Um novo conjunto de contos e novelas - Gente da Terceira Classe - vem a lume 
em 1962. Em 1964, surge a primeira parte duma srie de crnicas intitulada Reflexes de Um Burgus - 1. a parte:  Proibido Apontar; 2. a parte: As Harmonias do 
"Canelo" (que s vir a pblico em 1974). Nikalai! Nikalai! (novela) data de 1971. De 1973 so datadas uma recolha de contos - Comrcio com o Inimigo - e outra 
de crnicas - O Espelho Polidrico. Em 1975 Miguis consegue publicara obra que, como veremos, o ocupou durante largos anos: O Milagre Segundo Salom. O Po No 
Cai do Cu (publicado primeiramente no Dirio Popular, em 1975-1976) s postumamente  publicado em volume (1981).
Residindo quase sempre em Nova Iorque, a faleceu Jos Rodrigues Miguis no dia 27 de Outubro de 1980. Para alm das j
6 Ibid., p. 45.
IX




referidas visitas a Lisboa, ainda revisitou a sua cidade-bero em 1963-64, 1966 e 1967. Permaneceu um ano no Brasil (1949-50). De algumas distines que tardiamente 
lhe concederam, destaque-se a Ordem Militar de Santiago da Espada, no Grau de Grande Oficial (Maio de 1979).






CONFRONTOS CRONOLGICOS
No caso de Jos Rodrigues Miguis, nada mais falso do que um confronto, em termos cronolgicos, das suas obras com obras de outrem. Referimos j o seu "desterro 
intelectual" de vinte e quatro anos (1932-1956) em relao ao leitor portugus. Se, por um lado, nada existe de anacrnico no tocante  criatividade deste escritor, 
por outro lado existe muitas vezes um grande intervalo de tempo entre a feitura da obra e a sua vinda a pblico. Mas, neste aspecto, o exlio no explica tudo. A 
Censura fez quanto pde para impossibilitar o que o exlio dificultava. E o prprio tempo de escrita de Miguis - segundo Miguis - no facilita a datao efectiva 
de grande parte da sua obra.
Consideremos por exemplo o romance Uma Aventura Inquietante - 1. a ed. 1959. Foi em Bruxelas que Miguis tropeou "no tema do romance". "Passados dois ou trs anos, 
em Lisboa e 1934, eclodiu."' Consequncias: um folhetim para o jornal O Diabo... Em termos de Histria Literria, qual a data significativa desta obra de Miguis? 
Integra-se num determinado filo literrio dos anos 30?... Ou dos anos 50?...
Outro exemplo: Nikalai! Nikalai! - 1.a ed. 1971. Os "primeiros esboos do livro" datam "dos anos 30", mas outros episdios
Cf. Uma Aventura Inquietante, 3.aed., Editorial Estampa, 1981, p. 273
X1

datam da passagem do Autor "pelo Reader's Digest, 1942-43", havendo ainda um que "foi escrito no Rio de Janeiro, em 1949 ou 50".8
Outro exemplo: O Po No Cai do Cu - 1. a ed. em livro (dita 2. a), 1981. Em 1937, era um drama em trs actos: O Contrabandista. Em 1943 ou 1944 tomava a forma 
de romance. Retocado em 1973. "O incidente que inspirou a pea e depois o romance"  o mesmo - supe Miguis - "que o poeta Manuel da Fonseca explorou num dos melhores 
romances curtos da nossa poca e terra: Seara de Vento (1958)".9 Que outro significado atribuir s datas concernentes ao romance de Miguis seno o do fim da Censura 
oficial?...
E ainda outro exemplo: O Milagre Segundo Salom - 1.a ed. 1975. Declara o Autor: "Trabalhei mais de trinta anos (1932-1967) no romance o Milagre Segundo Salom..."10
Apesar destes exemplos pouco aliciantes para quem pretenda enquadrar a obra de Jos Rodrigues Miguis em tendncias, correntes, movimentos datveis, poderemos estabelecer 
grosso modo as balizas da sua actividade (no da criativa, mas da que foi sendo publicada). No comeo, o ano de 1932. No fim, o ano de 1975. H neste recorte um 
critrio discutvel - bem sabemos. Facilmente contestvel, digamos. Mas, seja em que domnio for, necessitamos dum "ponto de apoio" -aqui, especificamente, de dois 
marcos de apoio. O que se situa antes de 1932 tem, no tocante a Miguis, o maior interesse - mas como fase de gestao. O que se situa depois de 1975 tem idntico 
interesse - como fase de consagrao. S que o acto (ou os actos - parte visvel do drama) decorre, em matria duma possvel Histria Literria, entre as datas mencionadas.
1932 - Publicao de Pscoa Feliz. No mbito da narrativa portuguesa, relevo para Ferreira de Castro, que publicara Emigrantes em 1928, A Selva em 1930, a que
8 Cf. Nikalai! Nikalai!, 2.a ed., Ed. Estampa, 1982, p. 202. 9 Cf. o Po No Cai do Cu, Ed. Estampa, 1981, p. 27310 "Entrevista com Jos Rodrigues Miguis", loc. 
cit., p. 45.
XII

1
se seguiram Eternidade, 1933, e Terra Fria, 1934. A "instituio literria" anuncia a via neo-realista, em que Miguis se enquadra. Aquilino Ribeiro, outro caso 
especial no panorama da nossa novelstica, publica, em 1932, um conjunto de novelas: As Trs Mulheres de Sanso; em 1933, o romance Maria Benigna. Entre os presencistas, 
realce para o Jogo da Cabra Cega (1934), de Jos Rgio.
1936 - Miguis torna-se emigrante nos EUA. O anticomunismo americano, exacerbado pelos acontecimentos da poca, causa-lhe alguns dissabores do tipo "inquirio". 
J Miguis trabalhava no que viria a ser O Milagre Segundo Salom.:. e talvez na elaborao de Filhos de Lisboa (excertos publicados na Seara Nova, 1960) e de A 
Escola do Paraso - obras que Miguis concebera como um trptico.
1946 - Publicao de Onde a Noite Se Acaba. Jos Rgio, que iniciara, em 1945, a publicao do ciclo autobiogrfico A Velha Casa, d a pblico Histrias de Mulheres. 
Vitorie Nemsio j publicara (1944) Mau Tempo no Canal. Miguel Torga publicara os Novos Contos da Montanha (1944) e o romance Vindima (1945). Aquilino Ribeiro, que 
publicara Volfrmio (1944), publica Lpides Partidas. Entretanto o movimento neo-realista ganhara terreno. Alves Redol publicara Avieiros em 1943. Manuel da Fonseca, 
Cerromaior em 1945. Fernando Namora publica Minas de San Francisco. O conto "O Acidente", incluso na referida colectnea de Miguis, ser uma das suas narrativas 
mais prximas da problemtica neo-realista.
1958 - Publicao de Lah e Outras Histrias.  um ano de agitao nos meios que se opunham ao salazarismo. Candidatura de Humberto Delgado  Presidncia da Repblica. 
"Escndalos" no mundo das Letras: Aquilino publica Quando os Lobos Uivam; Manuel da Fonseca,
XIII






1959
Seara de Vento. Alves Redol Publica A Barca dos Sete Lemes. Urbano Tavares Rodrigues, Uma Pedrada no Charco.
Publicao do romance Uma Aventura Inquietante e da narrativa autobiogrfica Um Homem Sorri  Morte com Meia Cara. No mbito da narrativa surgem, em Portugal, algumas 
obras que anunciam a emancipao em relao aos cnones neo-realistas, havia muito dominantes. Verglio Ferreira publica Apario, logo classificado como um romance 
existencialista. David Mouro-Ferreira publica as novelas de Gaivotas em Terra, obra que, se tem afinidades com a de outro escritor, esse escritor ser J. Rodrigues 
Miguis (e as afinidades podem resumir-se a uma certa viso de Lisboa - o que no significa "influncias").  do mesmo ano o primeiro romance de Augusto Abelaira, 
A Cidade das Flores.
1960 - Publicao do romance A Escola do Paraso e do texto dramtico O Passageiro do Expresso. A vinda a pblico da primeira destas obras confirmava que a narrativa 
portuguesa sofrera, na viragem dos anos 50 para os anos 60,

uma grande diversficao de processos. Verglio Ferreira publica o romance Cntico Final. Augusto Abelaira, Os Desertores. Fernanda Botelho, A Gata e a Fbula.
l962 - Publicao de Gente da Terceira Classe. As guerras coloniais acarretam uma agudizao da vigilncia censria. Tenta-se a aclimatao do nouveau roman. Alfredo 
Margarido publica A Centopeia, a que se seguir As Portas Ausentes em 1963, ano em que, de colaborao com Artur Portela Filho, publica os textos tericos de O Note 
Romance. Do posicionamento de J. Rodrigues Miguis perante a voga do nouveau roman (como de outras vogas) parece-nos eloquente o seguinte passo: "Quanto  questo 
de o escritor saber, como Deus, tudo quanto se passa na mente ou na vida privada dos
XIV






personagens, leia-se por exemplo o Robbe-Grillet de Projet pour une rvolution  New York, e ver-se- at que ponto ele adopta a velha regra - para dizer de Nova 
Iorque maiores enormidades do que o ingnuo adolescente Kafka na sua Amrica. Chega a gente a descrer da honestidade dos processos do escritor. Ou ento  tudo sonho!" 
("Nota do Autor", in O Milagre Segundo Salom, II, Estdios Cor, 1975, p. 350).
1964 - Publicao da primeira parte de Reflexes de Um Burgus. -  Proibido Apontar. A criao de um cronista fictcio - o burgus Mariano-Artur - confere a esta 
srie de crnicas (incluindo As Harmonias do "Canelo", publicadas dez anos depois) um carcter muito peculiar. No se trata de narrar, embora muitos textos narrativos 
a se encontrem disfarados. A crtica, em ntima aliana com o humor, timbra estas pginas de tal modo que s se pode pensar: isto  Miguis. Sem confronto adequado, 
nem sincrnico, nem diacrnico.
1971 - Publicao da novela Nikalai! Nikalai! Supomos que, sem a chamada "liberalizao" marcelista, a obra no teria vindo a pblico. (De notar o "silncio" de 
Miguis aps 1964.) Num pas que aproveitava todos os mitos para justificar a sua "misso" em frica, dificilmente seria vivel uma obra que, tratando do messianismo 
dos russos "brancos", constitui, no fundo, uma stira ao sebastianismo. Nesse ano, surgiam na narrativa portuguesa alguns textos de contestao das guerras coloniais. 
Um exemplo: Memria, de lvaro Guerra.
1973 - Publicao de crnicas: O Espelho Polidrico; e de contos: Comrcio com o Inimigo. O momento era pouco propcio  receptividade de reconstrues como as que 
Miguis apresentava. A narrativa contestava o prprio gnero narrativo, acusando as oscilaes prprias de todo o "fim de perodo".
xv



1975 - Publicao de O Milagre Segundo Salom. Admirvel reconstituio dos meandros que provocaram o "28 de Maio de 1926". Publicado porque tinha ocorrido o "25 
de Abril de 1974". Mas... Quem dava importncia  literatura nesses dias de 1975?...
XVI





UM PARASO SEMPRE AMEAADO
por JOS MARTINS GARCIA
Tanto se tem escrito sobre o "paraso perdido " que ousaramos afirmar ser esse um dos principais temas - se no mesmo o Grande Tema - da literatura universal. Se 
muitos crticos e exegetas reconhecem o carcter altamente potico da linguagem bblica, parece-nos especialmente marcada de poeticidade a palavra inauguradora do 
Universo.  o Verbo, na mxima criatividade do termo: ser no princpio.  a criao perfeita... fatalmente entregue  degradao.  o den, no mbito da mundividncia 
judeo-crist.
Mas esta mundividncia representa apenas uma das muitas leituras dum mito mais profundo: o da existncia dum estdio paradisaco, inicial, harmonioso, como que isento 
do desgaste do Tempo.  a Idade do Ouro das culturas pags, a Idade dos Imortais, do Dia Eterno. , dum modo geral, aquela fase dos primrdios admitida como esteio 
de mitos milenares, tanto dos elaborados pela cultura ariana, como dos elaborados pelas culturas amerndias ou prprias de sistemas que parecem muito afastados dos 
nossos ocidentais padres. Nesse tempo primordial - qualquer que seja o espao em causa - os deuses viveram na Terra e a infelicidade ainda no fizera a sua apario.
Por uma razo ou por outra - sempre racionalmente insuficiente, alis -, todos esses "parasos" se perderam (e no apenas aquele que celebrizou Milton: Paradise 
Lost). Os mitos, uma vez sujeitos  anlise, passaram a ser entendidos - conforme rezam centenas de definies - como projeces da complexidade humana no plano 
da palavra criativa, como expresses de potencialidades, desejos, sonhos acumulados no Inconsciente,
XVII



e s simbolicamente exprimveis. Assim o antigo "paraso", idade de ventura e inocncia, deslocou-se para a infncia de cada ser humano ou talvez, por um recuo mais 
aprofundado, para o ventre materno - suprema defesa contra a hostilidade do mundo.
A referida deslocao teve grandes efeitos no campo da literatura. O fascnio da infncia encontra-se atestado em muitssimas obras literrias dos sculos XIX e 
XX. No nos referimos  viso exterior da infncia conforme nos surge em Charles Dickens, no mile de jean Jacques Rousseau, etc. Referimo-nos, sim,  reviso da 
infncia conforme nos surge expressa em pginas de fico onde o escritor esquadrinha a sua prpria infncia - viso supostamente autntica e, todavia, distorcida 
por dois factores capitais: a autenticidade artstica, que no se confunde nunca com a vulgar concepo de autenticidade; o distanciamento inevitvel que separa 
o escritor-adulto da criana que nele  memria.
O psicologismo russo - quase sempre referido, pelo que respeita a Jos Rodrigues Miguis, quando se trata de avaliar a novela Pscoa Feliz - no ter sido alheio 
s incurses no universo da infncia. A chamada gerao (ou grupo) da Presena reflecte, no mbito da literatura portuguesa, uma forte influncia desse tipo de psicologismo 
- chegando, infelizmente, a torn-lo em norma criadora e valorizadora da obra esttica. Jos Rgio tornou-se, neste aspecto, exemplo obrigatrio. Todavia, mesmo 
em escritores que nunca se ligaram  Presena - como foi o caso de Jos Rodrigues Miguis -, ou em alguns que s episodicamente com ela se relacionaram, sem adeso 
explcita aos princpios preconizados pela dita revista (lembramo-nos de Vitorino Nemsio, nascido, tal como Miguis, em 1901) - o psicologismo encontra-se em ntima 
conexo com a nostalgia das origens. Em Nemsio, mediante a sua " ilha perdida", que  a forma peculiar que assume o seu "paraso perdido". Em Miguis, mediante 
uma nostalgia que o exlio veio, sem dvida, exacerbar. Mas talvez nenhum escritor portugus tenha levado to longe a recriao do universo da infncia como Jos 
Rodrigues Miguis, nas pginas do romance A Escola do Paraso.
Quando dizemos to longe no queremos apenas significar que Miguis alargou o universo ficcional da infncia, recorrendo a uma extraordinria pormenorizao, a uma 
linguagem densa de valores poticos,  elaborao de uma atmosfera mgica,  utilizao de uma imaginstica sedutora e dum ritmo original. Queremos tambm acentuar 
que a viagem de J. Rodrigues Miguis ao encontro das origens ultrapassa o momento em
XVIII



que Gabriel entra no mundo, o que significa uma das maiores ousadias do imaginrio em termos de analepse.
O "paraso" - o mtico, como o psicolgico - constitui um dado; no uma conquista da inteligncia, no o resultado duma aprendizagem. Se tivermos em conta este ponto 
de vista, parecer-nos-, sem dvida, intrigante um ttulo como A Escola do Paraso.  certo que Jos Rodrigues Miguis articula esse ttulo como se de uma designao 
banal se tratasse: havia uma escola situada num local por acaso chamado Paraso. Sabemos, contudo, que, para um artista da craveira de Miguis, nada se articula 
por acaso. A Escola do Paraso constitui uma expresso plurissignificativa, desde a significao banal (toponmica) at s implicaes resultantes da sua promoo 
a ttulo de um romance. So essas implicaes que nos importam, uma vez que a obra inteira as permite, ou as impe. Se "escola"  um meio de aprendizagem, o "paraso 
"  o que - assim parece - no se consegue aprender. Se o "paraso"  o lugar da inocncia (isto , do no-conhecimento), a "escola"  o lugar onde, pelo conhecimento, 
se vai destruindo essa inocncia. O mito do "paraso perdido" no contradiz a nostalgia da infncia "perdida" - corrobora-a. A aprendizagem escolar constitui um 
processo degradativo anlogo  expulso do den,  queda, ao pecado,  fuga dos deuses, etc. Ora, tudo quanto se vai modificando ao longo deste romance  uma aprendizagem 
- mas uma aprendizagem reconstrutiva, uma reconstruo sobreposta  destruio do "paraso". Dir-se-ia que Miguis operou (mas no temos argumentos para o afirmar, 
nem para o negar, no plano das influncias) aquela "aprendizagem de desaprender" preconizada por Alberto Caeiro no poema XXIV do "Guardador de Rebanhos".
  luz da "aprendizagem de desaprender" que melhor se esclarece o carcter, aparentemente aparadoxal, do ttulo em causa, bem como o posicionamento varivel do 
narrador. Este, situado num futuro que resulta do seu prprio acto criador (por isso "O futuro no existe" - l-se no captulo XI), tem de desaprender o que nele, 
adulto, lhe desfavorece a viso "original" dos seus primrdios. Esse o movimento subterrneo, silenciado na pgina. Esse o movimento destruidor da " escola" enquanto 
negao do "paraso", Mas, longe de permanecer em simples negatividade, Miguis executa, na pgina, o movimento inverso, o acto criador. A sua escola de desaprendizagem 
 a sua aprendizagem original.
"A natureza  o que o pensamento descobre no caos dos sentidos: estes, s por si, no conhecem" - escreve Miguis. Isto quer dizer que a criana
XIX




-Gabriel, no retrospecto do seu criador, representa o esforo de entender o real com base num escasso ponto de apoio: o "pensamento" que, devido  pouca idade do 
protagonista, lhe nega, as mais das vezes, a explicao exigida. Por outro lado, a fragilidade desse "pensamento "  uma solicitao a correces permanentes. Assim, 
a " natureza", sendo solidria com o pensamento, nem se coloca no mbito do catico (que  o dos dados dos sentidos), nem  declarada opaca, ou incognoscvel. No 
fundo, estamos perante uma das linhas-mestras da obra de Jos Rodrigues Miguis: nenhum princpio imutvel, nenhuma aceitao das ideias feitas; nenhum materialismo 
ingnuo, nenhum misticismo. Apenas, soberano e sofredor, o Homem insatisfeito, questionando incansavelmente o real, tanto o exterior como o interior. Para uma aprendizagem 
original do "ser", o escritor, transposto para um tempo de iniciao, necessita de um refgio, dum "casulo", duma "torre" que lhe no vede nem o autoconhecimento 
nem a avaliao do mundo. Escreve Miguis: "Que menino se recusou j a brincar num sto, a inventar inexistncia? Est-se fora do mundo, numa torre inacessvel, 
as pessoas crescidas ficam longe, com as suas ocupaes, ideias, hbitos incompreensveis. Aqui  o reino da fantasia, da realidade indescoberta. Vem-se as traves 
e as telhas do avesso, com teias de aranha, e h umas lucarnas pequeninas, muito engraadas, viradas para o cu azul, o sol, o silncio, s vezes o pio de um pssaro, 
uma paz de eternidade. Assim, no cheiro de palha, de mofo e clandestinidade, de p e madeira tostada de sol, entre murmrios de palavras proibidas, gestos rituais 
de descobrimento, e acres emanaes de suor infantil, pode-se ser feliz ou infeliz  vontade, e, apesar da carne ainda insensvel, ir aprendendo os segredos do ser, 
que exalta e di. "
Raramente um ficcionista ter declarado (pelo menos antes da voga da chamada metafico) que inventa a inexistncia. Quando muito, os ficcionistas habituaram o leitor 
 ideia de que qualquer semelhana com a realidade  pura coincidncia (o que no vai sem relao com uma hipocrisia necessria a furtar a obra de arte ao foro judicial 
- tem acontecido algumas vezes!... ). Jos Rodrigues Miguis, por sua vez, no s atribui  infncia o dom de inventar, mas tambm complementa a inveno com a palavra 
inexistncia. Poder-se- argumentar que a criana-Gabriel no  propriamente um escritor. Se ainda o no ,  porque o  potencialmente. Se ainda no escrete,  
porque Miguis, graas ao movimento destrutivo-reconstrutivo, ainda no lhe atribuiu a capacidade da escrita. Porque Gabriel  Miguis, o outro Miguis, o Miguis
xx





como M~ julga ter sido, ou gostaria de ter sido, ou no pode fugira ter sido... Hipteses que, em matria de arte literria, so equivalentes. O menino que inventa 
a inexistncia no seu sto de refgio e transparncia  uma fase do homem comprometido com o mundo, e que precisa de distanciar-se desse mundo para poder avali-lo 
(tal como o escritor, fora de Portugal, saudoso de Lisboa, adquiriu uma nova perspectiva para avaliar as suas razes). A relao exterior/interior assume valores 
diferentes consoante o posicionamento do narrador. O que  observado "do avesso" difere necessariamente da fachada oficiosa, por mais embelezamento que esta receba 
do "cu azul", do "silncio", do "pio dum pssaro" Uma certeza: a inveno duma "clandestinidade" seja ela de que ordem for,  indispensvel  aprendizagem (nova) 
dos "segredos do ser".
 perante o fundamental "segredo" de haver nascido que a inveno de Jos Rodrigues Miguis se dilata at ao embrio. Mas, senhor de notabilissimos recursos narrativos, 
Miguis, antes do registo de nascimento de Gabriel, deixa flutuar o narrador numa impessoalidade omnisciente onde, no entanto, j se vislumbra o olhar comovido e 
zombeteiro que do futuro lana, disfarado e distorcido, sobre a unidade me feto. Essa flutuao do ponto de vista do narrador atravessa, alis, o romance de ponta 
a ponta, como processo relativizador do processo de narrar.
 um narrador "clandestino" quem assiste ao desastre anterior ao seu prprio nascimento (nascimento de Gabriel) - pois nenhuma outra personagem se refere a esse 
facto; nenhum outro narrador rivaliza, neste aspecto, com o narrador responsvel pela totalidade do romance. O gato preto, que ia fazendo Adlia esvair-se em sangue, 
funciona como primeira ameaa do mundo ao "paraso" uterino. Sintomaticamente, a segurana mxima da criana no significa a sua invulnerabilidade. O carinho - o 
do gato preto - envolve a possibilidade do assassnio. O amor fraterno alberga uma vontade inconsciente de mutilao. Gabriel, no bero, ainda incapaz de reter algo 
na memria, sabe que a irm gueda o ameaa dizendo " Tiro um olho a ti... " A aproximao de duas realidades aparentemente muito distantes (a irm, o quartel) produz 
uma acumulao simblica na comparao subsequente: " Uma vidraa fasca como um sabre. "
Aproximaes de realidades dspares e deslocaes que alteram a viso convencional da realidade so processos recorrentes na linguagem destrutiva-reconstrutiva de 
Jos Rodrigues Miguis. A maioria desses processos constituem metamorfoses da tenso que apontmos no pargrafo anterior.- o
XXI


" refgio" acarreta a conscincia da insegurana. O medo do exterior vaia par com o medo da clausura. O mundo dos adultos, em que a criana gostaria de remexer at 
 satisfao do pensamento,  percorrido pelo absurdo. Existem as prises; e Gabriel, s de olh-las, sente medo. Clausura pode, bem vistas as coisas, no constituir 
um privilgio para o observador; pode aterrorizar quando se lhe associa a ideia de liberdade perdida: " Ento  bom fugir, de joelhos fracos, tropeando, perseguido 
pelo hlito frio da solido e do medo. " Toda a curiosidade, alis, tem um preo elevado. O pressentimento da vida sexual - ameaa de aniquilamento do inocente "refgio" 
-  fonte de inquietao, de apelo e de temor, o temor de penetrar nos " escaninhos da vida ".
Se a "clandestinidade" proporciona "uma paz de eternidade", por outro lado Gabriel no pode esquivar-se  conscincia do Tempo: " A me dorme, o pai ressona, o relgio 
coxeia atrs do Tempo. " Este Tempo mutilado (no ser o Tempo o grande inimigo dos "parasos", a grande falha da Unidade?...) associa-se  "gua que pinga dos beirais 
- ping ploc, ping ploc, ping ploc... ", numa continuidade portadora daquilo que, esfacelado, flui. A descoberta do Tempo anuncia o defrontar de outros mistrios: 
o espelho deforma o mundo supostamente normalizado, a encenao deforma a vida enquanto realidade tranquila, a vida deforma a eternidade enquanto inveno do isolamento... 
"Ele acaba de sofrer a primeira investida do mistrio (...) ferida insanvel que agora mesmo se abriu, e para todo o sempre ficar dentro dele a verter gua e sangue, 
luz e tinta negra, volpia e sofrimento. "
A famlia de Gabriel, to cuidadosamente descrita - o leitor v essas personagens, na sua estatura, no seu vesturio, nos seus costumes, no seu devir, nas suas tarefas, 
na sua maneira de ser, no seu estrato social -, revela-se-lhe um dia como um agregado no isento de periditncia. A insegurana do refgio infantil encontra assim 
um paralelo na insegurana da prpria orgnica familiar: h suspeitas, h cimes, h rostos subitamente diferentes da costumeira afabilidade - a profisso do pai 
seria de molde a facilitar-lhe uma "clandestinidade" prpria, a das relaes com outras mulheres. A famlia no  afinal uma barricada inexpugnvel, nem sequer ao 
nvel dos progenitores. Tambm a casa onde se nasce, tida em princpio como casulo material dum casulo afectivamente inventado, no  o domiclio eterno da inocncia, 
ou seja, no corresponde nem ao paraso mtico nem  permanncia tipificada no "sto". No seu novo domiclio Gabriel sofre com a adaptao, olha para a argamassa 
do
XXII
prdio vizinho, parece sentir o corte do cordo umbilical e o medo invade-o: "Esta viso uterina f-lo sentir-se emparedado em vida e aterra-o de repente, como se 
fosse a origem dos maus sonhos que ultimamente o tm assaltado. " Das muitas narraes escutadas por Gabriel, uma houve que lhe provocou um especial horror - a da 
menina que foi enterrada viva: "S a ideia disto tira o ar e o sono a uma pessoa. " A seduo da paz uterina, metamorfoseada em paz tumular, revela-se como uma iluso 
entre outras. Afinal,  preciso viver. Viver numa sociedade muito mais complexa que a clula familiar.
 mediante a abertura ao social que A Escola do Paraso se nos apresenta como uma notvel "revoluo" no plano da novelstica do nosso sculo. A aprendizagem do 
mundo circundante -porque, tambm nesse aspecto, Gabriel se vai debatendo entre o que julga conhecer e os enigmas que todos os dias se lhe deparam - faz-se com muitas 
interrogaes, muitas hipteses, muitas aquisies que se ho-de avelar falsas ou incompletas, muitas angstias e uma rede de cruzamentos. H a linha do tempo, que 
vem da existncia de avs e de personagens semilendrias. H, para alm dos pais e dos irmos de Gabriel, a cidade, Lisboa. H, para alm de tudo isto, uma atmosfera, 
uma poca, extraordinariamente bem caracterizada, inconfundvel em suas marcas de "fim de perodo " Antes do regicdio (1908), a estagnao  apenas aparente: a 
lentido ritualista das pginas referentes a esse perodo traduz uma espcie de cansao " histrico " em oposio  curiosidade dum ser que desperta para o mundo. 
Entre o regicdio e a proclamao da Repblica (1910), a narrativa enche-se de pressgios. Na viso supersticiosa de algumas personagens, no  o fim do regime que 
se aproxima, mas pura e simplesmente o "fim do mundo". A insegurana envolve a mente, a cidade (Lisboa sempre no receio dum terramoto - o que efectivamente ocorre 
no atinge as propores do de 1755), o planeta (o cometa de Halley d matria a boatos catastrficos).
Sobreviver foi, para Gabriel, uma artimanha amargurada. Todo o seu mundo afectivo se cindiu entre o amor e a repulsa, entre os mitos alheios e os mitos por ele prprio 
inventados: " Assim a infncia fabrica os mitos, para viver no pavor deles; s vezes at bem depois de atingida a maturidade. " Mas esta sensata constatao encontra-se 
entre parnteses no texto de Miguis.
A arte da parentetizao, tantas vezes usada ao longo deste romance, alerta o leitor para o facto de ser um adulto quem emite este discurso.

Trata-se de um aviso para bom entendedor... A impossibilidade tcnica de uma criana registar espontaneamente as suas vivncias exprime-se, entre outros processos 
de intromisso do narrador efectivo, pelo comentrio parentetizado, quase sempre veculo de uma viso amadurecida da realidade faccionada. Quem pretender subestimar 
este processo, buscando nas pginas de A Escola do Paraso -uma sucesso linear de acontecimentos, deixar com certeza escapar uma das facetas mais aliciantes da 
arte verbal de Jos Rodrigues Miguis: o humor. Dizemos humor no sentido restrito do termo, ou seja: a introduo duma avaliao divergente no mbito do sentido 
provvel do texto. A introduo do humor, no texto de Miguis, contesta tanto os juzos de valor infantis como o infantilismo de certas convices dos adultos, tais 
como a interpretao miraculosa dos factos, as supersties, as vises alucinadas, etc. O humor  a marca mais saliente do julgamento que o narrador-adulto deixa 
no processo reconstrutivo da infncia de Gabriel. Jogo de si mesmo com o outro que ele foi, esse humor  comparvel a um sorriso complacente para com as poticas 
e fugazes "certezas" duma conscincia ainda frgil. Mas, do humor que visa Gabriel at ao humor que visa toda uma sociedade, o processo  o mesmo. Uma humildade 
sub-reptcia introduz-se nos parnteses utilizados pelo narrador - aquela humildade que se traduz, ao fim e ao cabo, pelo apontar das fraquezas humanas com o ar 
de quem se resigna. No existe, porm, tal resignao. Ela  mera aparncia. No fundo, o humor  to corrosivo como a ironia. A diferena reside no posicionamento, 
supostamente aquiesceste, do emissor - quando de humor se trata -, perante a superioridade desdenhosa - quando a ironia domina.
A parentetizao  assim uma tcnica de insinuaes humorsticas e surge-nos intimamente relacionada, nos textos de Jos Rodrigues Miguis, com certas interpolaes. 
Estas constam, as mais das vezes, de relatos da responsabilidade duma personagem (frequentemente a me de Gabriel, dona Adlia). Trata-se dum parnteses maior, da 
pequena peripcia, dentro da grande peripcia. Em casos tais, o humor corre por si mesmo, pois a deslocao da narrativa para um narrador intradiegtico acentua 
a discrepncia das perspectivas - e o resultado  ainda esse humor complacente, comovido, brandamente oferecido ao leitor. Este que confronte a sua leitura com a 
leitura do narrador e com a leitura que a criana faz dos " contos" relatados pelos adultos e com a leitura que os mesmos adultos (crianas grandes) fazem dos factos 
(ou dos supostos factos). A riqueza
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significativa de tais processos transforma A Escola do Paraso numa polifonia, verdadeiro romance, verdadeiro conjunto harmnico (e no uma sequncia de "histrias" 
- como j o quiseram desentender).
Poucos crticos se tero at hoje compenetrado do carcter tecnicista da prosa de Jos Rodrigues Miguis (e dizemos tecnicista na acepo mais nobre do termo, assim 
como quem declara ser altamente tecnicista a msica de Beethoven). Certas msticas de raiz romntica - o culto da espontaneidade e o culto da autenticidade vulgar 
- continuam, ainda hoje, em vigor, para desgraa de quantos se tm empenhado no compromisso (nada lucrativo, pelo menos a curto prazo) com a arte. da palavra, sem 
dvida a que mais interditos e "excomunhes" acarreta ao artista. Situar Jos Rodrigues Miguis dentro de cnones estticos ser to difcil como reduzi-lo a uma 
cartilha ideolgica. Isto porque em Miguis a arte supera o testemunho, tal como a "humanidade" supera qualquer ideologia. E estamos em crer que, sem a admisso 
destas premissas, os investigadores futuros sero levados a adiar- por quanto tempo? - a grandeza a que Miguis tem direito.
Para Miguis, todo o acto social  um acto de conscincia - mesmo quando o pensamento apenas desponta. E toda a tomada de conscincia  um acto de responsabilidade 
social - mesmo quando a sociedade s oferece ao observador alguns indcios da sua tessitura.
Assim, destruindo e reconstruindo um "universo" permanentemente ameaado (o Cosmos a par da vida interior), deu do Homem, encarcerado e livre no Tempo, a dimenso 
do seu efmero e da eternidade das suas aspiraes.
Janeiro de 1986
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BREVE ANTOLOGIA CRTICA
Sobre o Autor e a Obra
Natural de Lisboa (... ), Jos Rodrigues Miguis, prdigo efectivamente de inmeros dons,  o prosador e ficcionista que mais pessoalmente vem realizando, neste 
sculo, atravs da memria e da fantasia, uma ntima, sortlega e variada "reedificao" da prpria cidade que lhe serviu de bero. Em diversas novelas dos livros 
Onde a Noite Se Acaba (1946) e Lah e Outras Histrias (1959), em romances como A Escola do Paraso (1960) e O Milagre Segundo Salm (1975), Jos Rodrigues Miguis 
tem prodigiosamente recriado contrastadas ou justapostasimagens da Lisboa onde lhe correram a infncia, a adolescncia, o comeo da maturidade. Mas este aspecto, 
apesar de muito relevante (...), est longe de por inteiro recobrir uma obra essencialmente mltipla ou de por completo reflectir uma polidrica personalidade como 
a do seu autor.
Participando, ainda estudante, dos combates cvicos do grupo inicial da Seara Nova e tendo-se imposto, desde logo, como lcido doutrinrio e dotadssimo tribuno 
do campo democrtico, Jos Rodrigues Miguis licenciar-se- em Direito pela Universidade de Lisboa, em 1924, mas bem cedo se sentir ainda mais atrado para a teoria 
e para a prtica do ensino, o que o levar a especializar-se, como bolseiro da junta Nacional da Educao, em Cincias Pedaggicas na Universidade de Bruxelas, onde 
se licenciar em 1933. Entretanto, o seu primeiro livro de fico narrativa - a
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novela Pscoa Feliz (1932) - imediatamente o colocara na primeira fila dos ficcionistas da sua gerao e, muito em particular, daqueles que, seduzidos pelos meandros 
da anlise psicolgica, principiavam a reagir contra o que havia de superficial em certo naturalismo ainda vigente.
Mais tarde, a diversificada experincia "social" de Miguis - colhida tanto nos meios europeus onde se especializou como no prolongado exlio americano a que recorreu 
- jamais se mostrar desacompanhada dessa outra dimenso "psicologista" - quer ao consubstanciar-se em admirveis textos romanescos de cenrio estrangeiro (o romance 
Uma Aventura Inquietante, 1959; alguns dos contos de Gente da Terceira Classe, 1962; a novela Nikalai! Nikalai!, 197 2), quer ao desaguar, atravs de outras vertentes, 
na pungente narrativa autobiogrfica Um Homem Sorri  Morte com Meia Cara (1965) e em reflexivos ou pitorescos textos de observao do quotidiano ( Proibido Apontar, 
1964; O Espelho Polidrico, 1973; As Harmonias do "Canelo", 1974).
DAVID MOURO-FERREIRA, in Portugal.
A Terra e o Homem, 11 Volume - 1. a srie, ed. da Fundao Calouste Gulbenkian, 1979, pp. 267-268.
Disseram-me que, nos escritos inditos de Jos Rodrigues Miguis, existe uma afirmao segundo a qual os crticos no foram capazes de atingir o aspecto mais importante 
da sua obra: o carcter inteiramente autobiogrfico. A publicao dessa afirmao (queixa?) deste escritor portugus que escolheu exilar-se nos Estados Unidos no 
lhe teria sido vantajosa, em Portugal, enquanto ele viveu, e estou em crer que no lhe aumentaria o prestgio nem mesmo no Portugal de hoje, onde ningum se empenharia 
em descobrir o que se oculta sob a referida afirmao de Miguis.  certo que ele poderia querer dizer com essa afirmao (e provavelmente  esse o seu sentido) 
que escreveu apenas sobre o que de facto lhe aconteceu. A chave, porm, reside na interpretao do que ele quereria significar com "o que aconteceu". A soluo do 
problema, se soluo existe, est na prpria fico. Penso especialmente naquelas personagens de Miguis,
XXVII





normalmente os prprios narradores, que passam horas sem conta nos seus quartos,  noite nos seus leitos, escutando os rumores da penso, do apartamento, do hotel, 
captando por meio de tnues sugestes - antigas ou recentes - o drama que ora se desenrola, ora se retrai. Para as personagens de Miguis, a percepo trabalha neste 
caso em total consonncia com a imaginao, arquitectando a narrativa dos "acontecimentos" para alm das "paredes" do quarto. Vemos assim na obra de Miguis, duma 
ponta  outra, a figura do narrador ocioso e incansvel, misturando memria e desejo com os terrores duma imaginao sensvel.
GEORGE MONTEIRO, "Foreword" in Jos Rodrigues Miguis, Steerage And Ten Other Stories, Gvea-Brown, Providence, R.I., 1983, pp.13-14. Traduo J.M.G.
Miguis era muito mais que um "simples contador de histrias", como uma vez se autoclassificou com divertida modstia. Era mais que um colunista divulgando histrias 
cheias de interesse humano. Acima de tudo, era um ficcionista que escolheu a sociedade contempornea como principal objecto. Embora sempre ligado ao seu pequeno 
e antigo pas de origem, no existia nele qualquer provincianismo ou estreiteza mental. A sua produo literria abarca continentes. Tendo tambm vivido na Blgica, 
nos Estados Unidos da Amrica e no Brasil, foi-lhe fcil escrever acerca dos portugueses que se fixaram em muitas regies do mundo, bem como acerca de outros "latinos", 
ou de belgas, russos e americanos.
O seu esprito debatia-se entre contradies e tenses nervosas. Atrado por duas cidades, Lisboa e Nova Iorque, tambm se achava dividido entre o desejo duma vida 
tranquila e annima e a necessidade de reconhecimento pblico (que lhe foi prestado de quando em quando pelos seus concidados, e at mesmo pelo seu governo nos 
derradeiros tempos da sua vida), entre o dever de viver responsvel e conscientemente no presente e o tumulto das vvidas memrias do passado.
GERALD M. MOSER, "Afterword", in Steerage..., p.217. Traduo J.M.G.
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Sobre "A Escola do Paraso"
(...) o romance A Escola do Paraso (Estdios Cor, Lisboa, s.d.) , de facto, o primeiro romance de Miguis, embora sob tal designao ele j tivesse posto outra 
obra de fico, Uma Aventura Inquietante.
(...) no suponha o leitor que o romance de Miguis trata de problemas da actualidade. O problema, aqui, no se apresenta sob esse aspecto. A infncia apenas, e 
uma infncia que termina em plena Repblica liberal,  o tema de A Escola do Paraso; mas o mundo que surge ao longo das suas pginas no , de forma alguma, intemporal; 
a vida lisboeta, mas da Lisboa modesta, quase pobre, dos heris do livro e da classe a que pertencem,  uma experincia humana de um realismo que no pode ser enquadrado 
em nenhuma das tendncias literrias que sob tal nome se nos apresentam na literatura portuguesa dos ltimos cem anos precisamente porque no  escolstico, exprimindo 
uma viso profundamente pessoal que no obsta  objectividade com que as personagens existem independentemente do autor.
ADOLFO CASAIS MONTEIRO, "Rodrigues Miguis, Romancista", in O Estado de S. Paulo, 4-5-1963.
Uma singularidade de A Escola do Paraso reside no facto de o romance iniciar o seu lento fluxo narrativo pouco antes do nascimento de Gabriel. Note-se que o casal 
Adlia-Augusto gerou j dois filhos antes de Gabriel: Santiago e gueda, personagens do universo infantil de que Gabriel vir a participar. Mas, ao passo que Santiago 
e gueda nos so descritos e revelados mediante sinais ou sintomas, Gabriel, sem todavia gozar do estatuto de narrador-protagonista,  a personagem que o narrador 
acompanha assiduamente, numa intimidade to pormenorizada que at nem consideramos essa personagem como um alter ego, mas sim como um ego anterior, diferindo do 
ego do narrador apenas no plano temporal. Por tal motivo se nos afigura que, em sentido metafrico, Gabriel no quebrou o cordo umbilical em relao ao seu criador.
XXIX



Mas antes da aquisio do nome j Gabriel transferira para a Lisboa-madre as sensaes resultantes do trauma do nascimento e da imagem da me uterina quase esvada 
no acto de o dar  luz. Com efeito, Lisboa  outro seio, outro ventre, outra me quando a criana, anterior ao nome, lhe aprecia os contornos. A nostalgia, que marcar 
tantas e tantas pginas do exilado Miguis, apresenta-se-nos como um dado apriorstico, como uma emanao fatal da cidade-bero.
JOS MARTINS GARCIA, "Gabriel: a mscara translcida de Miguis" - comunicao apresentada ao I Simpsio Internacional sobre J. Rodrigues Miguis, realizado por 
iniciativa do Centro de Estudos Luso-Brasileiros da Brown University, Providence, R.I., em Novembro de 1981.
(...) a partir das primeiras pginas, de modo parenttico ou quase, s vezes por um simples advrbio de lugar, outras por um plural ou uma interrogao em que certa 
cumplicidade se estabelece, o "autor" aflora ao nvel da narrativa, sem deixar dvidas a que o reconheamos. No captulo III, que ainda se reporta  fase verdadeiramente 
infantil do protagonista, o surgimento de expresses como "ali em baixo" ("Ali em baixo moram as manas Parreirinhas... ") ou "aqui ao lado" ("Aqui ao lado, neste 
mesmo andar, mora a prima Otlia... "), alm de inequivocamente situarem a "casa" como ponto de referncia e de observao, tambm do mesmo passo deixam a descoberto 
aqueles que refere e que observa. No mesmo captulo, ao dizer-se, por exemplo, a respeito de um dos filhos da prima Otlia, que "da ltima vez que c esteve comeu 
uma travessa de sardinhas fritas e no fim pediu mais", a simples emergncia desse advrbio monossilbico - "c" - logo designa a presena do autor ou, pelo menos, 
a de um narrador que com ele se confunde. No incio do captulo seguinte, essa presena - que  igualmente a de um privilegiado cicerone ou a do mago oficiante de 
uma cerimnia de recordao - mais e melhor se manifesta ainda atravs destes cmplices
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plurais, desta cmplice interrogao: "Mas deixemos tudo isso e desamos agora  rua, sim?"
Idntico efeito se obtm, no captulo VI, quando - desta vez substituindo a pergunta por uma injuno - se descrevem certos aspectos do Colgio, ou, melhor, da "escola 
do Paraso": "Em frente  entrada abre-se a janela-porta... Mas, por favor, paremos um instantinho antes de chegar ao jardim!" Ainda no mesmo captulo, ao deter-se 
gostosamente na descrio do "baloio", eis que nos surge, entre parnteses, a seguinte reflexo: "D gosto a gente perder-se nestes detalhes minuciosos. " E poderiam 
apontar-se, acrescentamos ns, centenas de outros "detalhes" deste gnero. Se  certo, como disse o filsofo Aby Warburg - e Leo Spitzer tanto gostava de referir 
-, que "Deus se encontra no pormenor", no h dvida que, ao longo dos trinta e trs captulos de que o romance se compe - exactamente o mesmo nmero de cantos 
que tem o Paradiso de Dante -, atravs de tais pormenores incessantemente se entremostra e assinala o demiurgo de A Escola do Paraso. Quanto a mim, esta ser mais 
uma das razes para efectivamente considerarmos o referido romance, como j foi nomeadamente sublinhado por Joel Serro, uma verdadeira obra-prima. Romance na terceira 
pessoa? Creio que no; ou que bem pouco; ou que s muito aparentemente.
DAVID MOURO-FERREIRA, "Avatares do
Narrador na Fico de Jos Rodrigues Migus" - conferncia de encerramento do Simpsio referido.
XXXI

A ESCOLA DO PARASO
PRIMEIRA PARTE





I
O GATO PRETO
O vento mia e rabeia no telhado, abala a casa, parece que leva tudo pelos ares, engolfa-se a espaos pela chamin abaixo, espevita o lume onde a chaleira canta, 
vai fazer oscilar a chama do candeeiro de petrleo e arranca-lhe um veuzinho de fumo negro. Algures, uma porta mal engonada bate no trinco, enfurecida, como se 
quisesse libertar-se e partir com o vento  grande aventura.
Na mansarda, de outro modo silenciosa, paira uma inquietao. S ali na cozinha brilha a luz amarela e tranquila, que o abajur de papelo concentra na mesa e na 
tbua de engomar. Ao lado, pelo respiradouro em ogiva do ferro, espreita um lume quase branco, de inferno em miniatura, que espalha o aroma e o calor reconfortantes 
do sobro queimado. Alvas de neve e cuidadosamente dobradas, vo-se empilhando na mesa as peas dum minsculo enxoval.
Duas mos ternas e jeitosas, vermelhas e antes do tempo deformadas, passeiam sobre as roupinhas hmidas do borrifo, alisam-nas, empunham de novo o ferro que muitos 
anos de uso poliram: so elas, em toda a casa, o nico sinal de vida. O prprio gato, depois de ter brincado algum tempo  roda das saias da dona - " Sape-gato, 
j me arranhaste! " - pulou de leve para o lar da chamin, e dorme agora enroscado na aurola de calor do fogareiro.
H quantas horas dura a tarefa? Deram as onze na S, depois no


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relgio aguitarrado da casa de entrada, e as duas mos pararam um instante na toalha branca, sob o comando da reflexo. Dois filhos a criar, outro a vir, a casa 
num brinco, o marido um fidalgo, montes de roupa a lavar, passajar e engomar - os dias, Senhor, to curtos, as horas vo-se num rufo! E agora, sem mais nem menos, 
este cansao, um esvaimento inexplicvel.
O vento cala-se um momento, como se escutasse, e o silncio comprime a mansarda: s se ouve o compasso apressado do relgio Waterbury (dez anos de garantia). De 
p, a mulher apoia ao rebordo da prancha o ventre onde uma vida se agita e reclama. A gravidez chegada ao termo mais hora menos hora... Vai-me
nascer em dia de Nossa Senhora da Conceio - Sorri, toca o ventre com ternura, expectativa, uma serenidade voluptuosa. Dentro de horas, talvez, comearo as dores, 
e aquele terceiro filho antecipadamente amado ter vindo  luz. Se no fosse de repente esta debilidade, e uma tontura! Nunca isto me sucedeu. Felizmente est quase 
tudo pronto: os babeiros, as fraldas, os cueiros e resguardos, as camisinhas, at a touca com fitilhos cor-de-rosa, tudo simples e modesto, quase tudo isto j serviu 
aos outros dois, mas to alvo e cheiroso!
Ergue e leva  cara uma pilha de roupas, aspira-lhes o aroma e beija-as, ainda quentes do ferro, com os olhos hmidos de amor. Nenhum tesouro do mundo pagaria esta 
ventura de estar aqui sozinha, na noite de Dezembro, a fazer preparativos para a vinda do filho que no tarda. A pobreza, o trabalho, os anos, as dores, nada disso 
a assusta: "Menina" Adlia, a alegria, a fora e o riso! Passados os quarenta, e nunca, entre tanta luta, um s instante de desfalecimento. Se Deus me der fora 
e sade... E as mos activas retomam o trabalho, compem amorosamente as rendas, os folhos, os fitilhos.
Quando o marido chegar est tudo pronto,  s fazer o ch. Deram as onze, j no pode tardar. Soaro l em baixo as quatro pancadas da aldraba, ela ir de candeeiro 
em punho abrir a porta e a cancela, puxar a corrente que range, e ficar  espera que ele suba os quatro andares, pausado e vagaroso, tossindo um pouco, como a anunciar 
que chega e precisa descanso. O corao enche-se-lhe de ternura: mais novo do que ela alguns anos, mas to trabalhador e delicado! (Oxal ele venha a horas...)
        7
Mas que silncio de repente na mansarda! Outra tontura, Jesus-Senhor, at parece que me anda tudo  roda. Este zumbido nos ouvidos, as pernas frouxas, um desnimo 
destes, nunca assim senti nada! - Pousa o ferro, agora dum peso imenso. Ao mesmo tempo, um bem-estar em que h medo, um rpido bater de corao - Jesus, Maria, que 
tenho eu?
O menino agita-se no ventre, mas no h dores, ainda no pode ser. Isto passa com certeza. Alguma coisa que eu terei comido? Ou  da idade? - Encosta-se um pouco 
 prancha, leva as mos aos olhos: Dai-me foras, meu Deus! - e espera que elas voltem. O corao bate-lhe penosamente,  como um esvoaar de asas engaioladas, exasperado 
e veloz. Ali entretida com o trabalho, horas seguidas, a deitar contas  vida, nem reparou que as foras se lhe iam escoando. Uma sade de ferro, nunca uma doena, 
um dia de cama!
Uma vertigem maior, a casa gira suavemente, e ela sente a vista fraca, agarra-se  mesa - Me Santssima, valei-me! - Talvez descansando um bocado... Pensa naquela 
vida que  preciso defender: Dai-me foras, Senhor, dai-me coragem! - Inclina-se mais, orando vagamente e procurando conservar a vista e a conscincia, que sente 
fugirem-lhe.
Nisto, atravs da zumbideira dos ouvidos, chega-lhe de baixo um rumor de exclamaes, de correrias: e, do soalho amarelinho (ainda esta tarde o esfregou todo,  
preciso que tudo esteja asseado quando a hora chegar), reboam na cozinha as pancadas secas, inquietantes, repetidas: batem para cima,  um sinal,  por ela que chamam 
com certeza - mas estas horas, e eu assim!
Move-se como em sonhos, trpega e vagarosa, ouvindo aquilo numa confuso - fogo ou doena! Tenta erguer o ferro para o resguardar na chamin, de boca contra a parede, 
ao abrigo de acidentes: nem para tanto lhe restam foras. Quer responder para baixo, dizer " Uh! ", mas a voz morre-lhe na garganta seca,  como se estivesse no 
fundo de um fosso, a vista turva, as pernas fracas. Afasta-se da mesa a cambalear, de olhos baixos, e s agora repara: no soalho doirado de asseio, uma ndoa vermelha 
e escura alastra e reluz sombriamente. Sangue!
Santo nome de Maria,  o meu sangue!
Num lampejo de conscincia espicaada, percebe por que razo


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batem de baixo. Abre a boca num esgar, num brado rouco, abafado, de nufrago em perigo: s ela o pode ouvir. Leva as mos ao ventre num gesto de ansiedade -  preciso 
salv-lo! - depois, amparando-se ao que pode alcanar para no cair, trocando os ps, a patinhar no sangue glutinoso que em silncio alastrou, dirige-se para a porta, 
para a salvao - se l chegar!
Mas donde vem ele, santo nome, donde? S agora sente - como quem pouco a pouco perde a noo do mundo exterior aos sentidos - a meia e o chinelo empapados do sangue 
vagaroso. A Senhora da Conceio me acuda nesta hora, minha madrinha! E como  que eu no dei por nada? Os dois pequenos na cama, ela sozinha, o marido a chegar, 
oxal venha mais cedo hoje!  preciso abrir-lhe a porta, a porta! - Alarma-se, grita por socorro, mas  s em mente, nem voz sequer para tentar j tem. O pensamento 
lcido e solto, e as foras cada vez mais baixas.
As pancadas cessaram, ouve agora o rumor de portas que se abrem, de vozes alarmadas, de gente que sobe aos tropees. Os chinelos grudam-se-lhe s tbuas, vo deixando 
um rasto viscoso na casa de entrada. A conscincia no se cala,  sangue rpido martela-lhe as fontes. Foras, meu Deus, dai-me foras! Mas como  longo o caminho, 
e que esforo  preciso! Arrasta-se, procura a parede, a casa  imensa, a porta longe, ao fim dum corredor que se estreita e se afunda... Mas ali est ela, ali est 
ela ao seu alcance!
Algum de fora sacode a cancela com furor e chama: "Dona Adlia! Dona Adlia! " - mas to longe... Puxam desesperadamente o cordo da campainha. No pode gritar, 
responder, a sua voz  apenas inteno, mais nada, nem sequer j na garganta vibra. Em volta dela tudo gira e tilinta e ressoa e se deforma, como um turbilho de 
gua oleosa, no meio da qual ela flutua e rodopia e mergulha. Do abismo crescente avista a janelinha quadrada da gua-furtada, por onde espreitam as estrelas ntidas 
do Inverno, e da alma sobe-lhe um soluo de adeus e pena, de antecipao do cu.
Agora os joelhos insensveis comeam a dobrar-se-lhe. Seria bom abandonar-se, deixar-se ir - mas no, ainda no. Com a mo esquerda segura o ventre, com a direita 
tacteia de longo a parede, agarra-se a cadeiras que tombam. Coragem, Senhor,



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coragem! Atravs das solas sente os cravos do soalho. Uma vertigem suave, contnua e voluptuosa, e enfim, j toca a porta. Mos nervosas - mas como a vida se vai 
depressa, e este sossego em mim - mos impacientes sacodem a cancela, arrancam o cordo da campainha, batem na porta atravs das ripas, vozes gritam-lhe o nome... 
(L vou, l vou... )
Tudo  um sonho, estou a sonhar,  bom dormir... Enfim, o fecho! Com as derradeiras foras d volta  chave enorme, puxa o ferrolho, um peso imenso, abre a cancela... 
O meu menino! e os outros dois na cama! Uma sensao de doura infinita, de fundo musical, depois um silncio em que retinem, longe, agudas campainhas.
Estendem-se mos a ampar-la na queda - "Dona Adlia! Dona Adlia!" - e ela descai, desliza devagar para o soalho, sorrindo, sem sentidos, como morta.
- O sangue que esta criatura perdeu! Apanhava-se s postas, encheu meia tigela da casa. Como  que ela vai ter o criano? - Mas donde vinha? Que teve ela?
- Ora, uma coisa de nada, imagine. O diacho do gato sempre agarrado s saias, um arranho na perna... Rompeu-lhe as varizes com as unhas.
- Oh Senhor!
- Aquilo, entretida a passar a ferro... Olhe, tinha tudo pronto, o enxoval. Nem deu conta de nada. Uma mulher que nunca se queixa!
- Como  possvel uma coisa assim, perder tanto sangue sem dar por isso!
- A sorte dela, aqui sozinha, foi eu ter ido  cozinha aquecer gua para o meu homem se lavar. Nunca se deita sem o lava-ps, todo o dia na venda, e sua muito... 
Entro e que vejo? O soalho manchado de sangue. Credo, Jesus, at julguei que fosse algum bruxedo, j no seria a primeira. No sei porqu olho para o tecto... O 
sangue alastrava nas tbuas! Pingue, pingue, no cho. Grosso... Dei ali gritos! O meu homem acudiu, e desatmos os dois a bater com um pau pra cima, ora veja que 
estupidez a nossa: a gente at fica parva. Se eram ladres! Foi quando me alembrou que ela andava de barriga  boca, por dias. Que hei-de eu pensar?



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Algum desmancho, Deus me perdoe, e que ela se estava a esvair! Largo porta fora, traz de l o candeeiro, com ele atrs de mim, que se ela no abre a porta to depressa, 
coitada, nem sei como teve foras, acho que a tnhamos arrombado. Foi mesmo a tempo de lhe deitarmos a mo...
"Enfim, l carregmos com ela para a cama, a casa era um lago de sangue. Olhe como isto ficou,  uma ndoa que no h nada que a tire. A Zefa tem-se visto e achado. 
Dispo-a, e foi ento que lhe vi a perna. Fiquei mais descansada. Mas o sangue que ela perdeu! No sei o que vai ser. E os dois meninos a dormirem como dois anjos! 
Ah, da a nada chega o marido: plido como um defunto!
- Mas ento aqui a sobrinha, porta com porta...
- Nem a cancela abriu. E a ouvir tudo l dentro! Invejas...
- E que disse o doutor?
- Receitou tnicos, carnes em sangue, farinhas... Que h-de ele fazer? O sangue que ela perdeu ningum lho torna a dar. Capaz o criano de lhe nascer anmico.
- Oxal no lhe falte agora o leite.
Um vagido exasperado, enraivecido, vem do fundo da casa.
- Nasceu o menino!
A comadrinha sorri, ensaboa as mos no lavatrio:
- Entrem, entrem! Est tudo acabado.
Na grande cama de ferro do casal, no quarto ao fundo, branca como os lenis, a dona Adlia repousa com o filho ao lado, j lavado e enfaixado. Reabre a custo os 
olhos imensos, como se as pestanas lhe pesassem, e procura a parteira. A sua voz  um sopro:
-  menino ou menina, comadrinha?
-  rapaz,  rapaz! E perfeitinho, um latago!
A boca da parida rasga-se de orelha a orelha num sorriso descarnado que lhe descobre os dentes grandes, brancos e perfeitos:
- Faa favor de mandar a senhora Josefa avisar o pai, antes que os pequenos voltem... Ele deve estar ralado!
Fecha os olhos, exausta. Onde foi ela buscar as foras? Nem um ai, nem um gemido. Tudo nela  esperana, confiana na vida. A comadrinha aproxima-se e compe-lhe 
as roupas:



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- Veja mas  se descansa. E no se apoquente, criatura. Ns cuidamos de tudo. A vizinha Delfina j o l foi avisar.
O menino dorme serenamente. No teria ele perdido com a me todo aquele sangue? As mulheres pronunciam a palavra milagre. A parida volta a sorrir fracamente do fundo 
da modorra, e murmura de olhos fechados:
- Julguei que me ia nascer em dia da Senhora da Conceio, e afinal...
- Descanse, senhora, no fale.
- No fale, dona Adlia, no gaste as foras, que bem precisa delas.
As trs mulheres ficam sentadas em roda, a olhar, em silncio. Das janelas dos Loyos, l em cima, vem um reflexo de sol plido. A parteira, em voz baixa:
- Os peitos assim! O mdico no quer que ela d de mamar ao filho. Vai custar convenc-la.
- Ento porqu? Os mdicos...
Da porta, o gato preto espreita com ar culposo: nesta agitao, ningum mais se lembrou dele, e tem fome. Mia baixinho, a suplicar.
- O diacho do gato, que ia causando uma desgraa! Sape-gato!
O tareco desaparece. A vizinha suspira:
- Se no lhe acudimos to depressa, nem ela nem o filho escapavam com vida.
- Eu sempre tenho um azar aos gatos pretos! Se fosse a mim, enxotava-o para a rua. At parece bruxaria, alguma praga... Cruzes!
- Quem sabe l.
Da cama, onde parecia dormitar, diz a parida:
- No me deixem morrer de fome o bichinho inocente. Agora bruxedos!
As trs mulheres entreolham-se, espantadas.




II
"TIRO UM OLHO A TI"
A porta range nos gonzos, a menina entra p ante p, e pra um instante a orientar-se no quarto, onde o silncio de sesta e de sonho parece escorrer, com a meia 
luz, das cortininhas brancas da janela quadrada.
 esquerda, na sombra do recanto, est a cama de grades que j foi dela e serve agora de bero ao irmo. Avana com cautela, d volta  cama dos pais, e aproxima-se. 
Para o ver bem tem de se erguer nas pontas dos ps. Depois, equilibrando-se com um esforo que faz estremecer a cama toda, trepa  grade: o irmo est deitado de 
costas, calado e quieto, com os punhos fechados, mas no dorme. Os olhos abertos, dum escuro azulado, sem expresso, olham em frente, ainda incapazes de ver ou de 
organizar em viso consciente o caos de imagens indecisas que o espiam da penumbra. Aos ps dele, enroscado, o gato preto dorme: no sai dali,  como um pajem de 
guarda ao amo.
A menina sacode a cabea para arredar o cabelo negro, que lhe cai em ondas mansas para a cara. Agarra-se bem para no se despenhar, inclina-se mais e, por algum 
tempo, espia o irmo com uma curiosidade ardente nos olhos pardos, inteligentes, arregalados de meditao.
Ele agita a cabea, tenta focar os olhos, reconhecer a mancha claro-escura que se lhe imobiliza em frente:e de repente agita as mos em movimentos mal coordenados, 
rola a cabea, contrai e chupa nas gengivas nuas o lbio inferior, e deixa escapar um dbil


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som - vagido, sorvo, beijo, desejo de exprimir... O rostinho rosado e mole arrepela-se num esgar de reconhecimento, que  j sorriso, e de alegria.
A irm dobra-se pelo meio, segurando-se com a mo esquerda  grade, franze mais a testa no olhar severo, sob a cascata dos cabelos, estende a mo direita com o indicador 
em gancho, quase a tocar no rosto dele, e murmura baixinho, com os dentes apertados:
- Tiro um olho a ti! Tiro um olho a ti!
As plpebras do inocente abrem-se mais, o riso sem dentes
enche-lhe a cara toda, solta um gorjeio de ave contente e con
fiante, e tenta agarrar com a mo o dedo que o ameaa. - Tiro um olho a ti...
O gato soergue-se, alarmado, e solta um quase imperceptvel aviso gutural.
A me vigilante, ouvido sensvel, vem espreitar  porta e fica um momento a observar a cena, sorrindo; depois entra sem ser pressentida, agarra a menina pela mo, 
f-la descer da grade e arrasta-a para fora do quarto, a murmurar com a voz grave e sibilante:
- Deixa dormir o teu irmo!
Obstinada e carrancuda, com uma centelha nos olhos e a mozinha crispada na mo da me, mas sem opor resistncia, gueda repete baixo para que ela a no oua, mas 
ouve perfeitamente:
- Tiro um olho a ti... Tiro um olho a ti...
Tem s trs anos. A me sorri. Coisas de crianas...
Pelas frinchas das janelas v-se resplandecer l em cima, ao sol da tarde, a fachada branca do quartel. Uma vidraa fasca como um sabre.
O quarto recai na quietao.








III
CAIS DE EMBARQUE
O luar enche o cu, entra em cascata pelas janelas,  uma calda de sonho a banhar a mansarda. Sentado num capachinho, agarrado s grades da estreita sacada pombalina, 
mudo e fascinado, o menino olha os telhados de veludo, o cu sereno, o rio coberto de palhetas de prata cintilantes: so peixinhos que saltam, andam a brincar, brilham 
 luz - diz a irm, e ele acredita. A tia Zulmira, sentada na pedra ao lado dele, canta baladas tristes - Sentinela do cu avanada, Que noite serena - e de repente...
... da janela do meu quarto vejo saltar a sardinha!
Ento  que so mesmo peixinhos de prata que pulam ao luar. A voz fresca e sentida derrama-se pela vizinhana adormecida, mexe-lhe com alguma coisa l dentro, afoga-o 
de seduo. Larga as grades e estende os braos...  amor,  de amor que ele sofre! A tia aperta-o ao peito e ri-se, beija-o com ternura: "Tolo, meu tolinho! " -O 
seio dela  macio, o seu cabelo negro cheira bem, e ele fecha os olhos, gosta de adormecer assim no zunzum das conversas, dos risos. Sente-se embalado e parte  
desfilada pelo cu de prata.
Mas h muito mais, ali, do que o luar: os cais, os guindastes, as sereias e apitos, o arfar das locomotivas e o ranger das correntes e roldanas, o martelar das forjas 
e dos caldeireiros. Chegam at 


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mansarda distante os cheiros nuticos. Riscos de fumo babujam o azul trespassado de sol. Os vapores sobem e descem devagar o rio, parecem rastejar, deixando uma 
esteira de espuma, as cadeias das ncoras guincham nos estais - como tudo se ouve bem, c to longe, no ar imenso e cristalino!
Todas as manhs,  hora a que o pai sai para o emprego, tossindo um pouco e a olhar os bicos das botas engraxadas, ele fica sentado na sacada a v-lo ir, e grita: 
"Adeus, paizinho! Adeus, paizinho!" - at que o pai se volta  esquina a sorrir, para dizer adeus. Os vizinhos no estranham, nem ele se envergonha: todos sabem 
quanto quer ao seu pai aquele menino. Se lhe perguntassem diria que  dono dele. Tranquilo, horas a fio agarrado s grades, na frescura da manh, deixa-se embeber 
de paz e solido.
O sol rutila, escorre como um mel pelos telhados, polvilha gloriosamente o Tejo, um lago sereno, com velas brancas e vermelhas, de longe indolentes, distantes como 
a nostalgia.  logo abaixo do Castelo, as traseiras encostam a So Thiago e aos Loyos (perdo, deixem ficar assim  antiga, por favor!). Em frente  a linha area 
da serrania, e ao fim o morro de Palmela com a vida arrebanhada em volta das muralhas. Um espelho brilha a espaos na fortaleza, em sinais misteriosos: de longe, 
algum conversa com ele... Mas o claro cega-o, de repente.
Os paquetes atracam logo em baixo, ao cais, e a rua deve talvez o nome  saudade que para sempre ficou flutuando no stio: a saudade dos que ficam, e a dos que partem 
e querem prender-se  terra, de braos, olhos e almas alongadas. Os vapores encolhem os seus dedos de ferro, os rebocadores arquejam, retesam-se de esforo, vomitam 
fumaa negra - e eles l vo devagar, contrariados, adornados ao peso da gente (s vezes soldadesca morena e pardacenta para as guerras-dos-pretos) que acode s 
amuradas, agarrada  derradeira imagem dos que ficam a dizer adeus-adeus, talvez  esperana absurda de que o navio afinal no chegue a zarpar. Carregadinhos, vibrantes 
de acenos frenticos de milhares de lenos brancos a dizer adeus, so como grandes bichos de alvas plumas agitadas pelo vento. E o cais responde, estremece, sacode 
mil braos ansiosos, mil lenos molhados de lgrimas.
Por vezes os navios embandeiram, ouve-se msica a bordo, isto atenua um pouco a melancolia da largada. Apetece ir com eles!



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O irmo mais velho, o Santiago, conhece-os todos pelo nome, as bandeiras nacionais, as insgnias das companhias, e bate os ps de entusiasmo na sacada e grita, imita 
a voz das sereias. Muita coisa ele sabe! E que lindos botes que ele desenha e pinta!
De noite, com a brisa, e sobretudo quando h nvoa, o cheiro da maresia  mais forte, e o menino fica na cama de grades, com os olhos muito abertos, a escutar aqueles 
mugidos e roncos graves, a indecifrvel conversa dos paquetes, cidades flutuantes, ocas de luzes prodigiosas, que descem a caminho da Barra e do mundo.
No se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lgrimas e o esvoaar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas 
vozes, sem ficar impregnado de irremedivel nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficar para sempre dentro dele como 
um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? e para onde?
O pai sumiu-se h muito, o sol subiu, ele desvia os olhos do Tejo hipntico e observa a vizinhana. A Maria-dos-gatos d de comer aos tarecos vadios; l vai a senhora 
Zefa, que costuma trazer dois bolinhos embrulhados num papel, s dois, um azul para ele, outro cor-de-rosa para a irm, ambos com carinha de gente, um e o Sol, o 
outro a Lua, macios, d gosto uma pessoa ficar a com-los devagar. Esperam semanas e meses que ela volte, e a Zefa coitada fica horas e horas a falar do filho que 
anda embarcado por esse mundo, e nunca lhe escreve, a moer a pacincia da dona Adlia, que tem muita.
Ali em baixo moram as manas Parreirinhas, tristes, embiocadas, muito srias, que vo  missa todas de negro e mantilha, parecem um molho de galinhas pretas. Vivem 
da agulha e de recordaes. J tiveram de seu, agora no tm nada, seno que uma delas tem um "amigo",  um conselheiro de sobrecasaca e cartola, s fuma charuto, 
vem-na visitar de longe em longe. Deixa o trem fechado  espera. O menino at j o conhece: apeia-se da carruagem coup, como quem no quer a coisa, e olha em torno 
a vizinhana, de revs, a espiar quem o espia.
Mesmo defronte, felizmente, a filha do Encadernador est-se agora a pentear, e canta maviosamente (no so assim as sereias e


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as fadas?) de janelas abertas para o hlito sereno e fresco da manh, numa grande bata arrendada e vaporosa que lhe chega aos ps. Que bem que ela canta, e que linda 
que . Horas e horas em frente do espelho da altura dela, enamorada das tranas loiras que se despenham quase at ao cho, e que o menino no pode mais desfitar, 
com um olhar grave de incompreenso. Ela  meiga, volta-se a sorrir-lhe, faz-lhe mesmo um sinal... Aquelas tranas de oiro, como amarras de navio, prendem-no ali 
manhs inteiras de esperanas e delcias sem nome. Saber ela quanto lhe ele quer? Quando torna a sorrir e fecha a janela - vai-se vestir - o cu escurece. Agora 
 preciso esperar at amanh se Deus quiser, e  por isso que os dias so to compridos!
Aqui ao lado, neste mesmo andar, mora a prima Otlia: pouco mais nova do que a dona Adlia, irm da me dela que j morreu, tia Maria (no a chegaram a conhecer, 
era filha do primeiro casamento da av). Sempre zangada, bate com a cancela e com a porta, grita, ralha com o marido, que  caixeiro-de-praa e vive de aorda de 
alho, ou com os filhos, ambos gordos, que se babam e comem (Deus me perdoe) como dois ogres. Um deles usa culos desta grossura, e da ltima vez que c esteve comeu 
uma travessa de sardinhas fritas e no fim pediu mais. Tem bicha-solitria com certeza. A Otlia fala com trs pedras na mo  tia, que a ajuda como pode, s escondidas 
do marido. L est ela hoje, com os seus azeites, a gritar por trs da cancela: "Trabalhe, sua negra! Pr seu marido o andar a gozar por l com as galdrias!"
Quem so as galdrias? O menino vira-se a olhar a me, que sorri e empalidece um pouco.
 esquerda, em baixo,  o Limoeiro, sinistro e amarelento casaro. Atravs das grades duplas das janelas ouvem-se brados, risos, cantorias, lamrias, s vezes estendem-se 
braos, mos descamadas ou varas com latas na ponta, a pedir esmola ou liberdade. Quando ali passa, pela mo da me, ao p da sentinela, ele tem medo. Porque vivem 
ali, presos tantos homens? Ah, antes olhar os telhados musgosos, por onde crescem florinhas brancas e amarelas, as varandas ajoujadas de vasos, ou aquele quintal 
afogado em verdura, que parece enorme, sempre fechado, com um janelo de madeira  esquina do muro alto. Jardim secreto, abandonado,


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que s ele conhece, e onde brinca e se esconde imaginariamente.
Do fundo da rua sobe o som duma gaita:  o capador que l vem! O menino pe-se em p a olhar: os gatos dispersam, esgueiram-se em todas as direces, e a Maria dos 
ditos esbraceja e grita... Por enquanto ele ainda no conseguiu ver como se capa um gato.

Mas deixemos tudo isso e desamos agora  rua, sim? A entrada do prdio  estreita, com degraus por todos os lados: os que levam  escada, sob o arco redondo; os 
da porta  esquerda, que nunca se abre; e os trs  direita, que descem para a casa da Vizinha Delfina. O sol vem da rua, rasteja, lambe a pedra gasta, enche o pequeno 
trio duma luz de claustro. Sim, paremos.
Aqui, em dois quartinhos, um deles interior, e a cozinha, habita a mais doce e amorvel das criaturas. A Vizinha Delfina  velha, claro est, todas as pessoas de 
mais de trinta anos o so irremediavelmente, e ela, porque perdeu os dentes todos muito nova, foi-o antes do tempo. Mas pode-se ser velha e ter os olhos dum azul 
to puro e brilhante e sereno, e a pele to branca e macia de beijar! At a boca desdentada tem encanto e pureza. Por baixo do cachen de casimira escura, sempre 
atado nos queixos, e que s vezes descai graciosamente para a nuca, descobrem-se os bands lisos e prateados, apartados ao meio com rigor. Ah, nunca ela  to adorvel, 
to franzina e menineira, como quando o leno lhe foge assim, descobrindo a cabecinha fina, de ave esperta! Com que doce pudor ela o repuxa logo para cima, com as 
mos geis!  to boa, a Delfina, e to meiga. Tem uma cintura de rapariga, os braos flexuosos muito apertados nas mangas do vestido preto, discreto e bonito, de 
chita com florinhas estampadas. Ele gosta de passear um dedo vagaroso por entre as flores que se repetem, sempre as mesmas, de espao a espao, como em papel de 
paredes.



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 to asseada e cheirosa, tem uma voz to mrmura e macia, tanto assombro nas exclamaes abafadas, nos olhos de inocncia azul de esmalte! D gosto ficar assim 
enroscado no seu colo delicado de virgem velhinha, entre os braos arqueados, to leves no abraar, com uma das' mos enfiada na abertura da blusa, a sentir-lhe 
o seio morno de pomba, e a ouvi-la conversar!
Como ele  pequeno, a me quando sai confia-o  guarda da Delfina: ou se vo ao teatro, algum beneficio no Trindade ou no Prncipe Real, ou ao Coliseu, como outro 
dia, que ofereceram ao paizinho um camarote de segunda para ouvir a CavalLeninha Rusticana.
- Importa-se que ele c fique? At ns voltarmos?
De regresso, carregam-no ao colo, meio adormecido mas consciente e feliz, at ao quarto andar e  cama fria.
Sentada na esteira, no soalho limpo, com a saia pudicamente arrumadinha em volta, ela conta-lhe histrias na voz macia de espantos e exclamaes, de metforas e 
sombras: pinhais, lobisomens, noites de chuva e trovoada, sustos, ai-jasus, a vida do Jos do Telhado e do Diogo Alves: e  bom estar assim, seguro dela, seguro 
de si, de olhos abertos para o invisvel, a ver entrar o salteador pela porta, em vez do velho Torres. At j o conhece pessoalmente, de riso sardnico, barrete 
saloio, a navalha na faixa da cinta, as pernas abertas na cala  boca-de-sino; e como ele acabou perseguido de remorsos, desde que atirou uma criana do alto dos 
Arcos-das-guas-Livres, e a viu ir, de olhos fitos nos dele, e nunca mais pde dormir, a ver aqueles olhos tristes de inocente que o empurravam para o castigo, e 
no fim foi preso e enforcado, e adeus  Diogo Alves.
A casa quase nua, com uma cama, duas cadeiras e a mesa na salinha de entrada, e uma enxerga, a dela, no cho do quarto interior, a cozinha com duas panelas, mas 
limpa que s vendo, tem o cheiro peculiar das casas pobres. Nas paredes, duas ou trs estampas de santos e milagres, uma  a Senhora da Nazareth a acudir ao cavaleiro, 
de cavalo empinado  beira do precipcio. E a Vizinha Delfina canta, com o menino dos outros nos braos melodiosos:




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Salvaterra, Benavente, Jerico fica no meio.
As meninas de Alcochete balham com todo o asseio...
Ou, se est num modo filosfico:
Estes rapazes d'agora pensam que o casar  festa: sustentar mulher e filhos faz bater co'a mo na testa.
 filha de Alcochete, em nova teve um namoro, um s, nem chegou bem a ser isso, ele arrastava-lhe a asa, e encontra-o s vezes por acaso, um velho endinheirado que 
gosta de lembrar os bons tempos e ainda lhe faz a corte. Ela ri-se - Jaquim Valentim, Jaquim Valentim, quem te viu e quem te v! - e assim resolve todos os problemas 
do envelhecer, dos amores estreis, da vida frustrada. O menino olha-a, muito srio, sem entender: so lgrimas que ela tem nos olhos? Mas ento porque se ri? Ou 
ser do frio?  como quando chove e faz sol, esto as bruxas a pentear-se... A Vizinha Delfina tem um arco-ris nos olhos da cor do cu. E ele acaricia-lhe as faces 
molhadas e macias, com pena e vontade de chorar tambm.
Mora com o padrasto, que  velho, muito mais velho do que ela, com certeza, mas seria difcil dizer quanto: o Vizinho Torres, que ela respeita e venera, o marido-da-que-em-vida-foi

-sua-me-dela.  um homem de grande estatura, pelo menos para quem  pequeno, desta idade, que faz e vende pelas ruas uns abajures de papelo, forrados de papis 
de cores, lustrosos. Ah, que lindos que so os abajures do Vizinho Torres! Tm sis e buas e estrelas recortadas, porque  que a mezinha no lhe compra um? Mas 
um abajur, filho, dura uma eternidade, e os dois que temos so ambos dele. Quantas lguas  preciso palmilhar para vender um! O velho Torres anda pelas ruas de Lisboa 
o dia inteiro, com as sopas de ch da manh, vagaroso, de chapu na cabea, a apregoar com gravidade:
- Abajur! Abajur!







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Um prego sbrio e musical no silncio das ruas soalhentas, femininas, duma melancolia que parece aderir s fachadas e as fica para sempre engrinaldando: "Abajur! 
Abajur..." - L vai o velho dos abajures, toda a gente lhe conhece o prego e a dignidade: mas quem  que sabe o nome dele? quem  que o v chegar a casa,  tarde, 
e sabe como ele vive, e o que come, e come com ele  mesa? Quem?...
O Vizinho Torres (at o nome lhe vai bem, com tamanha altura) entra em casa pela porta ao cimo dos degraus, vermelho e sorridente, tira o chapu de aba larga, pendura 
na parede o molho dos abajures enfiados num cordel, depois descala-se - " Um dia inteiro em cima destes ps, e no vendi nem um!" -e senta-se para cear: sopas de 
ch. A estas horas a rua mergulha numa tinta azul diluda, oiro nos altos.
Meu Deus, fazei com que ele repare em mim, e me chame para a sua mesa, e me oferea uma fatia de po trigueiro e cheiroso, barrada de acar mascavado! No h no 
mundo um acepipe comparvel, e os janotas do Suo, do Marrare e do Leo-d'Ouro sabem eles l o que  bom!
Quando a Vizinha Delfina o acorda de manh cedo,  como se ele ouvisse a voz dos anjos: com que suavidade ela sabe sacudir uma pessoa, com que brandura na voz sussurra: 
"Ah-m-menino, so horas! Coitadinho... " - Ele acorda e lana-lhe os braos ao pescoo. Bem pensadas as coisas, chega a querer-lhe mais do que  mezinha, cuja 
voz imperativa e sibilante o alarma e o torna por vezes infeliz. Alm disso, a me tambm faz "olhos feios", que embora a fingir (como podia ela ser m!) doem mais 
e metem mais respeito do que todos os aoites e sopapos deste mundo. A Delfina murmura: "Ah-m-menino!" - e o mundo, em vez de vir abaixo, de alarme e contrariedade, 
 um jardim onde se entra pela ponte elstica e tpida do sonho. Quem no h-de am-la, assim? Quem dera que ela fosse a nossa av!
Os irmos da Vizinha Delfina so torneiros de metais, tm a palidez sombria dos homens que levam a vida a respirar limalhas e exalaes de maaricos e forjas no 
escuro das oficinas. Vm visit-la a longos intervalos vestidos de ganga azul, e ficam em p, calados, encostados a uma ombreira, a chupar o cigarro enrolado  mo 
em papel Duque. Porque no falam? Porque  que s vm



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quando est fora o velho Torres? Haver neste mundo quem no goste do homem dos abajures?... So todos mais novos do que a irm, todos filhos da mesma me, a qual 
se casou em segundas npcias com o Vizinho Torres, e depois morreu, e a Delfina ficou a morar com ele. Ser por isso? - Mas fazem umas palmatrias de lato to bonitas! 
Deram trs  mezinha,  uma para cada filho, para porem  cabeceira da cama quando forem mais crescidos. (A mais simples coube ao mais novinho...) Ela areia-as 
com pomada Amor. Parecem ouro! At fingem de cornetas.
Quando o paizinho conversa, com a voz pausada, mansa e risonha, a Vizinha Delfina olha-o com espanto e estranheza nos olhos de porcelana, a testa franzida e a boca 
entreaberta de ateno e esforo. Depois acorda, espaneja-se e comenta:
- Ah, fala como um livro aberto.  uma perfeio dum hom'!
O sr. Augusto no  de c: mas o seu portugus  to correcto e natural, que ningum o diria estrangeiro. At j tem havido apostas por causa disso.
Da cama de grades, o menino abre os olhos no escuro da noite: que silncio o da casa! A me dorme, o pai ressona, o relgio coxeia atrs do Tempo. Pela janela quadrada, 
vaga mancha de luz, avista-se a fachada alvacenta dos Loyos. A chuva acaricia o telhado, arrulha e sussurra, pinga dos beirais. Aos ps da cama, o gato preto dorme 
enroscado. Faz-lhe companhia de dia e de noite, como um co fiel, vigia-o com os olhos redondos e verdes, inteligentes. O gato, diz a me, que os ia matando. (Ele 
no se lembra: como? Ela no explica.) Sujeita-se a todas as diabruras, e encolhe as garras para o no arranhar. s vezes, no sono, vem cheirar-lhe a cara com o 
nariz molhado, inquieto e frio.
No telhado crescem ervinhas e flores rsticas, viver aqui  como morar num jardim suspenso. Os ratos brincam no sto, onde s se vai por motivos extraordinrios, 
como seja remexer em bas os trastes velhos, ou guardar a fruta que a Delfina costuma trazer uma vez por ano, na estao. Ento, a gente pode olhar de perto e tocar 
com a mo nas traves escuras do tempo e na massa das telhas, esmagadora. No h papes.
A esta mesma janela do saguo - em frente do nariz um muro opaco - ele e a irm, subidos em bancos, de mos geladas, ficam



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horas sem fim a aparar em latas e canecas a gua que pinga dos beirais - ping-ploc, ping-ploc, ping-ploc... A gua da chuva tem um gosto diferente: j provaste? 
Abre-se a boca assim, virada para cima... Pinga dentro dos olhos!
O relgio Waterbury faz sentinela  noite em passo vivo: so anezinhos coxos a marchar no escuro. Um vapor desce o rio devagar, muge de longe.  triste e reconforta. 
H com certeza nvoa no rio.
Ping-ploc... Ping-ploc... Ping-ploc...
Dorme, meu menino, dorme.



V
ALELUIA NA MANSARDA
O sol de julho estala e flameja no telhado pombalino. Dentro, na mansarda pobre e reluzente de asseio, cheira a madeiras velhas ressequidas e  frescura do soalho 
ainda h pouco esfregado, amarelinho de ovos, onde se pode lamber o mel.
A mezinha saiu, e os trs irmos brincam na casa de entrada, que  ao mesmo tempo sala de jantar: mesa de abeto, de abas pendentes, quatro cadeiras polidas, o aparador 
modesto, a mquina de costura coberta com a chita azul de ramagens amarelas. Brincam em silncio, s vezes num murmrio de preparativos clandestinos. O mais velho 
encostou as portas interiores da janela de gua-furtada, e a casa mergulha na penumbra e quietao da meia-manh. Podem-se ouvir os ratos a correr no sto. Trancada 
a porta, a cancela fechada (no abram s ciganas!), sombra, frescura, o silncio apertado - nada mais  preciso para que as coisas familiares soprem transcendncia.
Pela frincha da janela entra uma corda de luz, oblqua, que vem pr no soalho uma ndoa deslumbrante. At parece que  do cho que sai esta flecha branca, onde perpassa 
e dana infatigavelmente um turbilho de poeiras. Sentado na esteira, junto do rebaixo, o menino fascinado olha-os astros que rodopiam velozmente naquele outro universo, 
e de repente se incendeiam, flamejam e desaparecem. Quando ele sopra, os astros enlouquecem, giram mais depressa, at que ele, estonteado, no        pode ver seno


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riscos de luz, como lombrigas endiabradas, cortando a noite que os envolve.
Absorvido, nem repara nos preparativos do jogo secreto e nunca visto: de joelhos nas tbuas, sria e quase grave, com os cabelos negros espalhados nos ombros, a 
gueda segura um espelhinho oval que indagora foi buscar ao recinto proibido do quarto de vestir, atravancado at ao tecto pelo guarda-fatos onde eles se escondem 
para brincar, na sufocao das roupas e do cheiro a naftalina. O mais velho empurrou a mesa para o canto da porta, e agora, em cima dela e trepado ao banco da cozinha, 
estende as mos para a sineta minscula de bronze, suspensa dum meio-arco de ferro: quando, de fora, algum puxa o cordo, o arco dobra-se, sacode a sineta, e esta 
enche a mansarda da sua msica fina, aquosa e melanclica. Os meninos gostam de ouvi-la, porque os faz sonhar com o cu, e pertence quele outro-mundo impenetrvel 
e vertiginoso da poeira dos astros.
A irm ps o espelho no cho, mesmo onde bate a rstea de sol: um borro de luz branca e fria estremece, hesita, alonga-se nas paredes, sobe ao tecto, e ali fica 
a boiar como uma lua indecisa e carcomida. O menino abandona o mundo dos astros delirantes, e segue com o olhos a lua que rasteja pelas tbuas do tecto, derramando 
uma claridade sobrenatural. A gueda passa dois dedos no espelho, e faz sombras na lua - dois olhos, o nariz, depois arranca-os, e ela perde a expresso, fica branca, 
parada e vazia. Ele j no a pode desfitar. Em volta dela  tudo escuro,  o Infinito. A lua brilha, sentinela-do-cu-avanada: por cima das barcas, por cima do 
rio largo e manso que reluz. Uma voz canta e suavemente o arrasta pelas guas do Infinito fora, numa dormncia boa, em que h o cheiro quente e familiar da madeira 
velha e a frescura do soalho lavado.
Do alto do banco, com a cabea junto ao tecto, o Santiago pergunta num sopro:
Ests pronta?
A irm agita o espelho, a lua dana e deforma-se,  uma lua aflita que oscila e se alonga, tacteia e se arrasta como cega nas tbuas do tecto. E nisto, alcana a 
sineta e pra: envolve-a, palpita, acaricia-a, tenta aquec-la ao seu hlito frio... Fica a


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rode-la como um resplendor que lateja quase imperceptivelmente de vida prpria.
Os trs irmos, extasiados, a olhar o halo etreo e silencioso que envolve a sineta e espalha uma claridade nova no recanto do tecto onde o sol nunca chegou, sentem 
que alguma coisa de solene se apodera deles e lhes aperta a garganta, na mansarda onde brilha uma lua que  s deles. O Santiago murmura:
- Agora!
A irm mexe de leve o espelho: a lua agita-se,  uma borboleta branca poisada numa flor. O irmo sacode devagar o arco de ferro, e a sineta tilinta de manso, com 
um timbre choroso e cristalino. A borboleta bate as asas, a sineta solta o seu dobre magoado, e os dois irmos cantam devagar:
- Aleluia! Aleluia!...
O menino imvel olha a cena: donde lhe vem de repente este sentimento de profundidade ignota, de infinito revelado sem palavras, para alm da luz, do som e da presena? 
Cala-se o canto de Aleluia, os sons vo-se perder no fundo da casa como pregas circulares num tanque, e o silncio torna-se a fechar.
Ficam os trs maravilhados, quase assustados com a gravidade do jogo. S a lua palpita, ter ela vida, estar comovida? Ou so as mos da menina que tremem no espelho? 
De novo tilinta o apelo de outras esferas no halo que vem do cu invisvel. O noivado mstico da borboleta-lua e do som magoado continua, e as vozes graves, trmulas, 
contidas, sobem de novo nos rebaixos da mansarda:
- Aleluia! Aleluia!...
A borboleta bate as asas. A sineta tem um choro trmulo e agudo, um aviso de juzo final, um chamamento de infinito. Por isso eles gostam desta cerimnia que o Santiago 
inventou, hoje que a mezinha est fora e eles podem brincar com o cu.
Pela terceira vez a borboleta esvoaa ( talvez uma pomba) e a campainha retine com finura. As vozes, mais firmes e treinadas, entoam:
- Aleluia! Aleluia!...
Solitrio e esquecido espectador, na esteira, o mais novo tenta balbuciar tambm a mgica palavra evocadora: mas as coisas perdem por instantes as formas e aparncias 
familiares, e outro


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mundo se rasga e descobre indefinido e aterrador, onde h trevas e luz astral, queda sem fim, silncio eterno, e um soluo de cristal dorido. Abalado at ao fundo 
pelo chamamento que vibra no timbre etreo e claro, rompe num choro desatado...
A irm larga o espelho, o Santiago pula do banco, da mesa abaixo, para lhe acudir: tentam consol-lo -  tudo a fingir,  brincadeira! - mas em vo. Ele acaba de 
sofrer a primeira investida do mistrio, e essa dor gostosa e assustadora, reconfortante e terrvel, que ele no entende, ningum jamais soube entend-la. Vem duma 
ferida insanvel que agora mesmo se abriu, e para todo o sempre ficar dentro dele a verter gua e sangue, luz e tinta negra, volpia e sofrimento.
L fora, o sol arrasta por cima do telhado a sua cabeleira fulgurante. O menino chora na mansarda.
Aleluia!



VI
A ESCOLA DO PARASO
Por extraordinrio que parea, o Paraso existe e est ao nosso alcance: ao cimo da Calada, quase no encontro das trs ruas, mas recolhido e ausente. Desde a S 
l em baixo, o labirinto das ruas, a meia-laranja, a ngreme ladeira com os gradeamentos polidos como bronze, os telhados sobrepostos, a capela sempre fechada - 
tudo isto forma um prespio erguido sobre muros e socalcos de jardins donde se debruam velhas pimenteiras, trepadeiras e flores mal cuidadas, e se enxergam painis 
de antigos azulejos.
O quadro  exactamente o mais prprio para nele se edificar um mundo  parte, duradoiro como o sonho, e como ele vago se quiserem, mas tangvel, com vida e personalidade. 
 Lisboa, uma realidade em si, e ser preciso t-la conhecido e vivido nela para bem a compreender e amar. Reluzente e aguado de fresco, o Tejo em frente banha os 
ps do anfiteatro, sob o dossel do azul brunido e sem nuvens, enquanto o sol traa com mincias de buril os perfis do Castelo, cimalhas de palcios, chamins.
(Pode ser que a perspectiva do tempo transforme as coisas ou as reduza a propores mais comezinhas: o que importa  que tudo continua a ser assim, na fbrica do 
sonho que perdura, e de certo modo cresce connosco.)
Para ir ao Colgio desce-se a So Mamede: seria mais simples ir por cima,  Rua dos Milagres, mas o pai, ao sair de manh para a sua vida, acompanha os filhos at 
 meia-laranja, onde os beija e se demora um pouco a v-los subir a curva suave da rampa. No


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cimo,  esquerda, numa casinha oculta entre prdios mais altos, est o Colgio.
As casas onde se entra a descer tm sempre um encanto de gruta ou lapa: e ali , realmente, o comeo do mistrio. Para se entrar no colgio de meninos da dona Ifignia 
Mealha, descem-se dois degraus: no vestbulo acanhado, donde uma escada estreita leva ao andar de cima, vira-se  mo esquerda, h mais um ou dois degraus, e a gente 
afunda-se no corredor, portas sempre fechadas a um lado e outro, e ao fim dele abre-se a Aula, minscula como tudo o mais ali, incluindo a senhora-mestra. Precisamente, 
a nebulosidade redobra o encanto de tudo isto. (A infncia reduz a sua especulao do desconhecido ao estritamente imediato e transfere-o em sonho ou poesia; o poder 
de observao realista, de abstraco e generalizao, esse,  do adulto.)
Em frente  entrada abre-se a janela-porta...
Mas, por favor, paremos um instantinho antes de chegar ao Jardim!
A luz  frouxa e tamisada, dum tom de mel do papel das paredes, onde as oleografias de frutas despertam apetites insaciveis, como s os do as naturezas profundamente 
mortas: em cores antigas, irreais, surgindo de outras penumbras, de envolta numa paz inspirada e silenciosa.
H duas ou trs filas de cadeiras de palhinha, pequeninas est visto, como  prprio dum colgio de meninos, ntimo e convidativo.  direita, o estrado faz-lhes 
frente. Oleografias, dois ou trs mapas, o quadro preto de papelo envernizado, tudo mergulha nesta luz subaqutica, que  a essncia mesma do xtase e do gozo. 
A dona Ifignia em seu trono preside ao topo do mundo. Tem o cabelo prateado, liso e repuxado  nuca, num monete muito simples; a fisionomia fina e sria, compenetrada, 
a pele branca e rosada, com veias salientes nas fontes e nas mos, em meandros, e peles-de-galinha pendentes no pescoo. Veste com irrepreensvel asseio e simplicidade, 
e segura na mo direita, verticalmente no tampo da mesa, um lpis tricolor, hexagonal, de um estranho poder: ela apoia o indicador na ponta aguada, depois deixa 
escorregar os dedos ao longo dele, at baixo, d-lhe uma reviravolta, pra um momento, e, sem olhar, recomea este jogo dez, cem, mil vezes, at que a gente no 
pode mais desfit-lo.



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 uma varinha mgica. Todo o encanto e virtude do ensino reside neste gesto indefinidamente repetido. Quando ela faz de repente uma pergunta, ningum sabe do que 
estava a falar! Por mais que uma pessoa se esforce por imit-la, no consegue: o lpis escorrega. Deve ser de outra marca.
Um dia, aos dois anos e meio, acompanhou os irmos ao Colgio: nunca mais quis ficar sozinho em casa. Todas as manhs um escarcu, no houve remdio seno deixarem-no 
ir tambm. Ora, e que aprende? Os outros meninos soletram, rezam, fazem caligrafia segundo o Palegrapho ( uma pena a gente no saber imitar o gtico, mas talvez 
um dia!), fazem cpias e contas, resolvem, mas sobretudo no resolvem, problemas de torneiras a despejar no se sabe quantos litros de gua por hora em tanques, 
tudo imaginrio, j se v; ele aprende a amar a escola, o convvio, o ritmo do lpis, as oleografias, o cheiro do papel dos livros com estampas, as manhs atapetadas 
de chuva... Ah, e o jardim.
Sim,  tempo: abram agora a porta envidraada e entremos no Jardim. (Mas cautela, no se desfaa em p.) O Jardim  imenso. Tem rvores descuidadas, vertiginosas, 
com ramarias quebradas, pendentes, canteiros silvestres, ervas e flores, tudo num abandono maravilhoso, e umas ruazinhas perdidas em curvas, com o cimento gretado 
e desnivelado, algumas empedradas ou de terra batida. H uma cisterna - cuidado!,  profunda e enorme: por ela pode-se chegar talvez ao outro-lado-do-mundo. Tem 
um tampo redondo de tbuas,  como um terrao onde se pode danar e bater com os ps (o que a gente faz sempre que est sozinho), com um postigo quadrado por onde 
no h o perigo de se cair l dentro. Por cima, um arco de ferro enferrujado, com roldana e balde. Quando se entreabre o postigo - e  frequente no se poder resistir 
a trepar sub-repticiamente e espreitar - v-se l em baixo o negrume oleoso, onde se espelha um quadrado de cu com uma cabea: a nossa. Ento faz-se "Buh!" - e 
a cisterna acorda, responde com um ribombo cavernoso e hmido, que d vontade ao mesmo tempo de fugir e de entrar. Depressa, depressa, ponham a tampa e desam, que 
l vem o marido-da-senhora-mestra!
Correm todos para o baloio:  uma prancha grossa e polida do uso, suspensa de duas cordas que vm duma altura desmedida,


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dentre as ramarias, do infinito, no se sabe donde. Tem um cinto slido, entranado, de mil cores, com uma grossa fivela de garras que encaixam. (D gosto a gente 
perder-se nestes detalhes minuciosos.) H meninos muito valentes que sonham balouar-se tanto e to alto, que cheguem a dar a volta completa l em cima: chamam-lhe 
a Volta-do-Coliseu. Nenhum conseguiu at hoje, nem o irmo, isso sim. J uma vez a ia dando, mas foi na praia de Algs: chegou l mesmo ao cimo, e parou de cabea 
para baixo, no sabia se ia para diante ou para trs! Voltou para trs, com muita pena de todos. Imagine-se, ficar assim um instante (at devia ser em.maisculas) 
de cabea para baixo, quela altura toda, sem cair! Subiu-lhe o sangue todo aos miolos, com certeza. Ele at j conseguiu andar com um copo cheio de gua  roda 
 roda, at ficar todo inclinado (o copo), e no entornou nem uma pinguinha!  uma fora qualquer, que se chama... No nos lembra agora. - Mas h quem consiga, isso 
do balouo, e a gente j viu. Foi na praia. No foi na praia, foi no Coliseu!
 to bom andar assim por ares e ventos,  desfilada, com a impresso de que vamos ser atirados pelos espaos fora! O cabelo comicha na testa. Acima da cabea, das 
casas, do horizonte, vendo o mundo a fugir para l e para c, as rvores numa correria descabelada, os telhados s curvas - sim, mas no vale empurrar com tanta 
fora, no? No vamos mais longe, eu no quero! Pra! PRA! - A vertigem  forte de mais, de repente a gente tem medo, embora no confesse, e grita, tem lgrimas 
nos olhos,  do vento com certeza. O que nos vale  o cinto, mas quem  que se fia?
Agora eu! Agora eu! - e o balouo balana a crianada, at que todos se fartam e o abandonam, a oscilar, cada vez mais devagar, em torcicolos, e por fim pra, sozinho.
 sentado nesse balouo que ele gosta de escutar as vozes e olhar as rvores, s vezes de cabea  banda, ou virada para baixo, para trs, num abandono tranquilo 
e solitrio, a ver um mundo diferente do mundo real.
Mas o jardim e os seus segredos no ficam por aqui. De repente, de alm verduras, grades, telhados rugosos, dos quintais de velhas moradias, do cncavo sonoro da 
cidade ou dos altos do


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Castelo, no se sabe, vem o Grito-dos-Paves. Calam-se todos, e a Agueda murmura, de olhos muito abertos: "Oh!... "
Este apelo estridente e gutural, repetido, empolga e assusta, enche a vizinhana de alarme, duma memria de selvas, de parques tufados, mal-cuidados, longe. Os paves 
invisveis so parte do Paraso. Gritam, e o menino, de pernas pendentes no balouo, mordendo a boca e de olhos escancarados, escuta: depois tudo se cala, o silncio 
aperta-se mais, cresce a selva sombria e sufocante, impenetrvel, em pleno mundo dos homens, e ele pula do balouo abaixo, assustado, e foge a correr em busca de 
algum, em busca da vida e da realidade tranquilizadora.
L no fundo, onde o gradeamento os separa do abismo, da cidade que se atropela em cascata para a Baixa e o Tejo, ao canto extremo onde verdadeiramente ele s uma 
vez se atreveu a ir, est a barraca do jardineiro, dizem: mas no h jardineiro nenhum, e ainda bem. H s um carrinho de mo desconjuntado, pesado de mais para 
a gente brincar, sachos e ancinhos, um regador, tbuas, vasos vazios, telhas partidas e pouco mais, tudo enferrujado, poeirento, inamovvel e envolto numa infinita 
rede de teias de aranha. Correr jardim fora, afundar-se a gritar na verdura, como quem vai ao cabo-do-mundo, chegar  grade, dar um pouco a volta, avistar a barraca 
l ao fundo, de repente olhar para trs e no ver o Colgio nem os outros meninos, s o enredo silvestre, e sentir-se perdido -  uma embriaguez! Ento  bom fugir, 
de joelhos fracos, tropeando, perseguido pelo hlito frio e as mos verdes da solido e do medo. ( bom,  bom! Quem pudesse ir l recuper-lo ou desiludir-se de 
vez! ou deix-lo dormir!)
Mas o mistrio, aqui, cerca-nos por todos os lados, no se lhe pode fugir.  esquerda, acompanhando o jardim at ao extremo, e para alm, est o Palcio: virado 
l para aquele lado, para a prodigiosa confuso do anfiteatro e para o rio. Ao jardim, ele mostra apenas a fachada cinzenta e severa, de um s andar, com um longo 
renque de janelas gradeadas que chegam ao cho, sempre de cortinas corridas. O Palcio est mal com o jardim, no liga, no d confiana.
No entanto, uma ou duas vezes as janelas apareceram abertas, e o Palcio animou-se. Andava-se em limpezas, e foi ento que o desconhecido, descerrando-se um pouco, 
se aprofundou mais:


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salas sem conto, paredes forradas de papis com folhagens doiradas, tapetes enrolados, mveis envoltos em lonas; jarres, lustres e candelabros em gazes cor-de-rosa, 
e outras janelas abertas para alm, donde jorra a luz do cu espelhada no rio. E ningum - ningum!
Infelizmente,  sabido que nunca duram muito estas empolgantes distraces, como seja estar agarrado s grades a espreitar pelas janelas do Palcio Deserto para 
adivinhar quem l mora, se mora. Depressa recai tudo no silncio e na severidade, e o Palcio torna a fechar os olhos, adormece, reentra no cobranto. Pertence agora 
tambm ao outro-lado-do-mundo, impenetrvel.
No h pois remdio seno contentar-se a gente com o Colgio pequenino. Coisa difcil de se crer, no andar de cima vive gente - h a tal escada, logo  entrada. 
S se v daqui uma janela, sempre aberta para o sol que escorre do alto. Tudo o que se sabe  que o senhor que ali mora  estrangeiro, tem uma barba  Guise (no 
sei se j repararam que todas as barbas so  Guise, ou ento  Prncipe-de-Gales), e a senhora dele  muito nova, esteve muito tempo doente e toma cerveja preta 
para recobrar as foras. Cerveja preta. Quando se d uma pancada, ou uma queda de um andaime abaixo, toma-se cerveja preta. Vem nuns barrizinhos.
A senhora-do-senhor-Chteaudepraz aparece l de tempos a tempos  janela, e sorri palidamente aos meninos do Colgio, sem lhes pedir nada, mas eles compreendem, 
baixam a voz e brincam com muito juizinho para a no encomodar (tem de ser com e, conforme se diz). Talvez os outros meninos no dem por isso, mas ele  que v 
tudo: observa-a c de baixo, disfaradamente, mordendo a boca, e tem muita pena dela. A senhora-do-senhor-Chteaudepraz (ouve dizer) no pode ser me de filhos, 
o marido tem um grande desgosto com isso, no podia ento ser minha me, e  por isso que anda tristinha e doente. H mulheres assim, tm murmrios de confidncia, 
doenas misteriosas, perdas, anemias, arrulhos de pomba queixosa. As mulheres...
Fica a olhar a janela insacivel de sol, num misto de amor e piedade, at era capaz de chorar, e com esperana tambm de que ela aparea e o veja olhar, e lhe sorria. 
ou lhe atire um rebuado, como s vezes. Para ele comer s escondidas. Tudo isto  muito mais importante do que dois-e-dois-so-quatro.


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No Inverno, se chove,  melanclico e reconfortante ficar um tempo sem fim a olhar as gotas que pingam dos beirais do Palcio e fazem estremecer e inclinar-se em 
rpidas cortesias as ervas e flores do canteiro, enquanto a Aula reza em coro, sonolentamente, a cartilha ou a tabuada. A porta fechada, a humidade acumulada, h 
um conchego abafante. De repente sente-se uma inquietao, h murmrios e risinhos, o ar torna-se irrespirvel. A senhora-mestra, sem se alterar (s o lpis parou), 
diz assim:
- Menina Isilda, levante-se e v cheirar todos os meninos, a ver quem foi o da gracinha.
A Isilda, coitadinha, tem os olhos tortos: fica muito corada, levanta-se e pe-se a cheirar todos os meninos de ambos os sexos, devem ser uns dez.  um momento terrvel, 
que vergonha, a gente tem a certeza que no foi, mas quem sabe l se um descuido!... Imveis, todos procuram saber se foram. Mas a menina Isilda no consegue descobrir 
quem foi:
- Abra a janela. V ao quadro e escreva.
E enquanto os outros cantam em melopeia a tabuada, ela
escreve at no ter mais lugar no quadro preto: A menina Isilda
descuidou-se. Que alvio!
- Apague e torne a escrever.
Escreve com giz e com lgrimas. Mas como sabe a senhora-mestra... L fora a chuva, os canteiros molhados.
Nestes dias de sol a Calada reverbera, explode, encandeia, a grade polida como bronze queima, no se lhe pode tocar, as fachadas flamejam brancura. Assim mesmo, 
como  bom correr, voar rua abaixo, com a vertigem do precipcio, na curva to bem lanada da rampa. H grades que se cruzam, verduras amachucadas, a imensidade 
dum circo, ecos de gritos como aves soltas no ar.... O Santiago corta a direito por ali abaixo, saltando as grades sem medo nenhum, para chegar mais depressa  meia-laranja, 
onde h sempre carroas paradas, com muares de focinho metido em alcofas de palha, a roer o jantar. O menino segue-o com os olhos: como ele  valente, quem me dera 
ir com ele! Mas a descida  precipitosa, desvairada, e mais de uma vez lhe tem acontecido sentir-se arrebatado pela velocidade, ter medo de no poder parar, de rolar 
de cambulhada, de perder o peso e voar... (Voar  bom, mas  em sonhos.) Bem se importam eles que a Vizinha Delfina,




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carregada de sacos e livros, se esbofe a correr e a ralhar atrs deles. Mas ele no tem s medo, tem tambm pena dela, e trava, consegue parar da desfilada assustadora 
em que ia, e fica  espera. Depois, tranquilamente, agarra-lhe na mo com muito amor, desce com ela. O irmo desapareceu - ouvem-se gritos - iro encontrar-se l 
em baixo a So Mamede. Se encontrarem.
A soalheira calcina as fachadas crivadas de janelas, nem se pode olhar. Um sol que seca os ossos. Era ali que morava o Rogrio, este nome sempre lhe faz lembrar 
a histria do Rogrio Laroque, que a mezinha viu h muitos anos no teatro: um menino que tinha visto um homem, pelas costas, a matar outro, e pensou que era o pai; 
depois, no tribunal, abanava a cabea a dizer que no... Foi ele que salvou o pai. Mas este era diferente. Uma tarde as mes estiveram ali paradas muito tempo a 
dar  taramela, e o Rogrio, muito calado, a cambar os ps com as meias esbeiadas, nem quis brincar com ele: escondia-se atrs das saias da me, e metia os dedos 
todos na boca e no nariz, babado, fazia aflio. Quando se despediram a mezinha at disse: " mau sinal, este pequeno... "
E um dia o Rogrio morreu de meningite, j foi assim que morreu a menina Madalena, aquele anjo.  uma doena terrvel, d dores medonhas na cabea, a gente revira 
os olhos, delira, e os poucos que escapam ficam parvinhos para o resto da vida, ou cegos, com os olhos turvos. Andam pelas ruas s esmolas, fazem trejeitos e caretas. 
O Rogrio tinha aquele costume, estava sempre a cambar os ps,  mau sinal. " Pe o chapu, anda. Esta soalheira faz-te mal. Olha o Rogrio... " Nada, o pior  a 
gente surpreender-se um dia a cambar os ps, sem dar por isso.  preciso cuidado...
Francamente, de quem eles no gostam nada ali  do sr. Mealha, o marido-da-senhora-professora. Pinta o cabelo e o bigode, tem as sobrancelhas muito grossas, olhos 
opacos como contas de vidro preto, o nariz achatado, a voz arrastada e fanhosa.  um ventas-de-patrulha. (Esta  boa,  do irmo.) Os maridos das senhoras professoras 
(desculpem, algumas que forem casadas) so em geral estranhos, intrometidos, antipticos, e h neles um ressentimento. O sr. Mealha vende coisas  comisso, no 
sabemos
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qual, e anda sempre de maleta safada, fato castanho e palhinhas queimado. Fica um tempo sem fim a repisar histrias de vendas, cobranas e doenas, especialmente 
as dele: s come papas de milho, e toma todas as manhs uma colher assim de bicabornato de soda em jejum.  talvez disso, ou do cigarro forte, que ele deita aquele 
cheiro azedo da boca. Teima em beijar as crianas, que viram a cara, horrorizadas. No toca em caf, Deus me livre, nem o cheiro, tira-me o sono. Os meninos tm 
nojo das mos dele, amarelentas. Que mania que esta gente tem de nos agarrar como se fssemos bonecos de borracha, e de amachucar, atirar ao ar, e espremer como 
limes! Quando ele aparece  tarde, felizmente  raro, a gente nem sabe onde se h-de esconder. Deus queira que ele no repare em mim.
Andavam a brincar no jardim, um dia, vem ele por trs e agarra o Gabriel (ainda no sabiam que o nome dele  Gabriel? pois ), mete-o entre os joelhos, e desata 
a fazer-lhe ccegas.... tantas que o ia matando, no  exagero. Sim, chegou a perder o ar, queria respirar e no podia, e no era s das ccegas e do aperto, era 
de raiva e desespero. Nunca sentira nada assim, a debater-se em nsias e convulses, a rir contravontade ou com vontade de chorar, de raiva abafada em medo, e o 
sr. Mealha, de colarinho de celulide e palhinhas queimado, por cima dele, fanhoso,, a rir a rir com o hlito azedo, as mos amarelas e peludas a mexer-lhe com as 
miudezas, e a dizer assim: "D c isso, que to corto pra dar ao gato!" - Ah, no poder cuspir-lhe, mord-lo, dar-lhe caneladas! Quem ousa. Como so brutos os crescidos! 
Parece impossvel, todos a ver e ningum lhe acudiu.  assim que a gente aprende quanto custa ser pequeno, indefeso. Estamos sozinhos. Se o mundo  isto... A me 
entretida na conversa, no pai nem pensar, que vergonha, e ento ausente. H momentos em que, francamente, morrer seria libertar-se! Resultado: odiou-o com toda a 
fora duma alma confiante e amorosa, e foi para sempre.
Por sorte, apareceu a sobrinha, e o senhor-da-senhora-professora largou-o para ir falar com ela. S por causa disso era capaz de lhe querer bem. Mas ela no deixa. 
Toma conta dos meninos na falta da tia, mas ralha e d reguadas. A minha tia no lhes ensina nada, diz ela. Mora no Colgio,  nova e bonitinha, com os


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bands frisados, o nariz arrebitado, a pele alva e macia, mos que so um primor para piano e lavores, mas a gente nunca a ouviu tocar, parece que o piano est desafinado 
debaixo da colcha de seda bordada, e  proibido entrar na sala. O sr. Mealha apoquenta-se imenso com o futuro dela. A dona Ifignia  muito mais velha do que ele, 
talvez no tanto como o dizem os entremeios de veias azuis nas mos: no se d bem com a sobrinha, no sabemos ao certo se  dela ou dele, aqui h um segredo qualquer. 
As meninas sabem tudo, mas no contam. Cochicham  hora do recreio, riem-se  socapa, do belisces umas s outras, e fogem a correr como umas doidas, com os cabelos 
espalhados, s gargalhadas! Que sabem, que dizem elas? Se o Gabriel se aproxima a escutar, elas empurram-no e dizem: "Vai-te embora, palerma. A conversa no  para 
meninos de saias! " (E elas, no andam de saias? A culpa  da mezinha, que o faz andar assim.) Gostaria de compreender, mas apenas suspeita, e no ousa indagar. 
Especula. Tem pena da senhora-professora. Parece que a sobrinha puxa muito para o tio. De vez em quando, a dona Ifignia passa uns dias doente. Ningum a v. Ento, 
o Colgio fica triste e calado. Alguns meninos at j se foram embora. A janela da casa do senhor Chteaudepraz est sempre fechada. O tempo corre sem a gente dar 
por isso...
Sim, o Santiago passou h muito para a escola das Pedras Negras, ao Caldas, que tem cabeas de veados e gamos embalsamadas nas paredes, vem-se da rua.  um grande 
prdio cheio de barulho e tumulto. Quando saem os matules a correr, e se espalham na rua, a gente at se encolhe contra a parede. Ali aprende-se alemo. O irmo 
vai estudar alemo, tirar o Curso Comercial, para depois se empregar. So s quatro anos, e depois ala, ganhar a vida. Diz o pai.
Entretanto, ele continua a ir  mercearia do Manuel da Margarida, com a me,  s para entregar o rol das compras. A loja  obscura e acanhada, atravancada de sacas. 
Tem uma taberninha nas traseiras. O tempo que a me ali fica de conversa! Ele aborrece-se, mete as mos no feijo, no gro, no arroz. O cheiro de p f-lo espirrar. 
O Manuel da Margarida, de barbicha, olha-o sem expresso e d-lhe uma bolacha Maria, convida-o a tomar um pirolito... V l, sempre  uma compensao. Falam da provncia,


        39
ele  de Oliveira do Hospital. A dona Virgnia est l em cima (moram na sobreloja, uma janelinha para a rua) com o saco de gelo na barriga. Aparece de vez em quando, 
risonha,  uma mulher bonita a valer, ainda nova, de grandes olhos cheios de expresso:  ela quem manda ali, o marido  um bacoco, v-se logo. Mas se o nome dela 
 Virgnia, porque  que ele se chama Manuel da Margarida?


VII
O VESTIDO COR DE ERVILHA SECA
Como hoje  o dia dos anos da me, o Santiago desenhou e coloriu s escondidas, de cumplicidade com a gueda, um carto de parabns com letra de fantasia, arabescos, 
flores e um corao tudo polvilhado de brilhantina, a imitar os cartes de Natal. O Gabriel no sabe escrever de verdade, e os irmos guiam-lhe a mo inexperta. 
E a primeira vez que tem o laborioso orgulho de assinar o seu nome.
Todos os aniversrios so para eles dias de festa. Pem-se as melhores roupas, e o jantar  especial - canja de galinha, ou ento uma carne assada cuja memria fica 
a perfumar os dias at o aniversrio seguinte. Desta vez resolveram sair, dar um passeio a Benfica, talvez fora de portas ou ento  praia. "Eu sempre ali metido 
- disse o pai ontem  noite - at me faz bem apanhar ar!" Ficam muito contentes.  to raro andarem com ele! E s de manh o podem ver.
Assim qe ele saiu, pelas oito, comea a grande azfama: a dona Adlia f-los saltar da cama, lavar e vestir; depois arruma a casa, pe cortininhas lavadas nas janelas, 
e tudo reluz de asseio, "a riqueza do pobre", diz ela. Enquanto se faz o almoo, muda a pluma do chapu de palha preta (a que tem est um bocado murcha) e d um 
ponto no vestido. Em seguida prepara a merenda, faz embrulhos, enche uma garrafa de vinho - " para o vosso pai" - mas no sem ter hesitado, e arruma tudo no cabaz, 
at garfos, facas e copos, coberto com um guardanapo.




Lavou e penteia demoradamente a cabeleira farta e escura, j com muitas madeixas grisalhas: "Em nova, as tranas chegavam-me  curva das pernas!" Compe os bands, 
depois enrola o cabelo num monete ao alto. Est em corpete e saia de baixo; os filhos, prontos, seguem os preparativos com impacincia, a manh parece-lhes uma eternidade!
s tantas a caravana pe-se em marcha. Vo ter com o pai ao Hotel, e dali seguiro juntos a destino. O elctrico passa-lhe quase  porta.  sada, como sempre, olham 
para as janelas da gua-furtada, onde as cortininhas brancas sorriem ao sol de Agosto. O dia est lindo, azul, e quase nada quente. A menina segreda ao ouvido do 
irmozinho:
- Agora os mveis ficam todos a conversar uns com os outros...
A me, de mitenes, segura a saia para no varrer o p da rua, mostrando um pouco a fralda de cetim s riscas de mil cores, e as botas de cano, que eles disputam 
sempre a honra de abotoar. O vestido  "o do casamento": uma lzinha cor de ervilha seca, a saia ampla e comprida, o casaquinho curto muito justo na cintura, punhos 
e gola de veludo escuro, e bofes de renda creme no peitilho. S sai do guarda-fato nos grandes dias, e os filhos adoram-no. Alm disso, tm muito orgulho na elegncia 
da me, sbria e quase severa. O chapelinho assenta-lhe no alto dos bands, como uma gaiola em equilbrio, retido pelo prego com cabea de vidro lapidado.
Descem a p, por So Mamede ao Caldas: a rua cheia do aroma do depsito de fruta, ao canto - sempre gostam de parar a espreitar as pilhas de peros de oiro, de mas 
e peras... O saloio olha-os desconfiado.
Do entrada por fim no trio imponente do Hotel, com a discrio e compostura dos humildes que se esforam por no se sentir humilhados. Normalmente tranquilo a 
esta hora, o trio fervilha hoje de gente e actividade. O pai, de uniforme, sorri e faz-lhes um aceno de carinho. Est cheio de trabalho, mau sinal. Sentam-se ento 
nas cadeiras de pregaria baa,  espera. O Santiago desapareceu logo pela escada de servio: vai vadiar, ver os amigos (tem muitos, toda a gente lhe quer bem), correr 
tudo de alto a baixo, da rouparia  cozinha e  copa, meter o nariz nos

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quartos, brincar com o pessoal.  aventuroso, e os outros dois invejam-lhe as relaes. Eles ficam com a me. J passa da uma, isto no pode tardar muito. Aproveitando 
uma aberta, o pai vem explicar:
- Chegou-me um navio com que eu no contava. Pacincia!
O tempo corre. A certa altura...
(- Mezinha !
- Cala a boca!)
... Reparam que ela est plida e severa, de olhos negros muito abertos, fitando alguma coisa, algum, com a "cara das maldades". Seguindo a direco do olhar, avistam 
uma senhora elegante, de vu branco, com as mos coruscantes de anis cruzadas em frente, e os cotovelos apoiados na grade de lato lustroso que rodeia a mesa do 
sr. Augusto. Fala animadamente com ele, sorri com muita expresso, no tira dele os olhos atravs do vu com lantejoulas doiradas. E o empregado, de cabea descoberta, 
com a luz do tecto a brilhar no comeo da calva, sorri tambm e responde, mas de olhos baixos, embaraado, como a evitar os dela. De vez em quando relanceia a vista 
na direco da famlia.  um bonito homem, nutrido, com um longo bigode macio, e vestido com esmero: os sapatos sempre engraxados, os colarinhos engomados pela mo 
da mulher, um espelho. E faz a barba dia sim, dia no, vai ao barbeiro.
A severidade da me e o enleio visvel do pai criam-lhes um constrangimento: alguma coisa se turva de repente, ou se adensa, no ar deste dia de festa. Cansado de 
esperar, ou ciumento, o mais pequeno encosta-se  me, de lbios espremidos. A menina leva a mo  boca, como se mordesse as unhas, e geme:
- Apertam-me os sapatos!
(Ser um estratagema?)
A me repele o filho com um modo a que eles no esto habituados:
- No te encostes a mim, criatura! Vai correr, vai brincar, faz como o teu irmo. A seca. E tu, gueda, tira a mo da boca. E no amarrotes os plissados do vestido. 
O trabalho que me deu!...
Compe-lhe a saia com duas palmadas, a menina morde os beios,  beira das lgrimas.


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- Que inferno de crianas!
Repudiado, o Gabriel corre alguns instantes nas pernas delgadas, hesitante como uma mosca estonteada, em ziguezagues sobre os mosaicos polidos, perdido entre as 
pernas dos hspedes, e pra a olhar a interminvel escadaria deserta e mal iluminada: por onde andar o irmo? O Hotel, l em cima,  um abismo que o atrai e o amedronta. 
Depois recua, d meia volta, e vai-se meter debaixo da grande mesa do centro, um refgio. Dali segue tudo o que se passa sem ser visto.
O sr. Augusto faz esforos para ser natural, mas percebe-se que
est apoquentado. Os seus olhos cruzam-se com os da esposa, que parecem querer derret-lo, e baixam-se numa escusa muda. Entram hspedes, saem hspedes, bagagens, 
soam ordens em todos os sentidos, a mesa sempre rodeada de gente que o assedia com perguntas e recados. Ele abre gavetas, tira selos, papis, trocos,
endereos, indica quartos aos recm-chegados, fecha as gavetas, i regista nomes, sorri a todos - sempre aquele bom modo. Tornou a pr o bon agaloado de oiro, que 
entristece os filhos: mas o patro exige que ele o ponha, ele, que  quase um gerente ali! Suspira. O vapor chegou, h um comboio a partir. Mais essa.
O tempo arrasta-se insuportavelmente. A senhora de vu foi-se embora h muito, deixando uma esteira crepuscular de aromas. Outros hspedes rodeiam a mesa. Cansado 
de no ter nada que fazer, ningum com quem brincar (o capacho cheira a p), o pequeno volta para junto da me:
- Mezinha, eu estou com fome...
O elstico do chapu estrangula-o, ela tira-lho com um puxo. Est mais plida, com o rosto cavado e os olhos fundos, at parece magra.
O sr. Augusto vem a correr e diz-lhes:
- Tenham pacincia, mas estou a ver que o passeio vai ficar em guas de bacalhau. Estas horas!
Faz uma festa na cara do filho, torce carinhosamente uma orelha  menina, que desvia a cabea, amuada e arisca...
- Muito obrigada a vossa excelncia, e que faa boa viagem!
Os hspedes apertam-lhe a mo, que ele leva discretamente ao bolso do colete, batem-lhe amigavelmente no ombro, h mesmo quem o abrace. Outros ficam perplexos, a 
remexer vagamente nas



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algibeiras, no sabem talvez o que fazer nas circunstncias. O sr. Augusto sorri, irnico e brando. Tambm h hspedes pelintras... Os outros empregados olham-no 
com inveja: ele  uma fora, atrai a clientela,  a ele que todos recorrem numa necessidade.
De repente o trio fica tranquilo, quase vazio, e a dona Adlia est em p junto da mesa, com os olhos a deitar chispas, a sibilar entredentes palavras duras e breves 
que os filhos no entendem, fatigados de quase duas horas de espera sem esperana, e tristes: ela com uma expresso de desafio, ele incolor, logo senhor de si, tentando 
explicar, acalm-la, relanceando em volta olhares receosos, no v algum dar pela cena, os pequenos a ouvir... O Gabriel morde e lambe o rebordo lavrado da mesa 
do pai, a madeira  castanha e apetitosa. O Porfirio do ascensor volta com o mais velho pela mo: foi busc-lo por ordem da me. Tem-lhe raiva, inveja de ele andar 
na escola e vir a ser algum na vida:
- Estava l metido na rouparia, de galhofa com as criadas, um fedelho desta idade!
A me d-lhe um puxo de orelha, encaixa-lhe o cabaz da merenda nos braos e comanda com severidade:
- V, beijem a mo ao vosso pai!
Encaminha-se para a porta, arrastando a cauda, muito digna,
quase nem responde ao cumprimento e ao sorriso do ajudante, o
sr. Jos, um bom homem. Os pequenos atropelam-se em volta do
pai, lastimosos:
- Ento o paizinho no vem connosco?!
Ele torce o bigode, sorri consternado, atira de longe um olhar
de pena  esposa, que sai de cabea levantada:
- Vo vocs, vo vocs. Vo indo. Eu se puder l vou ter. C
fico amarrado ao trabalho, feito um escravo! Olhem pela vossa
me..
Beijaram-no com saudade.
Sentados h muito entre o "mar" e a muralha da via frrea, vem estreitar-se mais e mais, com a subida da mar, a fita de areia da praia, que vai morrer pouco adiante, 
semeada de calhaus escuros e viscosos de algas e limos. Longe, para a esquerda, onde esto as barracas, ouvem-se vozes alegres de crianas, de banhistas.


        45
A me recusou ir para aquele lado, que lhes  familiar e onde o pai, se tivesse vindo, devia ir procur-los. Escolheu este lugar mais afastado e solitrio, que se 
casa melhor com o seu humor austero.
A tarde correu, o pai no veio, o Tejo est calmo e grisalho, e os trs meninos tm o sentimento de um dia de festa gorado em melancolia. O aspecto da me, calada 
e macambzia, de olhar fixo e dentes cerrados, acaba de os mortificar.
Comeram a merenda, os guardanapos esto desdobrados na areia, h papis espalhados, que o vento agita e faz rolar, e a garrafa tombou. A mezinha bebeu-a quase toda, 
s deu um golinho a provar ao Santiago: ela sempre to sria e composta, a beber vinho, e ento pela garrafa! Nunca assim a viram. E agora, encostada  muralha, 
com o chapelinho um pouco s trs pancadas, de olheiras fundas como sempre que sofre, e olhos vagos na distncia, parece alheada a tudo, esquecida dos filhos. Fala 
sozinha, murmura coisas que eles no entendem. Quase no a reconhecem, e tm medo. O Santiago, de culos pretos, foi sentar-se mais longe, numa pedra, a olhar os 
redemoinhos que a gua vem fazer na areia. O Gabriel no pensa em nada, est s triste. E a gueda olha em volta, receosa, e pensa na gente que, das janelas dos 
comboios, em cima, possa v-los ali naquela triste figura.
Levantou-se h pouco um ventinho fresco e j outonio, carregado de humidade, que os arrefece, e o Tejo, l para diante todo arrepiado de carneirinhos alvos, toma 
um tom esverdinhado e ameaador. O sol anda j escondido para trs das costas, a Outra-Banda empalidece e doira-se, as sombras caem sobre a praia, que vai ficando 
deserta e muda. A gueda agarra o brao da me:
- Mezinha, vamos embora... O menino tem frio!
- Larga-me, rapariga! No sejas parva. Com um calor destes!
A gueda insiste com a voz tremida:
- Vamos para casa, mezinha!
A dona Adlia tira o chapelinho, a brisa do largo brinca-lhe nos bands, atira-lhe a farripa rebelde para a testa. De pernas estendidas e ps revirados para fora, 
com as mos esquecidas no regao, a cabea descada para trs, os olhos brilhantes e o riso estranho, toda ela numa atitude de abandono nunca visto, pe-se a dizer


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com a voz empastada retalhos de versos de cenas de teatro, como se confusamente tentasse relembrar alguma coisa esquecida, ela que sempre os assombra com a sua memria 
prodigiosa. De repente endireita a cabea e diz:
-  mar, tu s um leo! - depois ri estupidamente.
Modos de mgoa e de tristeza, os filhos apertam os beios para no chorar, e j no se atrevem a encostar-se a ela. Querem esconder-se, desaparecer, fugir. Sentem-se 
abandonados.
- Mezinha, vamos embora! Vamos pra casa!
No lhes d ouvidos. Os comboios passam em cima, na trincheira, as janelas coalhadas de gente a olhar. A menina compe-lhe a saia timidamente, e vai esconder a garrafa 
num esconso da muralha. Volta, e murmura ao ouvido de Gabriel:
- A mezinha bebeu uma pinga!
O mais velho aproxima-se, olha a me por cima dos culos pretos, e de repente agarra-se a ela num espasmo:
- Mezinha, mezinha! Olhe para mim!
Ela repete, extasiada, sem o escutar:
-  mar, tu s um leo!
Aquele "mar" ali em frente no tem nada em comum com o mar que ela fantasia atravs das suas memrias de poesia. O cu empalideceu, est fumoso e triste, e a espuma 
turva das ondas roladas, baixinhas, vem-se desfazer quase aos ps dela, de manso, com um rumor de oleado que se desdobra e espalha. Mas para os filhos  como se 
um abismo de solido se abrisse ali mesmo: como se a me alegre e carinhosa os tivesse abandonado, ou morrido, ou pior, perdido o juzo. Agarram-se a ela a chorar, 
e ela, ausente, repete:
-  mar, tu s um leo!
A tarde cai, no tarda que o sol se ponha, a mar sobe, a brisa levanta ondas que viro em breve rebentar na praia, vo ficar prisioneiros, ali  espera que a gua 
os cubra e os leve para longe, para nunca mais. E antes assim. Tm medo, vergonha e frio, vontade de morrer. Um vapor vagaroso passa a distncia, fumegando de roxo 
no entardecer. O primeiro alastrar de onda vem ferver nas covas da areia, em torno deles, e humedece a fmbria do vestido cor de ervilha seca.
- Vamos embora, mezinha!


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A cabea descai-lhe para um lado, e ela tem uma risada estranha e fria:
- Vocs so parvos, ou qu? Julgam talvez que a vossa me bebeu de mais, no? Como a dona Leonor? Era o que faltava, eu bbeda. Nunca tive tanto juzo em toda a 
minha vida! J daqui no saio. Larguem-me, vo correr, vo brincar. Deixem-me  vontade. Farta! Vo para o vosso pai, ele que vos ature.
A mecha do cabelo dana-lhe na testa. O olhar endurece:
- A casa num brinco, a comida a horas, a roupinha lavada, as camisas engomadas por estas mos, feito um lorde, l por fora a dar trela s damas perfumadas, de vu, 
cheias de anis, as galdrias!... A negra de trabalho em casa a mourejar at altas horas da noite para os trazer decentes, cri-los, mand-los  escola... Com o 
chazinho abafado  espera dele! Andem, vo para o diabo, deixem-me sozinha, vo l ter com ele, ele que vos ature, mais as lambisgias!
Torna a rir alvarmente, e declama para o Tejo, tentando cobrir-lhe a voz que sobe, ameaadora e escura:
-  mar, tu s um leo!
Os meninos choram, agarrados a ela, procurando o calor maternal que receiam ter perdido. O Tejo sombrio, a noite avizinhante, a me plida e ausente...
Uma gota de vinho no regao manchou para sempre o vestido cor de ervilha seca, que ela ps a pedido dos filhos, por ser dia de festa, o dia dos seus anos.

VIII
A MQUINA "MEMRIA"
A me pe-lhe em frente, no guardanapo desdobrado, um prato com duas fatias de po trigueiro barradas de acar moreno, um copo de ch diludo e a ma reineta que 
dormia no sto, numa cama de palha, desde o Outono, com outras frutas que a Vizinha Delfina trouxe de Alcochete, segundo o seu costume. Depois ri-se:
- Anda, come. At parece o jantar do Vizinho Torres.
Passa-lhe na cabea dois dedos amorveis, e suspira:
- Cinco anos, vejam l vocs como o tempo voa. Dias correi, anos passai!
O sol de Inverno entra pela janelinha da gua-furtada, reluz no soalho, e na quadrcula do cu azul o gato amarelo da prima Otlia espreita um momento: tem fome, 
anda sempre  caa pelos telhados, e j lhes tem entrado em casa para furtar. De p, com as mos cruzadas no ventre, a dona Adlia fica a olhar vagamente para fora, 
por cima dos telhados. Sobem da rua preges soalhentos arrastados.
- Bem pena tenho de deixar isto. Aqui me nasceram todos vocs. Tudo correu depressa, a felicidade  assim.
No rosto grave e bondoso o sorriso tem uma gota de amargura. O pequeno come devagar, a ma range-lhe nos dentes com uma acidez irritante e apetitosa.
- Vocs a crescerem, a casa acanhada, e acabou-se o Colgio...


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Sim, acabou-se o Colgio! Uma tarde, ele entrou pela primeira vez na sala, com a me: o piano coberto com o mantn de Manila, de grandes flores berrantes e muitas 
franjas compridas, cadeiras de braos barrigudas, jarras com molhos de plumas secas, candeeiros de porcelana, almofadas a matiz, quadrinhos com paisagens de cortia, 
e bordados a missanga, cabelo e escamas de peixe; um canrio de estimao, empalhado na gaiola onde outrora cantou, e o cheiro a mofo - tudo isto tem, com as janelas 
sempre fechadas, uma solene e morturia qualidade de jazigo de famlia bem cuidado, que o constrange e o faz feliz.
A conversa em murmrios,  porta fechada, que ele no entende por mais que se esforce: percebe s, vagamente, que a sobrinha diz mal da senhora-mestra, at parece 
impossvel. E de repente exalta-se, quase que grita, agora j ele ouve o que ela diz: no se falam h meses, ah, ela no pode continuar aqui, debaixo destas telhas, 
nem pode respirar, sufoca, vai-se embora! E o tio Mealha tambm no tarda muito que se v. A velha sempre de cama, doente, qual doena, aquilo  manha, no quer 
ver ningum! A mocidade inteira aqui amarrada! Uma tirania!... A velha, a velha, a velha. Deixam-na s, que se governe. Fecha-se a porta, o Colgio acabou.
Viemos s para uma visita, dizer adeus, que pena, to pouco tempo, nem dois anos isto durou!... O menino sai cautelosamente para o corredor, e encaminha-se para 
a aula deserta. Que tristeza a de uma escola abandonada! Os meninos foram-se todos embora. As cadeiras (restam poucas) esto desocupadas, as oleografias espalham 
silncio e morta antiguidade. E que aperto no corao, e vontade de chorar s escondidas, s de olhar o quadro preto com sinais das ltimas palavras apagadas e a 
esponja seca! No Jardim mudo e fechado, a cisterna para sempre sem ecos, o balouo imvel, enrolado e atado num n, a verdura a crescer  toa, sufocante... O Palcio 
carrancudo, em cima a senhora-do-senhor-Chteaudepraz foi-se tratar para a Sua e nunca mais c volta, a senhora-mestra de cama, j ningum a pode ver... E agora? 
O vento comea a arrancar aos punhados as folhas amarelas, e a lama fica toda atapetada deste ouro de morte. O Inverno sopra e desola, as nuvens j vm da Barra 
ao ataque, em grandes rolos cinzentos e ameaadores... E de repente os paves pem-se a


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gritar, arrepelando a solido. Depressa, mezinha, depressa! Vamos embora daqui, vamos para nossa casa! Para onde haja vida e haja esperana!
E o Paraso vai ficando para trs, no cimo da Calada empinada, cabo da memria para sempre dobrado e oculto.
J antigamente a me costumava lev-lo, quando ia pagar a renda e a dcima ao procurador, cujo escritrio acanhado e poeirento ele confundia com a oficina do alfaiate 
Geadas, numa travessa da Baixa: horas sem fim a provar aquele vestido cor-de-caf que nunca ficou bom, e a falar de entretelas, pespontos, caseados e forros. Ele 
caa no sono, aborrecia-se. Mas desta vez andaram dias e dias, por altos e baixos, de nariz no ar a ver casas em bairros que ele nem imaginava que existissem, como 
o dos Castelinhos. Era a estao das mudanas, Lisboa coberta de escritos, e os galegos cruzavam as ruas a carregar andores de trastes empilhados a uma altura assustadora.
Agora vo deixar a mansarda onde ele nasceu, e a tristeza aperta-lhe a garganta, o po fez-se num bolo intragvel, a ma custa-lhe a engolir. H nesta casa - e 
no  s a altura, nem s a campainha da Aleluia - alguma coisa que nos aproxima do Cu: por exemplo, a chamin, onde costumavam pr os sapatos para receber os presentes 
do Menino Jesus. Uma noite, estavam todos trs nas camas, acordados, a pensar nos brindes que ele traria, quando ouviram entrar o pai: "Eles j esto a dormir? - 
Ao tempo!" disse a me.
Houve um murmrio risonho, um remexer de papis de embrulho, depois os pais foram p ante p  cozinha e demoraram-se. Ao romper o dia, o Santiago no se aguentou 
mais, e foi inspeccionar os sapatos. Voltou a correr, descalo, com alguns pares de pegas s riscas e umas tigelinhas de vidro muito frgil, coloridas, lindas, 
cheias de bombons. Ficaram nas camas a com-los. Foi a primeira vez. E se o Menino Jesus perdeu assim o mgico segredo, nem por isso o encanto do Natal se dissipou.
Mas ele tambm tem memrias secretas, de agonia... Aqui, nesta casa de entrada, ergueu um dia a mo para a me, que lhe tinha ralhado. Ela riu-se: "Abaixa a mo, 
Gabriel!" - Tinha capricho, no baixou. A palmada estalou, a mo virou, mas


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tornou logo a erguer-se. Ela fez olhos feios: "Abaixa a mo, ou levas!" - Outra palmada, outra e mais outra... A mo rebelde perdeu a sensibilidade, era um formigueiro, 
um boneco de serradura na ponta do brao. Ele mordia a boca, sentia os olhos inchados de lgrimas, mas no chorou. A dormncia subia-lhe pelo brao, a mo pendia 
miseravelmente, no lhe obedecia: teve de a suster com a outra... Caiu por fim inerte, nem mesmo o brao j lhe pertencia. (Era como nas noites em que acordava e 
dava pela falta dum membro, ou encontrava na cama uma perna estranha... )
"Este pequeno, que nunca se d por vencido! - disse a me. - Deixa, que a vida vai-te ser dura!" - Agarrou-se a ela num frenesim, sem palavras, com um brao s, 
amando-a desesperadamente: era ela talvez que j lhe no tinha amor! "Parvinho, meu tolo!" - acariciava-o, tinha os olhos vermelhos...
Um dia... Era de manh cedo, saam para os banhos de mar, e ele tiritava ao p da porta, agarrado aos irmos, quando viu que os pais se afrontavam, de p, no meio 
da casa, ele de chapu na cabea, ela com a pluminha de avestruz a tremer no alto dos bands: "Atreve-te! - dizia ela. - Ser a primeira e a ltima vez! " - O pai, 
branco como a cal da parede... Donde tinha vindo aquilo de repente? porque estavam zangados? que diziam? Palavras sibiladas, incompreensveis e aterradoras... Do 
que o pai dizia, s ouviu "cimes", De qu, de quem? Havia alguma coisa que o enchia de terror, era como se o cho se abrisse para trag-los a todos. A mo tremeu-lhe 
na fria mo da irm, que lha apertava, angustiada. O Santiago correu a agarrar-se  me: "Mezinha! Mezinha! Pelo amor de Deus... " - e chorava, capaz de ter alguma 
convulso. (J as tinha tido em pequenino, depois de o tirarem da ama que o criou at tarde, a Margarida de Alcoentre: durante muito tempo renegou os pais autnticos, 
e reclamou a sua "mezinha"...) Tudo acalmou quase como viera, e desceram ento, esmagados pela lividez incompreensvel dos pais.
A dona Adlia, entretanto, foi buscar a tbua dos engomados, desfaz a trouxa das roupas borrifadas, e pe-se a falar, talvez mais consigo prpria do que com os filhos. 
A gueda, sentada junto do rebaixo, estuda, com os cabelos espalhados sobre o livro e o

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queixo nas mos. Pelo respiradouro do ferro espreita um lume de oiro, o hlito do sobro queimado e dos engomados derrama-se na casa, aquece e reconforta. O sol escorre 
de manso no sobrado limpo...
Ouvir a me  como folhear um livro cujas estampas saltam c para fora e vivem. A voz quente e sibilante, rica de sonoridades dramticas, evoca a provncia, a famlia, 
a infncia breve, lendas e medos, uma Lisboa s vezes, que  de ontem, mas para os filhos antiga e misteriosa. Ali est ao canto a mquina "Memria", sob a chita 
azul de ramagens amarelas: tem uns ornatos doirados, meio gastos, e uns embutidos de madreprola que ele gosta de seguir com um dedo vagaroso e pensativo...
- Quantas vezes eu aqui vi amanhecer, agarrada  costura! O vosso pai ficava no Hotel, noite sim, noite no. Tu, gueda, quando nasceste eras uma rosa. Depois puseste-te 
to rabujenta! No havia nada que te calasse. Querias colo, que eu te embalasse, e eu com montes de trabalho  espera! Uma noite o vosso pai perdeu a pacincia: 
"Se essa pequena se no cala, racho-a ou vou-me embora, vou dormir num hotel!" Coitado, dormia s uma noite em duas... Deu-te uma palmada que no dia seguinte ainda 
se te via a marca dos dedos. Tinhas umas ndegas to brancas, eras to gordinha! O que ele sofreu por causa disso, uma palmada. Havia de ser eu... Ento, pra te 
calar, que hei-de eu inventar? Amarrei uma corda  perna que dava ao pedal, a outra ponta ao bero, e assim, a dar  perna, te embalava at que adormecias!
Cala-se um momento, os filhos esperam.
- Costurava com a mquina em cima de um cobertor dobrado em quatro, para no incomodar os vizinhos. s vezes rompia a manh, isto no pino do Inverno, a casa um gelo, 
o rio coberto de nvoa... Ento encostava a cabea nos braos, de bruos na mquina, e assim passava pelo sono um quarto de hora, meia hora. Depois recomeava a 
labuta.  a vida, que querem vocs. Muito estes dois braos tm trabalhado! Sempre gostei de ajudar o vosso pai...
Nem um lamento. O sol desliza no cho da mansarda, numa paz de cu aberto.  bom estar aqui sentado a ouvi-la, mastigando devagar, a sentir crescer e aprofundar-se 
a vida. As suas


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mos vermelhas e macias alisam as roupas cheirosas da barrela e do ferro; apetece beijar-lhas.
- Naquela sacada... Mas como te hs-de tu lembrar, ias em onze meses! Dia de Pentecostes!
Tinha aparecido uma das boas mulheres que s falam de amores desgraados, misrias e doenas e mortes, com uma riqueza de pormenores e um senso do drama que teriam 
feito a fortuna dum romancista nato, se os houvesse. Digo eu assim, diz ela assim, as horas correm, e nisto - que-dele o menino?!
- Eras um azougue, corrias a casa toda de gatas! Vasculhmos tudo, a cozinha, os quartos, debaixo das camas, no guarda-fato, nos rebaixos, at fui  escada, mas 
a cancela fechada! Jesus Senhor, onde se ter metido o anjinho?! Estava um sol criador, o cu azul! De que me hei-de eu lembrar? Coisas que passam pela cabea da 
gente. Corro  sacada e debruo-me a olhar para baixo, no me tivesses tu cado da janela  rua. Andava tudo em obras, montes de pedras... Quatro andares, nem os 
ossos se te aproveitavam. No te vi, graas a Deus. Nisto, ouo gritar: a filha do Encadernador, ali defronte, a acenar-me com a mo e a apontar para o meu lado... 
E escorrega para o cho, sem sentidos! Nem sei como a entendi: olho para a direita, e dou contigo sentado no beiral do telhado, com os ps de fora, muito sossegado, 
a roer uns caroos de cerejas que o teu irmo tinha estado a comer e atirou para ali. Foi a tua salvao, entretido... O que vale a inconscincia: se tens olhado 
para baixo... Nem nisso quero pensar. Como  que tu tinhas enfiado pelas grades? Filho das minhas entranhas! Agacho-me, deito-te a mo s roupas, e desmaio tambm. 
Viram-se aflitas para me desengalfinhar os dedos e tirar-te para dentro. Onze meses. Milagre assim, s do Esprito Santo.
Depois, sorrindo aos seus pensamentos:
- Quando me casei jurei de no tornar a pr os ps numa igreja: por causa do confessor, um velho de barbas, as perguntas que ele me fez! Envergonhada. Nem me tornei 
mais a confessar. Mas quando te vi salvo, prometi que nunca havia de faltar  missa em dia de Pentecostes: e no tenho faltado!
O cu parece de repente encher-se de asas, de anncios e promessas.


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- O av Colmeal passava ali horas sentado ao sol, contigo ao
colo. Fazia-te pular nos joelhos: "Meu bolas!" Eras os seus en
cantos. J te no lembras, nem dele sequer te lembras... Que
idade terias tu? Nem dois anos talvez...
Depois daquela nica visita  filha e aos netos tardios, sempre acanhado diante do genro, um estranho apesar de to delicado, gnios diferentes, o av Colmeal tinha 
voltado para a sua terra. Nem os rogos nem as lgrimas da filha o demoveram: "Tens o teu homem, os teus filhos a criar, e eu c sou de mais, uma boca intil. Por 
teu marido deixars pai e me! E a tua me l sozinha... " Velhos! Quis ir acabar no seu cantinho, ao lado da mulher, pobres como estavam.
J no fim, doente, no se levantava da cama, e sem poder comer - s a marmelada que ela lhe mandava de Lisboa pelo almocreve - quando ouvia entrar algum voltava-se 
a indagar: "E a minha filha?" - De todas, s aquela era a sua filha! Filha querida, que tanto o ajudava de longe, na sua pobreza de velho orgulhoso. No era ela. 
Foram ach-lo morto, uma manh, sereno, virado para a parede nua, de rosto apoiado na mo, parecia ele que dormia.
- Meu rico paizinho, meu santo, que tanto lhe eu queria e no no pude ir ver na sua ltima hora! Meu grande amigo... Aqui presa, o trabalho! Chorei trs dias e trs 
noites, metida no quarto sem ver ningum. Quando de l sa e quis fazer o luto, tinha a vista estragada. Nunca mais pude dar um ponto sem os culos.
O sol deslizou mais um pouco, e comea a empalidecer. A dona Adlia vai  janela do saguo soprar o ferro, que vomita um turbilho de falhas de oiro na penumbra 
azulada, como um fogo de vista. Depois retoma o fio  histria...
- To pequenina que eu era, nunca o hei-de esquecer. Ainda a vejo, abraada aos joelhos do vosso av: "No vendas, Antnio! Pelas alminhas de quem l temos, pela 
sade e o po da boca destes inocentes!" Um homem que no tinha um vcio, quase no fumava nem bebia, no jogava nem andava atrs de saias! So destinos, que querem 
vocs. To nosso amigo que ele era, apesar de severo. O dinheiro, para ele, no tinha valor: "Deus o d e Deus o tira!" Teve aquele desastre, com pouco mais de quarenta 
anos, andava uma vez, a cavalo, a dirigir o corte de uns pinheiros,


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quando um deles abateu: apanhou-o de raspo e descarnou-lhe uma perna do joelho para baixo. Nunca mais foi o mesmo homem. E ento, uma lngua que era a espada da 
Verdade! No poupava fidalgos nem doutores. Era ele vereador, um dia encheu-se aquele largo do Pombal de povo a ouvi-lo: as janelas dos Paos do Concelho escancaradas, 
e ele l dentro a descompor o administrador, um fidalgo, e formado em Coimbra! At cabea-de-burro lhe ele chamou. Aquela voz de trovo... Como a minha!
"Era carpinteiro de seu oficio e meteu-se a construtor. Edificou a igreja da Misericrdia, onde se empenhou at aos cabelos. Sinos da Misericrdia, que saudades 
eu tenho! Tange, tange, augusto bronze... Andava ele a construir a ponte sobre o rio, l para cima, em Poiares, quando uma manh, com um temporal de meter medo, 
chegam uns homens a correr: "Oh senhor Colmeal, que l vem a enchente pela serra abaixo e leva tudo! Gado morto, mveis, rvores com as razes, at beros vinham 
a boiar na gua. Inundao assim... Tinha os materiais amontoados  beira do rio: "Bali, deixem levar! Deus que o deu, mais tem para nos dar se for da Sua divina 
vontade! Ficou deitado, com o mau tempo a perna sempre lhe piorava. A enchente levou tudo, e Deus no lho tornou a dar...
"Foram-se indo as fazendas e as casas umas atrs das outras: Vale da Vinha, o Vale de Cavaleiros, Vale do Braal, Vale da Pousada... E a Piarrinha, onde havia trs 
borbulhes de gua - fonte do Crespo, fonte do Paio, e a do Valduro! Os lugares por onde eu tanto brinquei, com os ps metidos no trevo molhado... Foi sol de pouca 
dura. Os bens que a vossa av trouxe do primeiro casamento, com duas filhas: o enxoval de Santa Clara, onde se criara - linhos, arcas cheias de roupa, argolas e 
anis, at o cordo de oiro de trs voltas, da grossura deste pulso - tudo se foi quanto Marta fiou. E o que ela, coitadinha, ganhava a amassar o po e a vender 
ao balco. Um comrcio como eles tinham! Ali se vendia de tudo, e muito fiado... Ficaram pobres como Job. Foi o que me empurrou para o mundo to novinha, com quinze 
anos! Mas tinha o juzo duma mulher!
Por fim at a loja perderam, e a casa onde moravam, com um quintal to grande, cheio de rvores de fruto. Foram viver com a mais nova, a Encarnao, to pobrezinha, 
e acabaram s sopas


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desta filha que de Lisboa lhes mandava o que podia, do seu trabalho, s escondidas do marido, que fingia no perceber.
- Meu pai, Deus o tenha em descanso, andava sempre com o sino-saimo, figas e chifres na cadeia do relgio, contra agouros e bruxedos. Quando deitava at Sto, 
Av, Tbua, Mortgua, Ansio, Pampilhosa da Serra - que lindos nomes estes, at cheiram a flores silvestres! - levava-me muitas vezes escarranchada diante dele, 
na sela do cavalo. Havia salteadores por aqueles caminhos, minha me rezava... Mas eu no tinha medo, dava a luz dos olhos por ir com ele!
Uma noite, l pelas serras dentro, cavalgavam naquele silncio, por uma ladeira muito ngreme, quando de repente se ouve um suspiro, uivo ou silvo prolongado, como 
um queixume de almas penadas. O pai fez estacar a montada com um puxo das rdeas, apertou a filha ao peito e tapou-lhe a boca com a mo. Havia um luar coado, Adlia 
olhou: encosta abaixo, ao longo de uma faixa ou esteira, o mato dobrava-se todo, como espezinhado  passagem de um corpo invisvel ou sopro de vento rasteiro. O 
cavalo tremia como varas verdes.
- Que  aquilo, meu pai?
- Cala-te, filha.  um ar mau. Faz o sinal da cruz.
Ela fez. Logo a seguir, na calada da noite, ouviu ph!, como se uma pedra embatesse num charco. O pai respirou fundo, destapou-lhe a boca e deu de rdea ao cavalo:
- Ouviste? Quando um ar mau encontra uma poa, cai nela e afoga-se: Ph! Andam sempre cheios de sede, a gua atrai-os e afoga-os,  o que nos vale.
- O que  um ar mau, senhor pai?
-  uma pestilncia. Se te apanha,  conforme: pode-te deixar de cara  banda, como  Zefa-do-Alho, ou tolhida dum brao ou duma perna como o Z-do-Adro. Tem a gente 
de andar com o Credo na boca...
A me calou-se, o sol rodou, uma nuvem cobre-o, o silncio reina de novo na mansarda, e tudo fica triste de repente. A irm pende mais a cabea sobre o livro, o 
menino pra de engolir, tem a garganta apertada.
Na salinha ao lado, onde o av Colmeal o embala nos joelhos


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(mas ele no se lembra de nada,  como se fosse outra pessoa), tudo est como era dantes: a oscilante mesa de p-de-galo, com bicos e garras nos ps em bola, as 
cadeiras de palhinha e a "austraca" de encosto, tudo vindo dos quatro cantos da modstia e do uso. H na parede, porm, uns grandes leques arrendados, com figurinhas 
chinesas de caras de marfim. Segredo!... A grande diverso deles, quando a me sai, trepados em cadeiras,  arrancar com as unhas as carinhas aplicadas, para as 
ir deitar na fenda do soalho da cozinha, por onde sopra um hlito de negrume e bafio, e donde  noite saem os ratos.  ali que o Santiago, explorador das insondveis 
profundidades do forro e da fantasia, mete os lpis, borrachas, canetas, moedas e quanto mais lhe vem  mo, como num mealheiro. (J em pequeno estripou um cavalo 
de papelo para lhe ver as entranhas.) Atrs das carinhas de marfim vo-se indo os delicados embutidos da caixa de sndalo, cheirosa, que est em cima da mesa, ao 
lado da Ilustracin Ibrica, encadernada em percalina vermelha. Quem se ir aproveitar daquele tesouro, agora que eles vo mudar de casa?
A tia Zulmira e as canes, os peixinhos de prata saltando ao luar, os vapores ajoujados de gente e nostalgia, a cisterna e os paves, a campainha da Aleluia e a 
mquina "Memria", a janela quadrada, a altura, o silncio - at o gato preto to manso e espertinho, que os ia matando e dormia como ele na cama de grades, e um 
dia desapareceu rua abaixo que nunca lhe tornaram a pr a vista em cima - tudo isto comea a tornar-se uma coisa distinta, um todo, um ser, um monumento, um mundo, 
uma realidade cristalizada em sonho, para sempre englobada e preservada nas tigelinhas de vidro frgil do Natal.

SEGUNDA PARTE





IX
NO TEATRO DA MIQUELINA
Pela janela de frestas, fica a olhar os tijolos vermelhos do prdio contguo: por entre eles, a argamassa transborda como um bolo petrificado, que ele tenta, secretamente 
e em vo, esboroar com os dedos. Esta viso uterina f-lo sentir-se emparedado em vida e aterra-o de repente, como se fosse a origem dos maus sonhos que ultimamente 
o tm assaltado. A me at j ps cortinas na janela de frestas para a esconder.
No, vamos antes brincar na varanda exgua da cozinha, onde ao menos se respira em liberdade. No cubculo da pia, uma galinha e um coelho vindos no se sabe donde, 
disputam o pouco espao disponvel, cobrem tudo de dejeces, de mijadas incrveis, de smeas e folhas de couve rodas. E olham-no desconfiados... Apesar de batida 
pelo vento e chuva da Barra, a varanda permite avistar a Outra-Banda pardacenta e quase nua, o casario do Castelo, e a parada do quartel da Graa, onde a infantaria 
desfila nos dias de cerimnia, toda empenachada e debruada de vermelho, ao som dum ordinrio blico e arrebatador. Pelas encostas equilibram-se com dificuldade as 
raras e mirradas oliveiras.
Abrem-se aqui (ou fecham-se?) os horizontes de uma vida nova.
Logo em baixo  a horta da Serafina, risonha e reluzente de guas e verduras, com a latada e um muro coberto de cacos de vidro, que a separa dos quintais vizinhos. 
Retalho exilado de




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campo e ar livre,  tudo quanto a existncia lhe oferece de rstico. O seu desejo  ir correr e brincar l em baixo, meter as mos na gua do tanque que daqui se 
v brilhar, ter um barquinho. Mas a me no consente por enquanto, e manda o mais velho comprar a hortalia.
No quintal da esquerda ergue-se o mastro com a plataforma e a casota no topo: ali mora a Chica, a macaca do sr. Julinho. O menino fica horas a admirar-lhe as diabruras, 
a incit-la com gestos e gritos, a invej-la. A macaca olha-o irritada, bufa, faz-lhe trejeitos e caretas simpticas. Gostaria de brincar com ela, de agarr-la nos 
braos...
Mas isto hoje est mesmo sem interesse nenhum: a parada deserta, a Chica recolhida, a horta silenciosa. Vamos antes tirar da sapateira a bandeira azul e branca que 
o pai lhe comprou num bazar da Rua Augusta. E o Gabriel pe-se em marcha ao longo do estreito corredor, entoando um passacalhe da sua inveno, com alguns acordes 
tirados, naturalmente,  banda de Infantaria Cinco.
A questo  que todos os prazeres cansam depressa, e ele acaba por se ir pr  janela a olhar a rua, as fachadas inexpressivas deste bairro modesto, com duas ou 
trs residncias de gente grada. Moram por aqui um professor de leis, um antigo ministro, e um capito de mar-e-guerra. Nunca os vemos. Uma nesga de terra e a grade, 
com ervas  toa, separam o prdio da calada, num recanto. Do segundo andar avistam-se telhados vermelhos, lisos e sem flores, ao longe a Penha e os jazigos do Alto 
de So Joo como ossadas a branquear ao sol. Nada disto tem o encanto da Rua da Saudade, para sempre perdido e preservado. Tudo  mais duro e calcrio... E o lenol 
de prata e esmalte azul do Tejo desapareceu.
At o quadro interior  menos inspirado: as odiosas cadeiras de bilros, amarelas, a mesa oval de rodzios que foge debaixo da gente nas pernas barrigudas, tudo de 
"mogno" e em segunda mo. A mesa de abeto foi para a cozinha. O que resta da antiga "sala" est aqui ao lado, na saleta com a secretria de espaldar e tampo de oleado 
preto, comprada para os estudos do Santiago; mas os leques, a caixa de embutidos, tudo isso levou sumio ou est no fundo dum ba.  a nudez. Ah, resta o espelho 
de moldura doirada, a cadeira "austraca" de encosto, a mesa de


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p-de-galo, e vieram no se sabe de onde uns bzios e estas esponjas brancas que esto no cho, a enfeitar; speras e quebradias, repelem a gente com mil dedos 
hirtos.
Felizmente, do outro lado da rua aparece na varanda da esquina o menino Antero, triste e gorducho, que a mam, sempre de luto, no deixa brincar na rua nem com outros 
meninos: tem medo que ele aprenda palavres e maus modos.  um menino de boa famlia. E os outros, de que so? Olha-os de longe, a ele e  irm, e mostra-lhes brinquedos: 
tem muitos. O Gabriel grita de c: "Ns no, temos! " - com inveja mas com pena do menino Antero, que  das Ilhas, brinca sozinho, e s recebe visitas de senhoras 
de idade. Mas j pensam em instalar um vaivm, e at talvez um telefone.
De repente ouve-se um tiro -  o canho do Arsenal - depois um apito prolongado, e a voz da me diz algures: "J meio-dia, Senhor, que horas estas. Os dias no so 
nada!"
Se h temporal no mar, troam soturnamente trs tiros de canho - algum navio em perigo  entrada da Barra, a pedir socorro! - diz o irmo, e ficam a escutar. A casa 
enche-se de silncio e de melancolia, a me, de olhos perdidos no tempo, fala do av Colmeal, que fazia rezar os filhos pelos que andam sobre as guas do mar, Padre-Nosso, 
Ave-Maria. A trovoada rebenta: "Filha, vai buscar a vela de cera  sapateira, e acende-a. Santa Brbara bendita nos acuda! " -  um tiro familiar, inofensivo para 
as trovoadas, que l seguem o seu curso. Gostam de v-las da janela: os raios chovem nos pra-raios da casa do professor de leis,  o ponto mais alto c do stio, 
protege a vizinhana toda. A chuva desaba, fumegante. A gente no tem medo nenhum das trovoadas.
No meio disto tudo, o que realmente nos interessa so as pessoas. A mezinha sorri e diz assim: "Este sr. Julinho, coitado,  mesmo um pinanejo!" - Pinanejo, j 
se sabe,  sempre um sujeito sobre o esguio, de cala apertada, dedos queimados pelo cigarro, de coco  banda, como o sr. Pompeu, redactor, ou o general Belchior, 
que anda sempre atrs das costureirinhas da Baixa, a arrastar os ps. Desta vez o nome pegou. Pinanejo.
Mas donde lhes vem esta amizade (antiga) pela dona Miquelina


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do Pinanejo? Conhecem-se de h muito. A dona Miquelina  baixa, morena e gorducha, feiota, mas um azougue, terna e cheia de riso. "Um corao de manteiga a derreter-se!" 
- diz o sr. Augusto, e a esposa franze a testa. Gente vagamente do Teatro, com lgrimas, risos, dvidas e esplendores postios.
O sr. Pinanejo, alto, calado e macambzio, de nariz grosso e vermelho, com o bigode rapado at parece um cocheiro,  filho bastardo dum titular qualquer: uma coisa 
que faz logo pensar nos filhos de reis da Histria de Portugal de Jayme de Sguier, ilustrada. Como tantos homens, nunca teve emprego nem oficio certo, e  Amador: 
de teatro, de fotografia, de pintura, de vida taurina (simples aficionado, aqui). E de mulheres tambm. Tem a casa sempre cheia delas: " Bem caro o tem pago, um 
banana. " -  destes sujeitos que no faltam a um enterro, um dia de anos, uma festa de famlia, e beijam a mo das senhoras e as acompanham ao procurador e ao dentista, 
muito respeitosos, ao lado delas, nem se querem sentar. Em geral faz de contra-regra. Como  que um homem de to boas famlias... H uma quantidade de gente de boas 
famlias, nomes do tamanho da lgua-da-Pvoa. Mas por favor no vamos to depressa, no?
A casa da Miquelina (deixemos por agora as cerimnias do dona) abre-lhe um passadio por onde ele penetra a medo em escaninhos da vida at agora nem pressentidos.
Tanto quanto a casa dele  nua e modesta, a da Miquelina  forrada, atafulhada e mobilada at  sufocao. (Um museu de gosto... diramos ns hoje "victoriano" em 
baixa escala?, como um Palcio da Pena ao rs-do-cho do Monte? Deve ser isso.) Almofadas, puffs, divs, tapearias com minaretes, lees e homens de turbante e barbas; 
mveis de pernas torneadas e arqueadas, vitrinas com bibels, as paredes coalhadas de molduras doiradas, que nem h onde se pregar um prego! Espelhos, guarda-louas 
atulhados de vidros e porcelanas de trinta e seis mil cores e feitios, sobretudo xcaras desemparelhadas, da China e do Japo: abajures de folhos nas suspenses 
de petrleo, floreiras, jarras, andorinhas, frutas e hortalias, e at lagostas e caranguejos de faiana das Caldas, vidrada! Um bricabraque. (Tudo isto, aprendem-no 
em segredo,  do pap fidalgo que anda l por outras terras.)

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Entre os quadros da autoria do sr. Pinanejo (como ele nos  menos familiar, dar-lhe-emos por enquanto o senhor, mas sem obrigao) predominam as cenas ribatejanas, 
touros avantajados que nos fitam com ferocidade. Todos os reposteiros, colgaduras e cobertores de camas e divs so mantas rsticas, de l spera, s listas de cores 
vivas. H bandarilhas (a gente chama-lhes farpas), espadas de matadores cruzadas, trofus de corridas, capas e barretes, coletas, arreios e chapus de picadores, 
estribos e mantones, esporas e peinetas, borlas e muletas, e at a cabea embalsamada de um touro, de cornos afiados, olhos de vidro e ventas sanguinolentas, dum 
realismo superior ao natural! Oh senhores, s parece que esta gente no faz seno andar em ferras, pegas e garraiadas! Mas  evidente que o sr. Julinho, o Pinanejo, 
no pode ver um touro seno pintado.
Entre as fotografias abundam as da gente do palco e redondel, com dedicatrias como nos camarins, no sei se conhecem. At h uma do Hamlet, todo de preto, a pluma 
do barrete descada, a capa a arrastar, as pernas afrouxando ao peso da juventude, as narinas redondas. Acaba de matar Polnio, com certeza. Tal qual como o vimos 
no Prncipe Real. Sim, tambm j vamos indo ao Teatro.
O sr. Pinanejo, entretanto, disfara habilmente as rachas dos espelhos e vidros, com pernadas de roseiras floridas: pintadas, j se deixa ver. Que jeito que ele 
tem para disfarar rachas! Pinta em vidro, em seda, em cera, em tudo, at em tela. Muito "parecido" e natural. As personagens dos seus retratos so como o touro 
da parede: empalhadas. Falamos agora da fotografia. Tem vrias mquinas de trip, com foles e caixilhos de pr e tirar, complicados. Fica um tempo com a cabea 
debaixo do pano preto de guarda-chuva, a fazer gestos e a dar instrues abafadas, que a gente no entende: "Inclina a cabecinha mais para a direita, no, para o 
outro lado! Sorri! No feches tanto a boca! Abre os olhos!" - Espera-se pelo passarinho que nunca aparece, ele aperta a borrachinha em pra, e uma pessoa fica invariavelmente 
tremida, com cara de parva, ou parecida com outra. (J se sabe, quem olha para retratos est sempre  procura de quem--que-se-parece-com-quem. )
Tudo isto , no entanto, terrivelmente empolgante, e o Gabriel


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percorre a casa nos bicos dos ps, em silncio, intimidado e atento.
Mas ainda no  isso, no  s isso: h outra coisa, difcil de explicar...
Em casa dele no h atmosfera, os aromas, a leviandade, a excitao das vidas femininas, galantes, amorosas: nem sensualidade nem mistrio. A me  carinhosa e viva, 
mas um tanto severa e de uma puritana compostura. Aplica o p-de-arroz com a borla amachucada, murcha e pouco apetitosa. O pai, risonho e branco, mas neutro e reservado, 
talvez tmido, usa um sabonete cheiroso e um tnico capilar contra a calvcie precoce. Mas, por muito que a gente espreite ou escute, nunca nota nada de inquietante. 
(S uma vez a me andou a perder sangue, dizia ela que era dos ouvidos e do nariz, duma gripe que teve, e ele nunca pde tirar a limpo porque  que uma das mulheres 
falou em desmancho, e que ter trs filhos era uma bonita conta, a conta-que-Deus-fez, e tal.) Se ele faz perguntas, a me abre-lhe olhos feios!
Ao contrrio, a casa da Miquelina  um antro de excitao, embora sem derivativos nem gratificaes. H mulheres de olhos lustrosos, cor de violeta ou pervinca, 
s vezes macerados, doridos, com olheiras fundas, roxas; caras redondas, de boneca, epidermes alvas, rosadas e macias, com frequncia plidas (diz-se que  das noitadas), 
e a Sarah tem sardas, o nome sugere isso mesmo. Bocas rasgadas de sorrisos hmidos e quentes, com dentes que brilham; caracis e encanudados, mos cuidadas, rendas 
e pulseiras, perfumes e cremes, ps-de-arroz leves. Quando ali entra, envolve-o logo uma atmosfera carregada de feminidade, uma indefinvel, pesada, quase sufocante 
sensualidade, que o embriaga e enlanguesce.
As mulheres disputam-no aos gritos, festejam-no, agarram-no, erguem-no no ar, apertam-no ao seio fofo que exala aromas, comem-no com beijos. Ele no protesta, at 
gosta. No  como ser asfixiado entre os joelhos do sr. Mealha. Nem como quando teve de dormir acompanhado de duas primas, parece, mulheres feitas na opinio dele, 
ambas solteiras, novas e perdidas na solido da serrania beiroa, que o beijocavam e apertavam com frenesim: e ele, aflito, reclamava ar, queria "escupir"! Elas riam-se. 
Mas h quanto tempo isso foi, tinha ele dois anos, pouco


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mais: durante a tal viagem memorvel que ele esqueceu por completo! Aqui ningum o beija na boca, o que o teria repelido sem remdio, de nojo. H uma pureza fsica 
no imaginrio impudor.
Este mundo de meias palavras, olhadelas, vertigens e subentendidos,  impenetrvel: nunca um gesto, uma palavra, um sentido explcito. Mas tem de haver qualquer 
coisa. Por muito que o deseje - s vezes abre uma porta inesperadamente - nunca avista um corpo nu, mesmo s em parte, nem uma cena ntima: quando muito um brao, 
rendas confusas, uma bata entreaberta, um espartilho preto ou cor-de-rosa, uma pantufa de borla, um retalho de epiderme quente, um gesto mais vivo de pudor, a exclamao 
de alarme - "Ah, s tu! Gabrielzinho, no seja curioso!" - temperada de langor e riso... Porque se escondem elas?
Por exemplo, nunca lhe pedem que aperte o cordo dum espartilho, o que ele acharia perfeitamente natural: os trs irmos ajudam a apertar o espartilho e a abotoar 
as botas da mezinha. Mas isso  a me. Seja como for, esta atmosfera agita-lhe o corao. Alguma coisa na sua natureza pede isso e mais, lnguidos amplexos, carinhos, 
o roar de coisas penugentas, beijos...
As manas "Perliquitetes" (assim as trata a me, na ausncia delas, claro est) so solteiras, levianas, com chapus arrendados e floridos, e cantam. Assim mesmo 
 que ele gosta delas. s vezes tambm choram. Tm problemas de homens. Uma at j foi casada. O Gabriel sente um vago cime (ah, comea ento a entender!) e sonha 
com elas, mas no sabe o que sonha, so coisas vagas.
A grande volpia , porm, o toucador da Miquelina: espelhos, mrmores, castiais, caixinhas de cristal de cores e metais doirados, vermeil (pechisbeque, no dizer 
da mezinha), esmaltes com bosques, ninfas e pastores, frasquinhos, atomizadores com a borrachinha envolta numa rede de retrs, e as borlas de p-de-arroz, tufadas, 
frescas, leves como espumas. Gostaria de viver ali, aninhado, a remexer em coisas fofas e gostosas. J tem ido encontrar a Miquelina sentada em frente do toilette: 
"Entra, filho, entra!" Ela  to calorosa e jovial! Em saia de baixo preta, a transbordar do espartilho muito justo, os braos trigueiros


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e rolios ao lu. Se ele diz timidamente "Deixa?" - ela ri-se, e consente que ele manipule os pulverizadores e as caixinhas de cosmticos. Pode circular  vontade, 
mexer em tudo, destapar e cheirar.  uma embriaguez. Do-lhe bolachas e drops. Mas nada disso satisfaz a fome que ele tem, nem sabe bem de qu: de se apertar e fechar 
os olhos, de sentir-se aconchegado. E no  tanto ou s no corpo que ele a sente, embora lhe d uma dolncia.
A exalao da vida feminina mantm o seu segredo: no h nada de chocante nem provocador nestas exploraes e contemplaes. s vezes riem-se dele, chamam-lhe metedio, 
desta idade e vejam l que instintos, torcem-lhe com ternura a orelha ou a bochecha, e ele cora de vergonha e faz beicinho. Porqu? Tudo ali tem uma delicadeza de 
sonho sem resoluo, uma exaltao adormentada, um pudor de impulsos sofreados na leviandade.  talvez isso que constitui a qualidade potica e teatral deste ambiente, 
um ter e no-ter, ou prometer sem cumprir. Vive-se num tempo fantstico, aromtico e espumoso, de corpetes, barbas de baleia, ligas de seda, plumas, chichis, caudas, 
folhos, artifcios - um tempo, afinal breve, de valsas e insolveis enigmas. As manas Perliquitetes cantam com voz trmula e fresca:
Fru-fru, Fru fru,
no  uma coisa imensa... Fru fru, Fru frua
e alguma coisa lhe di a ele no ntimo do ser. Fala-se em cancan. Uma noite, no palco, a Miquelina, gorducha, de sombrinha e lornho, calas de rendas e folhos  
mostra, cantou uma coisa que ele no entendeu bem a respeito de anquinhas e tournures, e que lhe deixou uma grande tristeza: toda a gente deu palmas! Felizmente, 
adormeceu nos braos da me, antes do fim da festa.
Sim,  do Teatro que esta gente se nutre, e consome, sobretudo. O sr. Pinanejo, a Miquelina, as manas Perliquitetes, a dona Desdmona Belsimo, e todos os frequentadores 
da casa, so mais ou menos amadores, aspirantes ou vtimas do Teatro, com muitas dvidas e suficiente dignidade. A Miquelina, coitada, tem ambies, fala dos Grandes 
- Rosas, Brazo, Ferreira da Silva, Pato,


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Virgnia, Damasceno, Lucinda, ngela- mas nunca foi alm da revista, mgicas, msica ligeira. No entretempo, frequentam todos uma sala obscura, antiga cavalaria 
ou estrebaria ao Largo das Olarias.
Descem-se estas caladinhas e ruas sinuosas, de repente abre-se um beco, o negro portal duma casa muito velha... Na sala, as raras luzes de acetilene ou carbureto 
silvam furiosamente, pestanejam: h duas dzias de filas de cadeiras e um palco baixinho, que a gente pode alcanar com a mo. Os meninos circulam  vontade, brincam, 
fazem bulha, representam, choram, ningum ralha. De repente ouvem-se umas pancadas secas, alarmantes:  o "ladrar do contra-regra". Toda a gente diz "Psiu!", eles 
correm a sentar-se onde calha, na primeira fila podendo ser, e o pano sobe com certa dificuldade. No h orquestra. Comea o Outro-lado-da-Vida, incompreensvel.
Deixam-no ficar ( muito sossegado, este piqueno) encostado  ribalta, pasmado a olhar o cu-aberto: telas com a pintura desbotada a desfazer-se em escamas, portas 
fingidas que sacodem o cenrio ao abrir-se ou fechar-se, e um cheiro de p, de bolor e frio tumular.  o Teatro. O sr. Pinanejo, a fingir de Av, com uma coisa pintada 
no lugar do bigode (mas ento porque o rapa?), um barretinho de veludo coado, bordado a oiro e lantejoulas oxidadas, pantufas, e um grande roupo atado  cintura: 
mas reconhece-se perfeitamente, tem uma voz surda que ningum consegue ouvir bem, h quem pea "Mais alto!" ele atrapalha-se, gagueja, perde o fio  conversa, e 
o ponto berra... Vestidos absurdos, rendas velhas, trapos, cabeleiras cadavricas, espadins, casacas bordadas no fio, saias de balo, chapus de trs bicos, tudo 
surrado e descolorido, alugado naqueles guarda-roupas e cabeleireiros teatrais da Rua da Palma, onde se vestem os chechs do Carnaval: e por isso mesmo mais sincero 
e comovente.
Apoiado aos cotovelos, em baixo, ele olha e sonha. So milionrios, gals, aristocratas (fica-lhe este nome: Marqus de Villemel), entram, saem, do gargalhadas 
e gritos de arrepiar, h sempre uma carta que desapareceu ou denuncia tudo, s vezes Ela foge l para dentro com o Outro, ou beijam-se no banco do jardim, falam 
 Lua invisvel, amam, desmaiam, morrem, e o pblico no entende nada: ri-se perdidamente, aplaude, a Miquelina


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tira a cabeleira postia (no tem cabelo que preste, diz ela) e faz vnias muito rpidas, a agradecer, at tem lgrimas nos olhos. A sala vem abaixo de entusiasmo. 
E ele! Ele tem vontade de chorar, saudades, cimes impossveis. S ele sente aquilo, a imensa melancolia do incompreensvel, que o faz sofrer enquanto os outros 
se riem.
Noutras ocasies h duetos, monlogos e canonetas. Foi assim que a mais nova das manas, a Paula, vestida de soldado, com um peitoral encarnado, botes e charlateiras 
de metal amarelo, e barretina a valer, os olhos a arder e as bochechas pintadas como uma boneca, cantou uma noite, montada num pau de vassoura:
Atrs do capito subo a montanha, a cavalgar, a cavalgar...  noite, a inverneira  tamanha, de arrepiar...
No fim a gente repete em coro " Nicoli,  Nicol!", a bater com os ps no cho, assim, assim, com fora, at que a dona Mariana do Colgio-para-meninos-de-ambos-os-sexos, 
c de baixo, desata a bater com o ponteiro no tecto. E a mezinha ralha. O irmo corre  travessa nova de So Domingos e compra uns folhetos muito baratos, canonetas, 
dramas e comdias, h de tudo: para um Cavalheiro e uma Senhora, dois Cavalheiros e uma Senhora, duas Senhoras e dois ou trs Cavalheiros, e assim por a fora, conforme 
os gostos e as combinaes desejadas. Foi para isso que ele vendeu a Gramtica da Lngua Alem, do professor Apell, at o paizinho lhe puxou uma orelha e chamou 
vadio: diz ele que a perdeu! Mas a gente compreende perfeitamente, porque o Alemo  uma lngua muito difcil, imagine-se que at tem casos!... Talvez ele queira 
seguir outra carreira? O pai, pela sua parte, afirma indignado que o Teatro  bom para pelintras e caloteiros, gente sem eira nem beira: que o diga o senhor Roque 
da mercearia! A Contabilidade e Escriturao Comercial, isso  que  vida, e o mais so tretas. E que  que ele tem que andar sempre a cheiricar atrs de saias, 
um fedelho? J l no Hotel no faz outra coisa. Ah, bom pau de marmeleiro! V pr os culos pretos, ande!
O Teatro  um lugar de exaltao, mistrio e liberdade, onde a



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gente pode amar, sofrer, rir e chorar, fingir  vontade, mascarar-se, declamar, correr atrs dos outros e perder-se invariavelmente na confuso das cordas e dos 
bastidores, das lonas e armaes, baldes de gua e serradura, at se sentir angustiado, sem saber o caminho l para fora. Ento, esbarra-se num bombeiro fardado, 
de capacete engraxado e cinturo s riscas, com a machadinha ao lado muito areada, ou com um polcia que nos agarra a fingir de ests-preso, e a gente d a entender 
que no quer, que tem medo, e tem mesmo, mas sente uma consolao, um pavor gostoso em acreditar nele e ser salvo. Sobretudo quando toda esta gente  nossa conhecida, 
e anda a fazer de contas que no . O Teatro  como o Carnaval. Excita, comove, amedronta, duplica a vida. Sente-se a gente com a alma  solta. S agora ele compreende 
que os " benefcios" do Trindade e do Prncipe Real, no tempo distante em que o deixavam ficar com a Vizinha Delfina, j eram Teatro. Era da Miquelina, da Filomena 
e da Desdmona (cuidado no tropear e dizer Desdemna!) que se tratava. Ele  que ainda as no conhecia.
Est visto que ele adora a me, gosta imenso dos irmos, mas a sua curiosidade pelo pai no tem limites. Como ele est sempre ausente, sai cedo e s volta de noite, 
nem h tempo de a gente o ver e gozar. No tem domingos nem feriados, uma vida de escravo. Pobre senhor Augusto. Com aquele sorriso prazenteiro...
Quando ele sai, de manh, em passos mesurados e quase saltitantes, tossindo de leve ( costume, e fica bem, as pessoas terem um bocadinho de bronquite crnica), 
olha as botas de calf impecavelmente engraxadas, e sorri. Veste-se com apuro, e os filhos tm muito orgulho nele. At a me sorri com bonomia: "Vaidoso! s um fidalgo! 
" - Ele baixa os olhos: "Que querem vocs,  a minha vida, o ganha-po! "
Chegado  esquina ainda se vira a dizer adeus: mas o Gabriel  que j no ousa gritar da sacada, como dantes, "Adeus paizinho! " - No  que lhe falte vontade, mas 
a vizinhana  outra, e em frente o menino Antero, rfo de pai, parece vigi-los com os olhos rasgados e tristes.
Assim que se ele foi, o filho corre ao quarto de vestir. Bem

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ralha a me: "No mexam nas coisas do vosso pai!" - mas o guarda-fato  um antro de tentao, e h uma tal volpia nisto... Os fatos escuros pendem, lisos e correctos, 
um deles  de "diagonal" ingls! O colete de veludo com pontinhos verdes, as gravatas de seda preta bordadas a florinhas, as camisas um primor, com peitilhos variados, 
de piqu, s pregas ou plissados; os colarinhos baixos, abertos, porque ele  gordo e tem o pescoo curto. Alguns so de oxford, de batista, panos finos, ou s riscas, 
como as ceroulas. At os suspensrios, com fivelas que parecem de ouro, o fascinam. Na sapateira tem vrias bengalas, duras, polidas, fibrosas, a de malaca com anis, 
outras com ns, e com cabos de todos os feitios, de chifre e osso a imitar marfim, de prata, e at de ao com aplicaes, a moca de Toledo. H uma de cavalo-marinho, 
muito fina e flexvel, com transparncias de mbar velho (da cor das boquilhas), e um delicado casto de prata lavrada com as iniciais dele entrelaadas. Tem um 
cheiro de couro salgado, que o Gabriel saboreia, mordendo-a.
Donde vm estas coisas to finas? Algumas tm etiquetas de lojas da Baixa, onde o sr. Augusto manda os hspedes que chegam de fora; outras, como a mala de couro 
ingls, com fecharia de bronze, e as bengalas, so presentes de amigos, objectos esquecidos por africanistas ou "brasileiros", ou ento penhores de caloteiros. H 
quem abandone as bagagens! At tem um grande revlver de seis tiros, todo de ao azul e nquel, de cano estriado, metido num coldre militar, mas a mezinha no deixa 
brincar com ele, j o escondeu.
Ele veste as roupas do pai, cala-lhe as botas: mas o casaco chega-lhe aos ps, as mangas so imensas, os ps danam-lhe dentro do calado, a bengala  da altura 
dele. Depressa se cansa. Na caixa dos sabonetes Home Soap, que conserva um distante aroma, no se pode mexer: ali esto os segredos do av Callante e os Papis Importantes, 
aplices, documentos, certides, ttulos e um passaporte amarelo e gasto onde se l o nome do paizinho: Agustn Canle y Ryal, um nome espanhol, melhor dizendo galego. 
Tem a coroa de Espanha! Parece que no, mas isto entristece a gente um bocadinho: torna o pai mais estranho...  aqui tambm que a dona Adlia guarda o cordo e 
os anis, o jogo de broche e safiras (falsas, mas to bonitas que ningum diria) a


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fingir de forgueteminotes, vulgo miostis, e o brinco de "brilhantes" do casamento, o outro perdeu-se no passeio a Sintra, e  uma grande pena: "Mas deixem, que 
ainda hei-de mandar fazer um alfinete de gravata para o vosso irmo, quando ele acabar o Curso!" - Nesta caixa no se toca, mas quando ela sai, no sei se me entendem...
Na parede h diplomas emoldurados duma sociedade de socorros mtuos e de uma companhia de seguros. Por cima da cama, o retrato dum santo, encostado a uma rvore, 
de tanga, coberto de chagas de martrio, mas to sereno e natural, v-se logo que no lhe di nada. No tem resplendor. Tambm h uma Senhora, de manto empolado 
e coroa  banda: no se lhe sabe o nome,  muito antiga.
O coto de vela de cera a Santa Brbara bendita continua na sapateira, mas ou no tem havido trovoadas, ou a gente lhe perdeu o costume. E a descaladeira de chifre: 
porqu des, se ela s serve para a gente se calar? E a bandeira azul e branca...
- Que ests tu a fazer to calado, filho? Este pequeno... Vai para a sacada, anda. Vai engraxar as botas ao teu pai. Ou arear as torneiras e as palmatrias. O trabalho 
do menino  pouco, mas quem no perde  louco!








X
TU IRS E VOLTARS
- No vos contei eu j a do rapaz que vivia com a me, e queria ir para o Brasil?
- Conte outra vez, conte outra vez! Nunca estamos cansados de a ouvir!
- Era um rapaz que vivia s com a me, muito pobrezinhos, e; tudo o que tinham de seu era uma vaca e um lameiro. Com a fominha que passavam, no se lhe tirava aquela 
da cabea: "  me, deixe-me ir pr Brasil, que me hei-de encher de ganhar dinheiro! " E a me tornava: " filho, ns com o pouquinho que temos sempre nos vamos 
governando. Que vais tu fazer agora para o fim-do-mundo? Quantos por l ficam, que nem deles se torna a ouvir falar! E eu no tenho outro amparo seno tu. "
"Passado tempo, tornava ele  carga: " me, deixe-me ir pr Brasil, que a quero tirar da misria em que vive!" Tanto pediu, tanto teimou, anos naquilo, j estava 
um homem de barbas na cara, capaz de casar e ter filhos, que ela um dia, para lhe fazer a vontade, vendeu a vaca, empenhou o lameiro, e comprou-lhe a passagem. Ele 
ento, arrependido, chorava e dizia: " me, como  que lh'eu vou pagar isto! S voltando rico!" E ela: "Deixa, no te consumas. Para a malga do caldo sempre Deus 
me h-de dar. Seja' feita a Sua vontade." E acrescenta: "Tu irs e voltars, na praa me encontrars, e ento me pagars."
"Por mais que matutasse, ele no entendia estas palavras. Mas sempre que falava no caso, e chorava, ela repetia: "Tu irs e;
        75
voltars, na praa me encontrars, e ento me pagars." Arranjou
he a trouxinha com o enxoval, meteu-lhe a broa de milho e o presunto de fumeiro no saco, e ele abalou para o Brasil.
"Por l andou a mourejar anos e anos, a ajuntar dinheiro, sem mais se lembrar da sua velha, nem sequer de lhe escrever duas regras. At que um dia, sempre solteiro 
e j podre de rico, se lembrou dela e teve muitas saudades. Fez as malas, que carregavam um carro de bois, tomou o navio  vela, nesse tempo ainda nem vapores havia, 
e passadas semanas desembarcou em Lisboa. Foi logo direito  sua terra, na diligncia, ajoujado de riquezas, para tirar a me da misria em que ela vivia.
"Chegado  praa, que h-de ele ver? Um grande ajuntamento. Indagou que era, que no era, e dizem-lhe assim: "Saiba vossa senhoria que foi uma velha muito velha 
e muito pobre que morreu, e pediu que no na enterrassem logo, porque o filho est pra chegar e tm umas contas que ajustar ali na praa. Ora j l vo trs dias, 
ele no chegou e vo-na enterrar."
"O homem que isto ouviu, deita a correr para ver quem ia no caixo: era a me! Foi quando lhe lembraram as palavras dela: "Tu irs e voltars, na praa me encontrars, 
e ento me pagars." S ento ele percebeu: arrepelou-se, chorou muito, teve grandes remorsos, mas de nada lhe valeu. A velha estava morta e bem morta. Vai ele, 
repartiu grande parte do seu dinheiro pelos necessitados, e a todos repetia: "Tu irs e voltars e na praa me encontrars, e ento me pagars."
- Mas se ela estava morta, como  que ele lhe havia de pagar? - diz a gueda com a voz embargada: mas isto  s perguntar por perguntar. - Ele meteu o dinheiro no 
caixo?
- No h dvida que a morte no pague! - diz a dona Adlia.



XI
"TOMA L CINCO RIS"
O av Callante chegou da jornada interminvel de quase um dia e uma noite, pelo Correio, que o atirava de manh cedo para casa do filho e da nora, a tresandar a 
terceira classe e a tabaco forte entranhado, com o varino amarfanhado, o restolho da barba dura e grisalha na cara, carregando as maletas de cabedal safado e o saco 
de ramagens.
Os netos conheciam-no mal: a gueda e o mais velho ainda se lembravam dele, mas o Gabriel, esse, esquecera-o completamente. Era em todo o caso um acontecimento: 
o velho intrigava-os com a linguagem estranha e a voz ciciante, a fisionomia cheia de mobilidade, o sorriso manso e velhaco, duma bonomia que o tornava atraente, 
os olhitos matreiros de mongol, as mandbulas possantes, o nariz curto e grosso, as orelhas grandes, perfeitas e bem unidas ao crnio redondo e rijo, onde o cabelo 
ruo rareava. O prprio cheiro do campons os seduzia.
Tinham sobretudo esperana de que o av lhes trouxesse daquele maravilhoso chocolate galego, negro e duro, em pranchas quadriculadas no papel gorduroso, que a me 
ralava e fervia com leite. A casa enchia-se dum aroma que os fazia saltar mais cedo da cama, sem exortaes.
Quando chegavam parentes ou conhecidos da "parvnia", era frequente trazerem presentes modestos: algumas chourias, nos casos mais srios um presunto de fumeiro, 
amarelo e ranoso, ou ento (isto agora da parte da av Ryala, com muitas saudades para


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sua nora e os seus netos) uma empada de galinha, que saa inteirinha das entranhas do bolo tostado, tenra e cheirosa, banhada num molho branco, colide e picante, 
que era de se lamber e chorar por mais.
Esperava-os desta vez um desapontamento: para escapar  vigilncia dos carabineiros, o Callante tinha escondido as pranchas de chocolate no cs das calas. Depois 
adormecera, esquecido delas, e assim viera desde a raia do Minho at Lisboa, recostado numa almofada de chocolate fondant, que lhe deve ter tornado mais macio o 
assento de pau da terceira. Entrou em casa resmungando, com o presente empastado nas ceroulas, nas calas e na carne, e correu a despir-se no quarto das lavagens. 
Somtico e lamurioso, olhava aquela desgraa e dizia:
- Talvez inda se poda aprovechar!
Para os netos foi um desgosto, uma jornada perdida. A me jogou tudo no barril do lixo, meteu as roupas na barrela a escaldar, e por muito tempo se riu do incidente:
- Esta s do Callante. Nunca me h-de esquecer o pudim de chocolate!
Nessa noite, quando ela lhe enfiava a camisola de dormir para o meter na cama, o menino indagou-lhe ao ouvido:
- Porque  que lhe chamam Callante, mezinha?
-  uma alcunha. Quando era novo, o vosso av costumava dizer: "Callante, callante.!" - que  como quem diz bico calado. Vocs nunca ouviram dizer que o calado  
o melhor? Cabra que berra, bocado que perde? V, boa noite...
Muitos conterrneos chamavam ao sr. Augusto "o filho do Callante", outros "o filho da Ryala", conforme os partidos. Quando algum dos pequenos fazia uma brabeira, 
a me ria-se: "s mesmo neto do Callante! Quem sai aos seus no degenera... " Aquietavam-se logo. Tinham a vaga noo de que ele era avarento e mau, embora a nora 
o tratasse sempre com aquele bom modo que tinha para toda a gente. Sabiam que ele vivia h muito separado da mulher, a av Ryala, e a perseguia com um dio vesgo, 
de campons. Quando no andava por Lisboa a xunt-los cactos, vivia sozinho na casa do Bairro do Pousinho, toda de pedra lavrada, que edificara por suas mos, numa 
encosta umbrosa e rica de guas, sobranceira ao vale; e ela, no pardieiro sem janela onde


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nascera, do outro lado da ribeira, em Fondo da Villa. O Callante no podia perdoar ao filho o amor que este consagrava quela que lhe dera o ser. Ouviram-no uma 
noite, sentado no banco da cozinha, enquanto a dona Adlia lavava os pratos do jantar, a falar com rancor, a meia-voz, da "mala molher":
- Ora, deixe-se disso, pai! - tornou a nora com bondade. - Ela  gaiteira, amiga de folgar e bailar, mas honrada e poupadinha, uma verdadeira galega capaz de pegar 
numa enxada como um homem. Criou este filho sozinha, e quer-lhe como s meninas dos seus olhos. Que mal lhe fez ela, senhor?
Ele fitou-a de plpebras semicerradas, maxilas a ranger, capaz de explodir:
- Robou-me este filho, que podia ter sido o meu brao direito!
- Roubou-lho? E para que o queria vossemec? Para o encher de trabalho e mo-lo com pancada? Se nem  escola o mandou... Se no fosse a Ryala, o seu filho nem a 
ler nem a escrever tinha aprendido. O que ela fez, mais a santa da me Xuana, para o livrar das sortes! Deixe-a na paz do Senhor. Que vossemec, a verdade seja dita, 
nem uma perra chica lhe deu nunca, nem como isto! Nem um leno para a cabea. Que mais queria?
O velho no gostava de ouvir verdades, nem mesmo da nora, a quem admirava e respeitava, e a mais ningum o teria consentido. Os olhos tiveram-lhe um brilho de malcia 
contente, e disse a rir baixinho:
- Non, nunca dei na camisa a a molher... Ninguma me comeu o suor do rosto!
Calou-se, e depois tornou com muita seriedade:
- A minha filha  que  tia molher para axudar a um homem!
Agastada, a dona Adlia dizia nessa mesma noite aos filhos:
- Este vosso av toda a sua vida tem sido um unhas-de-fome. Nem sei como o posso aturar. O que ele me mi! Deus nos d pacincia!
Foi assim, em retalhos, ora dela ora do pai, ou mesmo dele, que lhe foram conhecendo a histria.
O Callante era natural de So Tiago de Borbn, ayuntamiento de Redondela e provncia de Pontevedra, que tantos galegos leais


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deu outrora a Portugal. No tinha herdado nada, alm da fora bruta dos ancestrais cavadores, e passou o melhor da vida labutando dia e noite, alternadamente alguns 
anos no terrunho e em Lisboa, onde vinha arrebanhar os vintns para comprar terras, demandar devedores, vizinhos e rendeiros, e erguer as pedras toscamente afeioadas 
de que so feitas por l as casas, os canastros e as almas. Quanto ganhava enterrava em lameiros, veiguinhas, matos e pinheiros. Chegou a ser um dos quarenta maiores 
contribuintes da parquia, grande orgulho o seu, e possua o maior e mais belo canastro da aldeia, assente em seis altos pilares de granito, que ele mesmo talhara 
e erguera.
Aos 25 anos casou com Manuela da Ryala (do nome da me, Xuana Ryal), alguns anos mais nova do que ele, no pde subjug-la ao seu gnio tirnico, e depressa a abandonou, 
j prenha do filho nico. (Antes e depois disso teve vrias fmeas na Galiza; das que desfrutou em Portugal, quando em mar de confidncias, falava apenas duma andaluza, 
bida e pechosa, com casa de hspedes ao Arco Escuro, que em rapaz o requestara com bravura. Mas no havia nenhuma que o prendesse: "Molher, s a que me sirva! " 
Alm do legtimo, tinha dois filhos bastardos, cada qual de sua me: como um senhor feudal, o que prova a lei da imitao. - Bom, tambm o sr. Pinanejo era "bastardo"!)
Este filho, o sr. Augusto (na Galiza, Agustn), foi entre eles o eterno pomo da discrdia. O Callante queria-o consigo para o meter a roar mato, a lavrar atrs 
dos bois, a guardar o gado pelos montes, a regar-lhe as beras e a segar-lhe a erva dos lameiros cor de esmeralda. Mas o menino fugia para a sua nai e a av Xuana, 
que lhe davam carinho, escola e sopas quentes. O Callante foi mais uma vez rapt-lo  cara-metade: arrastava-o para a casa do Pousinho e moa-lhe os ossos com pancada. 
Depois mandava-o para os montes escalvados, com as vacas e as ovelhas, e por l o deixava sozinho. Uma noite, ou porque ele tentou fugir, aterrado com a desolao 
daqueles cabeos bravios, ou porque adormeceu, com risco de o gado ir retoiar no mato de algum vizinho chcaneiro, o Callante amarrou-o a uma carvalha, e ali o 
deixou ficar at o romper do dia, a ouvir uivar os lobos. Muitas vezes o senhor Abade, protector da Ryala, ovelha fiel e pagadeira, o foi arrancar s unhas do pai 
tirano...


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Um dia, por altura de uma feira, o galeguinho submisso risonho e cumprimenteiro que ele j ento era, de cara redonda rosada, ia estrada fora, muito lampeiro e orgulhoso 
da roupinha nova de estamenha comprada pela me e a av com as magras economias, eis seno quando lhe surge pela frente o pai, que voltava para casa,  cabea das 
vacas ndias, ruminando (ele) nos duros que esportulara e recebera.
Pela carreteira, de mistura com o gado, era gente aos magotes envolta em sol da tarde e poeira; ouviam-se alentos e gaitas de foles, rufos de pandeiros, vozes lentas 
e agudas de muinheiras, choradeira dos harmnios, o raque-raque das botifarras no macadame: um ar de festa, enfim, a que a fadiga e os vapores do vin de Toro imprimiam 
uma languidez e tontura voluptuosa.
Deram de caras um com o outro, o pai possante e o fil diminuto, e este ficou sem pinga de sangue: como se visse pel frente um touro tresmalhado a fit-lo com os 
olhos injectados Desbarretou-se e pediu humildemente a bno, a tremer. Mas Callante,  vista da roupinha nova, insulto  sua lei de campon avaro, e prova do amor 
com que a "mala molher" lhe arrebatava fora produtiva do inocentinho, ficou cego e surdo para o sangue a fraqueza, o lugar e o momento: rugiu qualquer coisa que 
o filho de medo, nem entendeu, deitou-lhe as mozorras  gola do fatinho acabado de comprar s Deus sabe  custa de quanto negado  boca, e, com um puxo, rasgou-lho 
de alto a baixo Depois, demente de fria e cimes, arrancou-lhe os cales, f-los em frangalhos, rosnando como um buldogue enraivecido, e pisou tudo a ps no p 
da estrada.
Calaram-se em volta as gaitas e as vozes; at os bois pareciam baixar o focinho hmido em preito de sujeio  fora, e o povo assombrado murmurava. " o Callante 
mailo filho, o Agustn d Ryala!" E o menino, inocente e seminu, de mos postas, chorando e balbuciando ao sol do cu (que no teve um justo raio naquela hora, Senhor!), 
abalou a fugir para o pardieiro das boas mulheres. Atrs e de longe, brandindo o aguilho ameaador alheio ao dio mudo da gente que assistia, o Callante retomou 
marcha com as vaquinhas, seu todo-amor e seu tesouro, e ainda lhe berrou:
- Ahora vaite queixar  puta da tua nai!



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Quando Agustn chegou  idade de servir o rei, andava a Espanha embaraada em guerras e rebelies coloniais, no derradeiro desmanchar de feira do Imprio que foi. 
A guerra de Marrocos, que resumia em si todas as guerras, era o terror das populaes rurais. Que tinham que ver com as glrias da Cruz ou da Coroa aqueles pobres 
cavadores sem cama nem camisa? O governo de Madrid mandava os soldados catales guarnecer a Galiza, dizia-se, pondo em jogo as rivalidades e preconceitos que tornam 
certos oprimidos o aoite de outros mais oprimidos, e atirava com os galeguinhos humildes para as campanhas ultramarinas, donde era fama que nenhum tornava inteiro 
ou com vida. (Espantem-se agora que eles voltassem mais tarde para as Amricas, dispostos a capitalizar, em ventas e haciendas, o fruto do seu imperial sacrifcio!) 
Mas a lei facultava aos recrutas o darem homem por si. Era questo de pesos.
Vendo o muchacho, que viera de Lisboa para as sortes, com bom corpo para o dar ao manifesto, as Ryalas matavam-se a cogitar da maneira de o livrar do servio e da 
morte certa. Foram, de xaile pela cabea, em peditrio, bater ao ferrolho do Callante mas ele, vingativo e contente de as ver sofrer, agora que
dava o filho como perdido, fechou-se aos rogos delas: se o moo servir o rei, no seria para bem do pai, no! Pois que se amanhassem. E as duas probinhas meteram-se 
a trabalhar para o homem por ele. Pediram emprestado a um onze
o "americano" Don Federico, que lhes comeu Mas Agustn livrou-se da guerra de Marrocos, e boa, onde desde os dez ou onze anos labutava para santas criaturas. Muitos 
mais anos levaria ainda
para liquidar a dvida: e para todo o sempre absorto e, gratido e amor.
Violento e esforado, quando se irritava, o Callante perdia e transformava-se numa fera. Era ento que o seu torso possante e felpudo, os braos longos e arcqueados, 
as mos
grossas e engelhadas, a queixada tremenda com os dentes pequenos e aguados, lhe davam a aparncia dum gorila enfurecido. S ento ele parecia esquecer momentaneamente 
o dinheiro e os bens terrenos, e o rancor triunfava nele da avareza - nisso, ao menos, honra lhe seja feita!



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Um dia, cansada, uma vaca de trabalho recusou obedecer-lhe: espancou-a. O animal rebelou-se: cego de raiva, o Callante trespassou-a com o aguilho. De outra vez, 
meteu-se-lhe em cabea, jungir ao arado um touro de cobertura que lhe tinha custado um saco de duros: o bicho resistiu, quis escorn-lo. O velho agarrou pelos chifres, 
e sozinhos frente a frente, no lusco-fusco do amanhecer, travaram combate em pleno campo, entre os cerros nus; como num circo romano, deserto! O homem venceu, o 
auroch deu em terra com o espinhao fracturado, e foi preciso acab-lo e sangr-lo ali mesmo.
Pois este bruto de fora, este homem sem corao nem pie dade, quando falava da terra e dos animais, crescia-lhe a gua na boca, tinha branduras e cicios de amor 
na voz. Com que rizinho de manso gozo ele repetia aos netos, no seu galaico-portugus: "Te nho al um tourinho... " Era toda a poesia da sua vida. Em compensao, 
ningum se lembrava de lhe ter ouvido uma palavra de ternura por um ser humano.
Inexorvel consigo mesmo como o era com os outros, ele prprio contava que muitas vezes, faltando-lhe a ajuda - o porque, de avaro, no quisesse pagar o justo; ou 
porque lhe tinham medo os outros camponeses, mais pobres - depois de mourejar de sol a sol, lavrando, regando, roando mato ou picando pedra, voltava a casa e, comida 
a ceia frugal, tirava o gado da corte para o levar ah pasto, nos montes. Bbedo de sono e fadiga, para que as vacas lhe no fugissem se adormecesse, amarrava-se 
pelo pulso a uma delas e encostava-se por terra:  maneira que iam retoiando e andando, at se deitarem a ruminar, osanimais arrastavam-no, aos estices, estremunhado, 
rasgando o corpo e a cara nas pedras e nos espinhos... Tal era o Callante( Como furtar-se a admir-lo ou a tem-lo?
Os meses correram.
Naquela tarde, a casa quieta e silenciosa, na meia luz das janelas interiores encostadas para atenuar a calma do Agosto lisboeta, o Callante foi-se meter sozinho 
na saleta, onde estavam a secretria de mogno e as detestveis cadeiras de bilros.
O menino ficou intrigado: o av levava consigo uns embrulhos de jornal e a maleta de couro safado, e a me tinha dito: "Agora,
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no vo incomodar o vosso av. Deixem-no sossegado. " Nada mais era preciso para que nele a curiosidade fosse mais forte que o temor duma palmada. Alm disso, na 
sua aborrecida solido, queria companhia, queria ouvir as lengalengas de cego de feira que o av recitava, com os olhinhos pardos a rir por entre as plpebras de 
mongol. Tudo no velho o atraa, incluindo a fora tremenda, que as falinhas e os modos brandos no conseguiam disfarar.
Foi nas pontas dos ps, e ps-se a escutar  porta da saleta: no silncio da casa ouvia o pigarro do velho, de vez em quando um murmrio indistinto e cadenciado, 
de reza, depois alguma coisa tilintava, e o Callante resmungava. Chegava c fora, pelas frinchas, o cheiro acre e forte do paivante.
Ao fim de alguns minutos no resistiu mais: com mil cautelas deu volta ao fecho, entreabriu a porta e espreitou: sentado  escrivaninha, com as mangas da camisa 
de riscado e da grossa camisola enroladas nos braos hercleos, suando e chupando o cigarro apagado, o Callante contava e empilhava amorosamente o seu dinheiro!
O menino ficou alguns momentos assombrado com aquela riqueza: as torrinhas de prata, cobre e nquel cobriam o tampo forrado de oleado preto. Havia notas, mas essas 
no lhe interessavam: para ele s o metal era dinheiro. Quanto a oiro, se ali o houvesse, no saberia distingui-lo do cobre novo. Era a prata fina e cantante que 
sobretudo o atraa, com o seu brilho fosco. Quanto dinheiro! Mais de cem mil-ris, com toda a certeza. O Callante devia ser o homem mais rico deste mundo! Por isso 
se fechava assim por dentro, a sete chaves.
O velho pressentiu-lhe a presena, pois a certa altura voltou devagar, fitou-o com os olhinhos matreiros, sorriu ternamente e
chamou-o em voz baixa, com um sinal do dedo.

- Ven, ven ac meu netinho!
Agarrou a tremer uma moeda, e deu-lha como se fosse a hstia consagrada:
- Toma, toma l cinco ris... Guarda bem guardadinhos! O dinheiro  sangue! E ahora vai-te adonde os teus irmos. Pero non les digas nada, h? - acrescentou com 
ar entendido. Estendeu-lhe


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a mo salgada para que a beijasse, e acariciou-o com a
magnanimidade de quem lhe tivesse ofertado um rolo de libras: - Vai, vai...
O neto, sem falar, apertou a moedinha na palma da mo. Foi quando a dona Adlia, tendo dado pela falta dele, acudiu: - O seu neto veio interromp-lo, pai? Desculpe! 
Isto, crianas... Eu no te tinha recomendado que no viesses incomodar o
teu av?
Arrastou-o pelo brao e fechou a porta, Mas no lhe bateu. O Callante l ficou metido a contar o seu tesouro.







A SECRETA MELODIA
Depois do toucador da Miquelina, o que mais os tenta ali  a sala, com duas janelas de peito para a rua: atravancada de mveis, um div baixo e muitas almofadas, 
vitrinas com bibels, ao centro a mesa coberta com um pano escuro, de borlas, e em cima dela o lbum de arestas doiradas, com fotografias de famlia a spia sobre 
cor de marfim. E - de leve agora, por favor! - a Caixa de Msica.
Quando se ergue a tampa de madeira lavrada, v-se uma chapa de vidro como nas urnas dos Reis mortos, em So Vicente de Fora: dentro, um complicado mecanismo de molas 
e rodzios, um rolo de metal amarelo com bicos, e uma espcie de pente. D-se corda, o rolo gira devagar, os bicos esbarram no pente, cujos dentes vibram, e a melodia 
brota do silncio como uma flor de nostalgia no escuro.
Ficam horas a ouvi-la, de p, encostados  mesa, sem nunca se cansarem. Tiram dela, na sombra da sala, todo o suco potico da vida. Esta melodia vai talvez prolongar-se 
pelo tempo fora, entremear-se nele, colori-lo da sua tonalidade cristalina e melanclica. (J assim foi com a campainha da Aleluia e os sinos de So Thiago.) Quem 
sabe l se outras vidas, todas as vidas, no sero tambm impregnadas para sempre de um tom, de um incidente, de uma frase ou melodia?...
- Olha - diz a irm - l esto eles a danar!
 sempre a fantasia dela que d vida s coisas: com efeito, em


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cima dos mveis e dentro das vitrinas, pastorinhos, damas e cavalheiros em biscuit de Saxe, ou Svres, a chinesinha que diz-que-sim com a cabea, o sino da tampa 
daquela caixinha, tudo parece viver, mover-se, girar lentamente ao som da melodia. Mas sabemos de h muito que as coisas inanimadas tm uma vida prpria,  parte, 
impenetrvel.
A Caixa calou-se, ele estende a mo para lhe dar corda, a irm agarra-lha: s ela tem autorizao para mexer naquilo,  ela a vocao musical da famlia. E a melodia 
recomea, uma e cem vezes.
Acabado o jantar, as mulheres ficam de conversa  mesa, a tomar caf e licores, como nos restaurantes de Paris, eterno sonho, onde o cancan, supe-se, faz furor 
e devastaes. Ele e a Dalilah entram na sala s escuras e brincam num sussurro. Mas ainda a no conhecem!
Trigueira e mexida, dois ou trs anos mais velha do que ele, vem sempre ali com a tia Desdmona, imensa e gorda, que cheira a azedo, fala de parentes grados, e 
 tu-c tu-c com os Grandes do Teatro, sobretudo o Chaby (mas diz-se que, deste, ela s tem a obesidade). H pessoas que nunca se desiludem, a fome tem os seus 
pios. A Desdmona anda sempre fatigada, aos ais, cai pelas cadeiras com falta de ar e transbordante de gorduras, pobremente vestida de preto, com uma vida apertada 
em espartilhos, dvidas, jantares de esmola, "benefcios", ambies goradas e lamentos. Ningum lhe d um papel decente, no a querem ver em cena, com aquele talento!, 
toma o Teatro a srio, em nova o pap levava-a a Paris, aquilo  que  vida, em Portugal o Teatro  o que se v, esta fome, ela no nasceu para a baixa-comdia, 
o que este povo quer  rir, farsadas, ser Oflia era o seu sonho (sabe ingls), ficou Desdmona na vida, estrangulada, que a Vida  o Teatro a srio... Tem esta 
sobrinha, um grande encargo, que anda na escola e h-de vir a ser actriz como ela, a actriz que ela no pde ser. E que sabemos ns disso? A ns o que nos interessa 
 o mistrio que desabrocha e se desdobra e nos convida a cada passo. O futuro no existe.
A Dalilah no quer saber de bibels nem de caixas de msica. No borda, no pega numa agulha, no sabe de cozinha, no quer

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estudar - quer ser parteira, e brinca. Brinca s escondidas com os
meninos mais velhos: aos jantarinhos e matrimnios, e como
nascem os bebs. Mete-se nos recantos escusos, atrs de reposteiros, debaixo das camas, dentro de armrios, e murmura palavras secretas, aperta-se contra eles e 
diz: "Agora assim... " - Foge de casa para o Monte, nestas noites clidas de entontecer, para andar com os rapazes. O Gabriel no entende, pensa nela e segue-a...
Como h sempre visitas, jantares e conversa, a galhofa prolonga-se  mesa, os adultos no fazem caso, as crianas brincam  vontade, inocentes, entregues  curiosidade, 
perdidas na casa sem luz. So quase nove, que silncio o deste stio. Que dizem eles na obscuridade, entre os reflexos dos lampies a gs da rua deserta, com manchas 
escuras e sombras chinesas nas paredes e nas caras? De que brincam, de que segredam, de que  que os nutre a fantasia?
A Dalilah olha-o fixamente, de perto, com os grandes olhos negros e expressivos, fala-lhe ao ouvido ou junto da boca, com um hlito excitado que ele quase pode morder. 
H sempre alguma coisa de proibido e sedutor no que ela diz ou faz, ele no entende mas sente bater o corao, um calor e aperto na garganta. Sozinhos na sala, na 
confuso dos mveis, o anseio e a antecipao latejam-lhe em cada fibra.  a primeira vez que brincam assim a ss - que quer ela dizer, que faz agora, que procura? 
Aonde vo as suas mos curtinhas, geis e morenas, mexendo com ele? E de repente est sentada no sof com borlas ( um tempo de borlas, as senhoras sentam-se em 
roda, ao sero, a fazer borlas), ele agachado no tapete, e ela murmura "Queres ver?" - com a voz abafada e quase rouca.
Mas ele no v, ou no percebe nada, a no ser que os dedos do mistrio o afogam na garganta, onde o corao lhe explode. Fica a olhar a palidez macia, manchada 
de sombra e luz, uma curva suave, um vago trao cor de spia... Alguma coisa lhe diz que toca a essncia, o passado, a origem de tudo, e  isso que o comove e o 
enlanguesce. A roupinha branca pende, arrasta no cho dois fitilhos de nastro. Foi quase s um instante de mundo entreaberto, a Dalilah pula de p, segreda:
- Vem algum...
Mas ele no ouviu nada! No instante seguinte esto ambos em


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cima dum banquinho, a olhar a rua, a fachada cor-de-rosa da c do menino Antero, que dorme com certeza a esta hora, com o seus brinquedos inteis. H um certo orgulho 
em estar assim de p at to tarde, e ento com a Dalilah!
- V se ela ainda l est.
Ela? Como sabe a... E o Gabriel vira a cabea devagar, olha de esguelha por cima do ombro, como se esperasse avistar um fantasma: no quadro negro da porta do corredor 
uma cabea espia e silncio - a da mulher-a-dias que leva a pequena  escola. Com  que a Dalilah adivinhou?
Calados algum tempo, imveis, ele ouve bater o corao no centro da noite estonteante. Depois escorrega para o cho, fica-lhe a imagem dela, de cotovelos no peitoril, 
as pernas infantis unidas, puras, e dois atilhos brancos pendentes no escuro.
A natureza  o que o pensamento descobre no caos dos sentidos-estes, s por si, no conhecem. Que  para um cego o mistrio da vida, se ele no sabe? Que tesoiros 
ela atira assim a quem no v. Tudo o que fica  a emoo, e essa  duradoira como o homem.
Sob a noite estrelada, a cidade lnguida ondula e cintila, uma excitao desmedida e sem finalidade paira no ar entre brados, descantes e risos. H namorados, soldados 
da Municipal e criadas, sentados nos bancos ou nas razes nodosas, retorcidas, das velhas rvores tropicais que lhes do sombra e proteco. Nos degraus da Capela 
os meninos brincam, escorregam, empurram-se, gritam, choram. H danas de roda no largo.
Num dos poiais do miradouro, onde os corropios da ventania acumulam o lixo e h sempre um cheiro quente de urina fermentada, a Dalilah est sentada, invisvel; em 
volta dela aperta-se o magote, h vozes de incitamento, risos abafados, convulsivos. Que faz ela? Que olham eles, curvados? Que faz ali tambm o Santiago? Alguma 
coisa de absorvente e secreto se passa...
O Gabriel tenta enfiar a cabea por entre os outros: concentrados na contemplao, barram-lhe a passagem, impedem-no de
ver. Talvez de joelhos, de rastos no empedrado? Mas nem assim consegue insinuar-se entre as pernas irrequietas, contorcionadas. O Luciano-zarolha d-lhe um murro 
nas costas, que o deixa embaado. Todos ali esto, s ele ficou de fora. Porqu? Sente-se excludo, privado, atraioado. Alguma coisa nele se recusa a ser


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mais pequeno. Agora iniludvel, o cime estorcega-lhe o corao. Volta-lhe  lembrana a noite da sala, e sente que acaba de perder o que era s dele, e no sabe 
o que . Sobem os risos guturais, espasmdicos como vozes de perus, a excitao aumenta.
E ele foge desesperado, afogado em lgrimas ocultas de sinceridade iludida, de ressentimento, de intolervel rivalidade e desejos de vingana. A noite de Vero d-lhe 
impulsos de fuga, uma quase alucinada agitao. Sim, fugir ser melhor, no afrontar a derrota, a privao, este dio que o possui...
A porta da rua, mais tarde, o irmo agarra-o pelo brao a rir:
- Tambm querias cocar, h? Mido, palerma...
Torce-lhe o brao, ele retrai-se:
- Julgas que eu no sei tudo? Ali na sala da dona Miquelina? Tambm querias! Caganitas! Vou dizer tudo  nossa me...
Aterrado, sufocado, no responde. Como sabe o irmo? Ela ter contado, foi dizer o segredo? J no  ento segredo entre eles, s deles, mistrio delicioso? Contou 
tudo aos outros, riram-se dele,  custa dele... E agora o Santiago ameaa denunci-lo  me! No, isso  que no, tudo menos isso. Que ela nem sonhe! A vergonha 
(mas de qu?) queima-lhe a cara, ri-lhe a garganta. A ameaa, a fcil opresso encontram nele, to duro e fraco, um terreno propcio. No  que no entenda, que 
no sinta a revolta: no  capaz de acusar o irmo, seja quem for. A fraqueza oculta envergonha menos. No se queixa, nunca se queixou de nada. Sofre calado, at 
a me costuma dizer: "Este pequeno, at aos seis anos nunca chorou uma lgrima! " Nem quando ela lhe chega, ou os irmos o amachucam. Ser orgulho? Quantas lgrimas 
ter de oferecer  vida, em troca do pouco que esta tem para lhe dar? para dissolver o sal amargo da experincia.
Alguma coisa h que comea a doer-lhe, na vida em que a medo se aventura, a tudo aberto e hesitante: um mundo de atraces e repulses, de impulsos e represses, 
de esplendores e vexames. E, no entanto, para ele caminha de olhos abertos, empolgado e tmido, obstinado e titubeante, pronto a aprender por si s, espontaneamente, 
enquanto no chega a idade dolorosa da experincia voluntria e do risco.
Do outro lado da rua o menino Antero olha-os com nostalgia e torna a indagar:


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- Fazemos um vaivm?
Com a ajuda do Santiago (no se pode passar sem ele) esticam cordis entre as varandas, com duas rodinhas de mquinas de escrever que ele trouxe da escola, e passam 
a trocar bonecos, mensagens, papelinhos, ninharias. Depois, com outro cordel, este encerado, e duas tampas dos canudos de carto das camisas do gs iluminante, fabricam 
um telefone: ouve-se perfeitamente o que dizem dum lado ao outro da rua. O Antero ousa mesmo um dia dizer  gueda: "Amo-te!" - como nos folhetins. Nunca se viram 
nem vero de perto, a mam nem sequer o deixa visitar os vizinhos - brinquem assim, diz ela. O amor  esta impossibilidade. So de muito boas famlias, das Ilhas, 
ele um menino solitrio e de luto. Anda interno num colgio distante,  raro estar em casa.
O quotidiano  uma talagara onde pouco a pouco a vida se vai bordando a personagens, incidentes, inquietaes e alegrias. As tipias sobem a rua a trote, atrs 
delas os garotos descalos correm esbaforidos: "D-me um penny! um penny! " - E os cmones riem-se, corados, e atiram moedinhas, gostam de ver os meninos engalfinhados 
a disput-las.
Cuidado, no atravesses a rua sem olhar para os lados! Vem Ia um mata-gente! Ficam a olh-lo, assombrados: tem umas grandes lanternas amarelas, a capota presa com 
correias que oscilam ao vento, a buzina  rouca. Fede que mata, enche a rua de fumarada. A gente foge, mas sente-se irresistivelmente atrado. O Santiago conhece 
as marcas todas: Peugeot, Minerva, Panhard-Levasseur, Berliet... O automvel  a grande novidade do dia. O dono do Hotel tambm j tem um, vimo-lo  porta, aberto 
e trepidante: andam sempre numa pndega rasgada: Sintra, Cascais, o Estoril, mulheres, jogo, deboche... Tem uma quinta qualquer nos arredores, que o Gabriel confunde 
com uma (Cardiga ou Formiga?) onde a polcia foi encontrar uma data de mulheres nuas a puxar a nora, debaixo do chicote... A conversa morre, no h maneira de se 
entender bem. Segredos da gente crescida. Mas as garagens parecem igrejas, muito limpas, cheiram a borracha e a gasolina,
*Come on! - em gria, ingleses. (N. do A.)


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apetece ir para l brincar, quem nos dera ter patins ou uma bicicleta! Os carros particulares ficam tapados com uma lona, como nos museus, s saem nos grandes dias, 
para ir ao Corso do Carnaval, por exemplo, todos enfeitados. Conhecem pelo menos dois automveis, o do sr. Higino, que j foi ministro e at tem chauffeur,  o pai 
do Luciano-zarolha; e o do "menino" Rodolfo, o filho mais velho da dona Leonor e do sr. Serrano, mas est sempre na garagem, e ele leva as visitas l s para mostrar.
Ali em baixo a uma esquina, na loja acanhada onde j foi drogaria, a campainha do Animatgrafo retine incertamente, lana uma fasca azulada no verde e solitrio 
entardecer. Na Pscoa, a Vida de Cristo passa entre relmpagos, borres de cor, num confuso atropelo de imagens que trazem lgrimas aos olhos, no se sabe se  do 
drama se dos carves (a luz  de carves!), e uma trovoada de latas rebenta por trs da cortina quando Nosso Senhor aparece pregado, enfim, na sua Cruz, entre o 
Bom e o Mau Ladro. Quem explica tudo em voz baixa, agora,  a mezinha, que o sabe de ter lido nas Histrias tiradas do Velho e Novo Testamento e no Manual Enciclopdico.
Mas h outros: o Music-Hall (eles dizem Musical) tem uma fachada que  toda ela um rgo com figurinhas que se mexem ao compasso da msica chincalhante.  um animatgrafo 
"falado": quando a fita se quebra e tudo fica s escuras, as vozes e barulhos continuam por trs do cran: ento o povinho assobia, ri-se e d pateada! Logo ao lado 
 o Chantecler, com um grande galo, a transbordar de gente "ordinria" e de pulgas. O Salo Central  uma caverna submarina cheia de conchas, luz glauca... De que 
fitas  que vocs gostam mais? Das do Princ, com o nariz arrebitado! E o Santiago imita as cavalgadas, batendo com as palmas das mos nas coxas. A iluso  perfeita.
A gueda joga o divolo na rua, todas as meninas jogam,  o grande furor do dia, at h desafios. O pio colorido e reluzente sobe a grande altura, por cima dos 
telhados. Ela  a melhor c do stio, at podia ser campi, se  assim que se diz. Mas no , no vo a parte nenhuma.
Chegado o Carnaval, no ar hmido e esvassoirado de vento, com alternativas estonteantes de sol e chuva, paira um cheiro enjoativo de bisnagas. A cidade inteira parece 
alucinada, azoada


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de barulhos raros. Voam nuvens de papelinhos, cabeleiras multi colores de serpentinas pendem das sacadas, dos fios telegrfic esvoaam, transpem as ruas.
A gueda confeccionou amorosamente dzias de saquinhos com retalhos de seda e veludo, enche-os de feijo, na esperana de ir a qualquer parte brincar. O Gabriel 
comprou uma mscara cor-de-rosa, de riso estpido, e corre a meter medo aos amigos. Mas depressa foge dos chechs: "D c uma panadinha ao velho!" - "Bebs" de 
fralda suja, cala comprida e botas de carroceiro  mostra, sinistros, cambaleiam. H domins e alcoviteiras. Meninos mascarados de polcia, marqus de Pombal, toureiros, 
almirantes, campinos, generais, passam com muito juzo, na companhia das famlias, a caminho da Baixa, da Avenida, dos concursos de mscaras e bailes infantis, o 
retrato sai depois nos jornais. Ele fica a olh-los com mgoa: nunca se mascarou... cegarregas atroam os ares, passa a Dana da Luta, cegadas, dana de pretos, "frum-fum-fum, 
que vou pr'Angola!" Filarmnicas amolgadas regougam de vinho tinto, desafinadas, pedem esmola na encruzilhada. Passam bandos de mscaras em turbilho, frenticos 
pesadelos arrastados no vento. As janelas e sacadas enchem-se de gente. H quem arremesse cocotes de farinhas a que passa: estoiram nas fachadas, na calada, acertam 
por acaso, insultos e berros. De outras janelas pendem "vasculhos" com aranhas ameaadoras. (A casa deles  recuada, no se pode brincar assim.) Ali em baixo, um 
homem curvou-se disfaradamente a apanhar do passeio uma moeda de prata: era falsa e estava pregada ao cho com um prego! A gargalhada encheu a rua, ele apanhou 
com o vasculho, fugiu corrido e enfarinhado... Porque  que tud isto nos entristece?
Ao Chiado no se pode romper, o gro-de-bico chove das janelas, no fica um chapu de coco inteiro. A Rua Augusta e a do Ouro esto acolchoadas de confetti.  proibido 
apanh-los do cho mas no sei se percebem... No Hotel, ento, reina a loucura: o corso passa mesmo debaixo das janelas! Nos corredores a gente enterra-se at o 
joelho em papelinhos! Correrias, gritos, bata lhas... (A Finita at foi apanhada na sala, sentada no colo dum hspede. Est pedida, mas o noivo anda longe...) Que 
 feito do

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vosso irmo? Desapareceu, anda como doido, j vai a bailes s escondidas, no Coliseu...
Na tera-feira deitam at  Avenida, horas em p a ver passar as mscaras, os carros enfeitados (alguns so lindos!), os cavaleiros  ribatejana, as batalhas de 
confetti, de flores, at h quem atire condessinhas cheias de confeitos, bonecas, saquinhos com amndoas ou drageias doces... As criadas de servir, tresloucadas, 
travam combates com soldados, torcem-lhes as bisnagas, ficam encharcadas, riem se, algumas do bofetes... Ele e a irm arremessam coisas que nunca        acetam, 
ningum repara neles, perdidos no tumulto. Mas sempre voltam para casa com algumas coisas novas, e a gueda conserva os saquinhos para o ano seguinte. Ele abre alguns 
s escondidas, para comer o contedo: tem gorgulho ou sabe a bolor...
O Carnaval deixa-lhes um frio hmido no corao, um enjoo de patchouli, uma memria de farrapos expostos, de vinho vomitado, um desgarramento de cansao. Sero assim 
todas as alegrias? "Os hospitais cheios de gente! " -diz a dona Adlia. Logo depois quarta-feira de Cinzas... S restam as serpentinas, a descorar ao sol, ou a pingar 
chuva.
O sr. Augusto adoeceu, no  nada de cuidado,  s gripe, tambm lhe chamam influenza, e vem-no ver um mdico de cabeleira negra, barba em bico espetada, voz nasalada 
e quente: tratam-no com muito respeito, o paizinho desfaz-se em sorrisos de gratido - "Ora o senhor doutor, dar-se agora ao incmodo!" -  um grande homem e muito 
simptico, o dr. Antnio Jos. Promete ao paizinho que, quando vier a Repblica, h-de fazer uma lei de naturalizao, e o sr. Augusto fica muito contente. Quer 
ser cidado portugus. E o senhor doutor deixa cinzeiros com as efgies dos grandes propagandistas, em lata estampada.
Mora ali em frente do Animatgrafo, num segundo andar de esquina com uma varanda cheia de vasos de flores. At j veio nos jornais. Encanta ouvi-lo, tem uma voz 
bem timbrada e calorosa.  um grande orador. Uma noite estavam no trio do Hotel  espera do pai, quando o senhor doutor ergueu o Gabriel ao ar e lhe chamou "meu 
correligionrio". O menino corou de orgulho e felicidade, e desse dia em diante passou a dar vivas  Repbrica




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(rima com rbrica) em segredo, at tiveram de o corrigir. Isso apesar do seu grande amor  bandeira azul e branca, do bazar Rua Augusta.  assim que a gente adere 
s ideias novas. Fico sendo republicano, por enquanto com R. At ver.
E que diz o senhor doutor? Diz que o paizinho tem o corpo um bocadinho gordo (que ideia!), precisa de ar livre, caminhadas comer menos, no dormir em cima da digesto. 
Dormir, ele E comer, a bem dizer  s uma vez por dia: de manh o copo de leite, em p, pelo meio-dia o que calha... S ceia pelas dez, onze horas. Deixem, que em 
vindo o Descanso Semanal!
A doena  uma coisa boa: ele demora-se por casa uns dias, eles gostam de o ter ali, sempre to ausente. H frascos de xarope zaragatoas de mel rosado, um frasco 
de vidro amarelo com algodo iodado, caldos de galinha, ch e torradas, silncio... "No faam barulho, que o vosso pai est a descansar! " - O Gabriel at foi espreitar 
ao quarto, para ver como ele  feito. Dormia a sesta Agachado no cho, com a cabea  banda, a ver se destorcia, mas no destorceu nada. Seremos todos do mesmo feitio? 
Era confuso de mais e o quarto estava quase s escuras. Pacincia. Fica para outra vez.
Fora disso, o sr. Augusto  robusto e jovial: quando est de mar carrega com a famlia inteira nos ombros, pelo corredor fora, a cantar, at parece um nmero do 
Coliseu. Nesses momentos os filhos adoram-no.  to bom sentir a gente que tem pai. At Santiago se pe a trepar as paredes do corredor: em palmilhas de meias, perna 
dum lado, perna do outro, e as mos tambm, claro... - Mas no vai muito longe, escorrega no estuque luzidio. Fica to arreliado.
Com tanta mulher, reina sempre uma certa confuso, mas nesta idade a gente at gosta. Uma delas, no se sabe bem que seja, andava de chambre, uma blusa ampla, comprida, 
arrendada que mal encobria um ventre enorme. Ele bem ouvia dizer que tinha um menino l dentro! Com efeito, nasceu uma menina, vai haver um baptizado de arromba. 
Ser Filomena, como uma das manas. E um anjo de beleza, e ento gordinha! Parece a Lua no bero, dizem elas. Andam como doidas. Chamam-lhe Fil. No se percebe porque 
 todo este entusiasmo.


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Chegado o grande dia, desarrumaram todos os mveis, a casa at parece maior, a mesa foi alongada com tbuas e cavaletes, no meio da sala, e est coberta de nunca 
vistas iguarias, tudo o que h de melhor em comes e bebes, vindos duma conservaria ao Chiado: assados, folhados, recheios, croquetes, saladas, maioneses, lagostas 
inteiras e picadas, e muitos doces, pudins, cremes, pastis de nata e fruta, tortas, compotas, queijinhos do cu, trouxas de ovos (ento doces de ovos nem falar!), 
bombons, amndoas, passas, nozes, frutas cristalizadas... um nunca acabar. E bebidas, garrafas, cristais de mil cores e feitios, lisos e lapidados. Saiu tudo dos 
armrios e guarda-louas. Veremos no que d toda esta uxaria!
A festa comeou pelo meio-dia, e h quantas horas a gente aqui est sentada a dar aos queixos! Os convivas, muito apertados, falam e riem sem parar. Com tantos vidros, 
fruteiros, garrafas e flores, nem se pode ver nada. Onde estaro a gueda e a mezinha? Ele ainda tentou ficar ao p da Dalilah, suplicou com o olhar, mas ela esquivou-se. 
Na falta dela,  bom estar aqui, amachucado de fartura entre as manas Perliquitetes, um pouco perdido na confuso de vozes, fumo de tabaco, aromas e rendas, carcias 
e braos rosados, pulseiras cascalhantes... Ele olha-as: uma  gordinha e tem sardas,  a Sarah, outra  magra e romntica, com olheiras azuis,  a Filomena, a terceira 
 a Paula, coradinha...
Riem muito, fazem-lhe festas, chamam-lhe nomes bonitos, do-lhe doces, servem-lhe licores nestes copinhos muito engraados, parecem dedais de vidro, a gente olha 
por eles e v tudo multiplicado, como nos prismas dos lustres. Um licor  verde, outro amarelo, outro no tem cor... Tm gostos diferentes, ele j provou todos - 
Pre Kermann, Cointreau, Peppermint, Anisette...
- Gostas, filho? Bebe! - riem-se, enchem-lhe os clices, ele gosta, sente-se flutuar, j lhes perdeu a conta.
- Mais! Mais! - s vezes grita um nome, diz "gueda, queres ver?" - e emborca mais um, ningum faz caso. Tem a cabea em fogo. O irmo sumiu-se, os outros meninos 
brincam pela casa, onde h lugar. Sente-se sozinho, abandonado, longe de tudo e de todos. Pensa na Dalilah, que desapareceu, e punge-o


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uma amargura. Como tudo isto  diferente! L em casa no festas, no h... Sobe-lhe do fundo uma tristeza dificil de vencer Mas bebe, fala, conta histrias - a do 
homem que tinha a barriga cheia de milhes, dinheiro que nunca mais se acabava, e quand ele queria dinheiro era s abrir a barriga com a faca, salta-dinheiro-c-pra-fora, 
a correr em bica, e ele gastava o que queria, dava a toda a gente e nunca lhe faltava, e no fim tornava a coser a barriga e pronto!
 desta que as trs manas gostam mais, gostam de ouvi-lo, as coisas que este pequeno inventa, e como ele fala bem! Tem s seis anos... Enchem-lhe os clices. De 
repente h uma grande conoso, cadeiras arrastadas, ele esqueceu a Dalilah, esqueceu tudo levanta-se. Tonto, est no meio da sala, cheio duma resolua tremenda: 
brincar com a Chica! Avana aos bordos pelo corredor a caminho do quintal, algum diz "Faz-te bem apanhar ar!" Aqui est o mastro com a plataforma e a casota no 
topo. O cu confunde de luz branca e deslumbrante, as imagens so borradas flutuantes, o mastro oscila em curvas. Sacode-o. L em cima Chica faz trejeitos alarmados 
e bufa. E extraordinrio, a fora que ele se sente, e a resoluo de subir, de ir ao cimo visit-la, v-la perto, puxar-lhe o rabo. Nunca o deixaram brincar com 
ela. Nem ela consente,  brava, morde. Morde? Ns veremos. Ele quer, e h-de ir.
Agarrado ao mastro, tenta marinhar: escorrega, cai, levanta-se, atira-se de novo, rubro de fria e deciso. H risos e palmas, comentrios... No v ningum. Duas, 
trs vezes torna ao assalto, e desliza sempre. Enraivecido, capaz de tudo, corre ao escadote, num canto do quintal, carrega-o aos tombos (mas onde vai ele buscar 
a fora?), instala-o, e sobe de mos e ps, com cabea perdida. Tudo em volta  um borro de luz com manchas indistintas, vozes!
De sbito o mundo perde o balano e o feitio, o cu desaba, e l vai tudo por ares e ventos, pernas por cima da cabea, o escadote cai-lhe em cima com estardalhao, 
entre risos e gritos, a macaca l no alto agita-se, furiosa, puxa a corrente, capaz de a rebentar, de fugir... Ele ergue-se, mas sente-se agarrado. A fora demente, 
inesperada, transpe-no: solta-se das mos que o retm, e lana-se de novo ao mastro, para o derrubar - quer derrub-lo!



        97
Dez braos (ou so vinte?) prendem-no por fim, ele debate-se, esbraceja, grita, tenta morder... Embrulham-no em alguma coisa que o sufoca e imobiliza, com plos 
que lhe entram na boca. (Quem falou em colete-de-foras?) Carregam-no entre vozes confusas - de novo o corredor obscuro, a porta, a rua crepuscular, a escada... 
Feito uma trouxa convulsiva, ouve a voz risonha da me, e assim o metem na cama de casal, enrolado, com a roupa entalada, no se pode mexer. Do-lhe a beber alguma 
coisa com um cheiro forte. Sente que anoitece, mas por algum tempo ainda, choroso e em nsias (dentro dele h um dia avermelhado), se esfora, oprimido e exasperado. 
Quer fugir, espernear, agredir, -e no pode. A casa anda  roda, a cama oscila, ondula como um mar agitado, em torno dele tudo se faz indeciso e nocturno, as foras 
fogem-lhe.
At que pouco a pouco se apodera dele uma deliquescncia voluptuosa, a cama desliza num plano inclinado, e ele, vencido pelo lcool e a fadiga, mergulha no sono 
como num manso lago.



XIII
A BOLA HISTRICA
- Conte-nos hoje uma mais alegre, a da bola histrica mezinha!
- Oh! fartos esto vocs de ouvir...
- Mas conte, conte! Nunca estamos cansados de ouvir!
- Bom, era uma mocetona alta e forte como uma torre, ca de pegar um boi pelos paus, e que no sofria de coisssima nhuma. Mas l de quando em longe, no se sabe 
como nem porqu, a dormir, dava-lhe para se pr em p na cama, a andar de c para l, e de l para c, com uma bola a subir e a descer na garganta, que at parecia 
um marmelo entalado. E desatava a falar com uma voz grossa, que no era a dela, e ningum sabia de quem fosse.
"Juntava-se povo assim a ouvi-la, de boca aberta e queixo cado, e ela para trs e para diante, na camisa de estopa fiada, co a bola sobe-que-desce na garganta e 
a falar com uma voz de homem. No havia quem na entendesse, at parecia Latim, salvo seja! Diziam uns que era a voz do pai, que estava com Deus havia muitos anos; 
outros, que ela tinha mas era o Diabo, com sua licena, no corpo.
"Era no era, para tirar teimas foram chamar o padre-prior que no tinha medo nem a almas penadas nem a possessos. Ah e  isso? Meteu ps a caminho, direito a casa 
da rapariga, e todos atrs dele, a ver se ele lhe botava o exorcismo. Chegado l trancou-se por dentro sozinho com ela, sentou-se num mocho



99
aos ps da cama, e ficou a escutar. A certa altura diz ela assim, com aquele vozeiro, de boca fechada: "Vai  vrzea de Val-Dama, que l te farei a cama!"
"A voz era a do av da rapariga, que tinha andado nas guerras-civis e ela nem o tinha chegado a conhecer! O padre-prior benzeu-se, coou a cabea e disse com os 
seus botes: "Isto  mas 
eixo enterrado!"
"Tornou para casa a matutar naquilo. Comida a ceia, diz ele
assim ao sacristo: "Traz de l a enxada, a lanterna e uma boa
corda, e anda da comigo, que temos muito que cavar!"
"O sacristo bem resmungou, mas no teve remdio seno obedecer, e de caminho encheu a borracha para alguma sede. Deitaram at Val-Dama, bem meia lgua da vila, 
e puseram-se a cavar na vrzea, ora um ora o outro. Escuro como breu! O frio estava de rachar pedras, e a pinga ajudou-os. Cavaram e suaram como dois condenados, 
at que l pelas tachas, j o galo cantava, a enxada bateu numa coisa dura que deu um som cavo. "Ol! - diz
o padre-prior: -Temos achado!" Cavaram  mais um pedao, com muita cautela, e deram com um ba
atochadinho de moedas de ouro!
"Carregaram com ele para casa, deram metade daquela riqueza
 rapariga, e distriburam o resto pelos pobrezinhos.
"A moa arranjou logo marido, casou-se muito bem casada, e nunca mais teve a bola histrica, nem falou a dormir. Foi a boda mais feliz de que h memria... "
A me cala-se um momento, a menina leva a mo  garganta, apreensiva, e esperam.
- E depois? - indaga o Gabriel.
- Depois, morreram as vacas e ficaram os bois!
Muito ele embirra que lhe respondam assim! Quando pergunta o que  que tm para o jantar, a me responde invariavelmente: "Bicos de rouxinis" ou "lnguas de perguntador". 
Como se perguntar fosse crime!













XIV
ANIMAIS NOSSOS AMIGOS
Ainda a semana passada a mulher-a-dias subiu ao segundo andar, com a aba do avental cheia de cachorrinhos, uns oito ou nove, acabadinhos de nascer, ainda de olhos 
fechados, e se a senhora dona Adlia no queria ficar com um para os meninos! Despejou a abada na mesa da casa de jantar, e eles, com gula e carinho, tomaram nas 
mos os bichinhos orelhudos, hmidos, que ganiam baixo, cegos, perdidos, a tropear uns nos outros enovelados como lombrigas, chorando pela me, a Triana: acariciaram-nos 
e beijaram-nos sem nojo nenhum. Eram to macios e quentinhos! O Gabriel indagou:
- Quem  o pai deles?
Mas ningum fez caso. Um, coitadinho, naquela confuso rebolou da mesa abaixo e ganiu de dor, agudamente.
- Mezinha, deixe a gente ficar s com um!
Aquele desejo duma coisinha viva, passiva e tenra... Mas a me franziu a testa, que no senhor, no queria canzoada l metida em casa, este fedor, e quem  que vai 
agora cuidar dele, dar-lhe banho, limpar-lhe as borradas, com tanto que eu tenho que fazer?, Bom para quem a leva folgada, com criadas!
- Ao menos um!
Nada feito, tivessem pacincia. Foi inexorvel. ( talvez por isso que os outros so diferentes de ns.) Os cachorrinhos voltaram pelo mesmo caminho, sem dono. A 
Agueda at chorou:
- Vo-nos deitar a afogar!



101

O certo  que nunca mais os viram. E a Triana, castanha-negra, toda mansido, de focinho aguado, sempre rodeada de cachorrinhos, que se atropelam a chupar-lhe a 
grinalda das tetas pendentes. O Paco, amarelo, com um dente branco e ameaador a espreitar pela racha das ventas sempre molhadas;  filho dela, uma fera. Mas se 
ela  a me e ele  o filho, como  que esto sempre a ter ninhadas?  uma coisa que no se percebe. Me e filho. Ser s para as vender? ou mandar afogar? O sr. 
Pinanejo, com aquele ar taciturno, a bota afiambrada, bolsos de alapo como os marujos, no tem espingarda, no vai  caa, para que  que ele quer agora os perdigueiros? 
No tem nada dum caador, at se parece com o Hamlet, mas  paisana.
O Paco nunca ladra: rosna ferozmente, com uma expresso homicida nos olhos amarelos, injectados. Todos lhe tm um medo medonho. Mas se ele no morde! Antes mordesse: 
punha-se-lhe um aamo. Quem  que se fia agora dum co amarelo, de ventas rachadas, mal encarado, que rosna e d trombadas? Diz que os ces de beio rachado so 
muito bons para a caa, com muito faro, muito apreciados. Pois sim, mas as rosnadelas so de arrefecer o sangue nas veias da gente. Se v que o Paco anda  solta, 
o Gabriel esgueira-se prudentemente pelo corredor. S est seguro quando o sabe amarrado no quintal.
Estamos na Pscoa, e a Miquelina deu-lhe uma amndoa corde-rosa, olha que esta  francesa, das boas: quase do tamanho dum ovo. Segundo hbitos bem estabelecidos, 
a exemplo da Vizinha Delfina, que ri castanhas piladas nas gengivas nuas, em vez de a morder e tasquinhar, ele mete-a na boca,  laia de rebuado, adiando o momento 
delicioso de chegar ao licor. Sim,  das de licor, francesa!
Entra ento sozinho no toucador, para brincar com as caixinhas e frascos; de repente ouve uma rosnadela tremenda pelas costas, e vira-se: quem h-de ser seno o 
Paco, entreportas, a barrar-lhe a sada com a sua ferocidade e reflexos de lume nas pupilas estpidas! O pequeno fica hirto na penumbra atravancada de mveis e bibels. 
No h para onde se retirar nem fugir. Frio de medo, encurralado, recua devagar e encosta-se  parede, com a barriga a tremer, para ter tempo de pensar: a amndoa 
faz-lhe uma salincia imvel na bochecha, como o inchao dum dente. O co viu-o



102
com certeza met-la na boca, e cobia-lha, fita-o e rosna, ameaador.  isso! E que h-de ele fazer? Em mastig-la nem pensar, Deus te livre. Engoli-la inteira? 
ou cuspi-la fora? Mas  tarde de mais para qualquer transigncia: sob o seu olhar aterrado, o Paco agachou-se e, de orelha tesa e recuada, o focinho baixo e alagado, 
a cachola em linha recta com o espinhao, ganindo e estremecendo quase imperceptivelmente - prepara-se para o assalto!
So momentos de eternidade em medo. O corao bate-lhe como um sino doido, est sozinho, abandonado  fera, ningum lhe acode, que diabo faz aquela gente, as mulheres 
l para dentro na galhofa! Talvez gritando... Mas, ou seja por orgulho, medo de precipitar o ataque, ou paralisia da glote, no grita.
Ficam assim algum tempo, ele imvel, o cachorro a rastejar aos milmetros (chega a parecer cmico, que ele tome isto a srio!) com estremecimentos de msculos retesados 
debaixo do pelame amarelo, cheio de pulgas. E de repente com uma rosnadela, que soa como o bramir do leo, vem de entreportas pelo ar com incrvel agilidade e...
Atnito, o Gabriel leva a mo  bochecha que o Paco atingiu com tremenda focinhada, a esquerda: a amndoa, sob o choque, escapou-se-lhe por entre os beios com a 
velocidade duma bala! O co precipita-se atrs dela, ganindo de excitao, mas a amndoa, ao disparar, foi-se meter debaixo do toucador, e ele fica exasperado, a 
fazer esforos sobrecaninos para enfiar o focinho rombo e as patas sob o estreito vo do mvel, e agarr-la: debalde!
Por instantes, ainda espavorido, a apalpar a face dormente e mal podendo crer que no est morto, mordido, contuso, nem esborrachado, o Gabriel no se mexe do seu 
posto. O co felizmente esqueceu-o: estiraado diante do toucador, cainha lamentosamente pela caa perdida. O coelho meteu-se na toca! Bem feito! Contente de se 
achar intacto, embora lhe doa ter perdido a amndoa francesa, o menino goza a derrota da fera como uma vingana. Nem para um, nem para outro. Recua ento com prudncia 
ao longo da parede, at  porta, e esquiva-se para o corredor.
J ao fim deste, ao abrir a porta para a escada e para a salvao, ouve um arranhar desesperado de patas e unhas, depois um latido de triunfo, e um barulho de coisa 
esmigalhada entre brutas queixadas

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cuspinhentas: o espertalho conseguiu alcanar a presa com a pata, e devora-a com sofreguido! Ganhou a partida. Mas oxal o licor lhe suba tambm  cabea!
Duplamente vencido, o Gabriel compreende agora que o Paco no morde: d focinhadas e trombadas assassinas, para isso foi treinado. Nunca se percebe quando  que 
ele est zangado ou de bom humor. Quem  que pode entender um co assim? - O roubo da amndoa torna-lho mais antiptico, quase odioso. No o pode a gente ver sem 
se encolher todo, como a pedir desculpa de no ter amndoas na boca. (O curioso  que o perdigueiro deu em passar por ele com desdenhosa indiferena, nem sequer 
o olha. Muito di o desprezo dum co!)
A vida, ainda que nos espante,  um misto incompreensvel de amor e dio. O Santiago e a irm chegaram a meter-se com ele, um dia, na saleta onde est a "cama dos 
hspedes", para lhe dar uma coa  porta fechada. Sem razo nenhuma! Ele, muito valente em famlia, defendeu-se com vigor, rubro, calado, a soprar: arranhou, beliscou, 
deu socos e pontaps s cegas, s lhe faltou morder, e no foi por no ter vontade disso! A me acudiu, distribuiu tabefes a torto e a direito, e salvou-o do morticnio. 
Ele sentiu-se vingado. Depois ficaram todos trs muito amigos! Ainda outro dia, por exemplo: estavam na cozinha, ao anoitecer, e quem  que no gosta de brincar 
com o lume? A me acabava de limpar o candeeiro de petrleo, e ele pediu-lhe que lho deixasse acender. Ela consentiu. Sentado, chegou a chama do fsforo  torcida. 
Depois, tranquilamente, ergueu-o acima da cabea, para que a irm, em p, por trs dele, o apagasse. Era uma forma de lhe dar participao na brincadeira, ou queria 
talvez dizer "Merd-pr-fole! ", como o pai, quando ele sopra o fsforo que acendeu o cigarro. Mas ela estava com a cabea avanada, e o fsforo, apesar de quase 
extinto, chamuscou-lhe de leve a sobrancelha. Num impulso - "Ele quis-me cegar!" - a menina, que  toda amor e fantasia, agarrou a tesoura da cozinha, ainda a feder 
a petrleo, e feriu-o na fonte direita. Foi de leve, correu s uma pinguinha de sangue, mas a marca ficou. A me, sempre compreensiva, acalmou-os, no castigou ningum. 
Via-se logo que no havia m inteno.


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Quem mais o intriga  o irmo: ora ri, ora canta, ora chora: ora abraa e beija com frenesim, ora ameaa e grita e d pancada! Foge da escola e vende os livros de 
estudo, s Deus sabe para qu. O pai at j lhe chamou empecilho e mariola. Ficaram todos muito tristes. A me defende-o, coitadinho, quer-lhe muito, mas tambm 
ralha com ele. Muito nervoso, de olhos intermitentemente inflamados, fala alto em sonhos, e chega a andar de noite pela casa, de olhos abertos. O mais engraado 
 que, mesmo a dormir, tem vergonha, e puxa a camisola para baixo, a cobrir-se! Dizem que  sonambulismo. A me no quer que lhe digam nada nem que o acordem,  
perigoso. J na terra dela havia uma rapariga que ia  fonte todas as noites, de cntaro  cabea, a dormir. Uma noite o cntaro esbarrou na trave da porta, ao entrar, 
fez-se em cacos, e ela acordou com o banho de gua fria. Ficou sem fala! - Tudo isto lhe lembra uma pera, a Sonmbula, que os pais "viram" (tambm "viram" a Tosca 
e a Traviata), e um mgico do Coliseu, que adormecia as pessoas, elas faziam tudo o que ele mandava, depois acordavam e fugiam envergonhadas. E se nos d tambm 
para andar a dormir, dizer todos os nossos segredos? J no adormecemos sem apreenso.
O irmo tem muitos amigos, anda na pndega com eles e tr-los a casa. Tambm j tem chegado a fugir da matula, perseguido at  porta, plido, ofegante, apavorado... 
De todos os amigos, de quem eles gostam mais  do Ordoiez, catalo. H muitos catales em Lisboa, sabem? Usa culos muito grossos, tem a vista curta, o nariz vermelho 
e um ar de sbio (a fingir). O pai dele  pintor, e moram numa casa  Costa do Castelo; fomos vizinhos sem dar por isso! Qualquer dia vo para a Argentina, ganhar 
a vida a pintar santos nas igrejas. O Gabriel e a irm trepam a uma cadeira enquanto ele olha um boneco na parede, e pem-se a espreitar atravs das lentes, que 
fazem parecer o mundo mais pequeno. Que engraado! Ele  muito inocente, nem sabe que esto a goz-lo pelas costas. De repente volta-se, d com eles a espreitar, 
e cora violentamente! Eles pulam da cadeira abaixo e fogem... Mas o Gabriel anda desconfiado de que ele faz namoro  irm!
O Santiago, com o jeito e a mincia que lhe so habituais, desenhou na capa dum livro uma coisa que parecia uma chaga em


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carne-viva: redonda, vermelha no centro e escurecendo para as bordas, que eram cor de cinza. O Gabriel seguia-o a arder em curiosidade:
- Que  isso?
-  uma brasa, ento tu no vs? Queres sentir como ela
queima? Poisa aqui um dedo! - e ergueu o livro em frente dele. (Pode l ser, um boneco a lpis queimar!)
- Anda, palerma, tens medo? Pes a ponta dum dedo e tiras
logo, assim.
(Medo, eu? Mas pode ser partida...)
-  s tocar e tiras logo!
No quis dar parte de fraco: pousou o dedo com fora, e retirou-o vivamente, mordido pela brasa! Como era possvel?! O irmo riu-se a perder:
- Palerma, caste! - e mostrou-lhe o alfinete com que o tinha picado atravs de um buraquinho quase invisvel no centro da "brasa". Mas l que a iluso foi perfeita, 
isso no se pode negar.
De outra vez mostrou-lhe uma tigelinha no fundo da qual brilhava em pleno dia uma serena mancha azul-plida, fosforescente. Desconfiado, o Gabriel perguntou o que 
era.
-  uma flor. Ora cheira!
Fascinado pelo delicado claro cor de miostis, ele inclinou-se e aspirou pelo nariz: recuou sufocado, a tossir, as lgrimas rebentaram-lhe... O Santiago dava palmas 
e pulos de contente:
- Tanso, palerma! Caste!
Era enxofre, flor sim, mas de enxofre a arder! Coisas que ele aprendia na escola das Pedras Negras. O Gabriel ficou sucumbido, a me ralhou. Como  que a gente se 
deixa cair em semelhantes esparrelas? Mas a curiosidade, embora prevenida, no tem cura. O irmo tem uma lente, pega fogo aos papis, acende o cigarro com ela:
- Queres ver eu deitar fumo pelos olhos? Sopra baforadas pelo nariz.
- No vejo sair nada pelos olhos!
- Tens que pr a mo assim na barriga, atravessada. Agora repara bem para os meus olhos.
Aproxima-se muito, sem o desfitar, a tirar fumaas longas,


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depois baixa o cigarro... Desta vez o Gabriel teve um pressent mento, e retira a mo depressa, antes que a brasa o queime. At lhe sentiu o calor! O Santiago, furioso, 
logrado, corre atrs dele quer-lhe bater!
No  tanto a crueldade alheia que lhe di, quanto a sua prpria ingenuidade.
Seis a sete anos de diferena tornam-nos estranhos. Mas h mais: aqui h tempos a tia Encarnao, que no tem papas na lngua, acompanhou-os ao banho. Despiam-se 
na barraca quando ela se riu e apontou: "Olha o teu irmo, to pequenino! no te acautelas, ainda te passa adiante... " - Ele sentiu-se orgulhoso, quase um homem. 
O Santiago  que nunca lhe perdoou a comparao: quando pode amachuca-o, enraivecido, com a um rival...
No entanto, a imaginao do irmo apaixona-o. Desenha "animatgrafos" nas margens dos livros: Romeu trepa a corda para ir falar com a Julieta no balco, o pai surpreende-os, 
rapa do cacete, o enamorado desce a toda a pressa... Como nos fantoches
J tem aparecido em casa com halteres de atleta, bolas de couro, at um boxe de metal branco, com bicos: arma proibida de apaches! Ouvem-no bater na parede do corredor 
com uma cana e a bradar: "Temos alm disso a Mulher-elctrica, o Homem-macaco e a Mulher-aranha!  entrar, meus senhores,  entrar!" - Parece que estamos na feira 
de Belm... Para imitar os palhaos musicais, outro dia esticou uma corda entre as costas de duas cadeiras carregadas de contrapesos, encheu uma dzia de garrafas 
com gua a vrios nveis (levou horas nisto) e pendurou-as da corda. Cada garrafa dava uma nota diferente, e ele tocou uma frase inteirinha, parece que era da Gr-duquesa. 
Mas no consegui encontrar a ltima nota, e ento batia no fundo duma cadeira de pau: pam! Chama ele quilo garrafofone. Deve ser inveno dele.
Um hspede chegado das fricas deu ao senhor Augusto cadeira de viagem, com uma lona s riscas, e ele diz ao Santiago:
- Anda, alomba, que eu da tua idade j ganhava o po com o suor do meu rosto. Aprende quanto custa a vida.
Tem destas reflexes filosficas que os filhos preferiam no ouvir, porque parecem contradizer a sua brandura habitual. P das onze, e voltam para casa, a p segundo 
o costume - "Eu


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sempre aqui metido, com os ps gelados, faz-me bem andar!" - asceno  longa e penosa, da Baixa s Olarias, e daqui, pela ada do Monte,  Rua de So Gens. No  
que o peso seja uma
coisa desconforme, mas a humilhao di, e a cadeira escorrega. Santiago pra a espaos para a ajeitar s costas, e geme de
desconforto. Com treze para catorze anos... O pai ri-se, diz-lhe as, no consente que ningum o ajude:
- V, que ainda no morres desta!
E quem  que pensa agora em contrari-lo, desobedecer-lhe?
mas olhar dele basta para arrefecer a gente. Respeitam-no, talvez de 
o verem to pouco por casa. Sempre manso e bondoso, como
pode ele tratar assim o filho, o primeiro? O rapaz chora. Parece
o Nosso Senhor a subir o Calvrio, em vez de cruz com uma cadeira s costas! E aqui no h Vernica nem So Simo Cireneu! Solidrios com ele, os dois mais novos 
tm vontade de chorar. a mezinha vai calada e sria. Esta Calada h-de-lhes ficar lembrada!
A soalheira  tanta que se pega  gente, queima como um sinapismo, atordoa. Descem a caminho da Baixa, e ele abre a boca para respirar com volpia o ar escaldante. 
Sente-se pairar... A meio da descida, dois garotos descalos brincam com um carrinho feito de pedaos de caixotes e quatro rodzios improvisados. Ele segue-os com 
admirao e inveja: como so livres! e como sabem brincar!
De repente - j eles l vo, montados no carro, a descer a grande curva a vertiginosa velocidade, e em gritos de entusiasmo
surge um polcia no se sabe donde, talvez duma escada onde estava a espi-los, e corre atrs deles, a segurar o chanfalho que lhe embaraa as pernas... Agarra! 
agarra! Os garotos abandonam o carrinho e fogem como ratos por ali abaixo, espavoridos. Mas desaparecem s Olarias, o cvico desiste e volta atrs.
O Gabriel parou a olhar a cena, esquecido da soalheira. O guarda pega no carrinho, ergue-o no ar, sacode-o, ferra com ele violentamente na beira do passeio, duas 
ou trs vezes; depois, como ele resiste, atravessa-o na valeta, e aos pulos e s patadas, rosnando com a fria dum cachorro, arfando e cuspindo, desf-lo em pedaos 
debaixo dos ps! O carrinho fica reduzido a um feixe


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de lenha informe, retida por alguns pregos teimosos... O homem, cumprido o seu dever, respira fundo, enxuga o suor da testa, compe o cinturo, cofia a bigodaa, 
olha em volta com basfia...
- Bruto, ah grande bruto! - murmura a dona Adlia.
De longe, a uma esquina, os garotos espreitam aterrados choram de ver destroado o seu brinquedo, tanto trabalho que eles tiveram! O Gabriel nem respira. Aperta 
a mo da me, morde os beios, sente uma brasa no peito, sobe-lhe  garganta uma onda desconhecida e amarga, as lgrimas turvam-lhe os olhos. Quer falar, quer andar 
e no pode, d-lhe uma tontura.. Mas de que serve agora chorar? Ter raiva no ser melhor? O guarda sente-se observado, empalidece um pouco, mastiga a explicao:
- Atropelam uma pessoa, e depois...
Depois, qu? E os automveis? A me passa, dura, sem dizer nada. Os olhos dele secaram.
- Porque  que tu vais to calado, filho? O que  que tens?
- No tenho nada.
Alguma coisa morreu ali agora mesmo, e outra coisa nasce dentro dele: nunca mais poder olhar aqueles homens de farda cor-de-pinho e bigodaa (como o sr. Mealha). 
Chamam-lhe "savalidades", ser por causa da pistola "Savage" que eles usam (Chegado a casa at foi consultar o Dicionrio Ingls-Portugus que reza assim:, "Savage 
- selvagem, brbaro, brutal. " - Deve ento ser isso.)
Felizmente, a Vizinha Delfina aparece por estes calores de fim de Vero, muito composta e esbofada, a enfiar a farripa debaixo do cachen, com o mesmo ar espantado, 
a testa franzida, as exclamaes de sempre: "Ah-m-menino, t bum como bum." - Carregadinha, naquela idade, com o cabaz de figos e uvas doiradas, outras azuis, numa 
cama de parras, que enchem a casa de aromas. So moscatel, mourisco, diagalves, transbordam de pratos e travessas, a me pendura algumas na despensa, para fazer 
passas.  uma festa. Os figos so gordos, escorrem mel. Cuidado, no lhes comam a pele! Traz sempre alguns verdes, o leite de figo  bum para tirar as verrugas das 
mos, ns temos muitas. E a
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Delfina demora-se, fica dias e semanas.  to bom t-la c em casa. O padrasto est muito acabado, j no anda a vender abajures.
 ela que acorda o Gabriel como dantes, todas as manhs, e ele adora ouvir a voz macia e ciciada - Ah-m-menino! - na boca sem dentes. Chega a adormecer de repente 
nos braos dela, apertados nas mangas de chita preta com florinhas. Sempre modesta e asseada, com o tempo parece mais mirrada e pequenina. E tem uma pele to fresca! 
Chega a poca dos banhos de mar, e ela tem pena de o arrancar da cama, para o fazer marchar, titubeante, ao encontro do cadafalso verde e frio da gua. A essa hora, 
ainda noite escura, sonolentos, transidos, com fome, obrigados ao longo percurso, s a ideia do "mar" lhes d nuseas, arrepios, apertos na boca do estmago. A Delfina 
franze a testa, arrenegada: "Credo, muito sofrem estes meninos!" - Vai  janela dizer-lhes adeus, abrindo e fechando as mos rapidamente.
O elctrico, amarelinho, por dentro um verniz de mel e oiro incandescente na penumbra matinal, desce rangendo e guinchando nas calhas. Antigamente at tinha redes 
nas janelas, grossas, para a gente no se debruar. s Escolas Gerais ouvem-se apitos, agitam-se bandeiras verdes e vermelhas, e o carro chega a recuar: na rua estreita 
e ainda mal desperta no azul nocturno, h uma carroa atravessada, muares cados a espernear, de dentua arreganhada, pragas e discusses.
Lisboa passa diante deles como um cenrio em mutao constante. Ao Conde-Baro ouvem-se preges alegres de jornais, os garotos descalos correm nos estribos - sclmundo, 
seculnotias! cstpardia dos ridriques! - cheira a tinta fresca de impresso e a liberdade, o fumo dos cigarros marmoreia o ar virgem da manh, chega-lhe a primeira 
lufada de rio salgado... Depois reaparecem os cais e armazns de tijolo, h aromas de cordames nuticos e mercadorias, de massa de purgueira da Moagem que ardeu; 
a Alcntara-Terra cruzam-se os comboios, depois vem a Junqueira com a Cordoaria, o Hospital, palcios, gradeamentos e palmeiras, soldados amarelos na farda e na 
pele, de febres tropicais (os que voltaram das tais guerras-dos-pretos), depois os tanques de gasolina que eles lem Gargaloyle-Mobiloile, os gasmetros, os Jernimos 
e a Torre, o forte do Bom-Sucesso... Em Pedrouos (o



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qu, j!) ouvem-se gritos de garotos na praia, sentem a primeira friagem das guas... Quiosques, o Casino, a Alameda, uma ara cria familiar, transpem a ponte e 
esto na praia. J os dentes lhes batem como castanholas...
Tudo cheio,  preciso esperar vez! Vozes chamam, os banheiros descalos correm ao longo das varandas, de barraca em barraca abrem e fecham portas, enchem as tinas 
ou despejam-nas espadanando guas por cima da balaustrada. As barracas de pinho cru pintadas s listas por fora, cheiram a sal e a urina, e os meninos despem-se 
com repugnncia e a tiritar, com os ps crispados nas tbuas e esteiras encharcadas. Depois avanam para o "mar" e passos curtos, na areia coberta de detritos e 
da babugem das mars. Quanto lhes custa entrar na gua!  s pouco a pouco sentindo o frio insidioso apoderar-se de tudo quanto neles  vivo e sensvel. s vezes 
a gua  morna e parece oleosa. J lhes acont ceu verem nascer o Sol, metidos at ao queixo na gua cor de chumbo, tingida daquele sangue doirado que escorre da 
Outra-Banda.
- Meta-lhe a cabea debaixo d'gua, isso! Outra vez! - grita da praia a dona Adlia, nas botinas de cano abotoado, chapelinho na cabea e sombrinha na mo; a segurar 
os sacos. (Nunca deix nada nas barracas!) O banheiro obediente carrega-lhe na cabea com a mo robusta, obriga-o a mergulhar duas, trs vezes, na gua turva onde 
os meninos urinam secretamente. Ele tambm j experimentou, a medo, com uma sensao de calor em rolos e volutas de nuvem submarina, a dispersar-se devagar no rio, 
e ps enterrados no lodo viscoso, s vezes morno, at consola, mas a gente tem nojo: o lodo vem dos esgotos do Terreiro do Pao e de Alcntara. A cada onda, se as 
h, so obrigados a pular, em nsias, agarrados  mo do banheiro, para no ter de engolir! Mas a me manda-os sorver gua pelo nariz,  bom para as constipaes, 
os banhos de mar so remdio santo para tudo, escrofulose  e raquitismo, felizmente a gente no tem disso. Mas as constipaes so um flagelo e a me encoraja-o: 
"V, assoa-te, deita essa porcaria c para fora! Faz-te bem!" - Pois sim, mas ele antes queria no ter que deitar nada!
De volta  barraca, tiritantes, metem os ps nas tinas redondas, brancas por dentro, verdes por fora, onde a gua est tpida: das



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barricas que aquecem ao sol da manh. Arrancam do avesso os fatos de banho pegados ao corpo como sanguessugas, ele volta as costas  irm, com pudor: pesados, enrodilhados, 
moles, a me enxagua-os na banheirinha, torce-os, deixa-os a enxugar nas cordas at ao dia seguinte. (Se chove de noite, amanh tero de vesti-los molhados... )
Os banheiros so simpticos, de bons modos, sempre de barrete ou boina, calas arregaadas, a camisa de l encharcada, todo o santo dia na gua at  cintura, e 
s vezes ainda cantam cantigas de Ovar para entreter os meninos, que fazem roda de mos dadas: "Sodr e Sodr, marujos de Or!" - A gente tem pena deles, queimados 
do frio e do sol.
A me no trouxe lanche, chegou a hora mais que todas apetecida do po saloio, moreno, tostado, enfarinhado, com rodelas de salame ou uma tira de presunto. Na cantina 
obscura cheira a caf quente e lcool queimado, h latas de bolacha Maria bolorenta, frascos de rebuados, e moscas. Mas o aroma do po saloio impregna-lhes a memria 
para sempre. (Deviam ter comprado que chegasse at hoje!)
O regresso ao longo do cais, com um comeo de sol quente nas janelas,  alegre como um retorno ao futuro. A casa espera-os, reconfortante. Os banhos fatigam, vo 
dormir!
Apearam-se hoje no Terreiro do Pao e sobem a Rua do Ouro. Como sempre, ele vai distrado a olhar tudo, o mundo que o seduz, agitado e rumoroso. A uma esquina, um 
bloco de homens barra-lhe o caminho:  a zona dos cambistas e corretores, e o negcio ferve a esta hora! Tmido e trpego, no ousa romper por entre a muralha de 
pernas. Mas  muito simples - desce ao passeio e d volta ao magote, pelo meio da rua.
A me e a gueda j vo adiante, est sozinho no tumulto. Corre e trotina em passos midos no basalto irregular, escorregadio, para alcan-las. Nisto, atrs e por 
cima da cabea, ouve estoirar um clamor de gritos, um clangor arrepiante de ferragens, de alguma coisa que rasteja e tilinta no empedrado, e ergue uma nuvem de areia 
pulverizada a cheirar a queimado... Colhido de surpresa, volta-se e d um pulo...
O elctrico estacou com grande estardalhao, e ele est de p,


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sem saber como, na rede salva-vidas! Corre gente, h mais gritos, olhos arregalados, mos estendidas, e em cima o guarda-freio,  rubro, parece amaldio-lo com o 
punho estendido.
Mas que foi? Que foi? Ele no caiu nem se magoou! Envergonhado e sem compreender, pula da rede abaixo e corre, perseguido pelos berros, arremetendo de cabea baixa 
contra a barreira dos corpos indiferentes,  procura da me que j vai longe e deve estar inquieta...
- Onde te meteste tu? - indaga ela,  esquina seguinte. Ouviu aquele clamor, parou a olhar, mas nem pela cabea passou que fosse por causa do filho. - Fizeste alguma?
Ele no responde. Continua a andar, de cabea baixa, vermelho, no meio do tumulto. O elctrico ps-se de novo em marcha, os passageiros voltam-se a olh-lo das janelas, 
entre comentrios e o condutor atira-lhe do estribo palavras irritadas, de que ele entende que "ia fazendo a desgraa dum homem!" (No risco dele no falam.)
S agora a me percebe, e pra, lvida de susto:
- Ias sendo atropelado?
Mas ele teima em no falar e agarra-lhe a mo. A vergonh acabrunha-o, e o corao desata-lhe por fim a bater desordenada mente, de susto adiado.
E d'e repente acode-lhe e consola-o esta ideia: no foi nenhum
Anjo nem Pomba de Pentecostes que o salvou desta vez! Se no 
tem pulado to depressa para cima da rede, como os acrobatas!...
Respira fundo. Pela rua fora, orgulhoso e a sonhar, entre a me
e a irm, canta entre dentes uma das melodias que aprendeu de
cor no Circo.






























XV
O MENINO E O BACALHAU
- Aquele meu tio Caramba, ainda o cheguei a conhecer sem um dente na boca. Era ele pequenino, quase nem falava, quando foi das invases francesas. Nesse tempo, se 
algum tornava de Lisboa, perguntavam-lhe: "Viste por l o Xin?" (*)
"Quando eles chegaram l aos nossos stios, o povo sumiu-se: quem no pde fugir escondeu-se nas lapas e cavas das serras. Levavam consigo o que podiam, a fazenda 
e a comida. Depois disfaravam as entradas com mato, e ficavam  espera. Houve quem assim estivesse meses! Os franceses, no encontrando gente nem vitualhas, pegavam 
fogo a tudo, searas e casas, arrombavam os tonis de vinho e os cntaros de azeite, e deixavam-nos correr pelas ruas e quelhas abaixo!
"Metiam-se ento pelos montes, e esfuracavam no mato e nas tochas com as espadas e as baionetas, a ver se davam com os esconderijos. Gritavam assim, com uma voz 
esganiada: "O Mria, anda c pr fora, que j l vo-nos franceses!" Se algum desgraado caa na esparrela, no vos digo nada: espetavam-no logo ali como a um chourio.
"A gente do meu tio Caramba tinha-se escondido tambm, mais de uma dzia de pessoas numa cava, e enquanto a papana durou tudo foi bem. Mas os dias correram, a comida 
foi acabando,


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e os franceses nada de se irem embora, m-peste os levasse! A fome apertava, e ouviam-nos andar l por cima, as patas dos cavalos escorregavam nas rochas: "O Mria, 
anda c pr fora, que j l vo-nos franceses!"
"Chegou a vspera de Natal, e os tristes, a pensarem na consoada, engoliam em seco e diziam assim: "Ai, se a gente tivssemos nem que fora ao menos uma febrazinha 
de bacalhau salgado para enganar a fome!" O menino, que isto ouviu, desata num choro: " me, cacau! Cacau, me!"- Queria ele dizer bacalhau o inocentinho! E a me 
tapava-lhe a boquinha: "Cala-te, meu rico filho, que logo te dou bacalhau!" - Mas a larica era muita, e ele chorava e teimava: 'Cacau, me...  me, cacau!"
"J havia murmrios: se os franceses o ouvissem l fora, dessem com a toca, no ficava ali um com vida. O pai perdeu a tramontana. "Se esse marmanjo se no cala, 
toro-lhe o gasganete pelas minhas mos! Pramor dele, ainda aqui morremos todos."
"A me, coitada, apertava-o ao peito, chorava e comia-o com beijos: "Cala-te, filho das minhas entranhas e do saquinho das minhas castanhas! Cala-te, q'ando no, 
vm de l os franceses acabam-nos com a vida! Assim que se eles forem, j te eu dou bacalhau!" - Mas quem  que o convencia?... "Cacau, me.  me, cacau..."
"At que o pai lhe deitou as manpulas ao pescocinho, para torcer e faz-lo calar de vez.
"Nisto, l ao longe, as cornetas tocam a reunir. O pai abriu as mos e ficou a escutar. Ouviram logo uma grande tropeada nas moitas e penedos por cima da cabea: 
eram os franceses a correr!... Iam-se embora, e j no gritavam "O Mria..." O pai benzeu
"De manh cedo, um sossego daqueles, atreveram-se a deitar o nariz de fora da toca: os franceses tinham-se posto ao fresco! Estava tudo branco de neve. Os sinos 
repicavam... Era dia de Natal!
"E foi assim que o meu tio Caramba escapou por um triz. Mas viveu at aos noventa! Oxal eu l chegue tambm..."
























XVI
DON CLODOMIRO REGRESSA DOS PAMPAS
Onze da noite, ou mais, estavam todos na cama quando o pai voltou e deu a nova  esposa:
- O meu compadre Clodomiro chega amanh de Buenos Aires.
O Cap da Roca devia fundear pelas sete da manh ao largo da Rocha do Conde d'bidos, e era preciso estarem todos a p bem cedo, tomar a "dejua", descer no elctrico 
da Graa. quela hora e na casa quieta e obscura houve logo um abafado rumor de preparativos: gavetas que se abriam e fechavam, a me andava de c para l, seguida 
do marido, que lhe dava os pormenores com a voz mansa e inaltervel. O navio vinha atrasado quase um dia.
- Mas uma coisa assim, sem ser esperado! A casa nesta lin
As crianas seguiam a conversa confusa. Atravs da bandeirola porta do quarto, chegava-lhes do fundo da casa, pelo corredor, vago reflexo alaranjado. Da rua, o silncio 
trepava como um
ladro nocturno,  luz dos lampies. Ouviram a me ir  cozinha r mais carvo no ferro, sopr-lo com vigor, depois chegou-lhes o cheiro familiar do sobro queimado. 
Da cama, onde sonhava acordada, a gueda murmurou:
- O meu padrinho chega amanh!
Ele no respondeu. A chegada dum grande paquete, com gente de outras terras, excitava-os, dava-lhes imagens de coisas


116        
exticas, de presentes raros, de doces nunca provados. No  todos os dias que vem um padrinho de longe. A menina dava voltas na cama de ferro:
- O meu padrinho  muito rico. - Depois duma pausa
acrescentou, sentenciosa: - Buenos Aires  na Amrica do Sul.
Ele pensava em ndios, verdura infinita, cavalgadas doidas, laos, tiros de revlver. Entregou-se  fantasia: Don Clodomiro de chapu  cow-boy, jaqueta de alamares 
de prata, botas de montar com os canos bordados, garrucha  cinta, todo envolto num tinir de esporas mexicanas, desembarcava e depunha-lhe na palma da mo uma placa 
nova e reluzente de dez tostes. Se era to rico! Mas no podia imaginar que efgie seria a da moeda: no, com certeza, d'el-rei Dom Carlos o Primeiro.
De olhos abertos no escuro, e dentes cerrados, a menina sonhava outra coisa: o padrinho trazia-lhe um vestido de tafet cor-de-rosa, saia tufada e tarlatana, mangas 
em balo. Via-se j de cabelos trabalhosamente encanudados, cados para os ombros um lao de fita no alto, como uma enorme borboleta poisada. No tinha um vestido 
bonito para ir aos exames... Iam com certeza tirar-lhe o retrato  Fotografia Arte-Nova da Graa, para oferecer ao padrinho. Quem sabe l se ele lhe no daria um 
piano mesmo em segunda mo! Tinham visto um numa casa de penhores do Bairro Alto, francs, Aucher Frres, aguitarrado, com as teclas amarelas e vrios martelinhos 
que j no tiravam som das cordas, ao cabo de mais de cinquenta anos de uso. A excitao espantava-lhe o sono, dava-lhe picadas na pele; pensando no dia seguinte, 
engolia em seco o gosto amargo da ambio. Tinha do padrinho uma lembrana muito vaga.
Correu muito tempo, o murmrio das vozes tinha-se extinguido, a luz amarela apagara-se na bandeirola, os pais dormiam era tarde. Na cozinha, um rato persistente 
voltava a roer uma tbua do soalho, e da casa da frente vinha, pela porta aberta, o reflexo das luzes da rua. A menina deu voltas na cama, suspirando, afogueada. 
Perguntou num sopro:
- J ests a dormir?
Ele no respondeu. A moeda de prata redonda como a Lua tinha-se apagado, e ele dormia nas pradarias ou pampas do esquecimento. Inquieta, entregue a si mesma, s 
ela no dormia



        117
porque a imagem cor-de-rosa do vestido de tafet, irradiando na sombra do quarto, a enchia de febre. Queria ter um piano, estudava as escalas na mesa da cozinha, 
e chorava de vergonha.Era a melhor aluna da sua classe.
De repente o mundo desabou, espesso e sem sonhos. Um despertador retinia algures, logo abafado, o pai tossiu, espadanaram guas, e a voz um pouco rspida da me 
veio agitar a modorra de sono e lenis quentes em que eles queriam voltar a afundar-se:
- V, toca a saltar dessa cama!
O amanhecer acinzentado espancou-lhes os olhos piscos, indolentes.
- Vamos esperar o padrinho!
Mesmo num dia de festa  preciso acordar, levantar-se. Estavam pesados e mal-humorados, a menina beiuda, de testa franzida, agarrada  volpia matinal, ressentida 
da insnia.
- Fora da cama! - e a me puxou-lhes os cobertores e os lenis. - Se no, vem gua fria!
O pequeno lutou desesperadamente para defender o sono e a seminudez. De p no tapetinho florido, cambaleava e resmungava enquanto a me, j risonha, o beijava e 
procurava arrancar-lhe a camisola, que ele segurava ao ventre. A irm, que ao lado mudava de roupas sem ajuda, murmurou:
- Palerma! - Depois empurrou-o para fora do quarto: - Anda, vai tirar a ramela!
A dona Adlia, em saia de baixo de cor, corpete, camisa de entremeios, botas de inmeros botes, acabava de se pentear. - A mezinha pe o vestido bonito?
O cheiro do caf enchia a casa. Era manh clara. Foram  cozinha buscar guas e encontraram a Rosrio sentada num banco, trombuda e calada, de xaile e leno de seda, 
pronta para sair. Os passos do pai ressoaram no corredor: parou, de chapu na cabea e de cigarro aceso, para tomar o copo de leite frio. Depois afastou o bigode 
hmido, sorriu e beijou os filhos. Cheirava a sabonete, a frescura, a tabaco francs, e era bom beij-lo na cara macia, muito asseado, a camisa alvssima, o colete 
de veludo preto com pintinhas verdes, a cadeia de ouro com a medalha de


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Carlos III pendente, as mos brancas, de unhas achatadas
irrepreensivelmente cuidadas.
- Ainda vocs assim esto? No vo chegara horas! O navio
j deve estar a lanar ferro.  melhor tomarem no Rossio o carro-do-povo, que os leva ao Aterro. Eu vou l ter. Por este ar no vo ter tempo de parar no Hotel. 
At logo.
O Gabriel ainda pensou em ir  sacada para o ver sair, como seu costume, mas a me no consentiu: estas horas! A irm beliscou-o num brao:
- Bem feito, manteigueiro, caganitas!
Haver quem no volte rico das Amricas? Don Clodomiro e seu compadre eram amigos de longa data, vindos da serra galega mas de aldeias distantes. Don Clodomiro, 
muito mais velho, tinha ajudado Agustn, ento uma criana, a dar os primeiros passos na babilnia lisboeta, onde vinha ganhar o po da me abandonada e da av viva. 
Clodomiro vivera muitos anos em Lisboa, enquanto a esposa, no terrunho, cuidava das vacas,das ovelhas e dos filhos, cavava e regava as veiguinhas, segava lameiros, 
roava mato pelos montes, e venerava a seu modo o Senhor Abade, a quem engomava as alvas e outras delicadezas. Anos por anos, ele ia  parvnia, carregado de boa 
prata portuguesa, para comprar mais leiras, erguer novas paredes, filhar mais um herdeiro e labrego na cara-metade, e deitar at Santiago de Compostela, na romaria 
da abastana agradecida. Depois retornava a Lisboa. Os galegos da Baixa tratavam-no com deferncia dando-lhe roda de "don". O sr. Augusto tinha-lhe pedido a honra 
de paraninfar-lhe a menina, segunda da futura trindade Don Clodomiro ofereceu o vestido de baptizado, grande uxaria, mandou repicar alegremente os sinos de Santiago 
do Castelo e de Mouros, e pagou o copo-d'gua. Muitos anos se falou nesta prodigalidade. Passado tempo sentiu-se com fgados para botar ate Argentina, no j a tentar 
a fortuna, mas tentado por ela. Possui boas inscries de assentamento, dois pardieiros de rendimento Ajuda, e era um dos maiores da sua parrquia, em Pontevedra 
quase a lindar com o Lugo. Era uma fora social, e a impotncia fsica ajudava-o: uma figura que era pena no terem feito dele abade, dizia-se.
Dos filhos que deixara na Galiza, a ultimognita tinha vindo


        119
para Lisboa com dezoito anos, galeguinha chapada e rubicunda, confiada  guarda do sr. Augusto, que a colocou em casa de um conselheiro. A Rosrio estava agora com 
vinte e um, e no se lembrava do pai, h muito expatriado. Mas como ele tornava rico - um ricachn, no dizer dos patrcios - era vergonha continuar ela a servir 
estranhos: volveria com o pai para a Galiza, a casar-se com um honrado labrego e a servi-lo e a am-lo a par de Deus e do Senhor Abade. Era de crer que o pai lhe 
trouxesse um rico enxoval. Deixou a casa do conselheiro e, de leno amarelo e trouxa, instalou-se debaixo da telha e proteco da dona Adlia. Era trombuda e calada, 
de maus modos e arreganhos rsticos, com um olhar baixo e dissimulado; mas saudvel como uma bezerra, a pele da cara a rebentar de vio e cor. Os pequenos no gostavam 
dela: no falava nem brincava com eles.
Don Clodomiro transps a prancha com a cabea bem um palmo
 acima do rosto dos viajantes, o rosto comprido, moreno e seco, grande nariz aquilino, e um vigor hercleo. O chapu de aba larga cobria-lhe a cabea fina, o cabelo 
prateado e curto. Envergava uma redingota preta, que lhe realava a imponncia de pastor protestante ou prior de ordem severa. Trazia um saco de couro ingls na 
mo.
Os meninos ficaram intimidados, ali perdidos na chusma de amigos, conhecidos e conterrneos que enchiam o cais, a falar um pitoresco misto de espanhol, galaico e 
portugus. Todos se esforavam por usar o castelhano, porque o ricao, homem civilizado, no condescendia em articular brbaros idiomas.
Abraou o compadre e a comadre, passou dois dedos distrados no rosto da afilhada, muda de espanto, e deteve-se um momento a olhar a filha como se avaliasse uma 
vitela na feira: o rosto rubro e luzidio, os seios a estoirar no corpete apertado. Depois estendeu-lhe a mo ossuda, enorme, que a rapariga, com o sangue a espirrar-lhe 
das faces, trmula diante daquele gro-senhor, alto como uma torre e completamente desconhecido, que era o seu pai, agarrou s mos ambas e beijou, dobrando o joelho. 
Ele ergueu-a pelos ombros redondos e duros, agarrou-lhe o queixo, contemplou-a de novo nos olhos que teimavam em ficar baixos, e disse:



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- Que guapa eres, hija mia!
Depois abraou-a e ps-lhe dois beijos sonoros nas faces, que descoraram um pouco. A Rosrio quase que perdia os sentidos.
Saudados que foram os inmeros amigos, admiradores e devedores, que todos deram mostras do maior respeito e afecto pelo "americano", e disposto o destino das bagagens 
que vinham no poro, Don Clodomiro determinou de seguir logo para casa do compadre. Encaixaram-se como puderam numa tipia de praa os dois homens no assento principal, 
as mulheres no extrapontim, a menina de p encostada  me, e o Gabriel na boleia, ao lado do cocheiro, a ouvir gemer e bufar as pilecas escanzeladas. Dom Clodomiro 
levava abraado no regao o precioso saco de couro que guardava talvez o melhor dos seus tesoiros bonairinos. Deixaram o sr. Augusto no Hotel, onde o chamavam deveres 
urgen tes, e a tipia bateu a caminho do Monte, rangendo no macadam das ngremes caladas.
Nessa tarde, ao jantar, a que, dada a importncia do acontecimento, o dono da casa compareceu, os dois homens falaram longamente de terras, conversaram de moedas 
fracas e fortes, taxas de juro, coisas de que os pequenos (e para mais em espanhol no entendiam nada.  comadre, o de torna-viagem falou da vida em Buenos Aires, 
de poltica e civilizao, de modas e diverses, coisas que para ela no tinham realidade alguma. Nem de ndios nem de escalpes, nem de minas de ouro e prata, desfiladeiros 
florestas e cataratas ele falou: nada disto existia na Amrica de Don Clodomiro, que nunca tinha sado das alfurjas da capital platense, ou platina. As suas minas 
e escalpes eram de outra massa. Dos sonhados dez tostes, nem o brilho. A Agueda continuou  espera do vestido de tafet em folhos para ir aos exames. E no piano, 
quem pensa agora: sonhos!
Assim mesmo, o jantar foi de festa: o ricao elogiou muito o pur de feijo encarnado com nabias, que repetiu duas vezes, o lombo de porco assado no forno; houve 
arroz-doce enfeitado a canela, e sades com vinho fino. A afilhada olhava-o de dent apertados e uma espcie de raiva tmida. A certa altura foi dentro com a boca 
cheia: no podia engolir. O Gabriel adormeceu embalado na conversa, e o mais velho saiu para ir "estudar" com um colega.








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Sempre que o "americano" se dirigia  filha, com aquele olhar azul, duro e penetrante de avaliar, ela corava e punha os olhos no prato, ou escondia a cara no leno, 
a tremer como varas verdes, e respondia "senhor meu pai". Como podia ela entender aquele homem que s falava castelhano, e ela uma galeguinha j meio aportuguesada? 
Tinha vergonha. Eram dois estranhos, ele todo autoridade, ela humildade e acanhamento. Senhor meu pai. A dona Adlia at lhe disse:
-  rapariga, no seja botocuda! Voc parece que tem medo ao seu pai. Ele no a come, criatura. Levante essa cara, ria-se!
Ela embatucou mais. Realmente, era um pai de meter respeito. Nem o senhor conselheiro, que lhe dava belisces e vintns s escondidas da senhora.
Don Clodomiro ia erguer casa nova, de pedra afeioada, com dois torrees: j trazia o projecto, cpia dum rancho argentino. Ficaria o resto da vida a ver os labregos 
arrotear-lhe as courelas. E a caar votos: tinha ambies polticas, adubadas pelos cai-tos amealhados. Falava com elogio de Rosas e Terra, ditadores. Depois de 
repousar da arrastada viagem, vinte dias e com temporal, comearia a percorrer a via-sacra dos amigos, parentes, conterrneos e corretores da Baixa. O sr. Augusto 
dava-lhe o Don e Usted, e escutava-o com o respeito que se deve aos seniores bem forrados de prata.
- O meu compadre deve vir cansado, uma viagem assim! - disse s tantas a dona Adlia, explicando-se bem para que ele a entendesse. - Quando quiser, a cama est feita. 
Dorme ali na saleta, o conforto no  muito, mas tem janela para a rua.
Foi-lhe mostrar os cantos  casa. Chegada a hora da deita, o viajante recolheu  saleta independente, que comunicava com a sala de jantar. Acabado o estardalhao 
da cozinha, os meninos deitados, luzes apagadas, o silncio reinou por fim, cortado apenas pelo tique-taque do relgio Waterbury no corredor. S o claro da rua 
entrava pelas janelas da frente. L pelas tantas o pai voltou do Hotel, onde tinha tornado, e foi-se meter na cama sem barulho. Da a pouco ressonava.
De olhos arregalados, sem dormir, o Gabriel seguia o seu filme interior de aventuras, um programa repetido e sempre ligeiramente alterado. A irm, na cama ao lado, 
respirava tranquilamente,



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esquecida de esperanas frustradas. As horas correram, a noite tornou-se imvel e opaca.
Teria dormido? Estava no limiar do sono? Sonhava? Altas horas, ouviu estalar de leve a porta da saleta e sobressaltou-se: havia coisa! Soergueu-se sem rumor e, de 
joelhos, apoiado  grade dos ps da cama, com o corao a pular na garganta, espreitou: Don Clodomiro, de camisola e ceroulas compridas, descalo o em palmilhas 
de meias, saiu da saleta, atravessou p ante p a casa de jantar, e desapareceu  esquerda, pelo corredor. Na meia luz de noite parecia gigantesco. Ia com certeza 
l dentro. O menino ficou tenso, a escutar, com receio de que a zumbideira nos ouvidos impedisse de ouvir. Outra porta suspirou l para o fundo da casa, mas no 
foi a da varanda da cozinha. No tardou que ele ouvisse, um quase imperceptvel rufe-rufe de roupas remexidas, amachu cadas, e o que, no seu terror, lhe pareceram 
suspiros ou gemidos atabafados. Estaria doente o Don Clodomiro?
Assim ficou muito tempo, ajoelhado e tenso, curioso e ater' rado, com vontade e com medo de chamar algum, e sem ousar sair da cama, no fosse esbarrar com o "americano" 
na estreiteza do corredor. A cabea andava-lhe um pouco  roda, de esforo e sono reprimido. De uma coisa ele tinha a certeza: o velho no tinha ido l dentro, que 
por sinal era l fora. Esperou, esperou muito tempo, com aqueles rumores intrigantes e a zoeira de bzio dos ouvidos: at que as imagens e sons da noite se lhe confundiram 
com os da imaginao, e ele caiu de costas na almofada, tonto, exausto de ateno e insnia.
No dia seguinte, para o fazer saltar da cama, bebedinho de sono, e ir para a escola, foram precisas duas rijas palmadas. At teve saudades da Vizinha Delfina.
A Rosrio andava mais trombuda que nunca, no falava, queixava-se de dores de cabea, e no queria sair do quarto nem  de Deus-padre. A dona Adlia estranhava-a:
-  criatura de Deus, ento o seu pai volta l do fim do mundo, ao cabo de tantos anos, sem famlia que o espere, e voc nem a passeio o quer acompanhar?!
- Dejela, degela! - dizia o compadre, todo indulgncia




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e sorrisos. - Muchachas, que quiere Usted. Tienen sus caprichos. Hay dejarlas hacer lo que les d Ia gana.,
A moa, de corada, parecia que ardia. A dona Adlia encolheu os ombros: que se governem. Don Clodomiro ia tratar da sua vida acompanhado s vezes do compadre. Durante 
o curto tempo que ele passou em Lisboa, todas as noides o menino, insone de interesse, assistiu  repetio da cena. Chegou a conseguir esperar que o "americano" 
voltasse  saleta. Depois de sussurros e silncios demorados, a porta l dentro tornava a suspirar de manso, e o vulto de Don Clodomiro, agora apressado, quase a 
correr, atravessava a casa de jantar, para se ir meter na saleta.
A casa recaa no silncio, o menino embrulhava-se nos cobertores, a fazer fora para entender e para dormir. A fadiga acabava por venc-lo, e nem ele conseguia decifrar 
o mistrio, nem se atrevia a dizer nada. Ningum dava por aquelas manobras. Como dormiam todos, enquanto ele velava! Por isso andava murchinho, com olheiras e plido. 
A me obrigou-o a tomar doses reforadas de leo de fgado de bacalhau, e chegou mesmo a ministrar-lhe uma purga de citrato de magnsio, que ele odiava. Um mistrio 
daqueles era para dar cabo de uma pessoa.
Entretanto, a Rosrio desanuviou o semblante: j se ria, j saa de brao dado com o senhor-seu-pai, que lhe comprava faldas e camisas, xailes e cachens variegados, 
todo um enxoval de lavradeira rica - o enxoval que no lhe tinha trazido de Buenos Aires. Ela, regalada! Perdera-lhe-o medo... Voltava com ele para a terra, ia-se 
casar, feita uma senhora. Estava na idade, dizia o "americano", mirando-a com risonha severidade e ternura: Isto, muchachas, querem-se casadas antes que uma tentao 
do demnio...
No dia do bota-fora foi outro rebolio: a arca de lata preta com ornatos amarelos, o ba de couro malhado, montes de malas e maletas de todas as cores e feitios, 
de madeira e cabedal, caixas e caixotes, tudo o que viera no poro do Cap da Roca, seguiu numa galera para ser expedido em grande velocidade. A muchacha foi pelo 
brao do pai, toda gaiteira e risonha, parecia outra, quem havia de dizer, agarrada ao grosso cordo de ouro de trs voltas que ele lhe comprou na Rua da Palma, 
pesado que deitava um brao abaixo, na expresso da dona Adlia. Luxo assim! Tomaram



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o Correio do Porto, a caminho da Galiza verde e lrica. De novo se juntaram os amigos, parentes e conterrneos, a saudar com grande respeito e acatamento a Don Clodomiro, 
que enriqueceu em Buenos Aires e ia fazer vida nova na aldeia, lanar sementes de civilizao e progresso. A Rosrio, de leno amarelo de cetim adamascado, corada 
e reluzente, ria no janelo da terceira classe.
A vida reentrou nos eixos. O Gabriel nunca se atreveu a falar daqueles passeios nocturnos de Don Clodomiro em ceroulas de fitas. A gueda continuou sem piano e sem 
vestido de tafet para os exames. Mas, com o tempo, o sr. Augusto deu em andar apoquentado, a dona Adlia carrancuda. Se algum falava de Dom Clodomiro, ela franzia 
a testa, os seus olhos deitavam chispas, fungava:
- Boa prenda, o tal senhor meu compadre. Galego rico!: Esperem-lhe pela pancada!
E no adiantava mais. O marido encolhia os ombros, sucum bido. Conversavam at altas horas em murmrios, metidos no quarto. s vezes riam-se, e ela dizia: "Traste!"
Como  que as crianas entendem estas coisas de que os adultos s falam em cochichos, por meias palavras, ou  porta fechada? Algo de grave se estava passando. Foi 
como sempre a gueda que percebeu, e um dia disse misteriosamente ao ouvido do irmo:
- A Rosrio vai ter um menino! - depois tapou a boca como quem deixou escapar um grande segredo, arregalou os olhos e fez: - Oh!...
E ento? Ela no se ia casar? no  para ter meninos que pessoas se casam? porqu, tanto mistrio?
Uma noite o pai lia uma carta  esposa: " Muy estimado Amigo Compadre, Don Agustn de mi mayor consideracin... " A muchacha tinha tido um deslize, coisas da mocidade, 
e fraquezas da carne, havia que guardar as aparncias. Pedia ao sr. Augusto que acolhesse de novo em Portugal, donde, depois de arreglado todo", volveria  Galiza 
para casar. Que remdio seno ajud-lo.
A Rosrio reapareceu em Lisboa, gorda e risonha, com a pele da cara a estalar de sade e cor, parecia uma ma camoesa, e de barriga  boca. Os meninos espiavam-na, 
curiosos. Mas ento, se


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ainda no estava casada... ? A me, severa, fazia olhos feios, mandava-os calar:
- Vo l para dentro, vo estudar as lies!
 galeguinha  que eles no perguntavam nada. Nem ela diria. A me falava do caso em meias palavras, conversava com pessoas intimas, rematava:
- Desgraas da vida. Um filho sem pai! -(Sem pai?! Como  que pode ento ser filho?) E outras vezes:
- Vergonhas! Ento ela no sabia agora que ele  o seu pai? No queria, no queria! Conversa! Vejam l se gritou, se chamou, ou se se queixou! A raiva que ela tem 
 triste da me, l metida com os porcos e com as beras. Toda ela se baba!... E ele, o ricachn, com aqueles ares de dom abade, o tratante! Piores que animais!
Tratava a galeguinha com rispidez e brevidade, mas ela ria e cantava, bailava se lhe dava na real gana, comia por trs e saa a passear. Que mudana aquela! Tinha 
o noivo na Galiza,  espera.
- J vai ensinada. Algum brutinho, um labrego sem uma perra-chica, a quem o senhor teu compadre deve ter dado bons duros de prata para o calar. Aparncias! - comentava 
a dona Adlia.
A Rosrio foi para a provncia.
- Vai ter o menino! - explicou a gueda, sempre informada e misteriosa. O rebento ficaria em Portugal com uma ama, a qual Don Clodomiro pagaria a soldada enquanto 
vivo fosse. Dava  muchacha um bom dote em terras de lavoura e pesos de prata, e que mais podia desejar o consorte em troca de...?
O menino nasceu. Por sinal era menina, e l ficou pela Beira, em Peravinha ou coisa assim, a criar-se. A Rosrio passou por Lisboa, descuidada e prazenteira, um 
nada mais delgada e em menos cores, e da a dias reembarcou para a Galiza, com o ba de novo carregado de prendas e roupas. Ia-se enfim casar, vitela parida, fazer-se 
lavradeira e me de filhos, e, como a sua me dela, grande devota do Senhor Abade. A dona Adlia repetia:
- O grande traste. Fazer uma destas nas barbas do seu compadre, numa casa decente! Se  que no andou por a com ela nalguma... De mi mayor consideracin! Todos 
o mesmo. E vejam l


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se ela escreve, se tem remorsos, corao para a desgraadinha que c deixou. O pai manda a mensalidade, e acabou-se. A sorte da criana  que talvez no viva muito 
tempo; um monstrinho, coberta de pstulas! Que admirao, tambm, filha do av... Misrias deste mundo.
Filha do av? Mas nesse caso quem era o pai? O Gabriel fazia esforos vos para entender. L que havia relao entre esta intriga toda e os passeios nocturnos de 
Don Clodomiro, isso havia. E alguma coisa de parecido com o que acontecia entre o Paco e a Triana. Mas a acabava-se a compreenso.
- Palerma! - disse-lhe a irm. - O pai da menina  o av!
Passado tempo, constou que ele j tinha edificado a manso com torrees, a "casa do americano". Ia emprestar dinheiro a juros, gozar da fortuna amealhada, dispensar 
caridades e ajudar a fazer deputados. O sr. Augusto ria-se, e um dia cantarolou, como era seu costume sempre que comentava algum acontecimento menos vulgar:
Esta noche me llamaron para bautizar um nino: quiera Dis no sea yo padre, compadre e padrinho!
A dona Adlia dizia, entre severa e risonha:
- Ele que se atreva a tornar c! H-de-mas ouvir!
Nunca mais o viram. O Gabriel guardou consigo o segredo daqueles passeios nocturnos do ricachn Don Clodomiro, em ceroulas e palmilhas de meias, que s ele, na sua 
inocente curiosidade, soubera notar.





ELE TINHA UMAS ASAS BRANCAS
Veio visit-los o tio Amndio, que  to raro aparecer. Quando ele se foi...
- Este vosso tio! - diz a me, e o olhar risonho afunda-se-lhe em nostalgia. - Era o segundo daquele rebanhinho, e eu a mais velha! De todos ns, s ele herdou da 
vossa av os olhos verdes.
Mas, se os da senhora Jacinta tinham a transparncia da gua serena, nos dele havia uma ardncia dura, fulgores que iam da alegria ao furor. Tinha o gnio bravio 
estampado na cara de querubim; a boca num perptuo amuo.
Procurava lugares arredados e silvestres para brincar s. Falava pouco e era raro sorrir. Quando muito instado, respondia em monosslabos, s vezes com grunhidos. 
Com o pescoo robusto, o arcaboio e os punhos formidveis para uma criana, todo ele transpirava sade e fora, e tornou-se temido. Os outros garotos, e os prprios 
irmos, s de longe ousavam gritar-lhe: "Eh, Boi-do-Val'!" Ento, ele arremetia de cabea baixa, o queixo agarrado ao peito, cego de furor, como um touro (da a 
alcunha), e ai do que ele fisgasse!
Mas era respeitador: se alguma vez furtou uns cobres  me, era para correr a d-los a um pobre aleijado. Enquanto os outros meninos andavam pelas ramarias a apanhar 
ninhos, a roubar os ovos ou os passarinhos ainda mal emplumados, ou espetavam uma palha de centeio no cu dum sapo para o assoprar e faz-lo estoirar debaixo dos 
ps, ou deix-lo a sofrer assim empalado no


128

alto dum muro, numa arrastada agonia de noites e dias - Boi-do-Val' estudava e conhecia o canto e os costumes das aves, utilidade dos bichos, e nunca fez mal a uma 
mosca. Se topava garoto, irmo seu que ele fosse, a trepar a um ninho, castigava Roubava ou rasgava as redes aos passarinheiros, libertava as aves engaioladas, cortava 
sorrateiramente as linhas aos pescadores para salvar as trutas do pego do rio, suas camaradas. O nico animal que ele odiava era a cobra, que fascinava e devorava 
outros seres indefesos. Andava pelos montes  procura delas armado de pedras e de um pau ferrado com que esfuracava moitas e silvados. Um dia foram dar com ele, 
na terra, a fazer frente a uma cobra de lendrias propores,  qual parece que tinha esmigalhado os ovos, e que o perseguia enfurecida, silvando!
s vezes, ousado e loiro como um heri dos mitos, com arcaboio abojado, as pernas bem plantadas e os punhos fechados aguentava sozinho um bando de adversrios e 
punha-os em fuga. Deixava o cabelo aos punhados nas refregas, de que saa ofegante a sangrar, mas como que envergonhado de vencer. Corria a meter-se em casa, e a 
me, suspirando e limpando das mos a massa do po, tratava-lhe os rasges da pele com sal e vinagre, ou arnica, e os da roupa com a agulha. Tinha cicatrizes enormes 
na cabea das quedas e rixas, mas nunca lhe ouviram um queixume. Ia sentar-se a ler o Manual Enciclopdico, livro de cabeceira da famlia. Inspirar-se-ia de Sanso? 
Lia dias inteiros, mas a tabuada nem queria olhar. Fugia da escola, e ningum soube nunca como  que ele aprendeu tanta coisa, e melhor que os outros, incluindo 
a arte de oleiro. Ia para os montes, para a escola da natureza. Voltava arranhado, com sementes de mato agarradas  roupa e  grenha, a pele queimada, e um brilho 
ardente de liberdade nas pupilas "Por onde andaste, Amndio?" - Ningum lhe arrancava uma explicao nem uma desculpa. O pai dependurava a palmatria do prego, junto 
da lareira, e os bolos zuniam e estalavam. Recebia o castigo sem pestanejar, mordendo a boca. A me fugia para no ver aquilo, e os irmos baixavam os olhos, a rogar 
a Deus que ele confessasse, o pai fraquejasse, ou a palmatria rachasse de meio a meio. Seis bolos em cada mo, e para a cama sem ceia. Passava pelos irmos e sorria 
para os tranquilizar. Eram trs, quatro dias




129
de mos empoladas. Recusava as sopas e o caf. Sentado a um canto do quintal, a ver brincar os irmos, com as mos de palma para cima, apoiadas nos joelhos, se eles 
se apiedavam virava a cara a fingir indiferena.
Um dia, a palmatria desapareceu. O pai Colmeal, reservado, fez outra e pendurou-a do prego. No tardou que esta levasse tambm sumio. Uma tarde, quando preparava 
a cozedura para
os porcos, em cima dum grande fogo de lenha, a senhora Jacinta ergueu os olhos, e que h-de ela ver? - um cordel a espreitar dentre as pedras negras de fumo da chamin! 
Puxou por ele, e atrs veio vindo um pau redondo, cozido e torrado do calor: era o cabo da palmatria!
Chamada geral: quem foi o da faanha?, indagou o pai, com Aquele esgar que parecia um sorriso e lhes gelava o sangue nas veias. Negaram todos, um por um.
- Algum h-de ter sido!
Foi buscar a rgua de carpinteiro. As mos suavam e tremiam de medo. Iam passar todos pelo castigo. O Boi-do-Val' avanou um passo:
- Fui eu, senhor pai.
Nascia nele o camarada solidrio, responsvel...
- Pois quem se acusa merece o perdo - tornou o pai. - Desta vez: porque para a outra penduro-te pelos ps daquele caibro do tecto!
Se algum deles hesitava em confessar uma falta, era o Boi-do-Val' que se acusava. O culpado, dodo de o ver sofrer inocente, reclamava a honra do castigo. O pai 
Colmeal punia o culpado e o encobridor... Naquele tribunal, a confisso era uma atenuante, mas nunca derimente. A negativa, a fuga, severas agravantes. Se a confisso 
no vinha, passavam todos pela palmatria. Mas nunca um irmo denunciou outro. A clera nunca o cegava, nem ele punia num momento de arrebatamento: deixava amadurecer 
a conscincia do delinquente, confiando que o remorso ou a expectativa da pena agravada o fariam falar. Ento, punia com dureza mas a frio. Sendo a falta pesada, 
os meninos, enfileirados contra a parede, chegavam a ajoelhar-se para confessar e pedir perdo! Sentiam no pai o amor da verdade e da justia, uma adeso a princpios, 
que lhe adoavam a severidade. Sabiam que ele sofria


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de os fazer sofrer, empalidecia e suava, chegava a ficar doente: isso, se o temiam, respeitavam-no e amavam-no.
De outra vez, o Boi-do-Val' apareceu em casa a escorrer sangue: o mestre-escola, para o punir de qualquer malfeitoria, tinha-o levantado pelas orelhas, por pouco 
lhas arrancava. O pai lavou-lhe as feridas, interrogou-o com calma, e declarou o caso merecido, embora exagerado. Saiu, foi  casa da escola, chamou o pedagogo  
rua e disse-lhe assim: "O senhor  mestre, d o ensino; eu sou pai, dou o po e o castigo. " E ferrou-lhe uma surra, que se lho no tiram das mos, deixava-o sem 
conserto. Encheu-se o Largo do Pombal de mulherio, de gritos e escndalo Debaixo da pancadaria, o mestre gritava: "Tenha d, senhor Colmeal, tenha piedade! " - Mas 
ningum gostava dele, da sua rispidez nem da sua poltica, e pouco depois foi transferido, branco de alvaiade e com a cabea em ligaduras. Foi ento que veio o senhor-mestre 
Cunha.
Era para a irm mais velha, diligente e bondosa, que o Boi-do-Val'
reservava a sua adorao. Ela ajudava-o a vestir-se de anjo para as procisses. Loiro, rubro e orgulhoso, representava  maravilha o papel de Anjo Lcifer, e todas 
as mulheres o olhavam com paixo. Os anjos rebeldes conquistam sempre os coraes!
Um dia o anjo zangou-se, despedaou as asas de penas de ganso, rasgou a tnica, arrancou a fita doirada do cabelo - e a procisso  porta! O pai deu-lhe meia dzia 
de bolos e obrigou-o a marchar assim mesmo, atrs das pessoas da Santssima Trindad trs cerejas do ano no bico... Nem desta vez ele chorou: os seus olhos secos 
tinham a chama da revolta, no a doura da submisso. Nunca ele pareceu tanto o Anjo cado!
Teria treze anos quando se foi de casa para ganhar o po. Era o primeiro a sair, a Adlia no tardaria a ir-se tambm, com quinze. Cedo comeava a disperso que 
havia de os atirar por esse mundo de Cristo, separados, distantes, quase estranhos!
Era no Inverno, tempo de festa, no quintal e nos caminhos a geada estalava debaixo dos sapatos, e em cima da "bruxa", no prato de ferro, assavam as castanhas. Os 
irmos, doridos, quiseram dizer-lhe o adeus que os sufocava, e escondiam a cara no regao, em pranto. O Boi-do Val' partiu, srio e grave, de trouxinha na mo, na 
diligncia de Coimbra, para nunca mais voltar.





        131
- Festa? - diz a dona Adlia. - To amigos que ns ramos castanhas, nem nas quisemos provar! Foi um dia de lgrimas, no meio daquelas serras brancas de neve e caramelo! 
Natal mais triste...
O Boi-do-Val' fez-se oleiro, caminhante, soldado, embarcadio ningum sabe ao certo dizer quanto mais. Os anos correram...


XVIII
UM DRAMA SOB O TERROR
No  s, porm, em volta da Dalilah, ao ar livre ou no escuro, que os rapazes se renem em concilibulos secretos: desaparecem nas escadas, fecham as portas, at 
h quem fume s escondidas, mais crescidos. O Antero no brinca com os garotos da rua, os hbitos dos meninos de boa famlia no so melhores, e gozam de imunidade 
e segurana.
Perdem-se com a garganta apertada em ruas desconhecidas, os mais novos levados pela mo: encontram-se entre estranhos, saltam muros e grades de jardins com canteiros 
em curvas, palmeiras e plantas exticas eriadas, entram em chals ou "palacetes" alguns deles com mirante de zinco, uma escadinha de caracol uma varanda a fingir, 
e vidros de cores por onde se pode ver Lisboa, l longe, que metamorfose!, cor de mel, rubra de incncios, ou estupidamente azul. H stos e trapeiras com mveis 
catres, cadeiras coxas e estripadas, bas, roupas velhas, um sem-fim de coisas em que  bom remexer. Pode-se representar cantar pera, os que gostam.
Que menino se recusou j a brincar num sto, a inventar inexistncia? Est-se fora do mundo, numa torre inacessvel, pessoas crescidas ficam longe, com as suas 
ocupaes, ideias, hbitos incompreensveis. Aqui  o reino da fantasia, da realidade indescoberta. Vem-se as traves e as telhas do avesso, com teias de aranha, 
e h umas lucarnas pequeninas, muito engraadas, viradas para o cu azul, o sol, o silncio, s vezes o pio dum pssaro.


        133
uma paz de eternidade. Assim, no cheiro de palha, de mofo e clandestinidade, de p e madeira tostada de sol, entre murmrios e palavras proibidas, gestos rituais 
de descobrimento, e acres emanaes de suor infantil, pode-se ser feliz ou infeliz  vontade, e apesar da carne ainda insensvel, ir aprendendo os segredos do ser, 
que exalta e que di.
Todos eles fogem do Luciano-zarolha: sentado nos mosaicos sujos da escada, encostado  parede, exibe-se na penumbra, tenta inici-los, faz-lhes gestos de convite 
e ameaa.  um matulo, mais velho e mais forte, e todos tm medo e nojo dele, com aquele olho esbugalhado e turvo como um olho de peixe que rebentou na fervura. 
E cheira mal, tira burris incrveis do nariz achatado, cola-os por baixo do tampo da mesa comum, na aula! O Gabriel recua e encosta-se  parede. Felizmente, abre-se 
uma porta em cima, h vozes de mulheres e o Luciano foge para a rua, a abotoar-se. Ainda de l ameaa:
- Vou dizer  teu irmo! Ele d-te uma carga de porrada!
Dizer o qu, se ele no fez nada? Porque  que os fortes tentam dominar os fracos? E que cobardia  que o retm de gritar, de agredir, de fugir e acusar? Mas a vergonha 
seria imensa, o terror da suspeita, e como h-de ele afrontar o olhar directo e severo da me, o sorriso irnico do pai? Os crescidos no entendem, so de outro 
mundo, incomunicveis. Separa-nos uma invisvel muralha de amor, carinho, severidade e proteco.  preciso esconder a curiosidade como um crime. Ser isto que eles 
chamam pecado? Este peso sufocante de opresso, fraqueza e culpa? - Sabem o que lhe apetece s vezes? Fugir. Mas para onde? A rua da Saudade  longe, e j nada o 
espera l. A cidade  imensa, talvez descer as escadinhas do Monte e desaparecer para sempre...
Em vez disso, volta a casa acabrunhado e vagaroso. Se ao menos o irmo lhe acudisse! Mas este, por vezes to bom e carinhoso, parece outras aliar-se aos mais para 
o oprimir e humilhar tambm: "Vou dizer  mezinha!" - e ele cora, envergonhado sem saber de qu. Porque  que a gente cora sem motivo?
Mas h (deve ser por isso) qualquer coisa que os atrai e embriaga. Que quer isso dizer? Porque brincam assim? E porque  que dizem em segredo (como o Antero) "Amo-te" 
- revirando



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os olhos? Ele prprio tem impulsos que no pode reprimir,
esconde. Como quando foi espreitar o pai. Preocupa-o o feitio do
corpo. Para que serve isto? J a Dalilah, naquela noite... A ideia
de que ela era dele, s dele, assim julgava, ainda lhe incha
o corao e afoga-o de pena. Sabe que a perdeu, doce e quente intimidade, e que  pequeno e insignificante. O alheamento dela ainda lhe di mais. Todos so indiferentes 
ao seu sofrimento mesmo no amor: a me, o pai, os irmos, a Delfina, a tia Zulmira... Porque  que os crescidos se calam e recatam?  assim que o obrigam a esconder-se 
e a ter vergonha. Talvez seja melhor, gozo  maior no segredo. Mas como  que eles adivinham o que ele pensa ou sente? Porque se riem dele, ou para ele, sempre que 
se fala na Dalilah?... Seria melhor talvez ser invisvel, como homem dum livro que o Santiago anda a ler. E porque lhe fazem olhos de censura e troam dele, se nunca 
lhe explicaram nada?... Que mal fez ele? - Entregue a si mesmo, perdido em reflexes contempla-se. A solido, se lhe di, comea a atra-lo. Comea a gostar de sofrer, 
a gozar os espinhos, e canta em surdina a brincar.
A Maria de Laparotos, ento, ri-se a perder...
- Que histrias so essas, criatura! Tenha propsito! No quero c saber das vidas alheias. Nem que as crianas ouam
- Ouvem agora, minha senhora! J esto a dormir. Estou-lhe a dizer, a minha irm ouviu tudo pelo buraco da fechadura. No estava ningum em casa, deu-lhe a curiosidade. 
Rapariga nova Depois do copo-d'gua foram-se logo meter no quarto. O patro tava ca pressa toda, pois ato. Tantos anos de namoro! A dona Virgininha no queria, 
e ele a teimar. Foram ali prantos naquele quarto, que a senhora nem pe na sua ideia! Ele a ver se a convencia, e ela com medo...  Virginazinha, deixa o teu marido! 
Horas nisto. Que no e que no. Nem  mo de Deus-padre Ele ato, que estamos casados pela Igreja, no  pecado nenhum E pra que  que uma pessoa se casa? Diz-lhe 
dessas. Int que s'e zangou e deu-lhe ali berros!... A minha irm j tava em pulgas: ela no deixa, vou l eu mas  dar-lhe uma ajuda... A minha senhora desculpe, 
mas isto a gente semos saloias, temos c outros modos... L pr anoitecer, quase horas de jantar, j tava escurinho, ela l se conformou co'a sua sorte. Ele com 
muitos tagats,


        135
mas foram gritos naquela casa!... Parecia ele que a estavam a esfolar em vida. A minha irm int ficou envergonhada, a vizinhana toda a ouvir aquilo! Ia-se-lhe 
queimando o assado.
-- Tenha assento, mulher. Fale baixo.
Ela, risonha e (com certeza) afogueada:
- Ato, minha senhora, que tem l isso? So coisas da vida.
no dia seguinte, imagine a senhora, a patroa escondeu as roupas todas, nem consentiu que a minha irm as pusesse na barrela. Com vergonha do sangue, se j se viu 
coisa assim!
- H quem tenha vergonha at de menos.
- Agora ato  tudo meiguices, nem saem do quarto...
Sangue, sempre sangue, sempre mistrios, bruxedos e mortes e noite. E as mulheres. O que  que tem o casamento, que faz chorar e ter medo e vergonha, e di e a gente 
gosta?... Que se passa no encontro de todos os dias, se todos se casam, e acham natural e vivem e morrem, e guardam segredo? Porque se escondem? Porqu tantos mistrios 
e dores e lgrimas na vida, se todos a aceitam e a procuram?
Felizmente, resta-lhe o Chiquinho: so da mesma idade, diferena de um ms ou dois, e entre eles tudo  sincero e sem rebuos. Sentem-se ambos perseguidos, privados, 
e isso aproxima-os, torna-os mais amigos. Mas o Chiquinho no tem inquietaes, se ele lhe fala nestas coisas olha-o com espanto nos olhos cor de parra madura, e 
no percebe. Tem l em casa uma sala de banho com uma tina imensa, de zinco, por fora pintada a fingir chne, por dentro de branco, com muitos canos e torneiras, 
e um esquentador de cobre reluzente. E tem duche! Reinam ali a sombra e a frescura permanentes, e nos dias de Vero, quando o sol escalda na parada do Quartel e 
eles se cansam do quintal, da nespereira, da capoeira, da fantasia, refugiam-se ali, na realidade e na contemplao. O lugar, com a mam sempre fora, em compras 
e visitas,  propcio ao estudo dos mistrios da natureza, ainda mal desabrochados.
Houve um acidente inesperado, por assim dizer cado do cu. Foi a noite passada. Voltavam do Teatro da Trindade, ele ao colo do pai, a gozar desde a paragem da Graa 
o balano da marcha, quando o sr. Augusto deu pela falta das chaves: tinha-as perdido



136        
ou esquecido, nunca tal lhe sucedeu! Contrariedade assim e a es horas... Ficou de humor atravessado. Bateram as palmas, mas o guarda-nocturno, um velhote com a lanterna 
furta-fogo a aquecer-lhe a barriga, um grande revlver inofensivo e um molho de chaves e gazuas, no pde dar remdio. Foi preciso mandar Santiago de volta  Graa, 
um estiro, chamar os bombeiros.
Ah, mas valeu a pena, depois do Solar dos Barrigas! Veio um bombeiro ainda novo, gil, mas sem a farda nem o capace habituais: de cotim, com um barretinho escocs 
de pano escuro. Entrou pelo rs-do-cho, com licena da vizinha, e marinhou pelas varandas das traseiras, mo aqui, p ali, at ao segun andar. E eles todos a v-lo 
c de baixo do quintal, e os vizinhos s janelas, consternao geral. Parecia mesmo um nmero de circo! Chegado ao alto, pendurou-se da varanda da cozinha, balanou 
no espao para alcanar o peitoril da janela do quarto de vestir. Mas era longe, foi o momento irrespirvel, e viu-se perfeitamente, apesar da escurido, que esteve 
vai-no-vai para cair. conseguiu por fim agarrar-se ao parapeito, houve brados de admirao e aplauso, iou-se com fora, partiu uma vidraa, abriu a
janela, entrou em casa como um gatuno (vejam l vocs como  fcil!), e da a nada, sorridente mas um bocadinho plido, no admira, abria a porta  famlia reconhecida. 
O paizinho meteu-lhe alguma coisa na mo, ele no queria aceitar, mas agradeceu com muito bom modo, e foram todos para a cama a comentar a aventura. As chaves tinham 
ficado no bolso do outro fato!
Impossvel saber agora donde vieram estes cinco tostes de prata, que ele mira e torna a mirar, e a que d brilho com o p de arear os talheres:  bom acariciar 
a moeda entre os dedos, a efgie um pouco delida d'el-rei Dom Luiz o primeiro de Portugal Algarves, no sabemos se pela Graa de Deus. Talvez seja presente de aniversrio, 
ou fruto de coisas e prolongadas economias. H muito tempo que ele a guarda, preciosamente embrulhada em papel de seda, na bolsinha usada que o pai lhe deu.
A dona Adlia anda hoje nos Armazns Grandela, que ele confunde, por dentro, neste labirinto de corredores e escadarias com os do Chiado, paredes meias; a fazer 
compras aborrecidas, mas indispensveis  felicidade duma famlia da Rua de So Gens


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ao Monte: chinelos de trana para os pequenos (no fazem bulha para baixo), riscado azul para bibes, uma camisola azul-marinho para quando ele for para o outro colgio, 
e talvez, se o dinheiro der, um capachinho entranado, ou de cairo, com a bordadura verde, para a porta da entrada, em cima dum jornal. Esto-nos sempre a roubar 
o capacho! Ele gostava de um com um leozinho estampado.
Levado pela mo da me, morre de aborrecimento no cheiro irritante das mercadorias destas grandes lojas meio desertas, onde parece no haver nada que lhe interesse. 
(Diverte-se muito mais na loja do sr. Braga,  Praa da Figueira, onde ela compra pano cru para lenis: um golpe de tesoura, e depois crrrc - rasgam a pea  mo!) 
Mas nisto,  passagem, descobre uma coisa que o faz parar:  um teatrinho de papelo, que lhe lembra a miniatura de teatro, todo doirado e iluminado, que h no trio 
do Prncipe Real: muito ele sonha a olh-lo! Mas este  s palco: tem o pano de boca, erguido, a mostrar a cena, irresistvel: um crcere imenso, de altas janelas 
gradeadas, montes de palha a servir de camas, cadeiras chumbadas s paredes de grandes blocos de pedra, e arcarias. At parece hmido, s de se olhar. De cada lado 
tem dois bastidores.  uma cena duma pera qualquer, sob o Terror, explica o empregado. Talvez a Bastilha ou a Conciergerie (palavra desconhecida). Em cima, no fronto, 
decifra com respeito o nome Thatre Franais.  um palco completo, est visto, com moldura, sanefas, cortinas e pano de boca, tudo dum rico vermelho-cereja, com 
muitas borlas e franjas amarelas a fingir de oiro. Imagens d'Epinal, como os soldadinhos estampados ou a histria da Senhora-Me-Esqueceu, do Corcundinha e outras, 
que ele compra na capelista do stio. E podem-se usar outros cenrios, e actores: vm nestas folhas de recortar, como os soldados. Por exemplo, Os Huguenotes, aqui 
esto eles. Tudo em roxo doirado, que lindo. Cada folha so quinze ris. E ento o Teatro? com cenrio e tudo? O Teatro, com cenrio e tudo, so quatrocentos e cinquenta 
ris, e ainda lhe sobeja meio tosto.
Olha a me, hesitante, ela sorri: "Tens medo de gastar o dinheiro? Tolinho! " Ao contrrio, a moeda parece que lhe arde no bolso. At as mos lhe suam. Ora repare: 
o carto  rgido, macio, nada empenado, uma perfeio de trabalho, e tudo montado em



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ripas de pitch pine - apalpe, apalpe! - branco de neve, uma
seda, at d gosto acariciar com o dedo, e d mesmo. O pano de
boca sobe assim, desce assim, devagarinho, com esta manivela.
Segura-se o edifcio... Que lindo que  ver surgir o palco deserto! Agora vamos desmontar tudo, para pr na caixa. E pronto!
Mezinha... Pois sim. Faa o favor de embrulhar. - Os Huguenotes so de graa, brinde! Eu levo, eu levo... S resta meio tosto. Mas o orgulho de levar o Teatro 
Francs debaixo do brao!...
Agora, com as janelas interiores encostadas, na penumbra da casa seminua,  luz dum candeeirinho de petrleo oculto, ou de velas, ele representa um drama da Revoluo 
desconhecida. s vezes  uma pera, a irm ajuda, cantam rias improvisadas, ou assassinam trechos de opereta, de revista, e assim. Ele empurra e puxa as personagens 
com arames e linhas, mas  uma dificuldade, embaraam-se umas nas outras, tombam em cena, estragam o efeito todo -  preciso interromper o espectculo, meter a mo 
 vista do pblico! O mais difcil  faz-las morrer, nas peras sempre morre algum: e ento  que no h maneira de as fazer cair! Torna a meter a mo... Quando 
se d  manivela para descer o pano entre aplausos inventados - reque-reque-reque de sonorizao - o Teatro Francs abana at aos alicerces.
Vm outros meninos assistir, chegam mesmo a pagar cinco e dez ris por lugar. Mas ningum tem dinheiro. A no ser o Faustino, o pai dele  dono duma mercearia,  
rico. Os espectpulos, frequentemente interrompidos - h espectadores que pretendem intervir na representao, imagine-se! - acabam em discusses, lgrimas e gritos, 
e j chegou a haver belisces e caneladas, mas fora de cena. Estes fracassos desiludem e cansam. Depois, o cenrio dos Huguenotes saiu todo empenado, ou o carto 
no presta, ou  da pasta de farinha. E onde querem vocs que a gente v encontrar pitch-pine para fazer estes cubinhos e as ripas? A lenha do fogo  o que se v, 
cortada  faca (romba). E as caixas de charutos racham. Nunca mais  possvel fazer nada como o primeiro cenrio. Mas no se pode ficar o resto da vida a brincar 
aos dramas sob a Revoluo! Nem mesmo sendo republicano (com L, est visto). Pouco a pouco, como na vida real, como na carreira da Desdmona, o Teatro vai caindo 
no abandono.
Algum trouxe um dia uma lanterna mgica, que finge (mal)



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de Animatgrafo. Ento cantam em coro, inveno da gueda: L vai o Corcundinha, h-h-h! " Mas  sempre a mesma coisa, as imagens imveis, tem a gente de agitar 
a chapa de vidro para as fazer danar ou dar-lhes vida. No tem comparao mesmo nenhuma com o Animatgrafo. Mgica! A casa enche-se do fedor acre do morro de petrleo, 
a lamparina no arde como deve de ser, faz fumo, sufoca. Abram essas janelas, Jesus Senhor, isto empesta o ar!
S h um remdio:  moer a pacincia ao pai: " Paizinho, vamos ao Animatgrafo!"
Como o Santiago anda na pndega e nunca volta a horas, a me manda agora o Gabriel com o saco de rede  horta da Serafina para comprar as verduras. No custa nada, 
d-se a volta  esquina,  um pulo ao Monte, depois desce-se a Calada a correr. J est tudo encomendado da varanda da cozinha,  s meter no saco... Ah, aqui sim, 
aqui  que  bom brincar! Sozinho, que remdio., Pena o Chiquinho nunca vir s compras... Senta-se no muro do tanque, todo coberto de lquenes e musgo, e era capaz 
de ficar horas a ouvir a caleira de pedra a despejar brandamente a gua da nora, e a olhar o tremor da superfcie onde brincam alfaiates, glissando como hidroplanos, 
os limos de veludo molhado, o fundo verde-escuro que o atrai, os reflexos da latada, das nespereiras e do cu. S no tem peixinhos. Mas h tira-olhos, azuis e encarnados, 
que voam rente  gua, no fazem mal  gente. Tudo isto parece longe, a cem lguas da casa e do Monte, em pleno campo. Ele mete a mo na gua, faz ondas, inventa 
navios, temporais, naufrgios. A gua canta, a folhagem estremece, as aves piam, o sol escorre na verdura, o menino sonha, o mundo no tem tempo nem fim. Como  
bom deixar-se estar, deslizando ao fio da vida! Quem me dera ter um bote!
O irmo, mais afortunado do que ele, teve anos atrs um lindo vapor com hlice, de corda, encarnado e brilhante: um autntico transatlntico. Brincava nos lagos 
do Rossio: o barco andava s voltas, incerto, trepidante e estonteado. Depois parava, meio adornado, e o Santiago gritava: "Est a meter gua! Navio em perigo!" 
- Fazia troar o canho da Barra, trs tiros a pedir socorro aos nufragos! A sereia no se calava: Buuuh! buuuuh,


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buuuuuh!... Corria a socorr-lo com um pau, s vezes custa alcan-lo, longe do parapeito. (V l no caias tu  gua!) Dos quiosques vinham cheiros de capil, de 
limo, de caf requen tado, homens olhavam a distncia, bisonhos, mendigos coavam-se ou dormiam pelos bancos de mrmore, polidos de uso. Era proibido brincar nos 
lagos. E se viesse um polcia?
Uma tarde, o vapor navegava serenamente, afastou-se sul cando com leveza a gua escura, um lago imenso, as pombas e gaivotas a voar por cima. Nunca ele tinha ido 
to depressa nem to longe! Correram em volta, l vai ele, l vai ele, daquele lado! Vai abicar! Nisto, no foi um polcia que veio, foi um matulo de p descalo: 
passou a correr, deitou a mo ao bote, e fugiu... "Agarra! Agarra!  o meu bote! Ele roubou-me o vapor!" Ento, com medo que um polcia o agarrasse, o matulo atirou 
o navio pelo empedrado fora, com quanta fora tinha, sem parar e deixou-o todo amolgado, torcido, com a pintura estalada e a corda partida. Acocorado nas ondas pretas 
e brancas do Rossio, com gente a lament-lo, o Santiago chorava abraado ao seu bote.
De repente, de cima e de longe, a voz risonha desperta-o "Ento, filho? Que demora! " - e ele corre com o saco de rede, friagem da hortalia molhada a bater-lhe 
nas pernas delgadas Ah, se ele tivesse um barquinho de madeira, com uma vela branca, podendo ser! A quem pedir? Talvez se rezasse...
A tarde ps-se cinzenta e fria, dum silncio nu entre as fachadas insignificantes. H horas que ele espera o Chiquinho, que no aparece. So os melhores amigos deste 
mundo, ntimos da escola e brincadeira, afins na timidez, com todas as fraquezas, menos algumas, em comum. Por exemplo, o Gabriel fala com uma clareza quase antiptica, 
embora com certos deslizes assimilados em famlia, tais como trocar o B pelo V: como bassora, mas corrigiu depressa aquela do repubricano. O Chiquinho, ao con trrio, 
tem dificuldades de expresso, diz mnica, para desespero do camarada, que se esfora por emend-lo.
Zangaram-se esta manh por qualquer motivo, o Chiquin correu a casa e voltou de l com o cinturo do pap para dar no amigo. Ora, a gente pode no ser valente, mas 
numa necessidade, e ento quando reina a confiana! (So sempre os prximos que


































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pagam as favas.) Mas no chegou a haver pancada: o Gabriel tirou-lhe a correia e arremessou-a pela rua fora: humilhao talvez pior, porque o Chiquinho teve de ir 
apanh-la. Foi para casa a tarde com muita raiva, e gritou: "Mal contigo pra toda a vida!
Depois bateu com a porta. E uma casinha de um s andar, a porta ao meio. Ficou fechada.
O Chiquinho, loiro, encaracolado, com olhos da cor das parras Outono, tem alguma coisa de azelha na sua robustez. O Gabriel, delgado e tmido, tem arrebatamentos 
de gnio que s vendo, mas logo violentamente reprimidos pelo remorso ou arrependimento. Nunca se zanga por mais de um minuto. E quer muito quele amigo, como a 
um irmo gmeo, o seu nico amigo verdadeiramente. Voltou para casa cheio de amargura. Devia ter deixado que o outro lhe batesse com a fivela do cinturo?... No 
sabe nem quer brincar com mais ningum, os matules perseguem a gente e atiram pedras, j um dia lhe partiram a cabea, e no era nada com ele! No eixo-ribaldeixo 
empurram-no, deitam-no ao cho. A perda daquele amigo deixa-lhe o mundo vazio, -absolutamente s na Rua de So Gens ao Monte. Depois de jantar tornou  rua, e ali 
anda h muito tempo,
devagar entre as fachadas mesquinhas, inexpugnveis, no macadame irregular, vendo anoitecer palidamente o dia. De vez em quando lana um apelo lamentoso (chega a 
exagerar, mas  preciso) - "O Chiquinho!... " - que risca de melancolia a ardsia do silncio. O outro est com certeza em casa, talvez no quintal, no pode deixar 
de ouvir, a casa  baixinha e a voz chega at l, entre a vizinhana. At j um senhor de barba grisalha e barretinho de veludo preto na cabea o segue com olhos 
severos e contrados, da janela de peitoril dum primeiro andar prximo. Mas ele finge que no percebe. Porque  que o Chiquinho no responde nem aparece? Mal para 
toda a vida.
J correu a rua meia dzia de vezes, de cabea baixa, com um p no passeio e outro na valeta, chamando a intervalos com a voz desgarrada de tristeza e desnimo. 
A mgoa aperta-lhe o peito. Sozinho,  o fim de tudo. Nem quer voltar a casa. Desta vez  que eu fujo. Deso as escadinhas do Monte e nunca mais c volto. Acabou-se 
tudo.-"O Chiquinho!..."
O brado j  mais do que apelo lastimoso ao amigo perdido:







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ergue-se no ar parado como um protesto ao cu frio, esfumad indiferente. Ah, como  triste ver anoitecer assim entre as fachadas, quando se  pequeno e s. O crepsculo 
fecha-se, escurece no cu e sobre o corao. Os prdios vo ficando cor de cinza, cadavricos, os contornos das coisas desfocados. E a casa fechada, rua deserta, 
silncio. Bater-lhe  porta... Mas a mam no gosta.
L vem o caga-lume, com o seu andar espectral nas alpergatas de vara ao ombro, a acender os lampies de gs. O pequeno erg mais a voz, num grito de agonia contra 
a noite envolvente: " Chiquinho!..."
O senhor do barretinho, que o segue h muito com os olos irritados, sibila:
- Cale-se, menino! Que seca! No v que ele no responde? No est em casa, saram h que tempos! Uma gritaria destas!
A voz transpe o silncio como um golpe de chicote longo'. O pequeno olha-o e compreende: aquele senhor comprou a pacata moradia para gozar dos rendimentos em sossego: 
quer paz nas almas e nas ruas, tem direito  quietao,  meditao crepus cular, ao silncio imvel e bao que ensopa tudo, numa antecipa o de cemitrio, de repouso 
eterno. No gosta de gritos, de barulhos. J jantou, e est a fazer a digesto, difcil,  janela. se pode distinguir nas tintas do anoitecer, a que se mistura o 
claro lvido e morrinhento da iluminao municipal.
- V para casa, que so horas - torna a voz agreste.
Ento ele sente a ameaa da noite, da solido, da hostilidade, tem medo. Fugir?... A casa, a famlia, aparecem-lhe como ninho quente, aconchegado, o nico refgio. 
A me, os irmos mais tarde o pai quando voltar... A rua afugenta-o, estende para ele dedos aduncos de vacuidade. Sem responder, corre, sobe a escada escura  pressa, 
e mete-se na cama sem dizer nada a ningum. Sente-se abandonado, incompreendido. As lgrimas correm-lhe. (" Chiquinho...")
Mas o sono sempre acaba por vir, pacificador.

TERCEIRA PARTE














XIX
BOLACHA "MARSELHESA"
Que faz ele, calado, imvel, insuportavelmente triste, ali sentado na cadeira de palhinha da casa de jantar? Pelas duas janelas enxerga o cu do entardecer, que 
a neblina avinhada sufoca a nascente. Longe, sobre o fundo azul-violeta do rio, recorta-se o alto do cemitrio, jazigos brancos que fosforescem na ltima luz do 
dia. (Nas noites clidas de Estio, o cemitrio explode em fogos-ftuos...) Tudo  agora parado e frio, entresilhado. A me, que aperta  boca o leno ensopado em 
sangue,  uma silhueta negra contra as janelas. Naquela mesma tarde o doutor Satrio Paiva lhe tinha arrancado mais alguns dentes, grandes, bonitos,
intactos, de uma alvura deslumbrante. "Vo-se-me todos!" - dizia ela. O filho no podia entender tamanha crueldade, e aquele sangue dava-lhe uma angstia. Crispou 
as mos nos rebordos do assento. A dona Adlia deixava escapar de vez em quando um ai estremecido, e olhava o leno, um trapo sangrento. Os jazigos luminesciam no 
horizonte apoplctico, debaixo da luz perdida do cu. Que fazia ele ali sentado, a olhar o sangue, o dia moribundo? Porque no andava na rua, como o irmo e os outros, 
a estilhaar o vidro azul da tarde aos gritos?
Algum bateu, a irm correu a abrir, l do fundo da casa: era a dona Mariana, a mestra do Colgio de Meninos do primeiro andar: feia, escura, severa, temente a Deus. 
Vinha espavorida, no viu o sangue nem pensou nas crianas:
- Dona Adlia! Dona Adlia! Que grande desgraa! Mataram


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agora mesmo el-rei Dom Carlos e o prncipe real! O infante ficou ferido num brao... Queriam acab-los a todos! S escapou a senhora Dona Amlia... Foi ao p da 
Arcada, ao darem  a volta para o Arsenal... Uma espera, uma espera como aos lobos!
Houve um silncio. As palavras da senhora-mestra povoaram de espectros o crepsculo. Um esbracejar de gente aflita desenrolou-se pelo cu, foi-se esfumar longe, 
sobre o cemitrio afogado em brumas. Num cenrio de parques e torres de paos rais passaram lanceiros, a trote, lands e coches, fardas bordadas barretinas de plumas, 
espadins, botas envernizadas e caudas roagantes em passadeiras de veludo, depois imagens de caadas no Gers, a rainha de visita a um asilo, o iate "Dona Amlia", 
prncipe real no regresso da Africa... A monarquia, para ele, era pompa e o aparato. Ficou imvel, escutando e vagamente fantasiando. As duas mulheres falavam num 
murmrio, inclinadas uma para a outra, duas silhuetas negras na lividez do anoitecer. A dona Mariana torcia as mos, soluava:
- Desgraadinhos! Terra amaldioada... A culpa  dos republicanos... Deviam fuzil-los...
A voz da me saa ensurdecida pelo leno ensanguentado. Palavras de temor e piedade cruzavam-se na escurido crescente:
- Um deles ficou logo estendido num lago de sangue, atravessaram-no de lado a lado com um sabre!
- Jesus, Senhor, e o meu homem l metido!
O menino levantou-se sem fazer bulha, foi at  outra janela e ficou a olhar a rua deserta, o cu arrepiado de Fevereiro, varrido vento, que sucumbia ao assalto 
da noite emboscada. Na casa do menino Antero, em frente, toda fechada, roupas brancas suspensas duma corda batiam na aragem como se quisessem voar tambmm. Os garotos 
invisveis soltavam gritos dilacerantes. Um dia de morte pairava no ar, afogava-o de tristeza, o mundo inteiro pareceu-lhe agonizante, um moribundo violceo, a exalar 
o ltimo suspiro...
De repente lembrou-se do Luciano-zarolha, com a nvoa branca no olho esbugalhado: estpido e mau, gordo e lambo, torcia os braos aos mais novos, roubava-lhes os 
lpis e as borrachas, e at o lanche; ou borrava-lhes com dedadas de tinta os livros, cadernos e tabuadas, e escrevia coisas feias, dizia palavres


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ao ouvido das meninas, que fugiam a rir, muito coradas. Ningum se atrevia a fazer queixa dele, porque era mais forte e tinha uma expresso de crueldade boal no 
olho que via, enquanto o outro parecia espiar a gente atravs da nvoa baa e nojenta. Andava sempre de bibe cinzento, sujo, e s vezes levantava-o na frente para 
mostrar uma coisa que parecia uma ferida, diziam elas. Era filho do chauffeur dum ex-ministro, o sr. Higino de Mendona, e ameaava-os: "O teu pai  republicano, 
um dia eu mando-os todos para o cagarro! "
Se algum falava no Jos Luciano de Castro, o Gabriel pensava logo no Luciano-zarolha. E de repente no teve mais pena nenhuma. A culpa era do Luciano, o castigo 
dele. No fundo at ficou contente, e imaginou-o na aula, com a dona Mariana, a chorar lgrimas de ramela, pelo olho embaciado. Voltou-lhe a imagem do cavalidade 
a despedaar o carrinho dos garotos na Calada, e sentiu-se vingado.
Sem pensar mais nos mortos, na tarde exausta, no leno da me, ensopado em sangue contra a boca, saiu pelo corredor fora a bater com os ps e a cantar a meia-voz 
um "ordinrio" da sua inveno. Estava resolvido a arrancar a coroa da bandeira, agora intil. Sem rei nem roque. O sr. Roque da mercearia era republicano e carbonrio.
Ao jantar, vendo-os comer (ela no podia), a me disse:
- Esta vossa mestra  uma boa pea. Veio c para me dizerque ns tambm tnhamos culpa na morte do rei. Mas viu-me neste estado... Como o desgraado do Bua foi 
explicador do vosso irmo...
Afinal a monarquia continuava, houve exquias a So Vicente, muitos panos negros e silncio. Rei morto, rei posto - o rei era agora aquele rapaz de sorriso melanclico, 
que ele conhecia dos retratos. A Ilustrao encheu-se de estampas tiradas de revistas estrangeiras, mas no havia duas iguais. O Terreiro do Pao aparecia em todas 
elas mais ou menos desfigurado, e o regicdio era interpretado segundo a fantasia de cada artista: nesta, a calea real tinha s uma parelha; naquela era puxada 
a quatro cavalos; numa, o cortejo atravessava uma compacta multido, noutra a praa era um deserto, ou a tropa era assim! Aqui era dia claro,



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alm anoitecia ou era noite escura, e brilhavam lampies que eram os de Lisboa. Os uniformes, ento, eram todos inventados. Algumas gravuras mostravam um bando de 
mascarados, armados at aos dentes, de capa  espanhola, de chapu de abas largas atacando a real equipagem por todos os lados: por trs dos candeeiros, ou de joelhos 
em terra  sombra dos pilares da Arcada, em pleno pavimento, atirando... Quanto aos dois regicidas, havia sempre um homem de barbas, ora pretas, ora loiras o Bua, 
de carabina em punho, de capote ou em corpo bem feito, de joelho no empedrado, ou escondido na arcaria; o outro, Costa, de cara redonda e bigode, de boina ou chapu 
de coco, trepava  calea para atirar ao rei: ora de frente, ora de lado, ainda pela retaguarda.
Decididamente, no se podia confiar na Imprensa, e era pena como  que uma pessoa no h-de querer saber exactamente como se passou tudo? S as pessoas da famlia 
real estavam parecidas embora variassem as atitudes e pormenores da indumentria, sobretudo a rainha, de p na carruagem, tentando enxotar assassinos com um ramo 
de flores. Era ela a nica que lhe dava pena: fazia-o pensar na me.
Ao cimo da calada, a dona Adlia, agachada no passeio, com os folhos da saia a varrer o empedrado, lambe o polegar e ps-se a vincar com ele, e a achatar com a 
mo espalmada os machos do vestidinho de l verde-escura do filho. Era assim que ela gostava de o ver, "como um prncipe", dizia. (Ao contrrio, ele odiava andar 
de saias, sobretudo num tempo em que os prncipes vam levando a sorte que se via.) Depois ergueu-se e comps-lhe
a farripa da testa. A tarde ia em meio, a rua estranha, o vento
esvassoirado, e ele sentiu-se pequeno e acanhado, como sempre
que visitavam gente "importante". O elstico do chapu
de carto preto envernizado estrafegava-o.
- Agora v como te portas! - disse ela, abrindo os olhos
negros e grandes, que sabiam ser to severos quando no
era preciso. - Se pedes de comer, em chegando a casa ponho-te as orelhas em brasa!
Entraram e desceram trs degraus, como na escola do Castelo.
Mas esta casa tinha outro encanto: a escada abria l em baixo, no
Largo do Pelourinho, e em cima, a So Francisco. Para evitar que




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intrusos ou gatunos a aproveitassem, poupando-se a subida pelo ascensor da Biblioteca ou o longo desvio pela Boa-Hora, os proprietrios tinham instalado uma grossa 
cancela quase  entrada.
A me puxou o cordo da campainha, e enquanto esperava comps os bofes de renda do vestido. O chapu era preto, com as plumas algo murchas, herdadas de outro mais 
antigo, que andava l por casa aos tombos, e que ele usava para representar o Hamlet. Os mitenes arrendados mostravam os dedos vermelhos de trabalho. A me suspirou, 
apertada no espartilho, uma tontura. Erguendo os olhos, ele viu-lhe as olheiras escuras, um vinco de inexplicvel amargura, a boca encolhida pela falta de dentes, 
que lhe transtornava a voz: parecia assim muito mais velha, velha, quase como a Vizinha Delfina, apesar do fulgor dos olhos, ainda vivos. Sempre a tinha conhecido 
grisalha... Sentiu-se triste e encostou-se a ela com pena e amor, sorvendo os beios. A sua rica mezinha. Mas ela adivinhava as fraquezas, reagia logo, sacudiu-o:
- Endireita-te!
A criada grave veio abrir a cancela:
- Ah,  a menina Adlia!
- A senhora est?
- Est sim, menina. Mas olhe que ela anda de luto, no recebe ningum. Eu vou-lhe procurar.
Esperaram de p, calados. Ouvia-se o rumor surdo da calada. A criada voltou e disse em voz baixa:
- Faa favor de entrar. Diz a minha senhora que  s por ser a menina Adlia. Isto tem sido uma barafunda que nem faz ideia! At falam em ir para o estrangeiro...
Ergueu os olhos para o cu invisvel. Foram entrando. A casa enorme, o corredor com a passadeira, o silncio, os quadros nas paredes, a estagnao, tudo o intimidava. 
Passaram salas com as portas abertas, mveis em lonas, lustres em tules, tapetes enrolados, como no Palcio Encantado. Na cozinha o fogo ardia entre azulejos brancos, 
caarolas de cobre, metais amarelos, derramando um aroma de assados que lhe encheu a boca de gua. A mo suava-lhe, enclavinhada na da me. A criada introduziu-os 
numa saleta alcatifada, com um sof, vrias cadeiras de palhinha doirada, mveis pretos. Uma redoma de vidro, numa consola,


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cobria um relgio doirado, com um cavalo empinado. O lustre do tecto e os candelabros tinham prismas de cristal, que uma brisa invisvel ou o trfego do Pelourinho 
faziam tilintar brandamente. Havia retratos nas paredes, e um crepe cobria as fotografias do rei Dom Carlos e do prncipe Luiz-Filipe. Flores artificiais, reposteiros, 
estofos, tudo tinha um cheiro que lhe irritava o nariz. Dirigiu-se para uma vitrina, a me reteve-o. Porqu?
Um gato felpudo ergueu-se da rstia de sol, junto  janela, saiu com meneios de gro-senhor adiposo, um desdm pelas visitas que ficavam de p. O pequeno encolheu-se.
- Faam favor de se assentar, que a minha senhora vem j.
Ele queria ir para a varanda corrida, donde se via a praa com o Pelourinho no meio, retorcido como uma rosca de padeiro a Cmara e o Arsenal: ainda fez uma tentativa, 
mas a me tornou a ret-lo, desta vez com olhos feios. Nem sequer podia ver o cu com tantas cortinas, sanefas e bambinelas. S aquele raio de sol temporrio, para 
uso do gato eunuco. No silncio da casa, que se aprofundava, ficou de beio encolhido, com a franja cada para os olhos velados de tristeza, quase sonolento a olhar 
retratos severos.
- A dona Leonor  talassa? - indagou num sopro. A me apertou-lhe os dedos com fora, e ele retirou a mo, vexado e dorido: era algum mal perguntar? Talassa no 
 nome feio (ou ser?). Do fundo da casa veio um vago rumor de caarolas. A tarde corria amodorrada. O pequeno bocejou, depois o cheiro dos estofos f-lo espirrar. 
A me disse "Santinho!" - e acariciou-lhe a cabea, j a sorrir.
A porta abriu-se e a dona Leonor de Mendanha e Serrano entrou num rompante majestoso, atritando sedas foscas, estendeu a mo  menina Adlia que se tinha levantado 
arrastando o filho, consentiu que ela a beijasse de leve na face engelhada, rebocada a ps-de-arroz. Depois, com a mo ssea, de veias salientes, e dedos afogados 
de anis, fez uma carcia spera na cara do pequeno, que se encolheu todo.
- Sente-se, Adlia, sente-se!
Deixou-se cair no sof, ofegante no vestido negro, com folhos e rendas. Um broche de pedrarias em estrela apertava-lhe a gola afogada. A touca de renda preta cobria-lhe 
o cabelo amarelado


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com caracis insignificantes pela testa. Viam-se-lhe os brincos irmos do broche.
- Que desgraa, que grande desgraa! Nem quero ver ningum... Esta nao est amaldioada! Maons, carbonrios, e
aquele assassino do Joo Franco! Sua majestade a rainha... e agora
Dom Manuel, coitadinho, uma criana a governar esta pioilheira... Que vai ser disto, que vai ser de todos ns? E que fazem os ingleses? Porque  que esses traficantes 
no mandam c dois cruzadores para arrasar isto, meter esta choldra nos eixos, fuzilar a canalha? Porqu? Isto s vai com uma interveno estrangeira!
Durante algum tempo maldisse com a voz asmtica e raspante governos, partidos, revolucionrios e aliados. Depois levantou-se de repelo, afastou os cortinados, abriu 
a janela, arrastou Adlia para a varanda corrida, e ps-se a bradar, apontando a praa:
- Foi ali! foi ali! Eu vi tudo com estes olhos, aqui desta varanda, horas  espera de suas majestades, com as colchas penduradas como num dia de procisso, imagine 
a procisso! Aflita, aos gritos, sem lhes poder acudir! Onde estava a escolta? Onde estava a tropa? Onde estava o Joo Franco? Os cavalos a galope, o senhor Dom 
Carlos a arquejar, ainda se quis erguer, mas o Costa de revlver em punho, assim, por trs dele,  traio, aos tiros, aos tiros!... El-rei caiu, de queixo para 
o peito. E o bandido em cima dele! O senhor Dom Luiz-Filipe j vinha morto, muito branco, um anjo loiro... E a senhora Dona Amlia, em p, a gritar, a enxot-los 
com o ramo de flores dores que lhe tinham oferecido ao desembarcar... O infante, coitadinho, plido, com o brao a tapar os olhos, como se no quisesse ver a tragdia, 
ver a morte!... Quando aqui chegaram, el-rei vinha morto, sentado, de queixo fincado no peito, e roxo, roxo como a tnica do Senhor dos Passos! E a senhora Dona 
Amlia de Orles aos gritos, que enchiam a praa, era de fender o corao das feras. E ningum lhe acudiu, ningum lhe acudiu! Traidores! Foi um relmpago, uma viso, 
um pesadelo! O fim de tudo, o fim do mundo... E onde estava ele, onde estava o Judas, o culpado, o Xuo?... Foi ele que os entregou indefesos  canalha.
Cobriu a cara com as mos:
- Que horror, que horror! Nunca o hei-de esquecer, por


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muito que viva. Parece que ainda os vejo, vejo-os todas as noites, h semanas que no descanso...
Depois gritou para a praa de punho cerrado, a estremecer berloques:
- Assassinos! Assassinos!
Ningum pareceu notar l em baixo. Voltou para dentro atirou-se para o sof a arquejar. O Gabriel mordia a boca, assustado. A me correu a chamar a criada, que veio 
com um copo de gua, um p branco e um frasquinho de sais.
- No quero isso! Leva essa merda! Traz-me a genebra!
A criada foi fechar a janela, o vento agitava os cortinados.
- Credo, a minha senhora no tem sossego mesmo nenhum...
A dama mandou-a embora com um gesto irritado; e como se s agora reparasse no pequeno, atraiu-o a si, beijou-o na testa, comps-lhe a farripa e apertou-o ao peito:
-  o seu mais novinho, no ? Coitadinho, com a conversa nem me lembrei de lhe dar uma bolachinha. Maria! - gritou com uma voz rspida que devia chegar ao fundo 
do casaro; a criada surgiu logo: - Leva este menino  sala de jantar e d-lhe umas bolachinhas. E um copo de gua chalada, v!
Empurrou-o nas costas com a mo magra e dura, depois voltou-se para Adlia:
- Como a Adlia traz sempre os seus filhos to bem arranjadinhos! Coitada, bom trabalho lhe h-de custar cri-los. Eu nunca pude aturar os meus... Ao largo! Mas 
este  bem bonitinho. No sei em que me faz pensar, com aquela franjinha...
A criada levou-o, contrariado, ao longo do corredor, onde pairava o mesmo cheiro misto de encerados, tapetes, naftalina flores fanadas e mofo, que ele associava 
ao regicdio e lhe dava nuseas, o desejo de fugir para a varanda e para o ar livre. Mas teve medo de se perder, e no largou a mo da rapariga.
Na sala de jantar, cheia de mveis com torcidos, tremidos flores, espelhos, cristais, porcelanas e quadros, plantas em peanhas, um ar de museu que contrariava o 
apetite, a criada escancarou um aparador imenso, descobrindo um sem-fim de boies de compotas e doces, de bolos e biscoitos, toda uma confeitaria. Abriu um vidro 
com bolachas, despejou uma poro num prato e disse:




        153
- Ande menino, coma-lhe, que estas so boas, so da "Marselhesa"
Ele conhecia-as. No papel que forrava a lata, uma estampa colorida mostrava um sujeito de casaca, com uma das mos no peito e a outra no ar, cantando junto de um 
piano ou cravo, para as pessoas que o rodeavam com um fogo de admirao nos olhos: Rouget de Lisle cantando a Marselhesa". No dia em que a me o levara a ver o Presidente 
Loubert - erguendo-o nos braos,  altura das ancas dum cavalo enorme, para lhe mostrar o rei obeso ao lado do velhote rubicundo, de barbicha branca, que da carruagem 
tirava chapeladas ao povo - tinha havido vivas  Repblica, gente a cantar a Marselhesa, gritos, pranchadas, correrias, eles tinham-se refugiado numa carvoaria. 
Como  que vinha agora encontrar bolachas "Marselhesa" em casa desta gente talassa?... Era talvez por isso que as escondiam naquele aparador sem fundo? Pareciam 
sanduches, com um cremezinho cor-de-rosa entalado, e gostosas. Sem saber porqu, sentiu um aperto na boca do estmago, as bolachas tambm cheiravam a naftalina, 
a casa morturia, a regicdio. Ficou meio enjoado, incapaz de lhes tocar.
- Que  que o menino tem, a especado a olhar prs bolachas? Coma!
- No quero!
- No seja tanso, coma. Eu trago-lhe o ch. Ele bateu com o p no soalho encerado:
- No quero, no gosto!
Mordeu o beio. A rapariga olhou-o, encolheu os ombros e ia a sair, quando do outro lado da sala se abriu uma porta. O reposteiro afastou-se, e entrou um homem alto, 
de barba em bico, de um loiro desbotado. Parecia aquele actor ou Prncipe Real, no Kean... Vinha de casaco de veludo escuro, debruado a seda, com alamares. A criada 
parou, levou a mo  nuca e sorriu:
- O menino Adalberto deseja alguma coisa?
O homem encaminhou-se para ela, sem falar, passou-lhe os braos em volta dos ombros, e tentou beij-la. Ela esquivou-se com um sorriso que parecia um arrulho de 
pomba e murmurou:
- Tenha propsito, menino. Est ali o fedelho.
- Qual fedelho?


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Deu volta  mesa e parou a olhar, como se olhasse um bicho, o
pequeno que se sumia entre as portas do aparador:
- Quem  ele?
-  o filho da menina Adlia, que est l com a senhora. - A Adlia est c? No sabia...
Ergueu-lhe o queixo com um dedo que cheirava a tabaco ingls
e indagou:
- Como te chamas tu?
O pequeno mordeu a boca, sem responder.
-  mudo - disse o sujeito, e encolheu os ombros.
Pareces-te com o palerma do Dom Manuel quando tinha a tua
idade. E andas de saias como ele andava!
Arrepelou-lhe o cabelo, virou costas, dirigiu-se a um bufete
carregado de garrafas, inspeccionou os rtulos, tirou uma, foi ao
guarda-loua buscar um clice, e voltou-se para a criada, que o
seguia com um olhar excitado:
- Se a mam perguntar por mim, sa. No estou para chatices.
Depois, de garrafa debaixo do brao e clice na mo, foi-se embora com ar aborrecido e ocioso de um rei que percorre as salas vazias do seu palcio.
A criada trouxe um copo de gua chalada com acar e p-lo na mesa:
- Ande, beba, que este  de graa.
- No quero! - disse ele. - No tenho sede!
Estava enfurecido com as familiaridades entre a criada e "menino" Adalberto.
- Ento no  parvo? Depois v dizer  sua me.que eu no lhe dei de comer!
Tornou a sair, rebolando a garupa, mas desta vez pela porta do "menino".
O Gabriel olhou em torno a sala obscura, voltou-se para o aparador escancarado, destapou um boio de drops, tirou uma mancheia deles, meteu-os no bolso do vestido 
de machos, desatou a correr por onde tinha vindo, j sem medo de se perder de volta  saleta onde a me paciente continuava a ouvir improprios da dona Leonor de 
Mendanha e Serrano.













XX
PE-TE NA RUA
Em baixo, as rolinhas toda a noite levam a gemer: "Pe-te na rua! Pe-te na rua! "  bom adormecer a ouvi-las, parece que embalam, so como um sussurro de morna 
chuva nas trevas. Mas a me no gosta nada disto, e comenta: "Credo, que agoiros! Esta bruxa... Vocs vo ver um dia... "
Um dia o qu? Que espera ela? Que quer dizer? Morte? Algum que l vai levado porta fora, no caixo? Ele at j comea a recear que lhe morra uma pessoa de famlia. 
Ou duas. E se morressem todos de repente, e o deixassem sozinho no mundo?... De noite fica muito tempo acordado, a escutar: se a me ainda est a p, se o pai ressona, 
se os irmos respiram, falam alto... Chega a temer estar ele prprio morto, sem o saber. Pula fora do sono, sobressaltado!
As rolinhas perderam o encanto, e enchem agora a noite de inquietao e maus pressentimentos. De dia sobem cheiros de alfazema ou de alecrim queimado, talvez por 
causa do fedor das pias, mas: "Que lhes deitem gua! L anda ela a enxotar as almas penadas!" Tudo isto comea a ter um ar de bruxaria.
Foi ao pr-do-sol - as tardes amorosas, de uns oiros moribundos, e as andorinhas voam muito alto, em crculos, como nos poemas! - estava o vizinho aqui do lado muito 
tranquilo a ler o jornal, quando de repente lhe entra uma revoada de aves pela janela dentro, e se lhe enrodilham no cabelo. O pobre homem deu um pulo, e foram ali 
gritos, um Deus-te-acuda! A mulher,


156        
que estava l para a cozinha a fazer o refogado para a abbora guisada do jantar, veio a correr e deu com ele, em p no meio da casa, aflito, a agitar o jornal e 
a debater-se com aquele resplendor vivo de aves adejantes  roda da cabea! Confessem que era uma coisa digna de se ver. Ela de boca aberta, com a faca e a meia 
cebola picada na mo, e ele a gritar, desesperado:
- Mexe-te, parva! Ento tu no vs? Arrepelam-me todo, arrancam-me o cabelo!
A esposa acordou, correu para ele, arrancou-lhe as andorinhas  mistura com alguns cabelos, e olhou-as: novinhas, da fornada deste ano, trepidantes de susto e confuso 
- e negras:
- So andorinhes! andorinhes! Pretos como o carvo!  mau agouro!
Correram para o patamar e bateram  porta da dona Adlia, que tem remdio para tudo: a mancheia de sal, o fio de azeite, o' raminho de salsa, um ovo... enfim, coisas 
que  ltima da hora sempre faltam. Entraram-lhe em casa aos gritos, ele a arrastar os' chinelos acalcanhados, plido, atarantado, a segurar A Tarde sem saber, com 
uma interrogao assustada nos olhos incolores de" amanuense, e ela com a mo cheia de andorinhes a debater-se pela liberdade no cheiro da cebola:
- Dona Adlia! Dona Adlia! Veja, veja! Pretos, medonhos,, agarrados ao cabelo! Isto  sinal de desgraa!
Mas que querem eles, porque vm queixar-se, que remdio esperam?
- Ora, desgraa, que ideia. Uns bichinhos to lindos, inocentes, que mal  que lhe podem trazer? Se o senhor fosse ume santo, todos diriam que isto era um milagre!
Olharam-na espantados, mais tranquilos. Foi-se  janela e soltou as avezinhas. Que lindo, v-las esvoaar, subir, ir misturar-se s outras no cu doirado!
- Porque  que a mezinha as no mete na gaiola?
(Tm uma gaiola onde viveu e morreu um pintassilgo.)
- As andorinhas fizeram-se para voar, para ser livres. No resistem presas. Tu no vs que elas s podem poisar nos fios e nos beirais?
Mas quando os vizinhos se retiraram:
- Infelizes. Pretos, e ento agarrados ao cabelo. E que mais


        157
desgraas podem eles esperar, na penria em que vivem? Nesse caso, ela acredita?!
As manas Parreirinhas (s restam duas, s outras deu-lhes o tranglo-mango), de luto perptuo, brancas e espectrais, falam interminavelmente, s vezes em coro, num 
sussurro atropelado, de sacristia. Vivem da agulha, parecem me e filha, mas ningum diria, so irms. Usam chapu, decncia, melancolia. Contam desgraas, pressentimentos, 
doenas e mortes. Andam apostadas em esconder o cu em crepes. Ausente e esquecido, a brincar com a tesoura  mesa da cozinha, enquanto a me com um pauzinho enfiado 
num pano d lustro  chamin do candeeiro, ele escuta-as atentamente. (Em geral, esta operao de puxar lustro ao vidro  ele que executa: mas hoje, como h "visitas"...)
- Ah, para ter maus sonhos, basta a gente deitar-se de costas, com os braos cruzados por cima da cabea. E ento pesadelos!... Para dar pesadelos a uma pessoa, 
amarra-se-lhe um par de meias de mulher ao espaldar da cama, podendo ser, usadas...
(O paizinho s vezes canta: "O mal, o grande mal, o mal do mundo so-nas mulheres!..." E no fim: "Mulheres, mulheres, mulheres, mulheres, no deveria haver, no 
deveria haver! " - Mas  a rir! Deus queira que eu nunca me distraia e adormea assim... )
- Ora, aqui h tempos, j ela andava desconfiada de que ele tinha outra - aquilo de ele no lhe entregar a fria todas as semanas, como antigamente!... Se calhar 
escondia-a, ou ia d-la  amiga. Que h-de ela fazer? Apanha-o ferrado no sono, e pe-lhe a mo mesmo mesmo em cima do corao. A dona Adlia nunca ouviu dizer? 
Ah, respondem logo a todas as perguntas, a verdade toda, nem faz ideia! O marido contou tudo, e a pobrezinha ficou a saber da amiga, e no que ele gasta o dinheiro, 
tudo! Chorou toda a noite, mas no se atreveu a acord-lo nem a dizer nada. De manh ele no se lembrava de coisssima nenhuma: sentia-se um bocado mal disposto 
e mais nada. Agora, que  um perigo, l isso : se ele sofre do corao, pode-lhe dar uma coisa, e ficar de repente! J tem acontecido. Mas para saber se eles tm 
amigas, ou onde escondem o dinheiro, no h melhor:  remdio santo!
Despejado o saco e bebido o ch pou-chong com uma pilha de torradas com manteiga, vo-se embora e a dona Adlia diz:


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- Aves agoirentas. Que mal terei eu feito para aturar isto. Para a outra vez, fao o que elas me ensinaram: uma vassoura de rama para cima atrs da porta da cozinha. 
Remdio santo com as visitas importunas!
Acabou de arranjar o candeeiro e acende-o. Escurece, l fora a luz dos quintais  azul e sedativa. A cozinha enche-se do claro amarelo e tranquilo. O jantar ferve 
ao lume. A esta hora vem da rua o prego melanclico da preta do mexilho e do homem pitrolino. A irm estuda o solfejo na sala da frente, quase s escuras, e a 
melopeia invade a casa como um responso ao dia. Apetece adormecer a ouvi-la. Como  que nesta paz e doura haver agoiros e bruxedos?
O mundo da gente grande  um enredo de complicaes, feitios, dores... Ah, mas a par disso, quanta coisa nova e excitante!
Por exemplo, a Maria de Laparotos: gosta imenso da dona Adlia e dos meninos, e quer vir "servir" c para casa. Tira-lhe o ferro das mos:
- D c, minha senhora. A minha senhora agora a fazer isso! 
- Mas,  mulher, ns no somos ricos para ter criada! E no desonra...
Pe-se a passar a roupa a ferro e a dar  lngua: sempre mortes e estupros, facadas e sangue, partos e abortos, amores mancebias - amiganos, diz ela. A dona Adlia 
de olhos baixos na costura, e ela que torna e que deixa, sempre as vidas alheias. Mas no  isso que faz este mundo atraente? Julga talvez que ele est a dormir, 
mas h uma clarabia na parede, por onde ele ouve tudo. Muita coisa a gente aprende assim, sem querer! Uma mulher que "teja" com o sangue, diz ela, no pode nem 
olhar vidro dum relgio.
- Ento porqu?
- Estala-o logo!
- Crendices, criatura. Uma rapariga nova a...
- A senhora no quer crer, mas  a pura da verdade. Eu j vi! Outro dia a minha patroa mandou-me comprar trs quartas de carne d'alcatra pra assar. Trouxe-a para 
casa muito bem embrulhada em papel de jornal, e puse-a em cima da tbua pra ela cortar os bifes pr almoo do senhor doutor. A senhora conhece a minha


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patroa, aquilo  uma paz-d'alma, no faz mal a uma mosca. Pois eu s queria que a senhora visse! Ela a tocar na carne, e a carne a desfazer-se, a desfazer-se-lhe 
nas mos! Ficou uma lama. Eu int me benzi! (A senhora quer os gordanapos dobrados em bico ou em cdrado?) Ceguinha seja eu, assim eu morra nesta hora! Uma mulher 
que teja aluada no pode tocar em carne, d cabo dela!
A me diz qualquer coisa em voz baixa, e a Maria de Laparotos' torna com a voz zangada, quase em lgrimas (tem um gnio perdido, quando a contrariam chora como um 
bezerro. "Uma mulher com um gnio destes metida na minha casa? Deus me livre!" - diz a dona Adlia):
- A senhora ato no quer crer! Nem que l'eu jure!
Bate o ferro com fora no descanso. Aqui h tempos contou do irmo que esfaqueou outro irmo pelas costas, quando o apanhou curvado na adega: por cimes. Sempre 
as mulheres...
E agora no h maneira de o sono lhe vir. Quem olha um espelho  noite v o Diabo. Cortar as unhas  noite  cham-lo. A visita que arruma a cadeira antes de se 
ir embora no volta c mais. Derramar sal (sobretudo  porta das vizinhas, j nos tm pregado essa partida), abrir o guarda-chuva dentro de casa, pr uma vela acesa 
em cima da cama, despedir-se de candeeiro na mo, entrar ou sair com o p esquerdo, descer a escada s arrecuas (e a gente s vezes brinca assim!) - tudo traz azar, 
tudo so agouros. At vestir a camisola do avesso, por engano! O Santiago no entra num quarto s escuras. Cala sempre primeiro o p direito. Ah, para fazer mal 
a uma pessoa, picam-se-lhe os olhos no retrato, com alfinetes. E h filtros de amor para subjugar os coraes renitentes... Pragas, ento, nem falar nisso. (E o 
sono sem vir.)
Ainda outro dia a tia Encarnao, que  a alegria em pessoa, dizia assim:
- Praga rogada na missa, quando o padre levanta a hstia, d sempre certa. Tenho rogado algumas, e olha que at hoje nenhuma falhou. Quero eu c saber que seja pecado, 
Deus me perdoe!
- Bem-nas podias ter rogado ao teu marmanjo, que te deixou com a ninhada dos filhos pequenos!
- Olha que lhas tenho rogado!



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- O resultado v-se.
- L lhe ho-de ir cair, descansa.
Mas se at a mezinha costuma dizer, com a testa franzida: - No me ponham o po na mesa com o lar para cima. - Porqu?
-  sinal de que est um ladro sentado  mesa.
Um dia, ao coser-lhe um boto  pressa para ir para a escola,
ele estava vestido:
- Em vida te coso... em vida te coso... em vida te coso' Trs vezes - para que a roupa no se torne mortalha... Uma das coisas mais empolgantes que ele tem ouvido 
dizer 
que um cabelo de mulher, arrancado com a raiz e posto de molho
se transforma em cobra. J fizeram vrias vezes a experincia, ele
e a irm, mas at agora sem resultado. Talvez no tivessem a
raiz toda? Ficam dias inteiros a colear molemente na bacia do lavatrio, e nada. Ele olha-os com vontade e receio de ver o fenmeno...
Em todo o caso, vai aprendendo que a Mulher  um ser estranho, cheio de segredos e poderes misteriosos. So elas prprias que o dizem!
O Santiago, esse, fala de magnetismo, catalepsia, mortos-enterrados-vivos: como  que se sabe? "Encontram-lhes o caixo com a tampa toda arranhada por dentro, de 
desespero!" S a ideia disto tira o ar e o sono a uma pessoa. E o pior  que  de noite que gente imagina estas coisas! - A me conta que, na terra dela, um dia 
ia a enterrar uma menina fidalga:
- Levaram-na para o carneiro da famlia, uma espcie de subterrneo, com uma grade no cho, desciam-se uns degraus... Ali a deixaram no caixo aberto, sozinha, e 
fecharam a grade. Toda aquela noite o coveiro ouviu chamar e gemer... No se atreveu a sair de casa. Acreditava nas almas penadas, e emborcou copos em cima de copos, 
para afogar o medo! No dia seguinte, quando foram para fechar o caixo, deram com a menina, toda vestida de branco, e coroada de flores, sentadinha nos degraus do 
carneiro, com a cabea contra a grade: morta, gelada, e ainda as lgrimas na cara! Tinham-na enterrado em vida...
Oh Senhor, nem na morte h sossego!
A propsito de magnetismo, ela conta daquele oficial que




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os anos a quis hipnotizar com o brilho dum boto, e depois dum sabre: em Pedrouos, era ela rapariga nova.
E a mezinha deixou? adormeceu?! - indaga o Santiago,
 o dormes! Ele bem se esforou, mas comigo no fazem farinha...
H nela uma robustez que afugenta o sobrenatural, ou o sub. Em todo o caso...
A gente no acredita, mas olhem que eu tenho visto coisas...
- A mezinha viu alguma coisa? Viu? Conte! - pedem eles, aterrados e deliciados. Ela cala-se, dobra e arruma os lenis airosos da ferrada. A luz do candeeiro espalha 
tranquilidade. - Devia eu ter sete para oito anos, andava um dia a brincar com a Augusta Manilha numa fazenda do meu tio Simplcio, no inho da Barroca do Pinheiro, 
quando estoira uma destas trovoadas...
"Trovoadas das Trs Fontes, pastores fugi dos montes. Trovoadas do Penedo, pastores no tenhais medo. Trovoadas l do Norte, pastores fugi  morte...
"Aquela vinha das Trs Fontes! Corremos a meter-nos num iro ou casa das alfaias, que tinha uma janela no andar de cima, e ali ficmos as duas, no cheiro do feno, 
a olhar o espectculo. Que lindo  ver uma trovoada nas serras! Quem nasce e vive uma cidade nem sabe o que  belo!.. Medo? Eu sabia l o que  r medo! Mesmo em 
frente do nariz, do outro lado da veiga, erguia-se uma grande lomba toda coberta de arvoredo e mato serrado, uma selva, que nem os pastores l entravam. Parecia 
que chegava ao cu. As fascas eram aos molhos, e chovia gua se Deus a dava. A nvoa, puxada pelo vento, era como vus a desfazer-se em cordas de gua...
"Nisto, debaixo daquele aguaceiro, e por um rasgo da nvoa, que hei-de eu ver? Uma grande procisso a subir a serra! Como se


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a estivesse agora a ver aqui, com estes dois que a terra h-de
comer. "Ah! (digo eu assim) que linda procisso que alm vai.
Onde? )- torna Augusta Manilha: - Eu c no vejo nada
- Ela no via nada?!
- Esperem vocs. Nada. Os padres todos paramentados,
alvas arrendadas, debaixo do plio, a carregar o cibrio, e
aclitos, e os meninos de coro de capas encarnadas, os fiis
em cabelo todos a cantar... Podia ouvi-los! At os incensrios
balanar, e o fumo do incenso a subir na cerrao eu via! 
frente da procisso, pregado numa grande cruz alada, vivo e a sangrar
Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus me perdoe, ainda hoje me
arrepio toda... Enorme!
- Mas a mezinha viu? viu?! Era verdade? Ele estava l?
- Verdade... Sei eu l. To certo como estar aqui a vr vocs. O que vem os olhos dum inocente...
Os filhos escutam-na, acotovelados  mesa, muito juntos, olhos arregalados. E que sria de repente ela se pe! Mas j sorri...
- Vou eu na minha candura, e digo assim  Augusta Manilha: " rapariga, tu s cega? No vs o que eu vejo? - No vejo nada, mulher! - diz ela, a olhar para a lomba 
e depois para mim. - Tu no ests boa da cabea! Ento queres tu agora uma procisso com tamanha trovoada, e ainda por cima na loco onde nem caminhos h?"
- Ento ela no via? Mas tinha razo? A procisso no estava l?
- Que sei eu, filhos. Ela no viu. Eu vi. Ajoelhei, ela ajoelhou comigo, e pus-me a contar-lhe o que via os fiis  em passo lento, a cantar o Bendito, sem fazerem 
caso nenhum do temporal, at parecia que iam levar a Extrema-Uno a algum moribundo. A procisso foi subindo, subindo muito devagarinho, e pouco a pouco, a gente 
e as vozes, tudo se sumiu e desfez na cerrao, ao p dum grande castanheiro.
Os pequenos  espera...
- Bom, passada a trovoada, a chuva amainou, e ns voltmos para a vila.
"Chegada a casa, contei tudo a minha me. Ficou numa aflio: "Cala-te, filha, que vamos j daqui falar ao senhor -prior!" - Amarrou um leno  cabea e deitmos 
a correr para


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a reitoria. O padre era um santo velhinho, que j no estava para milagres. Ouviu-me com muita ateno, cheirou a pitada de rap, e ficou a pensar um pedao. No 
fim, deu-me um biscoito e diz-me ele assim: "Olha, minha filha, se o que tu viste  na verdade um sinal do Senhor, foi s para ti, pois nem aqui a tua amiguinha, 
que estava contigo, viu nada. Ento  melhor no contares a ningum: guarda para ti o segredo que Deus s de ti confiou. De contrrio, Ele pode-te castigar: porque, 
se  misericordioso, tambm sabe ser severo, como um pai! Anda..." - ;Fez-me uma festa na cabea, e eu jurei de nunca dizer nada a ningum. "
- Mas est a dizer! - torna Gabriel. - Eu c, se fosse comigo no prometia. Se Deus no quisesse que eu contasse, no me tinha mostrado nada. Ele no lhe pediu segredo!
A me ri-se:
- Talvez tu tenhas razo. Mas guardei segredo mais de quarenta anos. J vocs todos eram nascidos quando contei ao vosso pai...
Cala-se.
- E da, no sei. Desde ento, parece que tudo me tem corrido s avessas. Meus pais morreram e... Quem sabe? Talvez nunca o devesse ter contado. Uma criana que 
v uma coisa assim, estava com certeza fadada para sofrer muito. Tudo tenho padecido com resignao, louvado seja Deus. A vida...
Porque  que estas histrias lhes deixam um n na garganta?
- Conte-nos hoje do Joo Brando, mezinha! Para o Chiquinho ouvir, que ele ainda no sabe! A nossa me conheceu o Joo Brando, sabes? Ele ia a casa do nosso av, 
eram amigos...
H um certo orgulho nestes conhecimentos histricos. Mas o Chiquinho, ou porque o morda uma ponta de inveja ou porque duvide (quem  que pode ser agora to antigo, 
que tenha visto o Joo Brando?), franze os olhos luzentes. A curiosidade, todavia, empolga-o tambm. Adora ouvir a dona Adlia contar histrias.
- Meu pai corria aquelas serras que metiam medo, coalhadas de salteadores, e levava sempre o dinheiro - libras, pintos e cruzados - numa bolsa de couro, pendurada 
da sela do cavalo. Mais de uma vez lhe saram a caminho, nas encruzilhadas: deitavam a mo  rdea, e de pistola aperrada: "Quem , donde vem,


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para onde vai? - Sou o Colmeal, de tal parte assim-assim. sois do sr. Joo Brando? Ide l dizer-lhe quem eu sou."
"Iam indagar, e ele ficava guardado  vista pelos quadrilheiros. Voltavam: Que sim senhor, podia seguir caminho, mas que se acautelasse, que para aquelas bandas 
de alm andavam outros homens, que podiam no no conhecer, e era morte certa. Ensinavam-lhe os atalhos, ele agradecia e l ia ao seu destino. Quantas vezes ficou 
devendo a vida ao Joo Brando!
"L de longe em longe ouvamos dizer: "J por a anda outra vez o Joo Brando!"- Trancavam portas e janelas, havia quem dormisse agarrado ao trabuco, de muito lhes 
havia de valer! Era o terror daqueles povos. E a tropa do governo por montes e vales, a tocar cornetas e tambores, para que ele os ouvisse de longe e pusesse ao 
fresco! Polticas, tambm naquele tempo as havia.
"Muita vontade eu tinha de conhecer o Joo Brando! Nem dormia, a pensar nele. At que uma tarde, andava eu a brincar, na Baticova, sempre com a Augusta Manilha, 
quando ouo rufar tambores: "Olha - digo eu assim - l andam eles atrs do joo Brando. Quem me dera que ele nos aparecesse!" - Corremos e brincmos, e s tantas 
fomo-nos meter numa cabana de pastor que por ali havia. Ns a entrarmos, e a darmos de caras com homem, sentado, a fumar o cigarro, muito descansado da sua vida. 
Bem parecido, de cara redonda e corada, com boas roupas de chapu na cabea. amos pra fugir, ele sorriu e diz assim: "No tenham medo. As meninas de onde so? e 
a quem pertencem... Somos de tal parte assim-assim, e eu disse logo o nome do meu pai. Uma serigaita que eu era! E ele: "Ah, eu conheo o seu pai, estimo-o muito. 
E que  que se conta por l?' Torno eu, sem medo nenhum: "Dizem que anda por a o Joo Brando, e que o querem prender." Ele riu-se: 'Ho-de-o agarrar, mas h-de 
ser com um trapo quente! Pois d muitas lembranas ao seu paizinho. Diga-lhe que so... de um amigo. E agora,  melhor ir andando."
"Os tambores l para a outra banda da serra, rana-catplana,  mata-aquela-ratazana!... Deitmos a correr e s parmos em casa. Contei tudo  vossa av e dei-lhe 
os sinais do homem. Ela levou as mos  cabea: " rapariga, calai a boca, no nos desgraceis!  Joo Brando!'"


        165
E prenderam-no? - indaga o Chiquinho, muito srio. - Prenderam-me a mim! Olha agora... Passado tempo, estvamos ns todos uma tarde na loja, por sinal chovia a potes, 
quando chega um homem todo embuado. Apeia-se, amarra o o  argola, e entra pela porta dentro a sacudir-se da chuva: t por c o senhor Colmeal?" Minha me foi chamar 
o vosso av e o homem, com uma cara que metia medo, deu-lhe um recado em voz baixa: que tivesse a ceia pronta para quinze bocas,
pela meia-noite, que o senhor Joo Brando estava de caminho de Mides, e queria parar ali para cear!
Meu pai mandou logo degolar dois borregos e uma poro de galinhas, e minha me, apoquentada, comeou a fazer um caldo de sopas. O po era a montes, fartura assim!... 
L pelo entardecer, quando nos viu com o bucho confortado e a cabecear de sono, diz o vosso av: 'Adlia, leva os teus irmos para casa, e mete-os na cama, que so 
horas. Ns ficamos esta noite at tarde.
-E deu-nos a bno. Eu era a mais velha daquele rebanhinho, olhava por eles... L os levei para casa, meti-os na cama, deitei-me, mas quem diz que eu sossegava? 
Tinha ouvido o recado, e
a arder em pulgas para tornar a ver o Joo Brando! Que hei-de eu fazer? Torno-me a vestir, embrulho-me num xaile,  chuva e volto  loja. Entro sem dar nas vistas, 
meto-me de gatas por baixo do balco e vou-me esconder atrs das pipas, e podia espreitar  vontade sem ser vista. S eu!... Azafamados, nem me ouviram. s tantas 
fecharam a loja. A ceia pronta, a posta, as horas a bater na Misericrdia, o tempo parece que no tinha fim. Esperei, esperei, e nada da quadrilha! At que
adormeci a tiritar de frio nas lajes do cho. Alta noite acordo a ouvir um grande rebolio: parecia cavalaria a descer a rua! "Meu pai abriu a porta e eles entraram 
em bicha: eram bem dezoito, todos embuados, barbudos, de chapu derrabado, e a escorrerem gua da chuva. Armados como se fossem para alguma guerra! Minha me tinha-se 
ido esconder ao p do forno de po, a rezar de joelhos  Virgem Santssima, que lhe metia em casa semelhante praga. E eu, atrs das pipas, a espreitar, tremia como 
varas verdes. Se dava um espirro, nem a alma se me aproveitava!
"Foi ento que um deles tirou o chapu, depois a barba postia,


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e eu reconheci o homem da cabana: era o Joo Brando. Corado, bonito e risonho. Comeram e beberam  tripa-forra, a conversar e a rir, meus pais a servi-los, muito 
calados. Quando eram horas de abalar, diz o cabea da quadrilha:  'Ento, sr. Colmeal, quanto  que lhe eu devo?' E meu pai: "No  nada sr. Joo Brando, por ser 
pra quem ... - Ora deixe-se disso! Pegue l." - E atirou com uma bolsa cheia de moedas para cima do balco: "Pague-se, e depois falaremos." - Tornaram a montar 
a cavalo, e l se foram  chuva, numa grande tropeada...
"Quando os viu ir e fechou a porta, minha me chorava: "U assassino, um salteador de estrada metido das minhas portas adentro! Que nem a mulheres nem a crianas 
ele perdoa a vida. E meu pai: "Cala-te, Jacinta;' - e ps-se a contar as libras -nesse  tempo era tudo ouro, pagava-se gio para as trocar! - e a arrebanh-las com 
as mos para dentro da gaveta. "Eu no quero dinheiro na minha mo, nem v-lo! - dizia a vossa av. Dinheiro amaldioado, de sangue e de lgrimas! S nos trazer 
desgraas...""
"Passado um migalho, com medo no se fossem eles embora e me deixassem ali fechada e sozinha, saio de trs das pipas, cabea baixa... Nem sei como meu pai me deixou 
com vida. Minha me a cobrir-me com o corpo: "No lhe batas, Antnio E ele: Se abres a boca e contas o que viste, arranco-te a lngua Adlia!" - Mas nem num cabelo 
me tocou, meu amigo que era! E eu bem sabia quanto vale calar...
"No tornei a ver o Joo Brando, mas nunca me h-de esquecer. Anos depois l foi degredado para a frica... Mais tarde correu que tinha fugido para a Amrica, metido 
numa pipa! De l escreveu ento  mulher: "Esquece-me e arranja marido, que eu l no torno. Estou casado com outra. Faz de contas que morri. E assim se acabou o 
Joo Brando...
"Mas l que aquele dinheiro nunca trouxe felicidade,  bem certo!"
Ainda h quem viva at os noventa: como o Vizinho Torres.
Chega um dos manos da Delfina com o recado, muito srio e composto, de luto, a fazer girar o chapu nos dedos, nem se quer sentar:


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- Morreu o padrasto da nossa irm...
A me diz logo ao Santiago:
- Filho, pe uma gravatinha preta do teu pai e vai v-lo. Leva o teu irmo,  bom que ele v aprendendo. To bonzinho, to pobre e honradinho que ele era, to vosso 
amigo, o Vizinho Torres, o homem dos abajures! Muito po com acar vos ele deu a comer quando eram pequenos!
Voltam assim os dois  Rua da Saudade, onde nada mudou, que tudo se lhes afigura mais acanhado e mais triste. O velho Torres j est vestido e deitado no caixo 
de pinho cru forrado de pano preto com gales amarelos. Duas velas ardem-lhe  cabeceira, mas a casa parece estoirar de luz, e as mulheres todas de negro, sentadas 
no cho em roda, choram com dignidade, sem fazer bulha. So de Alcochete, gente da Borda-d'Agua. O pequeno olha c de baixo: o Vizinho Torres est estendido no topo 
do mundo.
- Queres v-lo? - segreda-lhe o irmo, e ergue-o por baixo dos braos. O Gabriel contempla o morto por alguns instantes: enorme, plido e sereno, de mos cruzadas 
no peito, tem um leno amarrado nos queixos, manchado de sangue que lhe escorreu do,ouvido esquerdo. Mas o Santiago no pode aguentar mais o peso, e pousa-o no sobrado:
- Viste bem? Agora no te esqueas dele... - Parece que est a dormir.
- Foi uma congesto cerebral - explica o outro, muito sabedor. E entrega um envelope fechado que a mezinha mandou  Delfina.
Ao v-los ir, sem sopas de ch desta vez, ela abraa-os num grande choro:
- Meus ricos meninos, filhos duma me to boa!, que no me faltaram numa hora destas!
Macia como sempre, os seus beijos so mais sfregos que nunca, beijos de virgem velhinha, sem dentes.
Mas este morto, o seu primeiro, no lhe fez grande impresso: a morte, decididamente, intriga-o muito menos do que a Vida. Por enquanto...

































XXI
NO COMEO O FIM-DO-MUNDO
Os acontecimentos sucedem-se com fulminante rapidez, atropelam-se uns aos outros de tal forma, que nem lhe do tempo a respirar. Muitos confundem-se entre si, estranhos 
 ordem cronolgica.
O Fim-do-Mundo tem sido a preocupao maior duma poca, alis, sob outros aspectos pacfica: a do Santiago, sobretudo, lei insacivel de fantasias e utopias. Os 
jornais, com as suas reportagens e estampas sugestivas, contribuem muito para a atmosfera de pavor e expectativa em que se vive.
No dizer do Santiago, o mundo pode acabar: Primeiro, pela gua - como no caso incontestvel do Dilvio Universal, de que escapmos por uma unha-negra: quarenta dias 
ou l que foram eles, de chuva torrencial, e adeus-mundo-que-te-vais- -viola. Segundo, pelo Frio - haja vista os plos, a invaso dos gelos eternos. ("Sim, porque 
o mundo j esteve todo coberto de gelo!") Terceiro, pelo Fogo - a maneira mais lgica e natural, porque a Terra l por dentro  uma bola de lume e lava, do que so 
prova irrefutvel o Vesvio, o Etna, o Cracatoa, o Mauna-Loa, outros vulces de nomes literalmente impronunciveis. Qual uma Calamidade Csmica, gnero erro de manobra 
ou coliso dos astros - a Lua lembra-se por exemplo de cair na Terra, ou esta, gravitar distraidamente para o Sol, e assim. E ainda temos a Guerra dos Mundos, a 
Invaso da Raa Amarela, os Terremotos e...



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Tudo isto, apesar do seu inegvel elemento de terror, o deixa absolutamente imperturbvel: o destino prximo ou remoto do Universo no o impressiona pessoalmente, 
contanto,  claro, que ospais estejam junto dele quando a Hora soar. Talvez haja nele, tambm, uma obscura crena na imortalidade ou na transmigrao, ainda intraduzvel 
em palavras.
Em todo o caso, os acidentes prximos, imediatos, so muito mais alarmantes: outro dia a suspenso de petrleo duma casa vizinha,  Senhora do Monte, desabou na 
mesa de jantar duma famlia, e pegou-lhe fogo. Os bombeiros acudiram prontamente, a
rua encheu-se de gente, de viaturas, de mulas e bombas ofegantes, de brados e agitao, e em dez minutos o incndio estava extinto. S a mesa ficou parcialmente 
carbonizada e, com ela, o magro jantar. O que no se apagou to depressa foi o incndio que ficou a lavrar na fantasia dele. Nessa noite, j tarde, e sem poder dormir, 
olhava atravs da porta do quarto a janela da casa de jantar, quando, apesar da claridade que vinha da rua e do cu estrelado, lhe pareceu avistar no parapeito a 
brasa vermelha dum cigarro. Pouco a pouco, insidiosamente, a brasa cresceu, dilatou-se, alastrou  janela inteira, e dentro em pouco um claro de incndio iluminou-lhe 
a insnia.
A cena extinguiu-se, repetiu-se, e acabou por tomar tal fora de realidade, que s duas por trs, a suar e a tremer, ele desatou a gritar: "Fogo! Fogo!" A me acudiu, 
devia ser perto da meia-noite, trazendo-lhe a realidade habitual da luz e do riso, e explicou que tinha sido um pesadelo: "Dorme!" disse ela, aconchegou-o e beijou-o, 
e ele adormeceu tranquilamente. Como  que a gente crescida sabe tudo o que se passa dentro de ns?
Compreendeu muito bem a natureza absurda da viso, alguma coisa criada pela fantasia, e que acaba por se apossar da conscincia; mas o certo  que no voltou a deitar-se 
sem uma certa apreenso, medo de si mesmo, das obras da sua imaginao, que associa  viso uterina do prdio vizinho. Encosta sempre a porta do quarto para no 
ver a janela onde a brasa ardeu... (Assim a infncia fabrica os mitos, para viver no pavor deles: s vezes at bem depois de atingida a maturidade.)
Anoiteceu, e a me faz a digesto e goza o fresco na companhia


170        

dos dois mais novos, sentados  janela de peitoril do quartinho exguo que passa pomposamente por saleta ou escritrio. O mais velho brinca na rua com os amigos. 
O cu velado cobre-se pouco a pouco dum rubor suspeito que vem de longe e no tarda a alastrar a toda a abbada das nuvens, transformando-a num tecto baixo e ameaador, 
avinhado, rosado, depois vermelho-vivo, e por fim dum laranja-doirado, incandescente, de cu de aurora. O Santiago corre para casa, plido e esbaforido, e sobe a 
escada a gritar:
- Mezinha! Mezinha!  o fim do mundo!
Todos ao parapeito, ficam a olhar em silncio aquele cu de ameaas, que impe respeito, e deve ser como o cu das erupes vulcnicas. O Santiago fala ento de 
Herculano e Pompeios, afogadas em lava e cinzas, e no terremoto de 1755. Calada e serena, com os grandes olhos negros cheios de significaes, a me contempla o 
espectculo fulgurante, os grossos rolos de fumarada que sobem, longe, a confundir-se sinistramente com o tecto de nuvens baixas, e lembra se no ser algum incndio.
No tarda que rodopiem no ar opressivo os ramalhetes de falhas de oiro, frenticas, velozes, desvairadas, sopradas de um inferno invisvel. O fogo vai talvez propagar-se, 
vir pelos cus fora para abrasar tudo, reduzir tudo e todos a torresmos e cinzas...
-  o fim do mundo!  o fim do mundo! - repete o Santiago, e esconde a cara, a soluar, no regao da me. No quer morrer to novinho, separar-se dela, da vida que 
ama... E como  que ela, sobrecarregada de trabalho e apoquentaes, pode aquietar este pequeno nervoso, apaixonado e impulsivo, que anda na escola e l livros, 
e sabe de que  feito o mundo e como ele h-de acabar? Pousa-lhe brandamente a mo na nuca agitada, e continua a olhar o cu com gravidade, ralada talvez, mas sem 
o dar a perceber aos filhos, agarrados a ela como pintos:
- O vosso pai no tarda a...
Com estas palavras cria logo um sentimento de unidade e confiana.
Na rua deserta e clara como em pleno dia, mas dum rosa fantstico, irreal, h um silncio de mau sestro: onde se meteu toda a vizinhana? nico sinal de vida neste 
mundo espectral, quando as falhas sobem mais alto, enrodilhadas num corropio vertiginoso, de bailado, ouvem-se brados distantes de espanto e

 
        171
de terror. Como na cena de terror que viram na feira de Belm... O Gabriel, porm, olha o cu como um fogo de vista, quando muito com a gravidade contida de quem 
assiste a um espectculo imponente. Com a famlia quase toda ali, aquele fogaru parece-lhe muito menos assustador do que a brasa imaginria do parapeito. S falta 
o pai, mas esse, sabendo que o mundo se vai acabar (na Baixa sabe-se tudo), no tardar a recolher tambm, para morrerem todos juntos. E tudo parece natural, aceitvel, 
quase aventuroso, como na vspera duma viagem.
O cu fulgura por muito tempo em surdas exploses, como se vrios vulces a um tempo golfassem fogo e fumo, at que de repente algum que passa na rua se lembra 
de gritar:
-  uma fbrica de cortia que est a arder em Xabregas!
O encanto dissipa-se, e o incndio (como se diz nos jornais) continua a sua obra devastadora.
Na manh seguinte uma coluna vagarosa de fumo e vapor sobe ainda no cu limpo e sereno. O jornal diz que foi preciso tirar gua do Tejo: mas, com a mar baixa e 
o rio pouco fundo ali, o lodo entupiu as bombas e mangueiras, e os bombeiros assistiram impotentes  destruio da fbrica: ficou tudo reduzido a uma lama de cinzas. 
A dona Adlia murmura:
- Quantos desgraadinhos vo ficar sem po!
O mundo continua a existir por mais algum tempo, por bem ou por mal dos nossos pecados.
Sentado com a irm no parapeito da janela donde viram o fim do mundo pelo Fogo (em Xabregas), ao cair da tarde, o pequeno repara que o cu comea a tomar uma estranha 
lividez esverdinhada, com riscos leves, grisalhos, de lpis ou esfuminho. H na rua um silncio, como se o stio, com a sua escassa verdura de quintais, se tivesse 
recolhido a meditar, numa calma provinciana. A voz do irmo brada na rua:
-  uma aurora boreal! Olhem!
Ficam os dois a olhar e a repetir a meia voz aquelas palavras mgicas e novas. Nisto, um co vadio surge da Rua da Senhora do Monte, com o rabo entre as pernas, 
a galope, como se fugisse a invisvel matula, e desaparece pela esquerda. Um vento morno sopra, acelera-se, ergue uma coluna de p em tromba, at  altura



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cimeira dos prdios, sobe a rua rodopiando numa dana de derviche, varre por instantes o largo deserto, e desaparece atrs do co a persegui-lo. O silncio torna-se 
etreo, quase angustioso.
Ouvem ento, por cima da cabea, um bater de asas de pombas ou galinhas assustadas na gaiola, um estralejar de invisveis vergastadas no estuque: o fasquiado do 
tecto estala por todos os lados. Erguem os olhos... Mas j, debaixo deles, o peitoril parece querer sacudi-los da janela  rua. O Santiago grita l de baixo:
- Fujam!  o terremoto! Fujam!
Saem a correr da saleta, atravessam a casa de jantar, com a sensao de que o soalho se lhes esquiva debaixo dos ps, e o corredor  um tapete mgico, ondulando. 
As paredes vergam, refractrias  verticalidade, oscilam, avanam e recuam numa quadrilha de apavorar. Por momentos julgam que no podero j passar, que vo ficar 
ali soterrados. Nesse instante de medo, gritam: "Mezinha!" - e correm ao quarto de vestir, ao fundo, onde ela costura: os batentes da janela abanam como sacudidos 
por mo oculta, rapidamente; os dois guarda-fatos, frente a frente, fazem vnias um ao outro, ameaam esmagar a dona Adlia, que continua agarrada  mquina "Memria", 
alheia ao sismo, entregue a pensamentos todo-poderosos. Como  que ela no d por nada? Gritam-lhe:
- Mezinha, fuja!
Ela ergue os olhos ausentes, v a dana dos guarda-fatos, desperta da tarefa e da abstraco, levanta-se sem falar, agarra os filhos pela mo e arrasta-os para o 
corredor, a caminho da escada, onde o mais velho brada:
- Mezinha, mezinha,  o terremoto,  o fim do mundo! - No seu terror, em vez de se deixar ficar na rua, subiu e bate  porta, exasperado: - Quero morrer ao p 
da minha Me!
Abrem-lhe a porta. J  sada, o Gabriel exclama:
- O meu grilinho! - e corre  cozinha, para o salvar. A me lembra-se do fogareiro onde ferve o jantar: volta atrs e, com a serenidade e firmeza que nunca a abandonaram 
diante de perigos e desastres, despeja um jarro de gua no lume. Depois descem juntos, de cambulhada com os vizinhos, todos carregando caixas, valores colhidos ao 
acaso, roupas, cobertores... O Gabriel segura a gaiola do grilo com cautela.

 
 
        173
A convulso epilptica das paredes e as vergastadas no tecto parecem amainar. Quanto tempo ter durado isto? Como podem eles ter feito tanto em to poucos instantes? 
Na rua, pessoas aflitas gritam, choram, caem de joelhos a implorar em brados a divina misericrdia, como se dela duvidassem.  o terremoto!  o terremoto! Paira 
a memria de outras tragdias parecidas, de romances lidos.
Pela mo da me, sereno, agarrado ao seu grilo, o Gabriel espia tudo sem falar, de olhos bem abertos. Este fim-do-mundo tem mais o ar duma festa ou romaria... Aterra 
parece ter deixado de tremer, mas por quanto tempo? Ouvem-se ao longe as cornetas dos bombeiros. O povilu escuta, calado agora: os incndios so a grande calamidade 
nos abalos de terra. E os ladres  solta! E a Onda!  verdade, se ter havido Onda como da outra vez? Algum jura que a dois passos dali, na encosta do Monte, a 
terra abriu uma brecha pavorosa, e vomitou fumo e cheiro de enxofre... H em torno sinais da cruz. A dona Adlia aperta mais os filhos ao corpo, olha o cu riscado 
de cinza, e murmura alguma coisa que no  com eles. Depois sobem todos ao Monte, arrebanhados pelo medo colectivo, em procisso  capela de So Gens, e para verem 
a cidade, talvez em escombros fumegantes.
Um mundo de gente refugiou-se ali, a orar; outros arrastaram colches para o ar livre, no largo, e preparam-se para passar a noite ao relento, no venha de novo 
o sismo, para soterr-los no sono. O curioso  que todos se demoraram em casa no pice do perigo, a procurar um objecto de estimao, um retrato, um cordo de oiro, 
um trapo, um mealheiro. A prudncia vem-lhes por assim dizer depois da casa roubada. Da brecha na encosta do Monte nem sinais h.
Sobre Lisboa, vista do alto, paira com a leve neblina uma serenidade majestosa: nem gritos; nem chamas, nem runas. Um silncio, apenas, que amedronta mais que tudo 
isso: o espectro, a ameaa do terremoto, da derrocada, da morte, de incndios, da inundao. Lisboa, que trs vezes a Terra j de si quis sacudir com raiva, parece 
mais luminosa do que nunca, duma palidez gentil de moribunda. A tarde calada esmorece, como se nada a houvesse perturbado.
De uma chamin distante sobe devagar um vu de fumo.

 
 
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Longe, soam trombetas e h um surdo rolar de viaturas:  talvez um incndio a que os bombeiros acodem de todos os lados... Afora isso, nunca o panorama da cidade 
lhe pareceu to sereno lavado e dolente, como nesta tarde de sismo.
Certas palavras ressoam com a fria e majestade das maldies bblicas: Salvaterra de Magos Arrasada! Benavente em Runas A atmosfera  sempre de tragdia ou cataclismo. 
Ele olha demoradamente as fotografias da Ilustrao - casas em runas, algumas carbonizadas, mortos e feridos transportados em padiolas de acaso, mulheres de negro 
esbracejando, lavadas em lgrimas diante do entulho que foi lar um dia, e  agora o tmulo de maridos, filhos...
Um dia a rua enche-se deste brado: "L vem o Bando Precatrio!" ( uma expresso toda em crepes de preces, traz ideias de luto, runa e morte.) Correm todos a ver. 
As janelas da encruzilhada esto apinhadas de gente, os passeios coalhados. Do fundo da rua, o cortejo ainda invisvel anuncia-se pelos acordes da marcha fnebre, 
em subtis desafinaes que a tornam mais plangente. Os homens descobrem-se, as mulheres ajoelham na rua e nas sacadas, rezando e limpando as lgrimas. Os meninos 
ajoelham tambm, gostam da solenidade, o mais velho  mesmo fervoroso. Parece uma procisso.
E o bando desemboca enfim no largo, muito lento, enchendo a calada de ls a ls.  realmente imponente! Os bombeiros de grande uniforme, capacete engraxado a reluzir 
e cinturo vermelho e azul s riscas, a machadinha areada a dar-que-dar na ilharga, marcham a compasso, graves e solenes, segurando imensos panos negros e bandeiras 
em que recolhem as moedas atiradas das janelas, muitas delas (as moedas) prudentemente embrulhadas em papelinhos. Outros, empunhando os baldes de lona das faltas 
de gua, correm ao longo dos passeios a cobrar os bolos do povo, e agradecem com gestos largos,  maneira de artistas. Como so geis! como so velozes, e como 
reluzem de metais amarelos no cortejo! Nunca os bombeiros nos pareceram to bons, to hericos, to centuries. O Gabriel tem por eles uma secreta admirao, e agora 
ento, que h bombeiros voluntrios! O paizinho fala muito de Guilherme Gomes Fernandes, do Porto, um heri. Os

 
 
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bombeiros do Porto so os melhores do mundo. At j foram condecorados!
Mas desta vez tudo tem um ar de tristeza! H luto por todos os lados. Os nqueis e os cobres chovem nas bandeiras desfraldadas, ornadas a crepes, nos panos negros, 
nos baldes.  testa do cortejo, a banda sopra os seus metais sentimentais, arfantes. Salvaterra, Benavente... No se fala de Jerico, que, segundo a cantiga da Vizinha 
Delfina, "fica no meio"...
A me diz com a voz cortada:
-  para as vtimas do terremoto, filhos! V, atirem qualquer coisinha... Tanta desgraa por esse mundo!
E eles atiram moedas. Mas, por infelicidade ou por desajeito, caem quase todas fora dos panos, das bandeiras esticadas. Esto c neste recanto, demasiado longe, 
e  provvel que a emoo lhes arrune a pontaria. Um dos bombeiros corre a apanh-las, olha para cima, sorri, e agradece num gesto de gladiador! O Gabriel tem quase 
a certeza que  o da noite da chave perdida, mas no pode dizer nada, tal  o n que lhe aperta a garganta, uma dor nas cordas do pescoo, como se fosse chorar. 
O cortejo com a sua marcha lenta e lacrimognia atravessa o largo em Y, passa em frente da casa do professor de leis, que coroa a rua com o seu luxo modesto e "arte-nova", 
e engolfa-se a caminho do Monte. O Santiago corre para a rua, de bon na mo, atrs dele, como sempre que houve tilintar uma campainha e a me diz: "Olha, l vo 
levar o Senhor-Fora a algum que est a morrer!"
E tudo recai no sossego.

De p, no meio do trio do Hotel, o Porfirio do ascensor desdobra a Notcia Ilustrada e l em voz alta, com nfase de pregoeiro:
GRANDE E HORRVEL CATASTRFE!
MESSINA ARRASADA!
Algum se ri, mas no  do desastre,  da silabada. O Porfirio at fica corado,  muito vaidoso. Mas lida assim, a palavra torna-se mais empolgante, mais catastrfica, 
enfim. O Gabriel corre a olhar a estampa que enche a primeira pgina do semanrio:

 
 
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Messina destruda pelo sismo, mordida de incndios, envolta em rolos de fumo e poeira, varrida pela onda do Mediterrneo, que na sua fria arrastou vapores enormes 
pela terra dentro, deixando-os a atravancar as ruas como grandes cetceos inanimados. O mesmo podia ter acontecido a Lisboa...
 um tempo de calamidades! O cu anda cheio de sinais, agouros, meteoros, e outras e maiores tragdias se anunciam talvez. O pequeno olha em volta: as paredes pombalinas, 
reluzentes de pintura amarelo-torrado, os mosaicos do cho (escadinhas por onde a sua imaginao costuma perder-se em exploraes subterrneas), tudo tem um ar de 
indestrutvel solidez. Acol, atrs da mesa entre as portas, o .pai sorri a um hspede. Atravs das largas vidraas, a rua tem a serenidade habitual, um elctrico 
passa arrancando rpidas fascas azuis ao cabo, h raros transeuntes sob os lampies... Nada mudou!
Ento, ele corre alguns passos, e patina com as pernas delgadas sobre os mosaicos encerados, como sobre esquis.
Queres ir comigo ver o rescaldo da Madalena? - segreda o irmo.
 A Ilustrao vem cheia de cadveres carbonizados, irreconhecveis, de fauces arreganhadas, a escorrer gorduras. Ele segue tudo com a grave ateno prpria da sua 
idade, mas o que mais o impressiona  a mulher que se atirou do ltimo andar para as escadinhas de Santa justa, embateu no lampio, e o deixou torcido, de lanterna 
 banda. Assim a mostra o ilustrado, a cabea num bolo, sem o falso pudor do horrvel quotidiano. Ele olha demoradamente as imagens tenebrosas: como isto o atrai! 
Mas se queria fugir  morte, porque se matou ela?
E vo juntos, de mos dadas, ele muito orgulhoso, at se julga mais velho. Os bombeiros regam o entulho, que fumega devagar no fundo da imensa carcaa enegrecida 
do prdio. Pelas janelas sem caixilhos, de molduras carbonizadas, avista-se o interior: paredes fuliginosas, restos de pintura e forros de papel, alvolos de vigas 
desfeitas, chamins; o cu...  triste e confrange. Ali morou gente, houve vidas, que o fogo surpreendeu no sono. No oco do prdio ainda pairam risos, brados de 
alegria, correrias de crianas nas escadas...

 
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A polcia no os deixa ir ver o lampio torcido: no  espectculo para menores!
De noite, s voltas na cama, ele imagina o incendirio furtivo a regar de petrleo as escadas do prdio, por ordem do patro, que queria cobrar o seguro. A me vai 
pagar o seguro dos mveis, de meses a meses. Este prdio tem duas ou trs chapas de lata na fachada, enferrujadas, ilegveis. Seguros contra incndio. Mas isso ento 
no evita os fogos!? - O homem da Madalena era patro de todos estes galeguinhos de boina que andam por Lisboa, vestidos de bombazina, com grandes caixas embrulhadas 
em riscado, ao ombro, e o metro de pau atravessado, a apregoar "Rendas! Rendas!" - como o Vizinho Torres apregoava abajures. Param nos passeios, horas a desdobrar 
rendas e entremeios aos olhos das freguesas, para no fim no venderem nada, ou s dois palmos de mercadoria. O homem confessou, j est no xilindr, e o patro tambm. 
 bem feito. Foi a nica vez que o paizinho disse: "A pena de morte era pouca para um incendirio destes. S queimando-o em vida! ... "
Mas esperem, ainda h os Cometas! Leitor precoce de Flammarion e H. G. Wells, o Santiago tem convices inabalveis a tal respeito. O cometa de Halley fez-se anunciar 
com grande aparato e estrondo. Se no esbarrar na Terra, soluo de todas a mais rpida e menos tormentosa (digamos, como a morte sbita), pelo menos varrer com 
certeza o globo e a atmosfera com a sua cauda de gases incandescentes, venenosos, torrando e sufocando a gente ao mesmo tempo. Basta olhar a capa da Ilustrao, 
para se ver perfeitamente que, dado o comprimento do  monstro, que cobre bem metade da abbada celeste, e a velocidade a que ele avana nos espaos siderais (s 
o que a gente aprende de palavras novas!), no haver forma de uma pessoa se esgueirar a tempo, desviando-se da rota. Fatalidade das leis astronmicas! Ele at deu 
em pensar a srio, o Gabriel, por assim dizer, filosoficamente, no Infinito e suas dependncias. j uma noite, no Vero, deitado de costas na sacada a olhar as estrelas 
a convite da gueda, teve a primeira revelao e vertigem da Imensidade: fugiu aterrado daquele poo sem fundo, l em cima. Agora os jornais at falam de pessoas 
que se tm suicidado com medo

 
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do cometa. A fugir da morte, como a mulher do lampio Madalena!
O Santiago espia os astros com angstia, emagrece, dorrme mal, faz sonambulismo. A lentido na marcha do cometa  intolervel. Venha de l por uma vez e acabemos 
com isto! Pen gente que mora na Terra como numa barquinha de balo suspensa no espao, e que no pode saltar pela janela para fugir  trajectria do incendirio!... 
O mundo  realmente de meter medo. Mal governado, em concluso.
At que esta noite, ou madrugada, a tia Zulmira (est de volta) o foi arrancar ao calor da cama, muito bem embrulhado no cobertor, para que ele veja o cometa de 
Halley da varanda da cozinha.
L ao fundo do cu, a sul, no horizonte azul-plido, brilha uma enorme estrela fugaz, envolta numa cabeleira fulgurante, que parece inclinar-se para baixo, numa 
corrida louca, deixando longo rasto de nvoa luminosa. To longe! Quase lhe parece v-lo mover-se, talvez por ouvir dizer que ele no tarda a sumir-se. Tem o ar 
de um drago perseguido, que foge ou procura outro destino. "Cem mil quilmetros por segundo!" - brada o Santiago, j mais tranquilo, explicando o fenmeno s gentes 
absortas. O cometa mudou de rumo, a Terra est livre do desastre.
Com efeito, o ar da madrugada, fresco, sereno, perfeitamente respirvel, no permite supor que esteja prximo o fim do mundo pela asfixia ou a torrefaco. Das janelas, 
varandas e quintais da vizinhana erguem-se comentrios animados e optimistas. O cometa goza de imensa, de efmera, popularidade. At parece uma noite de So Joo.
- Lembra-te que viste o cometa! - diz-lhe o irmo com ardente entusiasmo. - Olha que ele s volta daqui a setenta anos!
E que lhe importa aquela estrela de rabo comprido, l longe? Setenta anos. Quer ele l saber agora o que se vai passar daqui a setenta anos! O cometa de Halley acaba, 
com sua licena, num mijarete, um busca-ps perdido. Ao colo da Zulmira, agasalhado no cobertor mas com frio nos ps, o Gabriel experimenta um senso tristemente 
limitado da importncia histrica do drama.
- Quero ir para a cama! - diz ele, com a boca no pescoo

 
 
 
 
        179
morno da tia, e ajeitando-se melhor ao seio dela. Se ao menos pudessem dormir juntos...
Avesso a boatos e especulaes, sem ligar nenhuma ao Fim-do-Mundo, quando a tia o mete em vale de lenis, j ele dorme profunda e confiadamente, embalado em sonhos 
na cauda luminosa e quente do cometa, como nos braos dela.



XXII 
 
A NOITE DA FALPERRA

Uma vez por outra o sr. Augusto tira uns dias de folga e leva a famlia a passeios, a ver museus e monumentos. Vo at fora de portas, s praias e ao campo. Ele 
e a dona Adlia tm a religio das Vistas, como outros tm a dos Santos e Mrtires. Ento, arredondam-se em exclamaes de encmio e espanto, quer seja diante da 
Boca do Inferno, quer na Cruz Alta, cabelos arrepelados e vozes estilhaadas de vento. Provocam ecos nos lugares consagrados, bebem ritualmente das Fontes, ele descobre-se 
com respeito diante das Pedras Venerveis. Sentem-se felizes no seio da Madre Natureza, e h neles uma aspirao de dignidade e monumentalidade, ainda que seja s 
no Museu dos Coches, a Belm.
Quando lhes d para andar dias inteiros,  acorrer tudo a p, subir  Pena ou ao Castelo dos Mouros, ento  que so elas: os pequenos gemem, a me consola-os como 
pode. " Esta serra - diz o sr. Augusto abanando a cabea - parece que s pertence a estrangeiros: Sommers e Sumners, Streets e Mosers, O'Neils e Burnays...  tudo 
deles. Ficam-nos as estradas para andar. V l, j no  pouco deixarem-nos visitar a Pena!" - Mas o estio tem sombras e frescuras inesperadas, por cima as aves 
piam nos arvoredos copados, zumbem insectos benignos, as guas murmuram e cintilam entre rochas e avencas, pingam nos musgos, a vida  boa! E resta sempre a perspectiva 
do almoo na sala deserta e fresca dum hotel ou restaurante, com toalhas alvas a cheirar a lavado,

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flores nas mesas alinhadas, brilhos de vidro, aromas de cozinha e fruta, uma dormncia e uma penumbra boas de verdura l fora.
Por vezes comem num retiro, ao ar livre, debaixo duma latada, perto da horta onde uma nora geme. H um cheiro de estrumes. A comida no  l grande coisa, mas sempre 
se arranja uma perna de borrego assada. Outras, vo cair numa casa-de-pasto ou restaurante "arte-nova" da Baixa, ao domingo tranquila. Tomam um gabinete reservado 
para no dar nas vistas: o sr. Augusto evita os lugares muito frequentados, encontrar gente conhecida: - "Que preciso tm eles de saber por onde eu ando? Vo contar 
tudo!" - No quer que o vejam nestes regabofes. Isto, assim, parece-lhes um luxo, mas secreto: melhor!
 mesa, fresco e reluzente, d gosto v-lo comer, com o guardanapo entalado no colarinho: at a pele se lhe ri de satisfao. Bebe vinho de Colares Viva Qualquer 
Coisa, com medalhas de ouro, na farda encarnada, de exposies internacionais, Filadlfia, parece, donde vm os carros elctricos (The J. G. Brill Co.). Faz projectos, 
promete lev-los, se Deus lhe der vida e sade,  Batalha, Alcobaa, Bom Jesus e Sameiro, ao Buaco e Santa Luzia.
Os gabinetes dos restaurantes so ntimos, um bocado acanhados (chega-te tu para l, eu quero ficar no cantinho), mas sente-se uma pessoa aconchegada. As comidas 
so boas, so diferentes - sopa de camaro, peito de vitela assado com ervilhas e alcaparras (gostam de trincar as cartilagens!), com molhos divinos, segundo a me, 
e o po estala. H uma luz indirecta, ouve-se o rumor das loias pesadas na cozinha, e paira um sussurro de conversas subjugadas, vindo dos outros gabinetes, com 
reposteiros de reps corridos, e damas de vu, como nas histrias do Pimpo. Ouve-se o falar cicioso dos criados, alguns vm cumprimentar o sr. Augusto, sorriem, 
chamam-lhe "don Agustn"...
Os fruteiros tm montes de frutas lindas, vistosas, at parecem artificiais. Com que gosto e jeito meticuloso o sr. Augusto descasca um fruto, tirando-lhe a pele 
inteirinha, em espiral! Ningum  capaz disso. Descasque um pssego para mim, paizinho! So de Alcobaa, uma delcia. O sumo escorre, a gua cresce-lhes na boca, 
e a dona Adlia diz:
- Eu s de olh-los me arripio toda!

 

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E  certo: no pode tocar num pssego. O marido, a brincar, finge roar-lhe um nas costas da mo, e ela zanga-se, franze a testa. No fim, a gente adormece com a 
cabea nos braos cruzados, a aquecer o mrmore atravs da toalha, embalado no zunzum das conversas. Chega a ser bom ser pequeno!
Como j vo tendo idade de apreciar, e gostam imenso de andar de comboio, a cabea fora da janela da segunda classe a ver a paisagem e a apanhar a infalvel "fagulha", 
deitam at ao Ribatejo ou s Caldas, e j tem acontecido andarem horas e horas de tipia, mesmo pela noite dentro, ou fora. Quando voltam a Lisboa, sonolentos e 
modos, mas nutridos de impresses novas, as luzes a arco-voltaico das gares, ou ao longo dos cais do Tejo os faris da Guarda-Fiscal, fazem-nos sonhar com outras 
terras: e  bom a gente fingir que no sabe onde est, brincar ao que no  c.
Aprendem assim a amar a natureza, as guas, as sombras, o silncio, a solido, os caminhos atapetados de areia hmida que ensurdece os passos, a paz da vida em suma: 
e a esquecer, a!, o lado prtico das coisas... Tomam em geral uma vitria, que cheira a verniz e a couro. O Gabriel adora a pintura espelhenta, como a das carruagens 
pequeninas das linhas de Cascais ou Sintra, verde-escuro ou sangue-de-boi, com filetes entrelaados, de outra cor. Um dia, atrado pela alvura do p subtil que cobria 
o verniz novo da carruagem, fez um trao leve com o dedo: o cocheiro explicou-lhe que a poeira riscava o verniz, era como lixa, s lavando. Ele compreendeu muito 
bem, e ficou envergonhado de no ter pensado nisso. So destes pequenos vexames que no se esquecem facilmente.
 na boleia que ele viaja, entre o cocheiro e o irmo: a ouvir o buh-buh das tripas dos cavalos, e a ver as ancas, as crinas e as cabeas a bailar ao som dos guizos, 
estrada fora. Por vezes os cavalos erguem um pouco a cauda, de lado, sem parar, e fazem outros rudos comprometedores. Quando param, o cocheiro at o deixar pegar 
nas rdeas,  a brincar, est visto, sob a vigilncia dele.
No h perigo nenhum, minha senhora, o travo est bem apertado, at rangeu.
Conta de caminho interminveis histrias, que todos ouvem
em silncio, e talvez no ouam, vo distrados a gozar a paisagem

 
 
        183

ou a pensar na vida. A que ele mais gosta de contar (sempre lhe acrescenta ou modifica alguma coisa)  a tal do homem que tinha milhes dentro da pana, e quando 
queria dinheiro era s abri-la com a faca, e salta-dinheirinho-c-para-fora, librinhas a luzir! Dava muitos presentes, era muito amigo de ajudar, at um dia comprou 
uma carruagem e dois cavalos para um menino muito pobre, que queria ser cocheiro! - Esta  sempre a mais apreciada, pudera, e ningum se importa de saber se a barriga 
di ou no, mas  claro que no di, seno no tinha graa nenhuma. O que lhes interessa  a bagalhoa. O dinheiro  sangue. Neste caso (e olha os cavalos) at parece 
outra coisa.
No silncio meridiano e sensual das resinas do pinhal fofo de carumas, o sr. Augusto olhou em roda, no houvesse estranhos, e postou o Santiago de atalaia. Tirou 
do bolso o revlver de contrabando, muito jeitosinho, e deu um tiro, um s, no tronco de um pinheiro! Quase que nem tiveram tempo de ouvir. Como no so versados 
em balstica, e a bala descreveu uma trajectria mirabolante, foi um trabalho para darem com o furo: mas - c est ela, c est ela!, achatada, de chumbo. O pai 
riu-se, olhou a arma: "No  l de muita confiana, capaz de rebentar na mo da gente..." Mas num aperto sempre podia meter medo a um meliante. Quisera s experimentar. 
Tornou a guard-la. Assim mesmo, o tiro breve e seco na quietao do pinhal foi uma aventura. Nesse dia o sr. Augusto cortou com a navalha de Albacete (nunca sai 
sem ela) um pedao de casca de pinheiro, e entalhou uma caveirinha muito engraada para recordao. Foi para o lado das Caldas. Mas que ideia, uma caveira!

A Miquelina pe um grande chapu de palha preta, ou tule, com flores, cerejas, aves, plumas encaracoladas; um vestido com bofes de renda, um broche ou enorme camafeu 
(tem-nos lindos), luvas arrendadas a mostrar os anis, e leva a sombrinha de folhos, com uma sereia ou ninfa contorcida no cabo de marfim. A mezinha usa mitenes 
e pe o vestido cor de ervilha seca, ou o outro, cor de caf, feito no Geadas h quantos anos, mas nunca ficou bom, tem no sei qu nas entretelas (no confundir 
com entret-las), e poisa o chapelinho no cimo dos bands grisalhos, muito mais pequeno que o da Miquelina, mas no admira, no  actriz.

 


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O sr. Pinanejo, de nariz grosso e vermelho, sempre calado, a vida negra  gente a tirar retratos com a mquina de trip,poses  que nunca mais se acabam, o tempo 
que se perde nisto, mas
sempre fica uma lembrana. Um bocado tremida,  verdade, o irmo de perfil, a sorrir, de rdeas e chicote em punho, o paizinho de panam revirado para cima na frente, 
e charuto na boca, sempre jovial como ningum, este sr. Augusto! E ele o nico que fica bem nos retratos. Os outros todos em molho na carruagem visivelmente amachucados 
de vida ao ar livre como monumentos
histricos, a mezinha de olheiras fundas, olhos pisados e faces cavadas de fadiga e consumies, a boca um nada descada aos cantos, e um vago ressentimento na 
expresso, severa e especada. Enquanto que a Miquelina, afogada em rendas, tafula e transbordante... Mas, oh Senhor, at ela fica amochada nos retratos! -Deve ser 
do almoo, um calor destes, ouvem-se os ralos pel arvoredo bao, e todos caem de sonolncia. O pequeno e a gueda, encolhidos, estrangulados de elsticos, plissados, 
sapatos amarelos, e com dores de barriga inoportunas - na pressa esqueceram-se de fazer em casa! Apesar dos sorrisos de encomenda, h sempre uma nota de melancolia: 
 desta demora, a gente cansa-se, e quando chega ao fim... Do cocheiro s se v o brao, a mo morena de unha comprida, apoiada a um tirante. E h umas dedadas indelveis, 
tenham pacincia,  na chapa,  revelao. A fotografia  a arte de transformar a gente em monos. E pronto. Mete-se na caixa, junto com as antigas. Ainda havemos 
de comprar um lbum para pr em cima da mesa da sala: quando houver sala.
Os pinheiros correm por cima, esgalhados no cu de prata derretida, o pai, de panam revirado e de bengala de casto de prata, como um lorde, canta um trecho de 
opereta ou zarzuela, a Miquelina acompanha, o sr. Pinanejo sorri, at que enfim, as cabeas dos cavalos balanam ao som dos guizos, uma carga destas!, e por ltimo 
do consigo em Mafra, cor de cobre e de cinza, tudo estorricado da soalheira. Isto  imenso, sente-se a gente esborrachada, felizmente c dentro respira-se,  uma 
frescura que absolve os milhes de cruzados gastos em bronze, mrmore e granito, a mana toca um estudo apressado no rgo asmtico, que reboa no templo como um trovo 
de Deus. Os

 
 
        185

carrilhes esto desarranjados, mas o homenzinho fardado, com muita boa vontade e cinco tostes de ajuda, l consegue tirar dos sinos, so centenas, com as teclas 
de pau pintadas de encarnado, e muitos arames, uma coisa que faz o possvel por se parecer com Os Sinos de Corneville. Percorrem salas interminveis que exalam tristeza 
e bafio, com manchas de humidade e salitres, mas a Biblioteca Real arranca brados de assombro ao sr. Augusto, muito apreo ele tem pela Sabedoria! Quantos livros 
dormindo o sono das mmias! Na arcada, em baixo, livres enfim do pesadelo, olham os santos com vento de pedra nos mantos e capas. Concluso da dona Adlia: At pe 
medo!

Desta vez, porm, vieram sozinhos at Sintra, de comboio, almoaram no Costa, e por sinal encontraram uma dama muito catita, com um chapu de plumas cadas para 
os ombros, como os capacetes da Guarda, de bengala em punho e de cigarro nos dedos: uma senhora a fumar! At a confundiu com uma actriz francesa muito em voga, esquece-lhe 
agora o nome. Ela foi-se embora pelo brao do marido, a rebolar os fundos e a sacudir o penacho, como um cavalo de parada. Ou gua. Seguiu-a com um olhar de nostalgia 
envergonhada. O paizinho conhece o marido e ri-se: um bacoco que ganhou uma fortuna em frica e "est aqui, est a t-los deste tamanho!" - Faz um gesto discreto 
muito comprido... O qu, paizinho? Mas ele no explica.
A mezinha est hoje muito mais alegre, em famlia. Sintra, para ela,  um lugar de peregrinao, com que nfase ela diz "Steais!... " O passeio serra abaixo  
lindo, a caminho da Vrzea de Colares, e da Praia das Mas, nestes elctricos amarelinhos, abertos, que parecem miniaturas dos de Lisboa. A gente pode puxar os 
estores s riscas para cima e para baixo, o condutor no faz caso, crianas, at sorri.
Esto enfim na praia, um deserto, todos vestidos, felizmente no  para tomar banho. No se vem mas em parte nenhuma. H um estonteamento no ar,  do vento e 
do sol espalhado, da poeira de gua da rebentao distante e confusa, do areal imenso, que reluz. O elctrico ficou parado e vazio, aberto por todos os lados a estas 
lufadas mornas do sol.  espera no sabe de qu, talvez que a gente volte? A freguesia  pouca.

 
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O que  bom  estar s, ou julgar que se est, que ningum nos observa, e ento com um brinquedo deste tamanho, sem rivais a mandar, a estragar-nos o gosto. Pode 
subir  vontade, e apear-se, e correr pelo estribo - do atrelado,  claro, onde no h perigo nenhum, e  mais pequenino, um carrinho como os do Povo, mesmo bom 
para fingir de elctrico a valer. At abana todo quando a gente pula, assim, assim... Cuidado! Quase que se podia empurrar com as mos se no estivesse travado. 
A gente pode fingir de condutor, guarda-freio ou passageiro,  escolha. Guarda-freio  melhor, no paga bilhete e vai a gente aonde quer, rei do espao. Quem me 
dera ser. Tambm  verdade que no cobra dinheiro... Mas no h nada to bonito como estas manivelas, traves, fechos e puxadores de metal amarelo e acobreado. At 
parecem de oiro a faiscar ao sol. Ih, esto a escaldar! E a manivela do travo est solta, anda  roda. Ser guarda-freio  um dos empregos melhores que h no mundo. 
Descer a Serra toda a nove, tem-tarm-tem! Cuidado, vai entrar na curva! Trava, trava!... Zzzzz-pfft!
A manivela o que est  um nadinha alta de mais. Tem esta rodinha dentada, em baixo, e a meia-lua que se empurra assim, com o p - d-se uma volta  manivela, ouve-se 
o barulhinho da mola apertada, clique, e est travado. Mas  preciso apertar mais. D-se mais uma volta, e mais outra e outra, mas com fora, com mais fora! Tem 
que se agarrar bem, com as duas mos, isso, seno ela foge, quer voltar para trs. Ah,  precisa muita fora. Mas eu no a deixo, fora, fora, outra volta, ningum 
est a olhar, que bom que  estar assim sozinho a brincar aos guarda-freios, dono disto, sem ningum a ralhar.  assim que eles travam quando descem as ladeiras 
da Graa para a S, e a gente agarrado aos varais tem vontade de gritar "Iiiih!"...
O suor da testa comicha, escorre para a boca, enxuga-se com a lngua,  salgadinho. Mais uma, fora, mais outra, a ver... Quantas  que eu j dei? Quantas? Jesus, 
quanta fora  precisa! Quanto mais se aperta mais custa. Agora no a posso largar. A manivela resiste, escorrega, parece que est viva,  teimosa, quer desandar 
mas eu no deixo, no deixo -fora! No vai mais, no posso mais. Aguenta! Agora  s empurrar a meia-lua com o bico da bota, e o carro fica travado. Mas onde est 
ela? O p,




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no a encontra, no chega l, tacteia no cho, esbarra em qualquer coisa... No dou com ela, e no posso olhar, tenho de aguentar a manivela... Se algum me ajudasse... 
Algum... Vou ficar assim pra toda a vida! O travo faz fora, tem fora, mexe, empurra para trs, que hei-de eu fazer, no posso mais, larg-lo?! Ah! se ao menos 
pudesse encaixar a meia-lua na rodinha... ficava travado, nem que o da frente puxasse ele andava, s de rastos... Fora, fora... Se eu chegasse l com o p... com 
o p... Mas isto empurra... Aguenta! No posso mais, no posso!
J no so s as foras que lhe faltam,  o nimo,  o ar tambm: com os braos erguidos acima da cabea, contra a manivela invencvel, obstinada. E - mas porque 
 que a gente no pensa em certas coisas? - as mos frouxas, brancas, dormentes, renunciam, deixam de obedecer-lhe, largam o metal que o suor tornou escorregadio... 
Ah!
Volta a si, estiraado no cho de ripas da plataforma, com uma zumbideira nos ouvidos, uma vaga dor na cabea, e tonto. Que foi? que se passou? Em cima a manivela 
est parada contra o cu, agora azul. Chegam-lhe risadas, de longe... Levanta-se a custo, azoado, palpando um galo, e s ento percebe: liberta de repente, a manivela 
escapou-se, desandou, forte da fora toda que ele tinha acumulado, e apanhou-o em cheio na cabea, de lado, com a tremenda martelada que o derrubou e adormeceu.
Reconhece o riso que vem de longe-perto:  o pai. Apeia-se confuso, trpego como se tivesse bebido um Pre Kermann a mais, e tenta correr na direco do sol e da 
famlia, que a distncia viu tudo e o chama. Afinal viram tudo, e consentiram que... So fortes, so mais fortes! Os empregados da Companhia Sintra-Oceano riem-se 
tambm. At eles. Mas desses... Toda a gente viu, s agora repara em tantos olhos estranhos que o fitam, e bocas rasgadas de riso.
- O bicho mordeu-te, h? Pregou-te um coice! Foste-lhe torcer o rabo...
Aceita a mo que o pai lhe estende, mas no  por amor - desejaria cravar-lhe as unhas. Morde os beios para no chorar. O pai ri-se, ele detesta-o. Se adivinhou, 
se viu, porque no lhe acudiu a tempo de evitar a vergonha, e agora ento se ri em vez de



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o erguer nos braos a consol-lo? Porqu? E diz ele que lhe quer! So todos contra um, pequeno e s.
- Que tal foi o susto? - diz a me, e at ela se ri. Como gozam de o ver sofrer! Odeia-os de repente, a todos, o seu desejo seria morrer ali mesmo, j, para que 
eles chorassem. Ainda pensa em correr 
praia abaixo, mas o mar est longe, agarravam-no com certeza antes dele l chegar, e a ideia da morte na gua turtuosa, solitria e coberta de espumas, f-lo recuar. 
Ainda lhe zune e lhe di a cabea. Tem um galo...  preciso ser homem. E no h remdio seno s-lo, ou fingi-lo. Ainda que doa, que doa! Engole as lgrimas, calado, 
e resigna-se. E nisto, cresce nele uma fora: sente-se mais livre assim, abandonado, mais seguro de si. Larga a mo do pai e deita a correr em curvas, praia fora, 
de braos abertos, estendidos, como se quisesse voar...
Tinham-lhe cortado o cabelo muito rente, s com uma franja cada para a testa. A me comprou-lhe na Casa Africana um fatinho  maruja, de sarja, com calo curto. 
No barrete a fita reza: H.M.S. Redoubtable.  o nome de um dredentante ingls segundo Santiago, mas ainda no sabemos bem como se escreve esta palavra nova. A blusa 
tem na manga esquerda duas bandeiras cruzadas, encimadas pela coroa bordada a fio de ouro e lantejoulas. Do-lhe orgulho, e olha-as com frequncia. Coisas destas 
fazem pensar em fardas autnticas, e toda a gente, ainda que no queira, ou finja, tem l no ntimo um sonho de uniformes vistosos. E ele j pensa em ir para a Marinha.
At que uma noite, no trio do Hotel, cheio de gente e falatrio, aparece o Dr. Antnio Jos, e ergue-o no ar, segundo o seu costume:
- Ora viva o meu ilustre correligionrio! Um marujo, e ento republicano! Mas deixa c ver: tu andas com a coroa bordada no brao? e a bandeira talss?! J no 
s meu correligionrio!
Franze a testa e depe-no no cho. Est zangado. E os pais babados! Esta gente no entende a gravidade de certas coisas no as toma a srio.
Chegado a casa reclamou que a me lhe descosesse os ornatos.
- Ento tu no vs que esto cosidos na manga? No se podem tirar. Se fosse um pedao de pano aplicado...

 
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Insistiu, bateu com os ps, queria continuar a ser Correligionrio, aquilo envergonhava-o! A me no lhe deu ouvidos e foi  sua vida. Ah sim? No dia seguinte, fechado 
no quarto de vestir, de tesoura em punho, ps-se a arrancar os bordados. A me foi surpreend-lo em flagrante e ferrou-lhe dois democrticos aoites nos fundilhos. 
Mas no teve remdio seno acabar a destruio dos smbolos. Ficaram as marcas na manga, mas ele no se ralou. Anda agora todo impaciente por tornar a ver o grande 
propagandista, e provar-lhe que aderiu de vez ao futuro, sem bordados nem reservas.  com este fatinho que ele vai a passeio, ao animatgrafo e ao Coliseu.
O Coliseu  mais do que simplesmente o Circo:  um cheiro, um torpor, uma luz, um estonteamento: entrar ali  perder-se no reino da fantasia... J uma tarde ele 
teve uma vertigem, julgou que perdia p na realidade, como nos pesadelos: foi quando ouviu a voz dum clown l em cima na cpula. O mundo pareceu-lhe de repente virado 
do avesso. Foi o irmo que o sossegou, explicando-lhe que era o Eco.
Os voadores de maillot cor-de-rosa cruzam-se no ar, sem peso, de trapzio em trapzio, o chimpanz fardado anda de bicicleta, faz habilidades, fuma e l o jornal, 
Miss Dolly atira-se do alto da cpula para dentro da piscina, um ciclista roda para trs no arame, de olhos vendados e braos cruzados, e um automvel encarnado, 
muito engraadinho, faz o looping-the-loop (vejam l como  fcil aprender ingls!) tal e qual como se v na Fsica do irmo. Os chineses, em tnicas de seda azul 
bordada, fazem cortesias, tomam ch, fumam pio e abanam-se com os leques, sem falar, andando  roda  roda pendurados pelo rabicho; os acrobatas japoneses, de laranja 
e ouro, erguem-se no ar, sinistros e vagarosos, ficam suspensos, as luzes baixam, a orquestra toca em surdina... Metem medo, pensa a gente na Invaso Amarela. H 
zebras, lees, ursos, ces amestrados. E quem  que no adora os Faz-tudos, e os palhaos de vestidos bordados de sis e luas e estrelas, de caras brancas e vozes 
guturais! O sonho dele  mascarar-se de palhao, um dia. Mas j sabemos que... Todos se mascaram, s ns! E a msica s vezes deixa-o um bocadinho triste. H no 
Circo, como no Amor, uma tristeza de impossvel.
E agora entra na pista o Otto Viola! Os aplausos trovejam!

 
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 um excntrico, de cartola, capa de seda e casaca, parece lorde. No fala, mas o criado percebe tudo por gestos, como  ns. Depois de muitas habilidades em mangas 
de camisa (com elsticos!), como seja equilibrar-se com o dedo polegar na ponta do pau, e apesar de estar um bocadinho bbado (ele bem quer disfarar!), fazem uma 
torre muito alta, com mesas, cadeiras, bancos, eu sei c, mveis de metal que reluzem, como os do dentista. E trepa por ali acima a fingir que escorrega, e senta-se 
no alto, ento o criado atira-lhe um charuto, o fsforo a arder, e ele fica muito regalado, que rico charuto!, que bem que cheira. E balana para trs e para diante, 
a fumar, a gente at vira a cara com medo no caia ele. E a melodia... Nunca mais a poderemos esquecer. De repente - trs-trs-trs - a orquestra cala-se, o tambor 
r em surdina, e ele fica a balouar-se no silncio, cada vez mais depressa, cada vez mais longe, e o corao da gente bate que rebenta. Mais, mais, mais!... O tambor 
vai num crescendo, como o balano, numa exaltao, at que de repente - fecha os olhos! - catrapuz, a torre desmantela-se, desaba, ele d duas ou' trs reviravoltas 
pelo ar, e cai em p, como um gato, de charuto na boca!... Ah... a orquestra rompe animadamente. Palmas... Ele agradece, a cambalear, e nisto as calas escorregam-lhe, 
vem-se as ceroulas encarnadas - o que a gente se ri! - e deita a fugir, envergonhado, com o criado atrs a pedir desculpa! O Otto Viola excede tudo!
Melhor do que ele s o Raku. O Santiago anda doido com o Raku, no fala de outra coisa. O Coliseu sempre  cunha. O sr. Antnio Santos  o maior empresrio do mundo. 
Traz c todas as celebridades. E o Coliseu (h teimas)  o maior circo da Europa, tirado ser o de Moscovo. Bom, esta tarde o Raku, com as pernas de alicate, desafiou 
quem quisesse lutar com ele. Desceram muitos homens  pista: virou-os de cangalhas sem mais nem menos. Por fim, quem  que h-de avanar, todo gingo? O Pintor, 
imaginem! Um valento, um desordeiro, todos o conhecem, diz que j um dia, sozinho, desmanchou uma procisso. Uma aclamao! Aquilo  que foi lutar. O Pintor bateu-se 
como um leo. E o povo todo em p, a gritar com a cabea perdida: " Pintor, mata o Raku!  Pintor, mata o Raku!... " - Gostam tanto dele, e querem-no ver morto! 
( antiptico.) O japons, de amarelo

 
 
        191
que , j parecia branco. At que de repente o Pintor deu uma reviravolta... e ficou estatelado no tapete, sem sentidos! Ah, foi um tal desgosto! O povo a assobiar 
e a dar pateada... At os polcias vieram para a pista. Julgava ele que o ju-jitsu era s fazer fora! Ora aprende. Mas l valente  ele. E o Raku, a sorrir, agradecia 
a assuada, mas desta vez o sorriso era um bocado amado!
 sada chove, anoitece, o empedrado brilha, as luzes fulguram, h trens, a multido vai contente, enche o ar de fumo, do rumor dos comentrios. A gente sente uma 
pontinha de melancolia, mas tem fome, so quase horas de jantar, toca para casa.
No h nada neste mundo como o coliseu.  barato! Paizinho... O sr. Augusto suspira, sorri, puxa da bolsinha: cada Geral sessenta ris.

A tipia andou o dia inteiro por stios estranhos e algo desconsolados, Alenquer, Tagarro, Alcoentre (onde foram visitar a ama do Santiago, coitada, so to pobrezinhos, 
at a me lhe deu um dinheirinho s escondidas do marido). Atravessam culturas, matos e pinhais.
 ao cair do dia, e no silncio o mundo parece longe. Ele falou horas e horas, contou todas as histrias e nmeros de palhaos que tinha para contar, e vai agora 
calado e macambzio, j nem os cavalos lhe interessam. Os pais respiram a plenos pulmes a imobilidade do entardecer, a aragem que cheira a resina, fresca de mais, 
e s vezes cantam coisas do seu tempo: mas tudo o que os encanta o deixa fatigado. A irm calada, o Santiago imvel ao lado do cocheiro. Farto de boleia, o Gabriel 
veio para o p dos pais, semi-sentado, encaixado entre eles, com os joelhos frios, de beio encolhido e farripa cada para os olhos, e contempla com tristeza o crepsculo 
incolor, o pinhal onde danam sombras ensarilhadas. Desejaria cair ao cho, dormir, esquecer tudo, a fome sobretudo: ou ento, que os ladres os assaltassem de repente. 
No disse o pai que este era o pinhal da Falperra? Arregala bem os olhos, faz fora para estar acordado, crispa os dedos nos joelhos dos pais. No durmas, estamos 
quase a chegar.
A vitria entrou a subir uma ladeira entre pinheiros magros, sangrados, a estrada areenta abafa o ranger das rodas, as pilecas

 
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bufam de esforo, as sombras apertam, alastram ameaadoras, h duas ou trs estrelinhas friorentas no cu translcido, os morcegos comeam a esvoaar... Nisto, chegada 
a uma espcie de clareira, a vitria range e pra:
- Que temos? - diz o pai, sereno. O cocheiro, com o pescoo cor de tijolo todo enrugado, volta-se um pouco:
- As bestas vm cansadas, no do conta da subida.
- E voc no conhece os caminhos? Porque  que meteu por aqui?
- Vai dar ao Carregado...
O sr. Augusto murmura alguma coisa que s a mulher ouve, mas percebe-se a palavra "vinho". Ficam parados. E agora? O silncio e o zumbido do pinhal fazem empalidecer 
os trs irmos. O cocheiro, de p, chicote debaixo do brao, cambaleia um pouco: mete dois dedos  boca e solta um assobio estrdulo, depois outro: so como chicotadas... 
No: como frechadas no quieto do anoitecer. Ecoam longe. O lugar  ermo, a noite desce, as lanternas apagadas. Os coraes batem de alarme. O sr. Augusto clareia 
a voz e diz:
- E para que  agora o assobio? Se quer um apito eu empresto-lho.. .
(Traz sempre no bolso um apito dos de chamar a polcia.) - Estou a pedir um sota. Tenho gente amiga por estes stios...
O sr. Augusto soergue-se um pouco no assento, tira a mo do bolso, e os pequenos ouvem com espanto um estalido seco e familiar: na mo branca e robusta brilha como 
um crescente a navalha de Albacete!
- Ande l para diante e deixe-se de assobios, homem de Deus. No sei se me entende!
O cocheiro entendeu perfeitamente: senta-se, de costas abauladas, destrava a tipia, atira duas vergastadas s pilecas, incitacom a voz spera, avinhada: elas arrancam 
de estico, ladeira acima, num trote rpido, sem esforo.
- Ora veja l se elas podem ou no! Ri o sr. Augusto. - Se voc no tivesse apertado o freio na subida... Em chegando ao Carregado, pare.
A calma e a fora do pai do-lhe orgulho e calor.

 
        193

Da a pouco saam do pinhal. Era noite fechada. Pararam em frente dum tasco, para jantar. O cocheiro, de bon de pala na mo, dava explicaes embrulhadas em hlito 
de tinto. O pai dobrou a "murciana" mesmo debaixo do nariz dele, quase um palmo de ferro, e meteu-a no bolso:
- Muita sorte tem voc em o eu no mandar prender. E ento no pinhal! Para a outra vez no beba tanto ao almoo.
Pagou-lhe o combinado e deu a gorjeta. O que os filhos no podiam compreender  porque  que ele no tinha antes puxado do revlver:
- Este estalinho diz muito! Sempre tive mais receio dum homem com uma faca, que de dois armados de pistola! Olham-no, incrdulos...
O jantar era de sopa de massa, fria, com duas ou trs moscas mortas a boiar; depois cozido. Abalaram do tasco sem comer nem pagar, e regressaram de comboio a Lisboa, 
a cair de sono e fadiga. A me ainda lhes levou  cama um chocolate galego, a escaldar.
Assim mesmo, a noite ficou memorvel, e chamam-lhe num sussurro - a Noite em que atravessmos a Falperra! Mas seria?  mesmo possvel que certas coisas no tenham 
acontecido, ou acontecessem uma s vez: como beberam na Fonte dos Passarinhos. Mas a fantasia prolonga e repete esses momentos em durao, como um tema musical persistente: 
com esta tendncia, to nossa, a deixar que os instantes felizes ofusquem, em retrospecto, todos os anos e dias infindveis de monotonia e frustrao.

Aquele incisivo de baixo recusava-se a cair, e deu-lhe a primeira dor de dentes. A gueda bem o quis convencer a amarrar uma linha branca ao fecho duma porta, era 
s empurr-la... Recusou indignado. A me foi buscar o rolo de tabaco preto que estava escondido no guarda-fato, envolto em papel de estanho, at parecia um chourio 
mouro, com um cheiro forte e apimentado, que provocava o espirro.
- Um cigarro tira-te a dor.
Cortou e picou duas rodelas de tabaco, enrolou-o numa mortalha Zig-Zag do pai, e deu-lho a fumar. Ele puxou duas ou trs fumaas apressadas (queria ver-se livre 
da dor), a casa desatou a girar vertiginosamente, agonias mortais estorceram-lhe as entranhas:

 
194        

rolou-se na coberta da cama, a gemer, em nsias, e a frio. Era mil vezes pior que o baptizado da Fil, e ele sentia-se perfeitamente consciente da sua misria.
-j te no di o dente, h?
Tinha-o esquecido por completo! A me consolava-o, ria-se. Andava no dentista a tirar os moldes para a dentadura postia e levou-o ao consultrio. Ele abriu a boca 
o mais que pde, o Satrio olhou, muito srio, meteu um dedo enorme, depois mostrou-lhe na palma da mo um incisivo cariado, duma insignificncia humilhante:
- Ser este?
Com a lngua, palpou em vo na gengiva: era aquele! Todos riram. Ele com tanto medo, e no tinha sentido nada. At teve vergonha. Mas j podia dizer, com impncia, 
que tinha ido ao dentista para tirar um dente.
A gueda guardava com ternura alguns dos dentes que a me perdera: compridos, fortes, duma alvura perfeita, e brilhantes. Numa cama de algodo, metidos em caixinhas, 
como se fosse jias!

 
 XXIII

MENINOS NO WILD-WEST
A dona Mariana, ento, sempre a perguntar se os pequenos no vo  missa! Vo, vo, no fazem eles outra coisa. Vo ali  Capela brincar s procisses, de capinha 
encarnada e crio na mo! E aprender judiarias. Ainda outro dia este me apareceu em casa esmurrado: tinha posto uma capa nova e vem um mais crescido e arrancou-lha, 
que era a dele. Teve de pr outra, toda suja e rija de pingos de cera, e ainda por cima apanhou. Na casa de Deus! Algum lhe acudiu? Fantochadas. Que ter Deus que 
ver com... Podem ficar com ela. A falta que me a mim faz! Tenho eu agora tempo para andar a correr para a Capela, a ver o que l se passa! S pelos lindos olhos 
de... Tomara eu. Tudo isto me enjoa, este fedor de alecrim queimado, as rolas a gemer. Morta por me ver daqui pra fora. E a gueda a crescer, a casa acanhada, e 
ento agora com as lies de piano, francs, bordados e lavores. Ela, coitadinha, muito estuda! O mais velho j anda noutro Colgio: no Nacional era uma vadiagem... 
O prdio inteiro, refeitrio, um grande recreio... O que fica  um bocado longe. Tem uma seco para meninas, no prdio ao lado. Que isto, misturas... Aqui  que 
eles no me aprendem nada!
(E se aprendem no do por isso: o que, depois de tudo,  bom sinal.)
O gabinete do Senhor Director, obscuro, atravancado de estantes e armrios, de aparelhos em redomas, montanhas de livros e cadernos, lpis e brochuras, rguas, canetas 
e borrachas, mete

 
 
196        

respeito. Tudo numa ordem meticulosa, nem um gro de p. Hum, que coisa voluptuosa, o cheiro dum livro novo de leitura. E tem bonecos, olha, so gravuras! A cartonagem 
estala deliciosamente, como uma rosca fresca do padeiro.
O Senhor Director  pequenino, risonho, de olhos vivos, vestido com esmero, colarinho de goma, alfinete de brilhantes gravata de seda, e colete com vira branca, 
imaginem! Cheiroso, de bigode encerado, a voz fanhosa e molhada, uma simpatia de homem, e ento delicado! Um director assim at d gosto, inspira confiana, s por 
si j  uma educao. Tem muitos anis com pedras falsas, e quando sorri mostra os dentes muito brancos idem, segundo se diz. Em cima da secretria repousa a menina-dos-cinco-olhos

, envernizada. Mas no mete medo nenhum (veremos). Que  que ele ensina? Portugus e Francs. Portugus? Mas ento a gente no falamos j... no fala j portugus, 
para que... Palerma! Portugus  gramtica, redaco, estilstica, literatura, et coetera! Pode-se ficar reprovado em Portugus! E agora...
Abriu-se ento um mundo de estranheza, tumulto e angstia: salas sem conto, escadarias, Aula Geral, chamadas, contnuos, professores, os internos de bibe azul (africanos, 
pretos, mulatos at brasileiros!), correrias, empurres, futebol... Tudo o confrangia e lhe deu medo. De nada lhe servia pensar no Senhor Director, que depressa 
o esqueceu e deixou de sorrir.
Puseram-no numa sala de janelas imensas, fechadas, por onde entrava a cascata da soalheira, sobreaquecendo um ar carregado de irrespirveis emanaes. (A poesia 
da infncia tresanda, esta  verdade.) Duas ou trs classes reunidas numa s, e o sr. Sal (sal-azedo?), de lunetas encavalitadas, a dar berros e reguadas na mesa, 
presidia no alto de um estrado. Os sinos da igreja nova, em frente, atroavam os ares, agravando a confuso. Ningum ouvia. Mas as janelas tinham uma cercadura de 
vidros azuis encarnados, como os Mirantes do Monte, e ele ps-se a olhar atravs deles. Vieram arranc-lo  contemplao, para o fazer sentar num banco comprido 
com os outros novos, de costas  parede, enfrentando o caos, encandeado e tmido. Todos o olhavam. Estava separado da irm, o Santiago andava l para cima no Curso 
Comercial, onde havia mquinas de escrever, papel qumico,

 
 
        197
caligrafia e taquigrafia. Julgou-se perdido. Se tivesse coragem, fugia. Mas s tinha nostalgia, uma estranheza paralisante. Poisou no banco, ao lado, o embrulho 
do lanche - ovos mexidos com chourio, entalados no po trigueiro - e esperou os acontecimentos, a observar com espanto os meninos que davam "caldos" uns nos outros, 
choravam, gritavam "Senhor professor, este menino est-se a meter comigo!" O professor arreganhava os dentes como se risse, mas no ria. Nas paredes havia mapas 
a cores e quadros com pesos e medidas. A sensao geral era de desabrigo e desconforto. Em frente dele, um gorducho fazia-lhe sinais, piscava e revirava os olhos 
sem pestanas, lambia a boca gulosamente: era outro Luciano? At que ele percebeu que ele apontava o embrulho morno e gorduroso. A mmica libidinosa repugnava-lhe: 
puxou o lanche com cautela para junto de si.
Quando o sr. Salzedo o chamou  pedra, levou-o debaixo do brao. A aula em peso riu, o mestre zangou-se:
- V pr a trouxa no seu lugar!
Obedeceu. A prova comeou. Entregue  sua infinita ignorncia, ps-se a escrever algarismos  toa, enquanto o mestre revia cadernos, dava sopapos e berros. De repente 
notou que os zeros subiam em cadeia, quadro acima, amarrados uns aos outros: procurou ret-los, em esforos sobre-humanos, nos bicos dos ps e com a lngua de fora. 
No podia continuar, no havia lugar para tantos zeros, j se iam perder na moldura, ultrapassar o quadro, fugir, invadir o mundo inteiro... Eram soldadinhos em 
marcha, de mos dadas. De giz e apagador em punho, sem poder compreender donde lhe saam tantos zeros, olhou: em vez duma diviso, era uma interminvel multiplicao 
ou proliferao. Que fazer? Agarrou-se  moldura, mordendo as bochechas por dentro, e tentou subir, chegar ao alto, para ver se os atraa, se os agarrava, se os 
reconduzia, zeros fugitivos, se os convencia a ficarem dentro dos limites da ardsia. Mas nada conseguiu. Teve uma tontura e ficou imvel. Atrs dele a aula ria. 
Olhou-a de revs, esborrachado.
Passado muito tempo, o sr. Salzedo ergueu as lunetas mopes e rspidas l de cima dos cadernos, olhou a cambulhada de zeros, e teve uma fungadela aterradora:
- Que  que esses macacos esto a fazer, todos agarrados uns

 
198        
aos outros? a marinhar para o tecto? Apague l essa bodega. No sabe nada de contas. Zero! Volta para a primeira classe.
Era s o primeiro. Baixa de posto. O fruto de dois a trs anos de esforos de dona Mariana do Monte. Este episdio ia decidir do seu curso futuro. Em todo o caso, 
pensava ele, arrumando a bagagem, era assim que o Caixa do Hotel traava os zeros, todos ligados: mas muito mais depressa e mais bem feitos! Nisto, deu pela falta 
do lanche. Mordeu a boca, mas no ousou fazer queixa. Atiravam-lhe bolas de papel mastigado...
Foi para a primeira classe, nas traseiras, onde reinava uma obscuridade propcia  ignorncia,  timidez e ao sonho. A sala era acanhada, tinha menos alunos, estava-se 
 vontade. Os mero nos entoavam em coro a lengalenga das ave-marias, que sabiam, e o senhor Amoreira dava ponteiradas  toa, para animar a f mortia. L em baixo, 
no recreio, os matules de bibe jogavam  bola.
Ali foi ficando, esquecido. O tempo correu. Nos dias de chuva era bom olhar o recreio deserto, alagado. Desinteressou-se da aula. Um dia o mestre descobriu-lhe um 
talento: fazia cpias e ditados quase sem erros! Sabia uma coisa que se chama... Como  que se chama? Ortografia. Sabia sem o saber. O sr. Amoreira perdoou-lhe os 
padre-nosso-ave-marias, e p-lo a rever cadernos at vinham das outras classes, aos montes. Horas naquilo, era um nunca acabar, j nem o mandavam ao quadro fingir 
que sabia contas, zeros em cadeia. Em p ao lado do mestre, um tempo sem fim a rever e a corrigir prosas ilegveis, a cabea andava-lhe  roda. Um dia que ele esteve 
trs horas naquilo, voltou para casa com febre, confessou tudo, e a me foi-se queixar ao Senhor Director: que o filho no pagava a matrcula para estar a fazer 
o servio dos professores.
O Senhor Director ento lembrou-se dele, sorriu, e mandou-o novamente para a aula do sr. Salzedo, que o olhou com rancor e obrigou a aprender de cor a tabuada e 
os nomes e cognomes de todos os reis da primeira dinastia. Tinha uma letra toda em macaquinhos, errava todas as contas, e os seus cadernos de problemas eram uma 
manta esburacada de dvidas, ausncias e solues incompletas: no fazia diferena nenhuma. Enchia de bonecos aqueles quadradinhos jeitosos, como os do Sculo Cmico 
e


        199
das Belles Images. Foi coxeando, vivendo no seu mundo privado, crescendo para dentro, alheio. O Chiquinho tambm andava agora no Colgio, e ficaram mais amigos do 
que nunca. Eles e mais dois ou trs formaram um grupo  parte. Brincava com eles na rua, iam juntos para casa. Apesar de cimes, amuos, arrepelos, ddivas renegadas, 
uma que outra refrega, e fico-mal-contigo-para-toda-a-vida, eram muito unidos. O que ele queria era que no lhe prestassem ateno.
Descia-se a p l do Monte, no fim do mundo,  chuva no Inverno, a capa empapada a bater na barriga das pernas, a gua a escorrer para dentro das pegas esbeiadas 
e das botas, que rangiam. De olhos baixos, o capuz descido, vendo pingar a chuva entre as pedrinhas da calada, onde saltavam gros de areia, ele ia como sonmbulo, 
sofrendo e gozando, penetrado da intimidade musical do tempo, cheio de secretos pensamentos reconfortantes. O vapor saa-lhe da boca em rolos. Ficava o resto do 
dia ensopado, num desconforto. No calor da aula as frieiras comichavam, ardiam, ulceravam, ficavam meses em carne esponjosa. Outros meninos no tinham frieiras, 
mas ele e a irm eram dois mrtires. Felizmente, com as mos entrapadas, ningum lhe pedia que fizesse nada. Esqueciam-se dele, e ele ausentava-se, homem invisvel, 
esperava que voltasse o bom tempo. Era bom viver na expectativa de outra estao, de outro cu.
A Charca era um enxurro de lama entre muros de quintarolas e hortas, com uma serrao que enchia os dias do seu zumbido melanclico, s vezes de uivos arrepelados. 
Era preciso avanar com cautela para no escorregar nem cair nas poas, na greda pegajosa que, no Vero, se iria transformar em poeira sufocante, fina, a cheirar 
a bosta e urina e suor de muares. Passavam carroas carregadas de verduras ou feno, num rasto de bestas acres, molhadas.
Foi ali que, certa manh, ele viu um garoto descalo, sentado por terra num recanto, encostado a um muro, com as pernas abertas, a friccionar-se com zeloso vigor. 
Suspeitou maldade e olhou-o de soslaio: alguma coisa de erecto e rosado aparecia e desaparecia entre os dedos sujos. O garoto percebeu-lhe a curiosidade, piscou 
um olho e gritou sem parar: "Eh p!, manda pra c



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a tua irm!" Ele compreendeu, corou, e passou lentamente de olhos baixos, vexado, solene e ridculo, na sua capa de menino bem-comportado, patinhando na lama.
Afinal o Sancho-careca, o gorducho que lhe papara o lanche tambm era seu amigo. Tinha calvas no cabelo ralo. Brincavam com muita gravidade. Mas o Pestana, de orelhas 
pequenas dobradas no alto, era odiado e temido, com uns culos da grossura que-eu-sei-l. No se podia brincar com ele, levava a mal. Um dia,  sada, deu-lhe um 
pontap naquele stio, que o fez ir ao cho, com a dor fria. Ningum reparou nem o vingou, outros fugiram, o irmo andava l no mundo dos matules, saa a  correr, 
ia atrs das pequenas, quase nunca se encontravam. Estava sozinho...
O Prez, filho dum empregado da Carris, fugia pela rua fora e atiravam-lhe pedras e gritavam: "Eh espanhol de m-raa!" Tudo isto lhe doa, tinha pena, era to bom 
menino e estudioso, Prez, se eles soubessem que o paizinho  galego!... Mas ningum dizia nada. Era quase como ser portugus, apesar da Dona Tareja e do Conde Andeiro. 
Era preciso ser portugus! E o O lana, que tinha um nome espanhol, e ningum se metia com ele Porqu? A me dele era linda, viva, duma elegncia... Iam brincar 
para casa dele,  Avenida Dona Amlia, com muitos mveis e bibels, cheia de silncio e perfume. Mas quase nunca via a mam. Tinham passadeira encarnada no corredor.
Outros meninos moravam longe, na Estefnia, era difcil chegar l. A Avenida interminvel... O nico que andava sempre com ele era o Chiquinho, iam e vinham juntos, 
brincavam como dantes na parada do quartel, corriam as casernas onde cheirava a sopas de feijo, humidade de soldadesca. Havia espingardas arrumadas em cabides. 
No se podia mexer em nada, mas mexiam, nas baionetas, em tudo. Em casa era com a espada do pap, a cartucheira, as dragonas, o cinturo (o tal!), o qupi a espada, 
tudo grande de mais para eles. O Chiquinho gostava muito de cavalos e arreios, queria ser militar. O pap queria ser sbio, e era: ia deixar a tropa para se consagrar 
s ao laboratrio a sua paixo, at tinha um microscpio e sabia alemo. Tinha mesmo ar de sbio.


201

A gueda, essa ento no parava de estudar. Repetia as lies em voz alta, gramtica, francs, e o resto. Muito ela estudava! Praticava as escalas na mesa da cozinha 
ou da casa de jantar, cantando, e tinha boas notas, mas s vezes chorava: no Colgio faziam troa dela, das suas meias de algodo desbotado, e por no ter piano. 
Pode-se l estudar piano sem ter piano! Ento para que andava ela a aprender?! A professora era muito amiga dela, mas ralhava: at disse qualquer coisa ao paizinho, 
um recado que ela no se atreveu a repetir em casa. A me moa o bicho do ouvido ao sr. Augusto...
At que um dia, ao fim de muitas canseiras, o pianinho apareceu, a pau e corda, o Aucher Frres do Bairro Alto, em N-sima mo, empoeirado, com o nome em letras 
de metal encravadas no tampo - a julgar pelo desenho devia ser do tempo de Napoleo Terceiro. Mas depois de limpo e envernizado j parecia outro: a madeira avinhada, 
linda quando o sol lhe dava, reluzia como vidro. Que entusiasmo o deles, no dia em que o sr. Llorente, ceguinho, o desarmou todo e o afinou! Concertou-lhe as articulaes, 
ps camuras novas nos martelinhos, tudo. At cordas, que lhe faltavam. O Gabriel acariciou com amor as teclas amarelas, a madeira muito fina e branca das peas 
(como a do Teatro Francs), experimentou as cordas como as duma harpa... Que sons maravilhosos! Como era complicado! e que bem que cheirava! Viu tudo muito bem, 
a admirar a habilidade do cego, para aprender a arm-lo e desarm-lo, se algum dia fosse preciso, e foi. Muitos anos depois.
O paizinho voltou para casa mais cedo, pelo anoitecer, com um rolo de msicas fceis, para Duas-Mos. Sorridente, dava gosto ter um pai assim. O piano, com o teclado 
de dentadura velha, parecia novo  luz do candeeiro de petrleo posto na mesa da casa de jantar. Acenderam as velas de cera, encarnadas, torcidas, com filetes doirados. 
O piano tinha uma vozinha clara, ntida, brilhante, e nada aguitarrado: um amor. Nem parecia- o mesmo. Cento e trinta mil-ris, ainda assim! O dinheiro  sangue 
e suor...
A Vizinha Delfina, de testa franzida, a boca encolhida nas gengivas, os olhos redondos de ateno, sentou-se muito composta na borda duma cadeira: nem podia crer 
semelhante coisa, a sua menina! gueda, de cabelos negros encanudados pelas costas



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abaixo, corada, o lbio srio e grosso, fez girar o banquinho e sentou-se, ps as mos no teclado...
Havia expectativa em todos os olhos. Abriu a Valse des Petits Oiseaux, e desatou a tocar  primeira vista, sem um erro! Tocou o rolo inteiro das msicas, tudo muito 
fcil, depois atirou-se aos estudos - havia nomes raros, Neuparth, Cossul, Huss Czerny, Diabelli - nem sequer faltava um Napoleo! O sr. Augusto sorria, envaidecido, 
a me acenava a cabea com gravidade, e os olhos toldados de melancolia: aquele espelho do nosso esforo, quantos sacrifcios ns temos feito, mas graas a Deus 
a est o fruto! Quando a menina atacou, a sorrir, a Alborada Galega o paizinho enxugou os olhos: era a coroao dos seus sonhos, filha educada, a tocar piano! A 
Vizinha Delfina abraou gueda, deu-lhe muitos beijos sfregos de boca amorosa e desdentada:  um anjo,  um anjinho a tocar! Revirou os olhos azuis ao cu, eram 
como os olhos dos retbulos, lacrimejantes, e cruzou os braos pelo cotovelo, a tocar acordes no ar, imaginrios.
A casa e a vida encheram-se de sons, de vozes e harmonias. J no era a monotonia do solfejo rezado, triste como os dias de chuva persistente. Agora o Gabriel acordava 
de manh cedo banhado em msica, at os Estudos eram bonitos, as escalas degringolavam do cu em sons. Quase esqueciam a Caixa de Msica, embora a gueda tocasse 
de ouvido a querida melodia...
No houve pois remdio seno mudarem-se para mais perto do Colgio, aquele estiro! Era um segundo andar tambm, com trs janelas para a rua e outras tantas para 
um desafogo ao lado, mas amplo e bem dividido. E a Vista linda! L estava Lisboa, sempre diante dos olhos, agora em novas perspectivas: lavada e soalhenta, branca 
e rosada, com rasges de cu azul por cima!
No quintal,  esquerda, uma rvore delgada e de folhagem tropical, lanava os braos at  altura do telhado: era uma canafistula. Apetecia saltar da janela para 
as ramarias. Para alm dela, uma escadaria ngreme e estreita, de santurio, ia da rua s "terras" secas por onde as oliveiras escorregavam, nas traseiras do prdio 
e a ele sobranceiras, separadas por um muro que quase se podia tocar com a mo. Mas no Vero era fresco, ali, abrigado da soalheira, e havia silncio. A fachada 
 que estava sempre exposta



203
ao sol calcinante, a pintura das janelas interiores rebentava em escamas que os pequenos arrancavam com volpia, deixando  mostra o aparelho. No havia sala de 
banho, mas j tinham quartos separados para quase todos. De casa para casa iam melhorando um pouco, alongando-se mais do quadro original, e a vida mudava com os 
novos horizontes. Ou eram eles, que mudavam, e os viam agora diferentes?
Uma tarde, depois do jantar, mas ainda era dia claro, as bombas desceram da Graa numa grande algazarra de cornetas a rouquejar e de mulas ofegantes. A dos "galegos" 
vinha sempre atrasada, era puxada a brao, e vomitava fumo negro. Os rapazes do stio deitaram a correr Charca fora, passaram perto do Colgio, depois meteram  
Avenida Dona Amlia, subiram atrs delas. Abandonado, o Gabriel tentou segui-los, queria ser como os outros. Como no corria o bastante, depressa os perdeu de vista, 
J longe de casa, na interminvel avenida solitria, com renques de rvores ainda magras, ressequidas de sede. Ouviu o som distante das cornetas, algum disse que 
o fogo era no Bairro Aores... Arrependeu-se, mas demasiado tarde para recuar. Era como se
penetrasse sozinho num mundo inexplorado, para l dum outro Bojador. Em volta dele tudo era sereno, claro e discreto.
Corria no p esbranquiado, com uma leve angstia, como se no ousasse olhar para trs. As pegas esbeiadas caam-lhe sobre as botas, tinha de parar para pux-las 
para cima, sentia-se humilhado. Chegou  esquina duma rua, l muito em cima, e meteu  esquerda. Estava na Estefnia. Os arvoredos eram tufados, muito verdes, havia 
elctricos, e avistou um jardim. No viu as bombas, ningum corria, era como se no houvesse incndio nenhum. Que sossego! Por onde se teriam sumido, se ele as no 
vira regressar? Ou seria mais longe? E onde estavam o irmo e os companheiros? No havia sinais de fogo nem fumo, tudo parecia ter-se evaporado, e ele sozinho. Continuou 
a andar a passo em pleno desconhecido, cautelosamente, at que a uma esquina leu um nome: Rua da Ilha do Pico. Era com certeza ali o Bairro Aores, ilhas distantes, 
descobrimento, que ele, por qualquer razo, confundia com o Bairro dos Castelinhos. Avistou umas escadas, outra rua l em cima, mais fachadas limpinhas, decentes, 
azulejos e vidraas a luzir no entardecer... Tudo fechado. Um


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cenrio diferente, de teatro desconhecido, de outros dramas, nem lhe parecia Lisboa: era de estar habituado a v-la s de longe, ele era de outros bairros, da S, 
do Castelo, do Monte - tudo aqui lhe era estranho.
Parou numa encruzilhada, como num deserto. As rvores sufocavam-no, a prpria claridade crepuscular que fosforescia nas ruas direitas o assustou. A tarde morria, 
os prdios eram impensveis, o incndio e as bombas tinham-se volatilizado, e ele sentiu pairar de novo a Ameaa. Deu meia volta com a garganta apertada, e desatou 
a correr por onde viera, a fazer fora para no ter medo, perseguido pelo diafragma da noite...
Quando se viu de novo nos seus stios, afrouxou a corrida e respirou. Suava. Sentiu-se salvo. Havia nele este sentimento indefinvel - temor de estar longe, de andar 
sozinho, e ao mesmo tempo a tentao irresistvel de afrontar o novo, o desconhecido, o risco. Nem ele podia imaginar ento at que ponto!
Entretanto o Colgio, agora mais perto, perdia-se no vago. Ele aprendia ou no aprendia os reis-rainhas das vrias dinastias, datas, patriotismo de saber de cor, 
gramtica, problemas e contas erradas. Aprendia sobretudo a esquivar-se, a escamotear, a p, despercebido. Olhava tranquilamente as rvores novas, a igreja ssea 
e banal, o cu e o mundo atravs dos vidros de cor. Nos intervalos e faltas dos mestres, inventava histrias de peles-vermelhas, aventuras: o Far-West era a segunda 
ptria daqueles meninos instrudos em fossados e razias, conquistas e traies. O Texas Jack passavam de mo em mo, por baixo das carteiras, quase  vista dos mestres, 
eram alugados, trocados e vendidos como os selos, berlindes e abafadores, lapiseiras e o mais.
O sr. Salzedo, todo curvado l do alto, mostrava-lhe os dentes de cavalo escarninho, cheio de calos, calotes e joanetes, e troava: "Dom Sancho Sigundo. Dom Afonso 
Sigundo..." - Ol? donde lhe vinha este estranho costume de malpronunciar certas palavras - barrer, bassoura, pial do pote, pia, e assim? Reparou que se habituara 
a dizer "entretesse" e "entreti-me" por entretivesse e entretive-me... Ficou desconfiado e vigilante, resolvido a escutar e a corrigir sem perguntar nada. A linguagem 
era a sua gama de tintas, o mesmo que a msica para a irm.



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Ainda lhe confiavam os cadernos de outros meninos, mas agora sentado a uma carteira,  vontade, com sossego. Deixavam-no em paz, ele gostava, sonhava. At os sinos 
da igreja, ensurdecedores, lhe eram quase queridos: um refgio de som em que ele se forrava e envolvia.
Na obscuridade, enquanto os mestres parlapatavam, ou na Aula Geral, havia apelos e risos surdos, atritos moles, meninos escondidos, e sobretudo entre os matules, 
exibies comparativas, manipulaes inquietantes, gemidos e suspiros exagerados... Um perguntava de longe: "Eh p, quantas?" Havia intimidaes, os perseguidos 
que se queixavam, outros passivos, por temor ou inocncia. Eram eles, em geral, que apanhavam do vigilante, monstro eriado, de cassetete em punho.
Sentia-se pequeno e excludo, e s vagamente compreendia. No era apenas o Pestana, com botas de vitela branca, ferradas, que lhe metia medo: o filho mais velho 
dum vizinho, o sr. Sepulcra, encontrava-o na Charca e punha-se a andar ao lado dele: "Filho dum galego!" Tinha uma beiana desdenhosa, era alto e forte: "O seu pai 
 um galego!" - Ele desejava responder: "E o seu  um talassa e um caloteiro!" - mas no se atrevia. Nem dizia ao irmo. No era bem medo o que tinha: era o horror 
do desacordo, da violncia.
Havia intrigas, namoros e paixes, lgrimas e escndalos. Todos requestavam a filha do Sr. Director, morena e dengosa, com qualquer coisa de africano. Mas ela no 
ligava. Constava que a famlia andava na pndega at altas horas da noite, eram ento como a gente do Hotel? Os rapazes passavam um tempo sem fim a espreitar a seco 
das meninas pelas redes das janelas e as grades do recreio. (At se dizia que a iam mudar para outro prdio.) Faziam sinais e trocavam bilhetinhos. Elas riam, fugiam, 
algumas respondiam, houve apreenses, castigos, expulses, um menino atirou-se de cabea contra uma parede, era interno, natural de Cabo Verde, queria suicidar-se! 
A gueda s vezes contava  me, mas tudo em meias palavras. Ele tinha de fazer fora para adivinhar. Tudo isto era entre os mais crescidos, ele era um "mido". 
"Amo-te" era a palavra que todos repetiam, revirando os olhos, mordendo a boca. E uns com os outros: "Ai-filha!"
Um alemo ruivo e boal, por alcunha o Moritz (parecia-se



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imenso com o chimpanz do Coliseu), perseguia-o com propostas de amizade, encostava-o a um muro, fitava-o com os olhos claros inexpressivos como os do Paco, as pupilas 
como cabeas de alfinetes. Todos o detestavam. "Levas-me uma carta  tua irm?" (Ou a uma amiga dela.) Queria por fora ter uma namorada. Elas no o queriam. Andava 
de cala comprida. O Gabriel fugia dele. Um dia, estava parado, sozinho, no recreio cheio de matula desvairada, de sol e gritos, quando sentiu um choque tremendo 
na cabea, e caiu. Um aluno mais velho, do Curso Comercial, ajudou-o a levantar-se, estonteado, com campainhas nos ouvidos, e refrescou-lhe a cabea debaixo da torneira: 
"Ena-pai, o Moritz deu-te uma cabeada bestial e fugiu!"
A Escola era a selva, o Wild-West...
Uma tarde deu-lhe uma grande dor de barriga. Tinha comido muita fruta da Vizinha Delfina, e vieram-lhe aquelas clicas. "Posso ir l fora?" -Era manh, com certeza, 
no o deixaram ir. Saiu do Colgio a torcer-se todo, foi pela Charca fora a gemer e a entortilhar as pernas: - "No posso mais, no posso mais!" - Quando chegaram 
em frente da casa (olha l se era no Monte!) sentiu que alguma coisa lhe escorria dos cales para as meias e as botas. Subiu a correr, a pingar nos degraus, aliviado. 
Acudiu-lhe a tia Encarnao, que l estava a passar uns dias. Ele vermelho de vergonha, mas muito ela se riu:
- At parece o vosso av Callante, com o chocolate pegado ao rabo!
Tirou-lhe as roupas todas, sem nojo nenhum, depois deu-lhe um banho na tina redonda de zinco. A pacincia das mulheres! A casa fedia, foi preciso abrir tudo em corrente 
de ar.
Quase pela altura dos exames - o Colgio muito tranquilo, cheirava a granadine e carapinhada, o calor abafava - deixou-se arrastar pelo Sancho-careca e outros a 
uma vadiagem: no foram longe, ficaram num recanto das escadinhas, com os livros pousados nos degraus, a fazer foras contra a parede. Lisboa parecia deserta, o 
cu azul, as rvores verdes! O Sancho queria saber quem  que aguentava por mais tempo a presso dum punho fechado, o dele  claro, na boca do estmago. Como era 
o mais velho, e muito organizado nas brincadeiras, havia uma certa distino em reinar com ele. O Gabriel, sem vontade nenhuma, por cobardia


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de recusar, que  a valentia da fraqueza, suportou a dor mais tempo do que ningum, sem gemer, nem chorar nem carapinhar. Suou que se fartou. O Sancho, capaz de 
honesta e desportiva admirao, proclamou-o Campeo da Pana-Dura! Valha-nos isso. (O estmago ficou a doer-lhe por alguns dias.) Quando voltaram para o Colgio, 
tinham apanhado falta e mau comportamento. O Sr. Director chamou-os ao Gabinete, interrogou-os com sibilante severidade, sorvendo a saliva entre os dentes, e a confisso 
foi unnime e geral. Apanharam uma roda de palmatoadas. O Sancho berrou como uma cabra. Por ser o mais mido e bem comportado, ele ficou para o fim, e apanhou s 
duas bolachas, muito leves, no doeram mesmo nada. O Sr. Director sorriu-lhe, aquilo era s a fingir, para dar o exemplo, manter a disciplina. Ficou a gostar ainda 
mais dele, e do Gabinete com os armrios cheios de mquinas e vidros dormentes, metais amarelos baos e bichos empalhados.
Havia ali um aparelho que, sobretudo, o fascinava: era o Sistema Solar. Um dia foi assistir  socapa: fecharam as persianas, correram cortinas pretas, acenderam 
uma luzinha com um espelho, a fingir de Sol, no centro da mquina, e deram  manivela. O Sistema Solar, com alguns solavancos, funcionou na perfeio! Oxal seja 
sempre assim.
Um brinquedo destes  que ele gostava de ter.


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Sim, no h nada que uma pessoa no faa ou experimente
Para se distrair: como seja cuspir da janela abaixo, a ver quem cospe mais longe ou acerta num alvo. Mas o cuspo seca to depressa! Ou, ao contrrio, quem  capaz 
de ficar mais tempo sem engolir. A boca enche-se de cuspo, a gente no sabe o que h-de fazer dele. Diz o Santiago que ns estamos sempre a engolir a saliva, sem 
saber:  para ajudar a fazer o bolo digestivo. Bolo! Deve ser outra peta dele,  to mentiroso! (diz a gueda). Olha-se bem para o pomo-de-ado do parceiro: se ele 
mexe  porque engole: Ass' no vale, no vale! - E quando a gente dorme? Ento engole. Ora essa! A maneira de saber se uma pessoa est a dormir ou a fingir que dorme, 
 ver se ela engole.  preciso fazer muita fora para no engolir. (O remdio  esconder o pescoo...)  engraado a gente fingir que est a dormir! E morto? Fingir 
de morto  muito divertido. O Santiago, ento, que toma tudo a srio, comea logo a tomar-nos o pulso, a escutar o corao (diz auscultar!) como o mdico. Ou a apalpar-nos 
as cartidas. Quando se cortam as cartidas o sangue esguicha e a gente mor logo. J uma noite morreu um homem mesmo ali defronte: veio a correr atrs do faquista 
pela calada do Monte Agudo abaixo a segurar a barriga, e a gritar: " Agarra! Agarra! " - Chegado ali caiu no passeio, com as tripas de fora. Juntou-se povo! Como 
era quase noite a gente no pde ver bem. Nos dias de festa, se h galinha para o jantar, vo todos para a cozinha assistir  degola


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a mezinha no pode olhar, arrepia-se toda. Eles no tm medo nenhum, nem nojo. O sangue escorre para dentro do tacho,  para fazer cabidela. E a galinha fica a 
espernear e a bater as asas, mas
so todas. Diz a mezinha que um dia a av degolou uma galinha, e ela fugiu, voou por aqueles quintais fora, e por cima dos telhados com a cabea pendurada dum fio! 
Viram-se aflitos para agarr-la. E como foi a da galinha que depois de velha cantava de galo? Oh, essa era uma pedrs, muito boa poedeira, to velha que era quase 
como uma pessoa de famlia: andava pela casa atrs da dona, e a vossa av tinha-lhe muito amor, no se atreveu a mat-la. Porqu? Ouviam-na cantar de noite, conheciam-lhe 
a voz: era mau agouro. Uma noite o av Colmeal levantou-se da cama e foi-lhe torcer o pescoo... A vossa av no podia ver matar um bicho! Quando era da matana 
do porco fugia de casa, para no ouvir os grunhidos que eles davam, pareciam dum ser humano. Criava-os com muito amor, habituava-se a eles, e no fim... S os tornava 
a ver na salgadeira. E o sangue? O sangue era para encher chourios.
Outra coisa com que eles se entretm  a apanhar moscas. O melhor  quando esto poisadas, vai-se assim por trs... Ou ento nos cantos das vidraas. O Santiago 
mete-as numa caixinha de fsforos, ou de papel, sabe faz-las muito bem feitas, e a gente fica a gozar aquela zumbideira l dentro... Depois mete-lhes um pedacinho 
de mortalha no cu, como um leme, e elas voam assim, fazem um barulho! - A pacincia que ele tem: chega a at-las muma linha muito fina de coser JPC, para as pr 
a puxar um carrinho, como as pulgas da Feira de Belm! Mas no consegue que elas voem assim, cada uma puxa para seu lado, e cai tudo ao cho. O Gabriel, esse, arranca-lhes 
as asas com muito cuidado (elas no se queixam) e solta-as: andam sempre a encontrar moscas pela casa, atarantadas. Ou corta-lhes a cabea com a tesoura (o sangue 
no esguicha). Ficam vivas, um bocado s aranhas, pudera, no vem o caminho! "Crueldade!" - diz a me. Mas que h-de a gente fazer para passar o tempo interminvel? 
Um dos gostos dele  apanh-las para as dar a comer aos papa-moscas que aparecem nas janelas, no se sabe donde vm.
So umas aranhas que parecem caranguejos!

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        ...Mas no tem brinquedos dignos do nome. O Teatro Francs  agora um molho de cartes amolgados e pauzinhos fracturados, no fundo do ba de couro pelado, 
em companhia das bengalas inteis, dos dentes de hipoptamo amarelos e odiosos, de livros esfrangalhados e chapus velhos, plumas amachucadas e um -fim de outras 
coisas ruinosas que ele passa horas a remexer enjoado de bafio,  falta de melhor distraco, na esperana de arrancar, com elas, a um sono de p. Ali est tambm 
a velha Ilustracin Ibrica, um s volume encadernado, onde pela primeira vez ele contempla um retrato de Tolstoy: blusa clara e botas altas de campons, o cabelo 
comprido e a barba grisalha, sentado a escrever numa sala enorme e nua, onde h uma foice roada encostada a um canto. E a traduo espanhola de um poema de Edgar 
Poe, ilustrada: o Poeta ergue a mo a convidar o corvo poisado no cimo dum capacete de heri ou deus antigo:" Jams, jams! " (O irmo comea a falar dos Contos 
Extraordinrios.) Fica horas a folhear e a meditar estas coisas. Entre muitas estampas, olha as das guerras de Cuba e Filipinas: incndios, mortos e batalhas. Foi 
disto que o pai escapou talvez?
Neste ba guarda-se o chapu de feltro encarnado que ele pe para fingir de Texas Jack e brincar com o revlver de seis tiros,. pendurado duma correia a imitar um 
cinturo. A me consente, mas primeiro tirou-lhe as balas de chumbo, grossas como avels. Trava mil batalhas com os Cheyennes e os Comanches no Mississpi do estreito 
corredor; mas a sua simpatia est sempre com os ndios vencidos, e muitas vezes faz-se passar por "renegado", ao lado deles. Tambm canta peras da sua inveno, 
de janelas abertas; at um dia a esposa do tenente de infantaria que mora no rs-do-cho do outro lado (uma que pinta o cabelo com gua oxigenada) protestou l do 
quintal, indignada com a cantoria. Calou-se, embatucado: nunca pudera imaginar que o ouvissem l to longe!
Recorta e cola escrupulosamente os soldados das imagens; d'Epinal; de tamanhos, nacionalidades e armas diversas - zua- vos, franceses, prussianos, at turcos tem. 
E filarmnicas. Mas as' batalhas, sobretudo a ss, so muito trabalhosas, de gatas pelo cho aos tiros, a empurrar os combatentes um por um para os fazer avanar 
ou recuar, vencer ou morrer. Os exrcitos no tm


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iniciativa nenhuma, e a deciso dos combates depende da vontade dos respectivos donos, o que nem sempre facilita as coisas. Se vai a casa dos amigos, h que carregar 
aquela tropa toda, os soldados misturam-se, perdem-se,  preciso cont-los, separ-los, h confuses, desconfianas e amuos, e uma grande vontade de abandonar tudo 
no cho e ir-se embora. As mes ralham! Ainda assim, na sala de jantar do Gomes (mora agora ao Rossio) podem-se desdobrar campanhas napolenicas. Nos impulsos de 
generosidade, trocam soldados, fazem ddivas. So muito amigos.
Os canhezinhos de lata, com mola, disparam ervilhas  toa, fazem estragos tremendos nas fileiras; mas os de chumbo, chatos e minsculos, no disparam nada, s servem 
para meter vista. Depois, os modelos mudam, modernizam-se, o Chiquinho aparece com artilharia pesada, de guarnio, de fortes franceses, Sdan ou outra fortaleza, 
e no se podem recortar. Como  que se podem travar batalhas campais e sitiar fortalezas que no existem?  um esforo demasiado. Ele gostava de ter era um castelo, 
como o que viu em casa j no sabe de quem, na Graa: com torres, soldados postados nas ameias, com artilharia e tudo. At tinha um fosso, com um espelho a fingir 
de gua! Mas o dono no deixava mexer em nada. Era s para ver.
Depressa se aborrece dos soldados (vo dormir no ba) e, de cotovelos fincados nas tbuas ou, se est frio, num tapetinho barato, devora livros de aventuras, volumes 
soltos de Mayne-Reid e Gabriel Ferry que vieram talvez do Hotel. E romances de assinatura, folhetins policiais e de amor, sobre os deboches de Lus XV, romances 
de capa-e-espada.  uma vergonha, mas em alguma coisa a gente h-de gastar o tempo e a fantasia. Aprende assim uma histria intil e secreta. No entender da famlia, 
d cabo da vista: mas h um certo orgulho em o ver sempre agarrado aos livros, sossegado. Os amigos vo para fora nas frias, e no h meninos para brincar na rua, 
mais impessoal e movimentada que a do Monte. Tambm j no estamos em idade de brincar aos quatro-cantinhos, ou entrar nas danas de roda. O jar, os polcias-e-ladres, 
a barra, as naes, tudo isso  bom para o tempo de escola. Nas "terras" empinadas nem pensar: aparecem matules vindos de outros bairros, as "prrias", ndios brabos! 
(Como os do Tico-Tico. )  um territrio poeirento e vedado, onde s se pode


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penetrar, c de baixo, saltando o porto de ferro e subind interminvel escadaria. O irmo, esse no tem medo nenhum, vai a toda a parte com os amigos. Mas ainda 
s vezes aparece em casa plido, a fugir...
A me deu em mand-lo com o saco de rede a uma horta da vizinhana, numa rua encostada c em baixo ao Monte. No  que ele goste de fazer compras: embirra por exemplo 
de ir ao talho onde as fmeas agressivas gritam que esto primeiro que a gente, ou com muita pressa. Tem que esperar que o sr. Jos se incline l de cima: "Que  
que o menino quer hoje?" (Felizmente as compras grossas continuam a vir de So Mamede ao Caldas, do Manuel da Margarida. Um estiro daqueles, mas o que  a fidelidade! 
O marano chega a suar, com o cabaz s costas, traz consigo o cheiro das sacas, do p. Conta as novidades do stio: O sr. Mealha fugiu h-que-tempos com a sobrinha, 
a dona Ifignia muito entrevada, mas l vai dando lies a uns meninos... A Rua da Saudade continua a existir, mas para outros, um mundo  parte. Quem morar agora 
na gua-furtada da Aleluia? e tero achado os tesouros escondidos no buraco da cozinha?)
Sentado  beira do tanque, como na horta da Serafina,  sombra da latada e das figueiras, a olhar os trmulos da gua e ouvir gemer a nora e zumbir as moscas, num 
cheiro de estrumes e de hmus revolvido, perde-se em meditao, imvel, de olhos fitos, penetrado e feliz. Um homem rega as couves, ou fala com burro da nora, a 
mulher com o chapu de palha a proteg-la do sol, vai colher as verduras orvalhadas, sacode-as empunhando a faca enferrujada, ri-se para ele com simpatia... Deixam-no 
tranquilo. Ao longe a cidade, plida e rosada, tem fumos leves, murmrio. Ama assim melhor este misto de casario e quintais, vidas ocultas e guas faiscantes  torreira 
do sol, tudo em rstico -urbano. Se lho consentissem, podia ficar ali o resto da vida!
Ainda sonha ter um barquinho que pudesse pr a navegar no tanque. Os que ele faz, de papel de embrulho, de jornal, ou cadernos usados, aplastam-se e desfazem-se 
miseravelmente manchados de tinta diluda, e naufragam. Traz de casa uma casca de noz, um pedao de pau, uma tabuinha, uma caixa de charutos subtrada aos botes 
da famlia: mas nada disso lhe d a realidade -


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-iluso. Um barco, s um autntico bote, podendo ser com uma vela, o poderia satisfazer. J nem pede um como o irmo teve! - Lan-lo com um gesto rpido, assim, 
faz-lo glissar, singrar, abrindo um sulco e deixando pregas mansas na superfcie vtrea e polida - isso  que ele queria! Depois, de longe, correndo em volta, empurr-lo 
com Uma cana, ou retido por um cordel, faz-lo navegar a seu capricho, em curvas, simular perigos e naufrgios, temporais, como o irmo fazia nos lagos do Rossio. 
A tentao  quase irresistvel, dolorosa de mais a privao...
Ora, alm da famlia Sepulcra, e dos filhos da dona Mariquitas do lado, h aqueles meninos do primeiro andar, os Mitelos, com quem ele brinca de longe em longe. 
Todos eles tm uns grandes olhos negros, redondos e graves, e so de uma palidez impressionante. A dona Adlia no consente que ele v brincar l para baixo, para 
no incomodar: a casa  uma confuso de moldes, manequins, entretelas, calas e coletes em vrias fases de evoluo, e retalhos. Depois (mas isto agora em voz baixa) 
 uma famlia de tsicos! Se querem brincar, venham eles c para cima, ela d-lhes po com marmelada e copos de ch morno, fraquinho, com muito acar. So dois: 
o Rico, um bocado mais novo do que ele, e no se entendem l muito bem. Menino orgulhoso!, s vezes recusa o lanche que a dona Adlia lhe oferece de to boa vontade; 
come-o com os olhos rasgados, to bonitos, e diz com desdm: "No quero, ns tambm l temos... " E a Diria, com a testa bojuda, muito sria e estudiosa, e com muito 
jeito para descobrir palavras feias nos livros, at em O Bobo, encadernado em percalina vermelha, letras de ouro, que est em cima da mesa de p-de-galo a enfeitar. 
Tapa uma ou duas slabas a uma palavra, por exemplo, disputa, e o que fica  "feio". Cobre a boca com a mo, arregala os olhos e diz: "Ooooooh!..." O Gabriel embirra 
solenemente com ela. Tem mau hlito. (A verdade  que ele no pode esquecer a Dalilah.) H ainda outros meninos mais novos, e um j crescido, empregado comercial.
O Riquinho vem brincar no corredor, na casa de jantar ou na varandinha das traseiras, quase encostada ao muro das "terras". Por sinal um dia a dona Adlia tinha 
sado, e o Gabriel, mais velho e experiente da escola e do Mundo, foi sentar-se com ele nos mosaicos da varanda, quase metidos no cubculo da pia, e 


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efeito do calor, da solido, da quietao da casa - resolveu mostrar-lhe como  que se toca piano num retalho de moldura, com um rgo que, apesar de no ser feito 
exactamente para o teclado, tem muito que ver com o verbo tocar. (A culpa foi talvez do saco de amostras de molduras de todos os feitios e tamanhos que, dando a 
iluso de servir para fazer construes, s fazem martrio do dono, por no ser possvel combin-las seja para o que for. Um saco de runas. Alm disso fedem desagradavelmente, 
deixam nos dedos um cheiro acre, sobretudo quando molhadas mas talvez esse cheiro explicasse o incidente.)
Tudo neles era inocncia, uma secreta excitao estival, e ele j incitava o Rico atnito a imit-lo, quando de repente ergueu a vista e deu com a me, que tinha 
voltado inesperadamente, ali de p, a fazer olhos feios! Ficou roxo de vergonha, e recolheu a toda pressa o rgo parapianstico, insensvel. O Rico, muito grave 
e calado, no percebeu nada. E a me, felizmente, nunca mais falou no caso.
O Rico tem um brinquedo:  um barquinho de madeira, com um palmo talvez de comprimento, usadssimo, todo esfolado e com a pintura escamada. Chama-lhe escaler. (Faz 
pensar na Marinha.) Ainda mostra vestgios da linha de flutuao, pintada a verde. Ora para que  que ele quer um bote, no me diro, se nunca vai  horta nem  
praia nem ao Campo Grande, nem onde haja gua, e no tem banheira em casa, s o alguidar da roupa, cheio de gua espessa e opaca de sabo azul?! Empurram o escaler 
nas tbuas irregulares do corredor, ele tomba de lado,  assim que se esfola, fora de gua. Se ao menos tivesse rodas!
O Gabriel vai  horta com o saco de rede, senta-se muito quieto  beira do tanque, fecha os olhos e v o escaler a flutuar no espelho da gua. Pode quase senti-lo 
entre os dedos, esguio e baixinho, hmido e viscoso... O sol reluz em palhetas por entre as figueiras, h uma paz de modorra, e ele  feliz a imaginar. Pouco a pouco 
apodera-se dele uma febre secreta: at tem dormido mal. V a famlia a fugir de bote num mar imenso e liso, ou num deserto de areia amarela e sem fim. Ou  ele que 
parte a toda a velocidade, a caminho provavelmente do Infinito, do naufrgio, e do baque total: sente-se abandonado no Universo interestelar, e acorda latejante 
e em nsias! (Mas j no grita.)


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A ideia apodera-se dele, torna-se obsessiva, no o larga mais. At que...
Uma tarde andaram a brincar com uma coisa e com outra, e o escaler ficou esquecido no corredor, tombado, so coisas que acontecem. Jogaram s escondidas, a Dina 
descobriu novas palavras esquisitas no dicionrio de Roquette, o Gabriel sentia-se inquieto, sem saber de qu. De repente, como quem no quer a coisa (e no queria), 
foi esconder o bote, a tremer de emoo: empurrou-o com o p para debaixo do guarda-fato. O vizinho foi-se embora. No dia seguinte veio reclamar:
- O escaler? - disse o Gabriel, inocente. - No sei, no vi!
Sereno, que nem ele prprio podia acreditar. Fez de contas que procurava por toda a casa, remexeram tudo, que-dele o bote! O Rico jurou que o no tinha levado na 
vspera, onde  que ele
ia ter perdido o bote, se no ia a parte nenhuma e tinha a certeza de o ter trazido?! Mas no estava e pronto, no se fala mais nisso. A dona Adlia at comentou, 
irritada: Quem  que ia agora suspeitar dos meus filhos?... Tivesse ele santa pacincia. O Gabriel sentia um tremor na barriga. O menino recusou o po com marmelada 
do lanche e foi-se embora desconfiado:  um menino calado mas muito fino, muito sorna. Ficaram meio amuados, com aquela suspeita atravessada, teria ele percebido 
alguma coisa?
Durante uns dias no brincaram juntos. Mas o escarcu amainou, e tudo parecia prestes a voltar ao ramerro de sempre. O Gabriel sofreu torturas de impacincia, remorso 
e medo alternados,  espera que a me o mandasse comprar hortalia. Entretanto, planeou tudo at aos ltimos pormenores.
Chegou a manh em que ela lhe disse:
- Vais  horta e trazes um molho de nabias para fazer esparregado.
E deu-lhe o dinheiro. Era o ensejo esperado! A pretexto de mudar de sapatos, foi tirar o escaler do esconderijo. Embrulhou-o num jornal, meteu-o na rede, enrolou 
esta no sovaco, e lanou-se pela escada abaixo. O momento difcil era a passagem do patamar dos vizinhos: se eles lhe saam ao caminho! O corao batia-lhe com muita 
fora. Sentiu-se plido, como um gatuno incapaz de gozar o fruto da sua astcia. A conscincia, maior do


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que ele, enleava-o. Desceu aos tropees, escorregando e fazendo mais bulha do que habitualmente. Levava o dinheiro apertado na palma da mo suada, e o rolo do saco 
no sovaco. Ouviu vozes e correrias dentro de casa, e transps a barreira. Respirou aliviado: agora era s alcanar a rua, atravessar, dobrar a esquina... Dali em 
diante, invisvel da casa, estaria fora de perigo. Depois, na horta, seria a felicidade! At talvez l pudesse achar onde escond-lo. J o sentia seu, s dele, o 
barquinho do seu sonho. H que anos!
Chegado  sada, em baixo, pulou os dois degraus para o passeio, e ia deitar a correr quando, obediente, se lembrou de que devia fechar a porta. Voltou atrs. Nem 
de propsito, ouviu em cima as vozes dos meninos Mitelos,  janela. Curiosos, nunca perdiam quem ia nem quem vinha. O Rico perguntou:
- Vai  horta?
Como sair agora sem olhar para cima, sem responder, dizer adeus? Sempre se diz adeus. Mas no olhou nem disse. De rosto a escaldar, subiu os dois degraus, e para 
agarrar o puxador - a porta era altssima, e o sol a pino batia-lhe em cheio nos olhos - ps-se nas pontas dos ps e fez um grande esforo. Sentia-se espiado. O 
saco embaraava-o, atrapalhou-se com o dinheiro, teve um gesto em falso, e no instante mesmo em que a porta se fechava com estrondo, o rolo escapou-se-lhe do sovaco, 
embateu nos degraus, desfez-se no empedrado - e o escaler, solto do embrulho, rebolou no passeio, ao sol da manh.
Em cima houve um instante de silncio e pasmo, depois um clamor:
-  o meu bote!  o meu escaler!...
Era a catstrofe. Durante um instante pareceu-lhe que o sol escurecera e o cu alura. Perdeu a vista, paralisado pela vertigem. O seu primeiro impulso foi voltar 
a subir, ir esconder-se em casa: mas tinha fechado a porta e no podia abri-la de fora. S batendo e esperando que a me lha abrisse: e se o fizesse, iria esbarrar 
com os Mitelos que j se precipitavam de escantilho pela escada abaixo, ao encontro dele, em grita, para lhe arrebatar a presa!
Num relmpago, capaz de morrer ali mesmo, teve a noo da sua irreparvel desgraa. Hesitou um momento, depois curvou, apanhou o saco, abandonando o escaler, e abalou 
rua abaixo, a

217
caminho da horta, queimado de vergonha, a engolir as lgrimas do desespero.
Desde ento fecha-se em casa, no quer brincar com os vizinhos, que parecem estranhamente indiferentes ao incidente. E quando a me o manda  horta ele barafusta 
e protesta...
Ela no pode compreender:
- To amigo que tu eras de ir  horta, e agora ento... H muita coisa na vida que a gente no sabe explicar.
XXV
SANGUE DO NOSSO SANGUE
A av Ryala, muito cumpridora, chega enfim a Lisboa, de visita ao filho,  nora e aos netos. Mas nada disto parece ter o encanto de outrora, se o teve. Os pequenos 
olham com assombro esta camponesa enfezada e feia, de olhos espantados e modos bruscos, quase desagradveis, com o peito chato, os beios grossos, secos e gretados, 
o nariz sem cana como se em criana lho tivessem esborrachado com um soco, as narinas redondas e expostas ("chove-lhes dentro" - diz a mezinha):  o lao que os 
prende a um passado e mundo primitivo com o qual no tm nada em comum. O sr. Augusto, esse, ama enternecidamente "a que me deu o ser", diz ele, ou ento, "aquela 
a quem devo a vida"... Sonha construir-lhe na aldeia, no stio do pardieiro sem janela, uma casinha onde ela acabe os dias em paz e no respeito dos vizinhos.  disto 
que ele fala com os seus conterrneos, em especial com don Maralino, cozinheiro.
A estranheza dos netos tem talvez outra causa: a antiga e tenaz oposio que ela fez em tempos ao casamento do filho com a "portuguesa". Mancomunada com o senhor 
abade, trazia de olho uma galeguinha, lavradeira como ela prpria, com quem desejava v-lo unido na graa de Deus. O destino disps outra coisa, e Agustn casou-se 
em Portugal. Mas, to depressa se conheceram, anos depois, as duas mulheres caram nas graas mtuas: a Ryala passou a adorar a sua "filha" orgulhosa e severa, mas 
duma bondade e jovialidade capazes de derreter montanhas. Esta



        219
mesma, sempre que fala da sogra gaiteira, sorri com carinho indulgente. Gosta de lembrar um episdio que ainda os faz rir.
Foi durante a primeira visita de Ryala a Lisboa, h muitos anos. Camponesa habituada  liberdade, ao trabalho, e a viver sobre si desde a morte da me Xuana, a Ryala, 
sempre aos ais, sentia-se oprimida entre as paredes e os rebaixos da mansarda familiar. Passava ento boa parte do dia e da noite por fora, visitando amigos, parentes 
e conterrneos. A Baixa do tempo era uma sucursal de Pontevedra, e no lhe faltavam companhia nem galhofa. Vrias vezes se perdeu no labirinto das ruas e travessas, 
e s tarde aparecia em casa ou no Hotel, ao filho, que se apoquentava. Uma noite (ainda o Gabriel no era nascido, e a Agueda andava ao colo), a famlia reunida 
no trio esperava que o sr. Augusto arrumasse os hspedes chegados pelo ltimo comboio, para voltarem juntos para a Rua da Saudade. Onze dadas, e a Ryala, que sara 
a espairecer anhoranas, no voltava:
- Vai tu ver se a encontras por a - disse ele  esposa. - No pode andar longe.
E ela foi, com a menina ao colo e o mais velhinho pela mo. Correu a Baixa, um deserto, at que por fim deu com um magote de curiosos  porta da antiga adega de 
Pedro Lago. Sob as arcarias das abbadas, e  luz silvante e mortia dos bicos de gs incandescente, rompiam sons de gaita de foles, pandeiro e flauta, sapateado 
nas lajes, descantes e brados de folia. "Queres tu apostar em como ela est ali!" - disse a dona Adlia ao filho, a rir, mas na realidade a falar consigo prpria. 
Parou a escutar, e meu dito, meu feito: reconheceu a voz da sogra, spera e um quase nada rouca:
Vaya de roda en roda, vaya de fror en fror, vaya de brazo dado, vaya con meo amor...
Abriu caminho por entre os mirones. A Manuela da Ryala, de cachen de l estampada descado para os ombros, os rabos de lagartos das tranas a voejar, a saia de 
merino muito ampla em rodopios, bailava e cantava acompanhada do terceto aldeo, entre


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os aplausos daqueles bons galegos. Ao verem entrar uma dama
de chapelinho, jaleco e saia de cauda a arrastar, os msicos emudeceram. O da gaita deixou escapar o ar dos foles e cuspiu no lajedo, depois enxugou a boca s costas 
da mo suada. A Ryala parou, atnita, sem perceber, e franziu os olhos claros para a nora indiscreta.
- Ento, me - disse Adlia, risonha -, o seu filho l
no Hotel  espera, ralado, e vossemec nesta pndega!
Custou-lhe arranc-la dali: queria muito ao seu povo, e a sua
alma de galega trabalhadeira afeita  enxada, encontrava na
folgana do baile e do canto muito consolo para as privaes pessoais e as rudezas da vida. Regressaram ao Hotel, ela atrs, a resmungar, e a nora adiante, com os 
filhos, a rir de simpatia. O sr. Augusto, que esperava entreportas, ao v-la aparecer de m catadura, um quase nada trpega nas botas de atilhos e ainda com sinais 
do tinto maduro nos beios grossos, ralhou de manso:
- Uma mulher da sua idade a beber e a bailar nas tabernas!
No v que me compromete?
Mas a Ryala deu-lhe o troco:
- Ua bida de trabalhos, e agora despois de bella num hei goar? Entonces a que binh'eu a Lisboa? Para passar o meu tempo metida na casa, com falta d'aire, ou feita 
a tonta ac no Hotel?...
Tornaram depois a v-la na Galiza, tinha o Gabriel dois anos pouco mais. De tudo isso ele guarda apenas lembranas vagas, mais talvez de ouvir dizer: a casa trrea, 
um quintalinho com a cerejeira (a que a me trepou, de botinas, para colher fruta), uma confusa romaria, ao fundo duma ngreme ladeira um mundo de gente, risos, 
msica, fumaa... E por sinal (disto quase que jura lembrar-se) ele ao colo de um cura ainda novo, magro e folgazo, o aclito, deram juntos um tombo de alto l 
com ele, e rolaram nos calhaus da encosta.  beira da estrada, um cego de olhos em chamas sanguinolentas fazia ranger a rabeca. Por alguns anos lhe moeram a pacincia: 
"Gabriel, como era o ceguinho da feira?" - E ele arrepanhava os olhos e as faces, imitava o tocador... Riam-se imenso, achavam-no actor. Mas tudo isso  hoje letra-morta. 
Como  possvel a gente viver, e depois esquecer assim tudo?
Ainda agora a vivacidade, as ris de esmeralda e o riso alegre, quando ri, quase a tornam bonita. Sentada no cho do corredor, onde est mais fresco, com o leno 
descado para a nuca, o cabelo

        221
apartado ao meio, as tranas dum ruivo escuro e bao pendentes, a Ryala tange uma frigideira  falta de pandeiro, e entoa incansavelmente, at que a espuma lhe seca 
os cantos da boca:
Heiche de dar chis-chis, heiche de dar chs-chs,
heiche de dar se m'intendes, pola manh x bers...
Dita  neta paciente e sabedora interminveis cartas para os vizinhos e a moa que deixou a tomar conta do pardieiro: - Pus mi querida Estrella...
A menina protesta:
- Ento a avozinha diz que ela  uma ladra, que a rouba, e agora trata-a por querida?!
- Pon querida, minha neta, pon! - teima ela em brados irritados. Tem o senso profundo das convenincias e das frmulas, que  uma fora na alma conservadora e rotineira 
dos camponeses. Na aldeia so todos iguais, e a serventa, filha de lavradores pobres como ela prpria,  uma assalariada livre e no uma inferior. Se no  agora 
um privilgio ter algum que, na ausncia dela, olhe pelas suas cousinhas - quatro bicos no galinheiro, as beras no quintal, dois lenis na arca, as panelas de 
barro e os trastes? H que trat-la com deferncia:
- Pon querida, minha netinha, pon!
Franze os olhos verdes, arrenegada de que a no entendam, talvez de no entender bem os mais. E quem  que na aldeia vai agora ler uma carta em portugus?! - Pois 
Don Ramiro, o da venta, seu vizinho, que esteve muitos anos em Lisboa e escreve com uma linda caligrafia comercial.  o escrivo da terra.
O sr. Augusto, de mar, d-lhes dinheiro e eles levam-na ao Chiado Terrasse, a ver o animatgrafo. A Ryala, que nunca imaginou que tal coisa pudesse existir, enche 
a sala de brados de assombro e risos descompassados. H uma comdia de Max Linder e uma fita de peles-vermelhas. Ao ver surgir pela frente em pleno Far-West, entre 
cavalgadas, frechadas e tiros, uma locomotiva que avana a todo o vapor sobre a audincia, no h quem a segure: um grito de terror, um salto de cabra, e a Ryala 
abala a



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fugir, para no ser esmagada pelo trn! Esta noite foi ela a herona do Far-West ao largo das Duas Igrejas. Os netos encheram-se de rir. E no ficaram nada envergonhados: 
 um cinema popular. Se fosse no Salo Central... At se ouve o granizo (desencadeou-se um temporal) a metralhar o telhado de zinco.
Mas a Ryala constipou-se, e agora, metida h muitos dias no quarto em trevas, abafada at o cocuruto da cabea em cobertores de papa e saias de l grossa, num calor 
destes, sua e purga o seu ataque de influenza. Parece um bicho doente, amuado, todo enroscado em plo. S toma ch diludo, e nenhum alimento slido. Mdicos, no 
quer nem v-los. Os netos vo espreit-la, ouvem-na gemer, tossir, e vem-na escarrar sangue... Ficam horrorizados. Mas a Ryala  rija e seca de carnes, e jura que 
h-de chegar aos noventa, como a sua naicinha. No tem doena nenhuma, explica ela:
- O sangue foi daquela pancada!
- Que pancada?!
O onzeneiro da aldeia, Don Federico, o "americano" de torna-viagem que a ajudara a livrar o filho das sortes, malas-sortes, andou muito tempo depois disso em litgio 
com ela, por mor dos pagamentos. A Ryala, sem letras nem marido que a defendesse, lutava sozinha. Mas sempre com muita deferncia pelo ricao. Um dia, porm, envolveram-se 
num bate-boca, o "americano" faltou-lhe ao respeito devido, e a Ryala, probinha mas muito ciosa do seu bom nome de mulher s, foi-lhe para os fagotes: o Shylock 
vilo, de parguas em guarda, depois em riste,  laia de lana, ferrou-lhe uma ponteirada nas costelas que a deixou "muito agraviada". Formou-se uma bolsa de sangue 
na pleura, que de longe em longe alivia em escarros vivos... E o "americano"?... O "americano" perdeu a demanda, e ainda por cima lhe pagou uns centos de res de 
indemnizao!
E a Ryala, que no faz grande caso dos talentos piansticos da neta, canta, sentada no corredor:
Choran os bois polar batas as batas pelos bezerros: choram as portuguesinhas polar danas dos galegos!

223

Curada, no tardou muito em voltar  sua terra. Os aires de Lisboa fazem-lhe mal! O filho suspira de v-la ir: "Airinhos, airinhos, aires, airinhos da minha trra! 
"
Quem continua por Lisboa, vigoroso apesar do reumtico, a juntar mais uns patacos, para os ir enterrar em eidos e demandas,  o Callante. Zangado com o filho, a 
quem acusa de se bandear com a Ryala, durante a estadia desta em Lisboa no ps os ps l em casa. Nem a quis ver. Corre at o boato de que, para punir o filho, 
deserdando-o, resolveu "passar de venda" os bens de raiz a uns vizinhos de confiana. (Assim chamam por l as vendas fictcias.) J em tempos o fez, de rancoroso, 
e depois levou anos metido na justia e gastou rios de dinheiro para os reaver. "O Callante  capaz de perder a camisa do corpo para levar a sua avante! " - diz 
a nora, para quem os bens deste mundo so pouca coisa. E o sr. Augusto, a sorrir, comenta em verso, como  seu costume:
Pxenlle preito a um vcino polo derrego d'un leiro: perder perdn canto tinha, peco amolar, amoleino!
Esteve alguns anos de copeiro num grande hotel da Baixa. O copeiro dum hotel  como o despenseiro a bordo dum navio: tem a chave dos estmagos, logo a das conscincias. 
Todos lhe iam comer  mo, o que, alm do mais, lhe satisfazia o orgulho. No dizer da nora, o emprego estava-lhe mesmo a calhar. Mas desagradou a toda a gente, porque 
era intratvel, e mesquinho nas raes. Todos se iam queixar dele ao filho, incluindo os patres, apesar do muito que ele puxava para a Caixa, sobretudo para a sua 
prpria caixa.
Um dia fartou-se, deu por paus e por pedras, e largou a copa. Devia ter juntado ali bons cartos. (Agora j o neto lhos no via contar.) Em seguida, para descansar, 
fez-se porteiro dum hotel  Rua do Prncipe, com casa de batota no terceiro andar. Quando entrava a rusga policial, o Callante, todo mesuras e falinhas mansas, erguia-se 
de bon agaloado na mo a saudar a Autoridade, e carregava com o p no boto da campainha disfarada junto do



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capacho, sob a mesa torneada, dando o alarme l para cima.
O ascensor arqueolgico era dum vagar desesperador, emperrava
inexplicavelmente entre os andares, ou simplesmente no
marchava. Os agentes ficavam entalados, viam-se forados a subir a p, perdiam tempo: quando chegavam  tavolagem macaca, no encontravam vestgios da roleta nem 
da banca francesa. Os pontos liam tranquilamente um jornal ou o Almanaque das Lembranas ou jogavam  bisca, o inocente burro-em-p, a feijes. A polcia nunca decerto 
imaginou que aquele velho humilde e sonolento fosse o atalaia da alfurja. O Callante sabia viver em pleno sem se deixar corromper: para ele  virtude e santidade 
quanto conduza  maior glria da propriedade. Pontos, agentes, vadios, gatunos e meretrizes, a todos sorri e de todos se ri. No  do dinheiro que os tolos desperdiam 
que se enche a burra dos espertos?  um Rockfeller aldeo, comenta o filho.
Est agora de porteiro noutro hotel,  Betesga, na realidade uma hospedaria manhosa para provincianos e casais de passagem, tibiamente iluminada, com o nome pintado 
a letras negras num globo leitoso e triste, por cima da entrada. O trio pombalino, de formoso desenho,  glido e acanhado. Sentado  mesa de pau -santo e envolto 
no eterno varino amarfanhado, com os ps na prancha de cortia, o bon de pala puxado para a cara e o cigarro forte meio apagado no beio grosso e arroxeado de frio, 
o Callante parece dormitar: porm, na sombra da pala o olho entreaberto tem o fulgor duma brasa. Mais de uma vez tem ajudado a engazupar ratos-de-hotel. Uma noite 
apanhou dois com a boca na botija, a abrir um quarto com a gazua: desarmado, e sem medo s naifas de que no andariam desmunidos, agarrou-os pelo cachao, como a 
lparos e levou-os pela rua fora, erguidos no ar e a espernear, seguido duma matula jubilosa, at encontrar um polcia, a quem os entregou. A sua moralidade tolera 
muitas transgresses, mas no que lhe faam o ninho atrs da orelha.
Os netos vo visit-lo na companhia do sr. Augusto: j bastante calvo, este trata-o com respeito, diz "senhor" e "pai" beija-lhe a mo que outrora o espancou, a 
pedir a bno. O Callante fala a meia voz, de maxilas apertadas: quando no  da mala mulher,  de rendas, e juros, terras e cmbios e papis de crdito, inscrio 
ou assentamento. O filho , que remdio, o


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guia e conselheiro nestes assuntos delicados. Leva-lhe uns papelinhos misteriosos que se cortam  tesoura, parecem selos e so dinheiro: os cupons. Entram hspedes, 
saem hspedes, o Callante no deixa escapar nada, e os meninos batem as solas nas lajes gastas do trio, tiritando de frio no vento molhado que sopra da rua pela 
porta sempre escancarada:
- Vamos embora, paizinho!
Se  a me que os leva, tudo muda de figura: o av faz-lhes um sinal, pisca o olho malicioso com um sorriso de bonomia, abre a porta do cubculo onde tem o catre 
duro, tira l de dentro uma posta de rosbife ou uma lata de bolachas passada aos direitos, e banqueteia-os. H entre ele e a nora uma vaga cumplicidade, que data 
da aliana da Ryala com o senhor abade: mas to ineficaz como esta foi, porque a dona Adlia soube sempre navegar por entre os dios que irremediavelmente separam 
os dois velhos; e atrair as simpatias de ambos, por amor do marido e unio do casal.
A Ryala foi-se embora h muito tempo, e aqui h dias o Callante, sentindo-se indisposto, a instncias de amigos sabedores, resolveu limpar a figadeira com uma purga 
mestra. Raciocinando no plano herico - se um copo de mezinha d alvio, uma garrafa inteira deve ser a cura - meteu ao bucho um litro da consabida Carabana: sobreveio-lhe 
uma trabuzana dos seiscentos, e foi preciso transferirem-no para casa do filho. Embrulhado no varino, plido e gemebundo, nem parece o mesmo. Ser manha?
- Esta casa  um hospital! - ri-se a dona Adlia, que ainda no h muito tratou o mais novo do infalvel sarampo, e depois a sogra. Cuida dele com o desvelo costumado, 
e ele repete, agradecido a seu modo:
- A minha nora  que  na molher para axudar um home! Quer ele dizer que, com uma escrava assim, tinha chegado a milionrio?
Os netos gostam de o ter em casa:  pitoresco, fala-lhes dos montes e dos gados, de lobisomens e aventesmas, conta histrias e recita interminveis lengalengas no 
seu falar cicioso. Eles insistem:
- Conte-nos outra, av!
Faz-se muito rogado, isso  da pea, e depois, com uma careta



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histrinica que lhe arreganha o nariz, os beios grossos e as grisalhas do bigode, de olhos franzidos em alvo, rompe numa lenta e fanhosa de pregoeiro, alternando 
as tnicas, longas, as vogais surdas, mais breves e graves:
- Histooooria da Puuuuuulga e do Piooooolho!
Recita-lhes ento as aventuras rimadas, duvidosamente sugestivas, dos dois insectos rivais, que deve ter aprendido em rapaz, no escuro dos becos e das casas de malta 
da capital. Ouvem maravilhados, com esta atraco da infncia pelo repugnante, grotesco e o ininteligvel. Outras vezes, com um sentido gostoso dos ritmos e das 
rimas,  a reportagem.
        do chinfrim
na taberna do Crispim,  travessa do Jasmim...
Se nada mais lhes deixar como herana, introduz ao menos nesta existncia de meninos de colgio, decentes e bem-comportados, uma distante sugesto da Galiza oprimida, 
e da Lisboa lbrega e nocturna, que de outro modo nunca teriam pressentido, nem mesmo a ouvir as memrias da me.
Muito ela gosta de dar, a dona Adlia! "O que temos,  graa de Deus o devemos - repete. - Por pouco que haja, sempre se pode repartir: h sempre outros mais pobres... 
" - Roupas, mercearias, trastes velhos, at dinheiro, s escondidas do marido, que no percebe ou faz vista-grossa. Como tm comprado alguns mveis "novos" (em segunda-mo), 
h sempre um pretexto para desatravancar a casa. Mas podiam-nos vender! Qual. At a caminha de grades, onde ele e antes dele os irmos dormiram, no se sabe onde 
pra. A cama de casal, de ferro, essa ainda est arrumada num quarto interior. Em lugar dela tm agora uma cama de mogno escuro, com flores.
Uma tarde a me mete-se com ele numa galera - isto em Lisboa, uma aventura! - para irem levar a cama grande, uma mesa nova de cozinha, bancos, enxergo, at o candeeiro 
de petrleo de vidro verde, de que eles tanto gostavam (agora que meteram o gs), a uma prima que est muito doente: dorme no


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cho, pobrezinha!  num beco, s Taipas ou  Glria, ele no tem bem a certeza, e do voltas sem fim para l chegar.
O carroceiro descarrega os tarecos, e mete-os na casa vazia, uma "loja" escura com uma porta e um janelo. Numa espcie de alcova, ao fundo, a prima est sozinha, 
deitada numa enxerga no cho, emaciada e imvel, de olhos fechados. Parece morta...
- No te chegues ao p dela - segreda a me.
Aterrado, calado, a distncia ouve-a falar de manso com a rapariga, que responde num murmrio rouco e sincopado. No fim, ao sarem, a doente levanta da dobra do 
lenol as mos quase transparentes e diz adeus com ambas elas, num gesto que parece vir j do outro mundo. E ainda tem foras para um sorriso descarnado. Como h-de 
ele esquec-la?
- E assim se me vo acabando! - suspira a me, a caminho de casa.
Meu Deus, que a gente possa ao menos respirar, viver, acreditar na vida, esquecer por instantes a misria e a morte! Mas como  difcil!
A casa enche-se de mulheres que atormentam a dona Adlia com lamrias, invejas, maledicncia. O que  que as traz ali? H sempre um prato de sopas, uma roupinha 
usada... A pacincia que  precisa! Quase tudo gente da sua terra, que a ressaca ou a esperana de melhores dias atirou para os becos e as azinhagas de Lisboa. Trazem 
consigo um hlito de provncia e de misria irrespirvel, que oxida a existncia. Entre outras, a Lcia... que nome!, se ela no tem nada da lcia-lima nem da Lucia 
de Lamermoor! Nova e desgrenhada, a testa bojuda e cor de cera, perpetuamente grvida, s fala de misrias, abortos e facadas. Mora no Bairro Alto! Quer beijar o 
pequeno, ele foge horrorizado. Chega a esconder-se quando ela vem.
O Dagoberto, com os olhos claros,  um indolente na fora da -vida. Sempre com projectos de se empregar nos caminhos-de-ferro, como o pai, se o tio Augusto lhe arranjar 
um empenho para certo conselheiro! Espera por essa. Com aquela voz abafada e soturna da famlia, aparece pelas sopas, pede  tia um pataco para o cigarro, e fala 
em se casar: "Com qu?! - diz ela assombrada. - Da tua idade j o teu pai era factor de segunda, em Castelo de Vide! E chegou a chefe! " (Morreu h muitos anos numa 
estao


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perdida do Sul-e-Sueste de leso cardaca que apanhou na tropa com aqueles tiros de canho.) Ele encolhe os ombros, impotente. Sozinho com o primo na casa de estar, 
arranha-lhe a cara com a barba alourada, crescida, de mau. Depois esfrega o cabelo cortad  escovinha em cima da mesa oval:
- So piolhos, vs?
Brancos, chovem no tampo da mesa. S para o fazer sofrer. Desta vez a mezinha perdeu a pacincia:
- Vai-te embora, e no me tornes a aparecer nessa desgraa. Filho dum pai to bom, to decente!
De toda uma famlia que a tuberculose, o desnimo e o orgulho parecem corroer como o caruncho, dos irmos e irms j mortos ou dispersos, que eles nem chegaram a 
conhecer, h uma filharada confusa...
A tia Encarnao vem passar temporadas, ajuda, ri-se muito. Apesar de desdentada e envelhecida antes do tempo ( a mais nova do rebanho), h nela os restos duma 
beleza: o rosto de mscara antiga, olhos encovados, o nariz longo, o queixo de " rabeca" (de Rebecca, mas assim dizemos). Nunca se lhe ouve um queixume e at quando 
amaldioa  jovial. Como se pode guardar tanta vitalidade e bom-humor no meio do infortnio? Criou os filhos e filhas com a fora do seu brao, esto todos arrumados, 
s lhe falta casar o mais novo, muito bonzinho e bem empregado, que mora com ela, e a Zulmira (afinal  prima, e no "tia"!), galante e bonitinha, porque  que se 
no casa? Uma  professora na provncia. O mais velho saiu ao tio Amndio,  marujo, leva anos sem dar notcias. Quando reaparece traz uma lembrana do Congo ou 
da China. At j descobriu onde est o pai: casado e cheio de filhos, na Amrica, numa terra chamada o Batifete; ou coisa assim.(*) O nome dele agora  Costain - 
dantes era Castanho! Tem um bote a motor, ganha rios de dinheiro no contrabando. Queria que o filho l ficasse, que lhe arranjava trabalho, uma noiva rica... Ele 
mandou-o  fava. Comentrio da tia Encarnao:
- Que lhe preste. Assim ele arrebente!
(*) New Bedford, Mass., que os portugueses chamam "no Batifete" - JRM.


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E ri-se. Afinal as pragas no deram resultado...
- Esta vossa tia nunca quis ir  escola, foi a nica que no aprendeu a ler nem a escrever. Tinha brabeiras que punham a rua em alvoroo. Nem a chibata nem a palmatria 
a conseguiram vergar. Atirava-se para o cho a espernear e a bater com a cabea! O vosso av ria-se. Um dia - ah, ele  isso? Pois espera que j te arranjo. Ela 
a espernear no cho, com as coxas muito brancas  mostra, sem vergonha nenhuma. Vai ele, agarra um molho de tojo e mete-lho debaixo do rabo. No vos digo nada! Quando 
se sentiu crivada de espinhos, ela levanta-se e deita a correr porta fora, aos gritos, com o tojo agarrado s pernas, a escorrer sangue, e assim foi at  ponte. 
L lhe acudiram e lho tiraram. Nem assim amansou. E vejam l vocs, foi quem amparou os pais quase no fim da vida! Por isso eu nunca me canso de ajudar, apesar de 
intrigas e de invejas!
Os sobrinhos querem-lhe muito. Coisa curiosa, na sua indigncia e quase total ignorncia,  talassa. Talvez porque se viu forada a procurar o apoio de gente grada? 
Fala muito de conselheiros e generais da monarquia, a quem serviu, e discute com a irm e com os sobrinhos. Mas respeita o cunhado, a quem olha com risonha ironia, 
um galego e republicano! No se d com parentes: "Que se governem! Para desgraa basta-me a minha. Cada qual puxa por si, e Deus por todos!" - Alimenta-se quase 
s de ch.
 a dona Adlia que estabelece um elo de simpatia entre tantos desavindos.
A Dalilah reapareceu: est uma mulherzinha de olhos aveludados, expressivos, a pele um marfim quente, o cabelo castanho ondulado, as formas que se arredondam na 
blusa. Vem brincar com os amiguinhos de outro tempo, lancha com eles, olha em volta a casa com curiosidade. (A Miquelina e a sua gente desapareceram inexplicavelmente 
dos horizontes: longe da vista... Anda agora no teatro de revista, papis baratos, um grande fracasso de ambies goradas. H quem diga ter encontrado uma das manas 
Perliquitetes de noite, na Rua Augusta... O sr. Pinanejo no herdou do pai o que esperava, tm vendido tudo, os bibels, as mantas, as recordaes... A Chica morreu, 
era diabtica, teve


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uma infeco na cauda! S a Desdmona aparece de tempos a tempos, a bufar, custa-lhe imenso subir as escadas, e pede  dona Adlia que lhe d dois ovos fritos: so 
trs da tarde, e ainda nem almoou! Comea a ter nos olhos um vidrado de loucura. Acabar Oflia, de verdade? Oflia-gorda!)
As tardes quentes, o sol de estalar, a casa, com as portas interiores cerradas, mergulha numa sombra propcia. A Dalilah mete-se como dantes atrs do reposteiro 
(h s um), ou das portas ou debaixo das camas. Volta s palavrinhas sussurradas de outro tempo, aos gestos sabidos: "Vamos brincar aos noivos, assim...
Ele, mudo de timidez e expectativa, aspira-lhe o cheiro da pele e  do cabelo:  fsico, palpvel, embriagador - faz pensar em esponjas quentes, na caixa de sndalo 
embutido. Esta quentura clandestina, porm, no atinge os paroxismos do sonho: e a timidez estrangula-o, tudo se torna mecnico, formal, sem significao nem resultados. 
Ela ento pergunta pelo Santiago. Um dia foram passear juntos para as "terras", e o Santiago voltou ao anoitecer, afogueado e risonho:
- Ests  espera dela, tanso? J se foi embora h que tempos...
A mezinha foi s compras, deixou o dinheiro para pagar ao leiteiro numa prateleira do aparador. Pela tarde a Dalilah chegou, encostou a sombrinha entre a porta 
e o aparador, brincaram algum tempo sem entusiasmo, e a certa altura diz ela assim:
- Ai, deixa-me ir. Estas horas, e a titi coitada  minha espera! Estranharam aquilo, ela nunca fala assim da tia. Anda numa
escola qualquer, j no quer ser actriz, quer ser parteira. Agarrou a sombrinha, nem esperou que a dona Adlia voltasse, para tomar ch, e foi-se embora, at qualquer 
dia. A sorrir.
Quando a mezinha tornou das suas voltas: - Ento o leiteiro veio cobrar? - No senhora.
- Que  do dinheiro?
Foram ver, no estava no seu lugar. Deram volta a tudo, tinha
levado sumio. Esta agora! Depois de muito matutar e discutir
lembraram-se de que a Dalilah o tinha visto e perguntado
para que era. A sombrinha encostada mesmo ao lado... A me percebeu:


        231
o dinheiro tinha escorregado sem ningum dar por isso para dentro da sombrinha.
- Foi o que foi. Esta pequena tem uma lata estanhada. O desembarao dela! Capaz de tudo. Vo ver se ela c torna a pr os ps. Oh, com a fome que elas passam!
E  que no tornou. Grande crime!, pensava o Gabriel, que os conhecia maiores. Fazia-lhe muita falta, tinha posto nela toda a sua esperana. Envergonhado, sem iniciativa 
nenhuma, no  que no pense nisso, pensa at de mais, mas as outras meninas que c vm a casa, colegas da gueda, so todas mais crescidas, srias, estudiosas, 
no brincam assim, s pensam nos grandes, no Santiago que a todas declara o seu eterno amor! E a Tina  feia. Nunca mais houve nada assim, ele bem pode esperar: 
estas coisas no caem do cu, ou  preciso ir atrs delas...
Claro, ele continua a sonhar acordado com ilhas desertas, florestas, ndios e aventuras em que os amigos o acompanham, o Chiquinho, o Orellana, o Paiva, o Gomes 
e outros: tm armas, cavalos, tendas de campanha, munies, mantimentos em barda. E h cavernas subterrneas com tesouros a explorar, desfiladeiros e cataratas. 
Mas entre o sonho e a realidade quotidiana no existe lao algum.
Outra coisa: uma noite, surpreendido, deu consigo a abrir uma porta e entrou cautelosamente num quarto imenso e mal iluminado. Avistou uma mulher deitada num div 
(talvez fosse um canap!), envolta numa tnica translucente e vaporosa. Aproximou-se com a timidez que nem a dormir perde, ela ergueu-se, veio ao encontro dele, 
rosada e sem peso, e enlaou-o melodiosamente nos braos... A macieza do corpo envolveu-o numa nuvem de calor etreo, f-lo quase desfalecer. Era um deleite novo, 
que o deixou quase em lgrimas, ao despertar de repente, desapontado. Queria voltar a senti-la, percebeu que a sua febre no se consumara, havia mais alguma coisa, 
desejava ir mais longe... Aonde? O corpo latejava-lhe, um soluo de pena contraiu-lhe a garganta. Nunca tinha experimentado nada de parecido no convvio de mulheres 
reais, nem da Dalilah. Passou a deitar-se todas as noites com a esperana de que o sonho se repetisse, de que Ela voltasse a surgir do nada para o envolver nos seus 
braos mornos de volpia.
Mas o sonho no se repetiu. Nada na vida se repete. Se tem



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sonhos, esquece-os. E coisa estranha: retrai-se agora, diante das mulheres!  que comea a experimentar sensaes novas, inquietantes, molezas, desejos vagos, pensamentos, 
fica muito tempo sozinho a magicar, teima em ver Dalilah na sala atravancada, os fitilhos pendentes no escuro, compreende agora melhor e tem saudades. Quando na 
horta, o ar livre, o calor, o sol, do-lhe difusa excitao; mete-se no caramancho, atrado pela quietude das verduras pintalgadas de sol e sombra, lnguido, com 
a energia toda concentrada num desejo. Sente enfim que tem corpo,  um corpo: as formas, as funes, a fisionomia, as mos (que parecem maiores que dantes), tudo 
o interessa e preocupa agora muito mais. Estuda-se secretamente ao espelho, na penumbra da casa, quando o deixam s.  delgado, plido, insignificante, tem os ossos 
salientes, as sobrancelhas claras e finas (as do irmo so negras e espessas), os olhos pequenos, um parece mais fechado que o outro... Suspeita e duvida de si prprio, 
s vezes julga-se irreal. Cresce verdadeiramente? Muda?
Cala e esconde estas emoes e fantasias, em que pressente alguma coisa de inconfessvel, nem aos amigos fala nisso.  um culto secreto, feito de anseios e reservas, 
dum sentimento opressivo, duma nostalgia que no sabe nomear. Tem vergonha, remorsos, sobretudo diante da me. Nunca vai agora para a cama, nem apaga a vela de estearina, 
sem gritar l do quarto: "At amanh se Deus quiser!" - s vezes no meio da algazarra das visitas na casa de jantar.
O gozo nasce nele, secreto, com a dvida e o sofrimento.
Ao contrrio do irmo, que tem amigos, conversas, cantigas, risos, vadiagens, namoros. O pai ralha, trata-o com severidade, promete castigos, ele "perde" os livros, 
falta s aulas, no tem emenda. " Hs-de ir longe! " - Mas tem boas notas! Afora isso, a sua paixo so os bichos-da-seda. Tem caixas cheias deles, traz folhas de 
amoreira, para os alimentar, eles mudam a pele, fazem casulo, as borboletas pem ovos batendo as asas como ventoinhas Ele vigia os casulos ansiosamente, espreita-os 
 luz do candeeiro, para saber se a crislida est em condies... Ferve-os. Mas nunca consegue resultado nenhum, se  isso que ele quer. Os bichos morrem de "epidemias" 
(talvez porque o Gabriel lhes pega s'


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escondidas, para sentir nos dedos a carcia fria dos anis), os casulos mirram, enegrecem, as folhas de amoreira secam, ele deixa tudo ao abandono.  triste olhar 
as caixas de charutos e sapatos, que ele amorosamente colecciona, cheias de ovos, excrementos, cadveres ressequidos!
No  que o sr. Augusto bata, o que se chama bater, dar pancada: puxa uma orelha, d um "banano". No Gabriel nunca tocou. S uma noite, ao voltar a casa, que ele 
o desmentiu diante dumas visitas (mas foi sem querer, julgou que o pai se tinha enganado numa explicao sobre um desencontro) o sr. Augusto lhe roou dois dedos 
na cara, quando elas se foram embora:
- Anda, para que te fique de lembrana que nunca se desmente o pai!
A cara no lhe doeu, mas ficou dormente, com formigueiros. Nunca supusera que os dedos do pai fossem to duros.
A dona Adlia, essa tem a mo ligeira. Mas esto habituados, h confiana, as palmadas ardem mas no envergonham, e ela depressa esquece as ofensas. Tambm apanhou 
muito, do pai e da me, e vejam l, fala deles com tanto amor. "S me fizeram bem as que apanhei!" Mostra a cicatriz que tem no couro cabeludo:
- Esta  dum sopapo que a vossa av me deu, de lado, com a mo coberta da massa do po! Alguma eu fiz, que ela correu atrs de mim, e eu deitei a fugir. Apanhou-me 
no quintal, dei com a cabea contra o muro, que tinha um caco de vidro saliente, o sangue correu! Foi pela rua abaixo comigo nos braos, aos gritos, direita  botica... 
Os trabalhos e as ralaes acabam-nos com a pacincia!
Assim . A dona Adlia tinha gente de fora, mulheres, a cegarrega de sempre. Arranjou-lhe a tina de banho, redonda, de zinco, o semicpio chamado, na casa de jantar 
ou de estar. Ele despiu-se, meteu-se na gua, achou-a fria de mais. Chamou e tornou a chamar, berrou, a me nem resposta. Podia ouvi-las na cozinha, de paleio. No 
faziam caso dele. Cantou, gritou, barafustou. Nada. Ento zangou-se. Subia-lhe o sangue  cabea. Sentado na tina, desatou a dar palmadas na gua, que espadanou 
e alagou o soalho. Bonito servio. A gua escorria para casa dos Mitelos, a senhora tinha o quarto de costura mesmo por baixo...
Quando a me apareceu e viu aquilo, ficou exasperada: "Eu


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aqui feita uma escrava, a aturar! " - P-lo em p e ferrou-lhe um par de aoites que arderam como sinapismos na pele molhada. Julgam que ele protestou? Isso sim. 
Ficou de olhos baixos, envergonhado, com vontade de pedir perdo-mezinha. Ela tinha razo, o arrebatamento dele fora imperdovel. Acabou o banho assim mesmo. Depois 
de tudo, a gua no estava assim to fria!
Como  que o tempo passa to depressa? O exame de primeiro grau foi numa escola pblica, a So Lzaro, cinzenta como uma fbrica, perto da Morgue. Ele e os colegas 
tiritavam, pior que banhos de mar, nem h comparao. Iam todos  maruja, a pareciam combinados, ele na fatiota de que arrancara as bandeiras e a coroa. O Orellana 
ia de almirante: jaqueta com muitos gales e oiro s que no tinha dragonas. Parecia mascarado, muito elegante.
O sr. Cunha-Belm (s este nome os amedrontava, diziammuito severo), de barbas compridas, risonho e avoengo, disse -lhes logo:
- Ora vamos a ver como  que estes marujinhos de gua-doce se aguentam no alto mar!
Todos se riram, logo muito bem dispostos, e passaram todos. Ele at tirou Distino, quem havia de dizer. Lia e escrevia muito bem, s nas contas  que era fraquinho, 
mas no fizeram reparo. Ou ele acertou sem dar por isso. "Fiquei distinto no primeiro grau!" - repetia, incrdulo e secretamente orgulhoso. Nem o irmo tinha conseguido 
tanto. Havia de lhe servir de muito. Ia fazer nove anos!
E de repente sentiu-se de uma inutilidade e tristeza sufocantes.



Quarta Parte


XXVI
FADO LIR
L vai coitado o sr. Queirs a correr escada abaixo, parece que leva fogo no rabo. Viu a dona Adlia no patamar, a tomar contas ao padeiro, e tocou com dois dedos 
no palhinhas, trs anos de uso. Sempre de olhos baixos, no d uma palavra a ningum, nem bons-dias nem boas-tardes. Todo curvado, sobe e desce como quem vai salvar 
o pai da forca, numa perptua vontade de chegar e partir. Sempre mal onde est.
Tem os olhos rasgados, negros, quase humildes; o bigode preto e reluzente, a cara branca e mole, a barba azul bem escanhoada e polvilhada, e por baixo do chapu 
espreitam-lhe os caracis. As vizinhas acham-no "bonito homem": e . Mas, com o pescocinho incrivelmente curto e estrangulado no colarinho de goma, o vinco de inquietao 
constante na testa, os passos breves e arrastados, a mo gorducha no casto de volta da bengala, ou a segurar o embrulhinho, todo ele traduz fraqueza e hesitao, 
e inspira mais d que simpatia. Quase nunca se ouve, mas quando discute com a esposa, o que  frequente, f-lo num tom de queixume nasalado e pastoso, e s vezes 
chora, entaramelado e molhado de ranhos. Um homem a chorar! Pai de dois filhos!
Chegado  esquina, volta-se a dizer adeus com a mo, e desaparece a toda a pressa. Mas no  a esposa, dona Mariquitas, que o vai ver  janela:  a Rita, a vizinha 
de baixo, a mulher do sr. Sepulcra. Estupentada e seminua, como costuma andar todo o santo dia por estes calores de julho: numa espcie de tnica



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amarrotada, dum branco suspeito e manchado de pulgas, que lhe deixa a descoberto o cachao sulcado e os ombros cor de tijolo, o comeo dos seios esparramados, flcidos 
como cmaras-d'ar vazias. Com que ternura ela lhe diz adeus! At parece me dele. A estas horas a dona Mariquitas ainda est no choco, de janelas interiores todas 
fechadas para o sol e o cu azul da manh por enquanto fresca.
So duas famlias intimamente relacionadas, mas os laos que as unem intrigam muito mais do que qualquer consanguinidade. A Mariquitas no vai  janela ver o esposo, 
mas nunca deixa de ir dizer adeus ao sr. Sepulcra. Alm disso consta-se (sic) que ela e o marido, o sr. Queirs, so primos carnais, e que o sr. Sepulcra no  casado 
com a Rita. Vo l perceber.
Bem, a Rita fica um pedao pela janela de peitoril a gozar o sossego da rua, a coar a grenha dum grisalho arruivado, os ombros nus e os peitos esbodegados. J o 
sr. Queirs deve ir ao Intendente, quando ela se lembra de bater as palmas, a chamar o marano da mercearia do prdio novo,  esquina. Pois sim, rala-te: ouvidos 
de mercador. Bem na ouvem, mas ningum acode. Porque os calotes destas duas famlias so assim. Agora, se querem comprar,  com os carcanhis na palma da mo, ou 
ento tm de ir ou mandar l-cima,  Cruz dos Quatro Caminhos,  Graa, ao cabo do mundo, onde ningum as conhea. Vm leiteiros, padeiros, homens do talho, reclamar 
 porta os seus crditos antigos: em geral no est ningum em casa. Estar esto, mas fazem-se surdos. Chegam a vir dos armazns, pastelarias e casas de ch da Baixa, 
e at dos ourives: nestas famlias nunca se abre aos credores. Enfurecidos, eles esmurram as portas, chegam a dar pontaps, s no se atrevem a arromb-las, chamam 
nomes - ladras, caloteiras, desavergonhadas. Mas l diz o outro, mulher honrada no tem ouvidos. Os vizinhos, cheios de curiosidade, irritam-se, intervm. Um inferno.
s vezes, depois de muito escarcu, l acorda algum dentro da casa da Mariquitas: ouam!,  a voz do sr. Sepulcra, profunda e desdenhosa, cheia de autoridade alfandegria: 
"A senhora est doente. Isto no so maneiras de vir perturbar o sossego duma famlia decente, a santidade do lar! Olhe que o mando prender!" - et cetera. Os coitados 
encolhem-se. "E depois, que misria e


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essa, cinco-mil ris de po! Com quem julga voc que est a tratar? Fique sabendo que s em jias tem a senhora para cima de quatro contos de ris! Quem se fornece 
do Leito & Irmo, joalheiros da Casa Real, e s veste das melhores lojas da Baixa, ia-se agora sujar por causa duma reles conta de comes-e-bebes? Ora v com Deus, 
homem, que na devida altura..."
Os maranos e caixeiros descem a escada s arrecuas, a pedir desculpa, e que at para a semana. No h como falar difcil, com imponncia, para convencer estes humildes. 
E ento naquela voz arrastada e nasal. S o nome dele, Sepulcra, deixa a gente... (Seplveda, j se sabe, mas um raio dum nome mais difcil de dizer!) Fica-lhe a 
matar, nem uma alcunha. Carrancudo e alto, sempre de sobrecasaca, botas de verniz com um tombo no joanete, a luneta azul de fita preta, dois vincos fundos de desdm 
aos lados da boca enorme e da bigodeira descada, a beiola vermelha como um naco de rabadilha pendente a escorrer cuspo, e o vozeiro de juiz de instruo criminal 
-  o Conselheiro escrito e escarrado. At nos faz pensar no Hintze, mal comparado. J um dia lhe chamaram "conselheiro", por engano ou troa: ficou inchado como 
um peru. Todo ele  proa. Na opinio do sr. Augusto, o tipo acabado do "sevandija": l o que isso quer dizer...
H credores espertos, que vm altas horas da noite: ento  que a Mariquitas no est mesmo. Isto no andar de cima, entenda-se: porque no primeiro, se algum responde 
no  o chefe da famlia, o sr. Sepulcra - quem responde  a Rita, esposa legtima, amiga, ou seja o que for. Ento temos o bom e o bonito. Rompe logo a ofensiva 
contra a arraia-mida. Boa sujeita, amiga de dar se o tem, sobretudo quando bebe, se lhe fazem chegar a mostarda ao nariz  um Deus-te-acuda. Porca e esguedelhada, 
robusta e sangunea, de olhos injectados e papudos, a voz roufenha, floreia um vocabulrio de fazer corar a Ribeira em peso. Uma lngua que  um peixe-espada. Pede 
meas. Antes o sr. Sepulcra, Deus te livre. Trata-os a todos de ladres, que roubam no peso (e no deixa de no ter razo!), o peixe  podre, o acar tem farinha, 
a hortalia est murcha, no po acham cacos de vidro, cabelos e baratas, o azeite  uma mixrdia, o prprio feijo  falsificado. Diante desta argumentao eles 
no resistem: no podem agora


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confessar que o pequeno comrcio  isso mesmo. E quem os rouba a eles? - At carbonrios e maons ela chama aos tristes. No h quem lhe subtraia um vintm. Voam 
pela escada abaixo, vexados, debaixo da saraivada de insultos. E ela ainda lhes atira com o braso dos antepassados  cabea: "Nasci num solar com as armas da famlia 
 esquina!"- grita.
 preciso fazer namoro a padeiros e leiteiros para lhes arrancar o cibo. Mas como a concorrncia  muita, l vem um que se deixa meter de portas adentro. Demora-se 
em cochichos, em silncios, s vezes risinhos, com grande ferro das vizinhas, que no conseguem destorcer nada. Saem plidos,  pressa, a tremer nas pernas. E da 
a uma semana o escndalo recomea.
Corrido um pedao, trambolhes na escada: so os rebentos do casal Queirs, a Beb e o Non, que saem. Chegada  rua, a menina pergunta l de baixo  Rita, com aquela 
voz atrevida, que lhe sai do nariz arrebitado:
-  Rita, queres alguma coisa de fora?
Todos ali se tratam por tu, coisa moderna e chocante. E a Rita:
- Traz-me duas cebolas pra fazer o refogado do almoo, que so horas. Tens lecas?
A garota encolhe os ombros, enxofrada:
- Bolas!
- Olha l, a tua me j se alevantou?
Novo arremesso da Beb, que no responde. A Rita resmunga qualquer coisa que parece "coiro", e tira-se para dentro. O pequeno de cima fica a seguir com a vista os 
dois manos que descem a rua. Quem lhe dera ir com eles! A Beb  plida, bonita, crespa e rouca como a me. No brinca seno com os dois matules do sr. Sepulcra, 
que so o terror do stio. Se algum estranho lhe fala, responde com trs pedras na mo e ameaa logo "ir-lhe para as fuas". Manda a mam quela parte, assim mesmo. 
 uma rita-macha. E o menino segue-a com olhos alongados. Nem a Dalilah se lhe compara!
O mano  diferente: a carinha do pap, alvo, macio e rechonchudo, caracis escuros, olhos redondos e pestanudos. Os rapazes do stio, se o colhem a jeito, arrastam-no 
para um vo de escada, martirizam-no. Ele chora, queixa-se  mana: "Maricas! Olha l se





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eles se metem comigo. Vou-lhes prs fuas!" - E eles respeitam-na. Gata assanhada. Por isso andam sempre os dois juntos, de mos dadas.  bonito v-los ir assim.
Gostaria de brincar com ela s escondidas, ouvir-lhe a voz rouca a dizer coisas incompreensveis na sombra, palavras proibidas. Isto, crianas andam sempre metidas 
por casa dos vizinhos, mas a mezinha no consente, franze a testa. Aqui no h misturas. Muita decncia, um cordo sanitrio em volta daqueles caloteiros. E ento 
malcriados! A Beb diz cada uma que  da gente se sumir pelo cho abaixo. E canta o Fado Lir como a mam, provocadora. A dona Adlia no gosta, mas ele escuta aquelas 
vozes fascinado, com um n na garganta.
As marquesas e condessas no ouvido pedem meas...
E no andam na escola, so livres! "Pudera, tm a escola toda em casa!" - diz a dona Adlia. De qu? A Beb sai s vezes com a mam, pela tarde, os caracis a esvoaar, 
laarotes, o vestido vaporoso muito curto, a mostrar as rendinhas. "Uma criana daquela idade com as pernas todas  mostra, uma vergonha! " - murmura-se. Brancas 
e rolias, parecem feitas de pudim ou manjar-branco. Que idade tem ela? Ningum sabe dizer ao certo. Mas l que so pernas de mais para andar  vela, disso tem ele 
conscincia, porque lhe do vontade de olhar e vergonha. Fica triste, privado, duma melancolia desgarrada e potica. Diz a mezinha que, por aquele andar, a menina 
est aqui est a seguir o caminho da mam. E ele alvoroa-se: porque a dona Mariquitas, alta e delgada, duma elegncia de classe, o nariz um nada achatado, rosto 
incolor sob o p-de-arroz lils, olheiras roxas muito fundas, lbios de cor de sangue coalhado, o cabelo castanho frisadinho, a voz rouca - essa exerce sobre ele 
uma seduo pungente, quase dolorosa. Quando ouve dizer o nome dela cora e vira a cara.
A primeira vez que a encontrou na escada, ela sorriu-lhe, roou-lhe na face dois dedos perfumados, enroscados de jias, e ele sentiu um calor correr-lhe o corpo, 
como naquele sonho: um desejo de se esticar, de se apertar a algum, uma fraqueza quase


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assustadora, parecia ele que se evaporava. Deve ter sido com ela que sonhou na tal noite, e quando pede agora que o sonho se repita,  a pensar na imagem dela. Um 
sonho impregnado de brandura e nostalgia, de irrealidade. At se deita mais cedo, com espanto da me, na esperana de sentir a carcia daquela mo febril, que o 
faz flutuar. numa espiral de luz.
A Mariquitas  uma mulher chic: alimenta o assombro, a  inveja, a maledicncia da vizinhana. Pinta-se, coisa escandalosa e e excitante. As olheiras roxas so uma 
insgnia de amor a bordo. Ele sabe-o do que l e do que ouve aos adultos: os homens morrem de paixo pelas mulheres olheirentas, dengosas, muito perfumadas, que 
parecem desmaiar dentro dos abafos de peles caras. A Mariquitas usa um vu que lhe reala o fulgor dos olhos.  como as damas l do Hotel, e faz lembrar (em melhor!) 
a senhora-do - senhor-Chteaudepraz. Sai todos os dias pelas cinco, cinco e meia envolta em sedas roagantes, e deixa na escada um rasto que aspira em segredo, como 
um pecado, numa embriaguez.
As vizinhas correm todas a espreitar: L vai ela, l vai ela! Comentam as toilettes, os chapus, as jias, as bos: Mula bem arreada! Olha, j leva outro vestido, 
e  novo! Onde ela o vai buscar sei eu... Assim todas as tardes. Chega a ir de trem fechad um coup que a vem buscar. A ele, uma coisa indefinida aperta o corao. 
No  o mesmo que sentia com a Dalilah,  diferente, pior. O perfume entrou nele e impregnou-o. Ficou a am-la desde aquele dia, se ao menos ela lhe tornasse a passar 
a mo no rosto... At lha beijava! (Teria coragem?) Amor sem remdio nem esperana, nada mais que um aroma que passa e deixa uma esteira de lgrimas secretas, ao 
som de Fru-Fru entredentes. Nem as manas Perliquitetes lhe deram nada assim.
Ela a vai, para onde ir? Deixa os filhos a guerrear em casa ou a reinar na rua. No volta at horas mortas, pela madrugada ou no dia seguinte, s Deus sabe. Chega 
a ficar fora dias seguidos, e o silncio amortalha ento o prdio inteiro. Muitas noites volta acompanhada do sr. Sepulcra, so duas, trs, e quatro da manh.  
o que ele ouve dizer: quem  pequeno dorme e no v. Vm de Algs, do Dafundo, dos casinos e clubes, da vida nocturna, do deboche, das areias de Cascais "onde eu 
tenho encantos tais!
O corao bate-lhe de ansiedade e desejo informe. Que mundo




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empolgante! Odeia o Sepulcra, que faz na vida dela uma sombra protectora. Quando ela tem chiliques, lgrimas e gritos,  sempre ele que vem l de baixo, de luneta 
azul e beiola cada, silencioso e astuto como um prestidigitador, mas de sapatos a ranger, para lhe acudir. A Mariquitas acalma logo. Aquele homem tem consigo uma 
fora qualquer que o impe e obra milagres. Como ele conserva estas duas famlias unidas, nos eixos! "O remdio dele bem eu sei qual ! " - diz o sr. Augusto, e 
funga de riso. Mas qual  ele? Qual  o remdio, a fora, o magnetismo?... Um homem to feio! Ningum explica, e o Gabriel tem suspeitas que o acabrunham. Tudo naquela 
gente o intriga.
O sr. Queirs  camaroteiro, vende bilhetes atrs de uma janelinha. E ele gosta de imaginar que a dona Mariquitas pertence tambm a esse outro-mundo nocturno, impondervel, 
irreal, onde tudo  permitido e sem peso, como no Sonho: o Teatro. Um mundo de poesia e disfarce.
Se a Mariquitas leva uma vida de elegncia e mistrio, a Rita, ao contrrio,  toda domesticidade, enxovalho e desordem.  ela quem faz o rancho para aquela tropa-fandanga, 
quando as casas de pasto ou de jantares a domiclio deixam de fornecer, por falta da tal-coisa. O que eles comem s Deus sabe. Os manos Queirs vo buscar a comida 
a casa dela, em tachos. Todo o dia berram: " Rita!  mam!" - escada abaixo, escada acima, e h cantorias, disputas e choros. As duas famlias volta-e-meia arrenegam-se, 
e ento cai o Carmo e a Trindade: "V beberdamerda!" - Batem portas, voam frechadas e azagaias: "Porca! Relaxada! Vai tomar um banho! -No sou cumati, que s te 
lavas prandaresadar! - Pois sim, morde-te! Compra d-ris de alfinetes e arranha-te!"
O pequeno do lado no entende, mas sofre de ouvir falar assim a dona Mariquitas.  porque a provocam, com certeza. Graas a Deus, isto no dura: da a horas, o mais 
tardar no dia seguinte, reinam de novo a paz e a harmonia. O sr. Sepulcra reconcilia-as por artes mgicas: " Mariquitas, j queres que te mande a atrombiose?" - 
Os meninos de cima e os matules de baixo trambulham na escada, gritam e riem, cantam, do patadas nas portas, ou cochicham pelos cantos. Percebe-se perfeitamente 
que os filhos do beiana tiram vantagem daquela intimidade, mas que h-de a gente fazer?  roer-se de inveja e despeito. O Gabriel
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odeia-os. ("Filho dum galego!") A Mariquitas torna a entrar em casa a desoras, com o funcionrio, ouve-se cantar o Fado Lir, Fru-Fru ou Quando o Amor Morre!, correm 
guas. " Non, traz-me l a cafeteira com a gua quente mas v l no te queimes! " - e o Non esfrega as costas quentes e polidas da mam." Quem me dera ser filho 
dela!, pensa o pequeno, afogueado e com remorsos.
A manh correu sem ele dar por isso, na sacada,  sombra, a ler um livro que no entende, e a observar o mundo. Vem a me cham-lo para almoar: "Este pequeno, que 
no h quem no tire da sacada!" - Comeu e para ali voltou. Tempo de frias, de solido.  o seu posto de observao da vida. Mas o sol bate agora em cheio, d tonturas, 
no se aguenta. Que outro remdio seno ficar de portas adentro.
Coisa da uma e pico, sai o sr. Sepulcra: intransigente em matria de horrios como de princpios ( um franquista indefectvel), nunca se mostra antes do meio-dia, 
uma hora. Ele a vai de proa alada e beiola-cada, parece um galeo das ndias. Empunha o bengalo como um basto de almirante. O mundo  dele. Chegado  esquina 
vira-se tambm, e com a mo enluvada de pelica preta (anda de luto perptuo por suas majestades, altezas e mais famlia), acena um adeus solene e prolongado ao pessoal 
debruado de todas as janelas dos dois andares, a v-lo ir: a Rita e os matules, em cima a Mariquitas e os rebentos.  para esta ltima, fraca mulher, que o funcionrio 
olha de preferncia, e atira beijos enluvados: ainda despenteada e plida da noitada, sem maquilhagem, em roupo, segura as alvuras do seio com uma das mos e com 
a outra as ondas do cabelo, onde o vizinho-menino sente vontade de se deitar a afogar.
"Adeus pap! - Adeus Lu! - Volta cedinho!" - Ficam nisto que tempos. As janelas da vizinhana cheias de gente a cocar. Jesus-Senhor, a sada deste senhor para a 
repartio parece a largada para os Brasis. J leva o almoo no bucho, vai confortado. Para as Alfndegas, ou l para onde . As coisas marcham, o mundo no muda. 
Ou quem sabe.
A Beb e o Non foram para dentro puxar os cabelos um ao outro, e a dona Rita e a Mariquitas ficam um pedao a dar 

        245
taramela. Debaixo, com a nuca apoiada no peitoril lascado e retalhado, a boca escorbtica escancarada a mostrar a falta de inmeros dentes, a Rita tapa os olhos 
com as mos, a proteger-se do sol:
- Queres que te mande j o almoo? Tenho carne guizada com feijo carrapato, foi o que se pde arranjar. Mas t bem bom. Ou tomas primeiro banho? E olha l, ato 
ont' noite gozastes? Aquilo foi bom? E a respeito disto, arranjou-se?
O pequeno a fingir que l as Mil e Uma Noites de assinatura, com estampas, mas no l nem entende a conversa, demasiado complicada para os seus verdes anos. Perdem-se 
palavras no ar. De tudo isto s lhe ficam noes fumosas, de ouvido. Disfara, para que elas no faam reparo de ele ali estar. Ah, mas s para ver, para ouvir a 
Mariquitas - como  linda assim, no domstico abandono! Que bom seria poder aninhar-se-lhe no regao!
Mas este sol canicular est que  uma praga do inferno. A pele das mos pega-se ao parapeito esbraseado, a tinta das paredes empola, racha, desprende-se em escamas, 
subtilmente. O remdio  ficar deitado no cho,  sombra, a ler e a sonhar com Zobeida, ou a olhar as imagens ainda incompreensveis dos Miserveis ("Fantina era 
bela sem o saber"), a hesitar entre A Galera Chancellor e uma aventura de peles-vermelhas. A alternativa  ir l para dentro olhar o muro branco das terras, da varanda 
da cozinha, onde sopra uma aragem que cheira a esgotos, no silncio do saguo. Que pode fazer um menino solitrio, em frias, seno aborrecer-se mortalmente, ou 
ler, ler livros que mal entende e o comovem ou exaltam em vo. A vida real, para ele,  parte os escndalos da Baixa, a que o pai alude em meias-palavras, so aqueles 
vizinhos.
As mulheres calam-se por fim:
- Est que  de frigir os miolos, no se atura. Com licena, filha, at mais logo!
E a soalheira apodera-se da fachada, recoze-a, bebe-lhe o leo. De vez em quando ele vai  sacada espreitar: no se passa nada. A rua vazia, o sol de rachar, nem 
se ouve um prego. H uma palmeira imvel, afogada num quintal, mesmo em frente. Lisboa, que morrinha esta, que vagar em tudo! J nem se fala no fim do mundo. Apesar 
de crises e boatos, a monarquia est dum


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sossego aflitivo. O regicdio esquecido. H comcios l para cima na Avenida Dona Amlia, no Alto do Pina, romagens ao Alto de So Joo: mas tudo isso  longe. Mais 
longe ainda, invisvel, irreal, a serra de Sintra, coroada de nuvens  uma memria de arvoredos e frescura. Para l dela o mar refulge...
Da sacada inundada de sol fulvo, ele curva-se sobre a rua deserta e calada, abrigando a cabea com um livro: pode ver assim um pouco do interior dos vizinhos, em 
baixo, mas s junto s janelas. A voz pastosa e raspante da Rita canta uma trova de revista. Depois levanta-se uma algazarra - gritos, risota descompassada, um estrondo 
de luta, de mveis empurrados e cadeiras tombadas, de corpos baqueando no soalho:  ela a reinar com os filhos! O menino curva-se mais, quase perigosamente.
E nisto, por uma das janelas, v-a rebolar nas tbuas sujas, inundadas de sol, engalfinhada nos rapazes. Lutam algum tempo, entre pragas e risos, at que o mais 
novo, que  o mais parecido com o pap, antiptico e bruto, com os joelhos em cima da me, a amachuca e lhe martela a cabeorra contra o cho. A Rita, indefesa e 
prostrada, sem pudor, sacudida de espasmos de riso, deixa-se maltratar... Oh Senhor, iro eles mat-la ali mesmo? e ningum lhe acode?! (Mas  sempre assim que eles 
brincam, numa animal fraternidade, a me borracha e os filhos matules. E sero realmente filhos dela? chamam-lhe Rita, s vezes mam...)
De repente o mais velho desata a esmurrar por trs a cabea do mano, como se quisesse dar cabo dele, para o tirar de cima da me esbodegada e passiva. Rolam os dois, 
a morder-se e a agatanhar-se como dois leopardos. A Rita ainda esboa um gesto, tenta talvez falar, mas a cabea oscila-lhe, tomba de lado, e ela adormece bruscamente, 
enquanto os filhos se batem: de braos em cruz, os ombros e o seio cor de tijolo  mostra no croch da camisa enxovalhada, os sovacos ruivos e orvalhados de suor 
ao lu, ali fica a babar-se e a roncar, a cozer o tinto do almoo ao sol implacvel de julho.  um espectculo terrvel, que empolga e fascina.
Sem estes vizinhos o mundo seria duma atroz monotonia. Se no tivesse medo ao beiana e aos matules, e a mezinha o deixasse, era assim que ele gostaria de viver 
e brincar. H neles


        247
qualquer coisa de livre, animal e primitivo, que contrasta com a sobriedade da sua gente, e o atrai.
O resto do dia correu sem incidentes. Pelas cinco saiu a dona Mariquitas, como de costume, mas ningum a foi espreitar. Passadas as seis chegou o sr. Queirs, a 
correr, para jantar o que houvesse, e mais tarde tornou a sair com os seus passinhos aodados, para ir vender camarotes. E a noite veio vindo, abafada e vagarosa.
O Gabriel jantou em silncio, de olhos no vago, deitou-se a ler durante meia hora  luz da vela, depois apagou-a e ficou a pensar em aventuras, mas sem grande resultado: 
as imagens do dia perturbavam-lhe a fantasia, e alguma coisa nele pedia enlevos e branduras. Mas a noite traz no bojo muitos dramas e mistrios que excedem todos 
os sonhos e novelas a trs vintns o caderno.
Devia ser tarde, acordou sobressaltado a ouvir correrias que abalavam o prdio, vozes abafadas, portas a bater, murmrios cavernosos do sr. Sepulcra, suspiros e 
ais, silncios de suspenso, depois soluos engasgados: era o sr. Queirs a chorar  solta, como uma criana (as que choram). Havia o quer que fosse, e ele ali metido, 
quieto-inquieto, a escutar sem perceber, forado a adivinhar o sentido de tudo! Com o corao agitado, pula no cho e vai escutar  porta do corredor, entreaberta: 
deve passar da meia-noite, porque o irmo dorme, o pai j voltou, e do quarto de casal vem uma rstia de luz e um murmrio de conversa. O sr. Augusto traz sempre 
da Baixa intrigas da vida lisboeta, da poltica, do Hotel... Sim, est a contar alguma coisa  esposa.
O Gabriel avana descalo, p ante p no corredor, segurando a camisola demasiado curta contra o ventre inexplicavelmente tenso. E pra a ouvir frases soltas, farrapos 
duma narrativa entrecortada de risos e murmrios...
-.. Qual! Foi numa casa de luxo, um primeiro andar ao Chiado, imagina tu. Veio a rusga, um assalto... Meia dzia de senhoras elegantes... em flagrante...
A esposa interrompe-o com perguntas risonhas, na voz grave. O que essas damas faziam num primeiro andar ao Chiado em plena tarde de julho, em vez de andarem a vogar 
sonhadoramente no lago do Campo Grande ou a passear no jardim Zoolgico (era o


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que ele faria, se fosse com a dona Mariquitas), isso no consegue ele compreender. No dizer do pai, as senhoras estavam todas em trajos menores:
- Senhoras da alta metidas em sarilhos da Baixa! - e tem um frouxo de riso. - E a dona Mariquitas tambm foi na rusga, pois ento cumi!
Desta vez a me solta uma risada gostosa e levanta a voz:
- Relaxadas! Bem me queria a mim parecer. V l tu esta proa, todo este luxo, no que isto havia de dar. E agora?
- Oh, agora o beiana vai meter empenhos. Quem tem amigos... Fica tudo abafado, tu vers. Nem os jornais dizem nada. Devia l estar gente grada. No se falava hoje 
noutra coisa, na Baixa. Amanh j ela est de volta...
Ouvem-se passos, o fecho da porta range, o pai vai sair para o quarto das lavagens - o Gabriel corre a meter-se na cama com ps em cibras e o corao amachucado. 
A dona Mariquitas em trajos menores! Levada na rusga para o calabouo! Que quer isto dizer? Assim, ela sai todas as tardes, perfumada, elegante, macia como um amor-perfeito, 
e em vez de ir para as praias e jardins passear nas sombras de alamedas entre hidrngeas e rosas, vai-se meter num primeiro andar de luxo ao Chiado, sombrio e atafulhado 
- a fazer o qu?
E a vizinha ganha subitamente aos olhos dele um prestgio suave e doloroso, de mrtir. Levada para o calabouo em roupas, menores (ordens menores). Ao mesmo tempo 
punge-o a dor do cime contra desconhecidos, a privao da sua irremedivel pequenez. Cerra os punhos numa luta imaginria, a defend-la da polcia: arrebata-a nos 
braos delgados, apertada ao peito, ao ventre latejante, vai montar a cavalo, numa das mos o revlver de seis tiros... O Sepulcra interpe-se, nojento, e arranca-lha 
sem dificuldade, ou  ela que se deixa levar, ele vai meter empenhos como nos exames! "Amanh j ela est de volta! " Amanh, como  longe!
O sr. Queirs acabou de chorar tudo. Algum desce a escada em passos cautelosos. A portinhola dum trem estrondeia na rua, rangem rodas no macadame. O prdio acalma 
devagar, o sangue dele tambm. O relgio Waterbury parece marcar um compasso mais lento. Vem da rua silenciosa o claro indirecto dos lampies.



        249
Os pais dormem.  noite,  tarde, o tempo longo. A imagem da dona Mariquitas, impalpvel, lils, fosforesce no escuro dum primeiro andar sombrio, ao Chiado. E o 
pequeno, a ss enfim com ela, j liberta de conflitos, adormece a sorrir, sentindo na face a carcia voluptuosa daquela mo pesada de aromas e de anis: recompensa 
dum primeiro e grande amor, secreto.

XXVII
RETRATO COR DE MARFIM
- Muito eu aprendi com aquele senhor-mestre Cunhal!, Contas, regra de trs, juros e quebrados, mil histrias e poesias, o Dom Jayme de fio a pavio! Formado em Coimbra, 
ningum sabia dizer por que razo se fora meter naquele ermo... At msica ele me quis ensinar, como  Virinha do Cardal. Que bem que ela cantava ao piano: "Jovem 
Llia abandonada... pelo seu ingrato amante!" (A melodia, j se sabe,  da Semramis. ) Imaginem vocs quase trinta anos mais velho que a aluna, e um dia fugiram 
juntos, que ningum lhes tornou a pr a vista em cima. Andava ela nos quinze! Dessa idade tinha eu o juzo duma mulher...
A runa dos pais atirou a Adlia para Lisboa na idade em que muitas ainda brincam com bonecas. Veio para casa dum fornecedor da loja, o sr. Serrano,  Rua dos Fanqueiros, 
homem srio, de fortuna, negociante daqueles tempos. Ama-seca da Madalena, que teria ento dois para trs anos. Era como uma pessoa de famlia, ou assim diziam para 
a no melindrar, filha de to boa gente. Iam juntas  missa," ao Passeio Pblico ouvir a msica ao domingo, e a Pedrouos uma vez por outra. Pedrouos era ao tempo 
o ponto de reunio da fina-flor constitucional, conselheiros, bares de fresca-data, ministros, gente da finana. Ela usava chapu. Chamavam-lhe "governanta".
Aquele senhor Serrano era um santo! A fotografia dos cinquenta e poucos anos, que ela guarda com tantas outras recordaes, mostra-o com um sorriso triste a boiar 
na face redonda e


        251
descorada, duma suave e bondosa gravidade: a do sofrimento resignado. Tinha os olhos dum azul aguado e transparente, com a fadiga das noites mal dormidas: o cabelo 
fino, numa escovinha que comeava a pratear-se ao alto da testa lmpida; o bigode sedoso e comprido. O retrato tem a delicadeza dum marfim doirado pelos anos.
- Era bonito! - diz a gueda, a acarici-lo com as polpas dos dedos.
Andava sempre de plastron com uma prola, e de colar duro e baixo. Erguia-se pelas seis, trabalhava no armazm ou no escritrio particular, em casa, e comia muitas 
vezes na cozinha, com o pessoal. "Vocs  que so a minha famlia" - costumava dizer. Seguia uma dieta rigorosa prescrita pelo Dr. Moreirinha, grande sumidade. Calmo 
e brando, vivia na abastana como vivera na modstia dos comeos, indiferente s satisfaes e vaidades que o dinheiro assegura. A sua nica ambio era mudar-se 
da Baixa para os bairros modernos, que ento comeavam a erguer-se da lama dos caboucos ao longo da Avenida, para l do Passeio Pblico, nas ruas abertas pelo Rosa 
Arajo, o "Coc".
Dizia-se que uma paixo solapada levara a Leonor de Mendanha a romper com a famlia, para se unir ao mercador da balana decimal. Alta, orgulhosa, muito requestada 
- at havia quem a comparasse, em nova, com a princesa Dona Amlia de Orles - era ento duma grande formosura, a pele dum branco-mate e vivo, o cabelo louro-escuro, 
abundante e frisado, que parecia crestado pelo fogo, o nariz aquilino. Uma grande dama, que impunha respeito e medo. " hoje aquela velha encarquilhada do Largo 
do Pelourinho!"
Os Mendanhas eram fidalgotes emburguesados, metidos em negcios da Bolsa, fsforos, emprstimos, tabacos, caminhos-de-ferro - toda a ndia domstica do Fontes, a 
quem eram muito chegados. Amigos do luxo, de festas e viagens, de "fantochadas" no dizer do senhor Serrano, tinham palacete  Junqueira, passavam temporadas em Sintra 
e Cascais, com a Corte, iam muito a Paris, tinham camarote de assinatura em So Carlos, no Dona Maria, e na praa de touros ao Campo de Sant'Ana, e o coup sempre 
 porta, de cocheiro e trintanrio de libr. No lhes faltava dinheiro nem prestgio, e desdenhavam do cunhado, apesar do



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faro comercial com que ele soubera amealhar fortuna. Chamavam-lhe "o caixeiro".
Marido e mulher viveram muitos anos como Deus com os anjos, indiferentes os dois  frieza da parentela. Depois da Madalena vieram dois rapazes, dois vivos demnios. 
Por volta dos quarenta, tinha o mais novinho dez e a Lena uns quinze, a dona Leonor deu em ter crises de mau gnio e depresso, e acabou por se entregar  bebida, 
mas da forte, genebra, conhaque e rum, coisas caras, estrangeiras: nem vinhos nem licores. At ento, aquela vida tinha sido um cu aberto! Jantares, teatros, passeios, 
uma festa permanente. s noites enchia-se a casa de gente, amigos, parentes, relaes. A Lena, muito loura, um anjo, tocava e cantava rias ao piano; havia jogos 
de prendas, danas de roda, quadrilhas e lanceiros, tomava-se ch e bolos, serviam-se vinhos finos, um clice de licor, refrescos de orchata e salsaparrilha. A menina 
Adlia, mestra, chaveira e mordoma, alma da casa, recitava versos de Toms Ribeiro, Soares de Passos, Francisco Palha, Joo de Lemos, trechos de dramas do Dona Maria. 
Os caixeiros, galegos e criadas em magote s portas da sala, gozavam aquilo! O senhor serrano, orgulhoso e feliz.
A dona Leonor aguentava-se at s tantas, nove ou dez, sem tomar nada. De repente levava a mo  testa - "C est a maldita enxaqueca!" - levantava-se, com licena, 
e ia-se meter sozinha no quarto. Quando da a pouco o marido ou a menina Adlia iam espreitar, saber dela, encontravam-na espojada na cama, nua ou pouco menos, com 
a botija cada ao lado no tapete, a falar sozinha, ou roncando, s vezes at se urinava.
Fechavam-se todas as portas para que ningum a ouvisse - as visitas saam em bicha, vexadas, desejando as melhoras, prometiam voltar - mas sabiam muito bem o que 
se passava, j no era segredo para ningum. At nas lojas e armazns da Baixa era' falado. E pouco a pouco deixaram de vir. Mandavam saber, com muitos recados. 
Por fim, nem os irmos apareciam.
Assim que anoitecia, a dona Leonor trancava-se com a infusa nos seus aposentos e nem rogos, nem lgrimas, nem ameaas tiravam das unhas. Arrenegou de tudo, marido 
e filhos, lar e vida mundana. Ela, que dantes era to devota e nunca tinha uma palavra torta, com a "bbeda" era de fugir: dizia cobras e lagartos

253
dos padres e da religio (embora sem deixar nunca de ir  missa), e no havia insulto e palavro de arrieiro ou colareja que ela no urrasse l do fundo do grande 
primeiro andar pombalino. Os filhos eram a "cachorrada"; o marido, o "bacoco" ou "patrazana". Nem o queria ver, nem cheir-lo, nem que lhe ele tocasse! Coitado do 
senhor Serrano, to terno e to bom.
Os mdicos receitavam distraces, mudana de ares. Mas no parava na quinta, em Colares, o ar do-mar punha-a como doida, s queria andar nua, e ento eram camoecas 
de caixo  cova. Estavam uma vez em Paris havia trs dias, quando lhe deu uma veneta: partiu louas e bibels, rasgou vestidos e cortinas, e ps-se a cantar  janela, 
para os Campos-Elseos, em camisa! Tiveram de voltar a toda a pressa. O marido, que a sabia boa e no fundo amante, e pensava na paixo que os unira, no podia entender 
semelhante reviravolta. Tinha pena dela, sofria atrozmente, resignava-se e perdoava. No levantava olhos para mulher nenhuma.
A Leninha, coitadinha, to frgil e delicada, anjo abstracto de candura, sonhadora, "astnica e linftica" segundo a Faculdade, "mulher ideal" na linguagem tardiamente 
romntica do tempo, ia para o seu quarto lavada em lgrimas, feita uma penitente, e no era para menos, ver a mam naquele estado, uma senhora educada e distinta, 
de to boa famlia, que dantes impunha respeito! Rezava fervorosamente at altas horas, a Leninha, metida na camisa muito comprida, toda arrendada e vaporosa, como 
uma viso de Musset ou Chopin. Tinha um oratrio s dela, uma preciosidade, todo em pau-santo e marfim, muitas imagens, Svres e biscuits, cristais da Bomia, lamparinas 
doiradas, castiais de prata, flores... A menina Adlia queria-lhe como a uma irm mais nova, e passava horas a convenc-la: " Leninha, meta-se na cama, que lhe 
faz mal estar assim ao frio, descala! Se apanha uma pneumonia... " - Mas ela parecia que fazia aquilo j de propsito para adoecer: "Quero morrer depressa!" - dizia. 
Raras vezes iam agora a um teatro, s soires onde ela dantes brilhava como uma lua de ouro. Voltava sempre aos dramas do Dona Maria - A Cruz de Madalena, O Alfageme, 
O Marqus de Villemer, A Vida dum Rapaz Pobre, O Duque de Viseu, O Cardeal de Richelieu, Rogrio Larocque, e assim - muito plida, com dores de
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cabea e desmaios. A ama dava-lhe sais a cheirar, esfregava-lhe as fontes e os pulsos delgados com gua-de-colnia ou vinagre aromtico.
O Dr. Moreirinha torcia o nariz: aquela menina era uma pluma, um passarinho, e ento uma falta de apetite assim! receitava-lhe tnicos, xaropes, iodo-tnicos, farinhas 
peitorais ruginosas. A voz dela era um cristal, mas to fino e vibrtil, que o pai tremia s de a ouvir, andava sempre em aflies e pressentimentos. A menina Adlia, 
ento, dizia ao pessoal compungida: "Vejam l de que serve o dinheiro. A felicidade no se compra nem a peso de oiro!" - Sem ela, sem o vaivm dos caixeiros, as 
diabruras dos rapazes (felizmente sempre s cavaleiras do moo do armazm, o Severino Zambujeira), aquela casa seria um tmulo.
Adlia punha e dispunha, tinha as chaves de tudo, e como era mos-rotas (com a tcita aprovao do senhor Serrano), todos a adoravam. S ela sabia meter nos eixos 
a dona Leonor, quand esta andava com os seus "azeites". Paciente e jovial, cantava com a voz bem timbrada as cantigas da sua terra, modinhas e romanas em voga, 
trechos de operetas e mgicas, e narrava episdios e histrias de mistrio e fantasia. Ajudava a sustentar os pais velhos, l na Beira, ajudava irms e irmos casados 
e dispersos, todos recorriam ao seu engenho e fora. Robusta e morena, tinha uns grandes dentes brancos e perfeitos com que, aos vinte anos, erguia do cho, a rir, 
uma saca de arroz de vinte quilos. Com os olhos rasgados e pestanudos, a boca severa e grossa, atraa e continha em respeito os mais atrevidos. Muito o senhor Serrano 
gostava de lembrar o dia em que ela, no Passeio Pblico, dera uma roda de bofetadas num militar que ousara erguer a mo para a redondeza convidativa do seu seio. 
Rapariga s direitas.  Um antigo guarda-livros da casa, homem srio, neurastnico, e alguns vintns, quisera casar com ela, e dizia-se que, de desgosto, fora parar 
a Rilhafoles... Pretendentes no lhe faltavam. At o Zambujeira, o tromba-de-porco, quantos anos mais novo, brutinho ao chegar da provncia, a quem ela ensinara 
o b-a-b as quatro operaes - at esse secretamente a requestara. casamento e a mortalha...
Os pequenos queriam-lhe tanto quanto aborreciam a me. Ningum os aturava nos colgios, tinham afugentado a Miss 


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Pearl, ameaando-a com a tesoura da costura, e s as infinitas reservas de pacincia e bom humor da menina Adlia tinham conseguido incutir-lhes os rudimentos da 
ortografia e da aritmtica. Mesmo assim, o mais novinho, o Adalberto, cravou-lhe um dia um lpis aguado nas costas da mo, esquecida na mesa, ao ensinar-lhe a regra 
de trs... "Ainda aqui tenho a marca, vem vocs, essa pintinha azulada? Prmio da pacincia para o resto da vida!"
O senhor Serrano empalidecia de horror diante da ferocidade dos rebentos, que saam aos Mendanhas estabanados. Mas no era homem para castigar ningum. Tinha concentrado 
todo o seu amor na filha, e vivia no terror de a perder: a Leninha s de olhar a chuva da janela se constipava, e passava dias de cama, no grande casaro hmido, 
sombrio e sem calefaco. Pedia ento  amiga que lhe contasse ou lesse histrias, versos e romances.
A Adlia, risonha, recitava-lhe com voz dramtica e profunda trechos do Dom Jayme, a "Judia", a "Lua de Londres", "O Noivado do Sepulchro", poemas histricos - "Oh 
quem , como se chama, esse guerreiro da Cruz? /  portugus,  o Gama, que  Ptria deu nova luz! ", ou " A Espanha, vaidosa Espanha, gemendo curva a cerviz, que 
quase a c'roa lhe apanha Dom Joo, Mestre de Aviz! " - episdios dos dramas que ento inflamavam de patriotismo decasslabo as plateias da Casa de Garrett, imitando 
os actores e actrizes coevos, a Rosa Damasceno, o Antnio Pedro, o Taborda, os Rosas, o Brazo, e a prpria Pepa, das revistas do Condes: Arroyo tyrano! Deixa essa 
oposio... "
Narrava-lhe, alm disso, histrias de amores cndidos, frustrados, e casamentos de convenincia do tempo dos morgados, de raptos e sequestros em mosteiros, que a 
faziam chorar de pena; ou lia-lhe as cartas de amor do guarda-livros neurastnico, com que se riam ambas a perder. Sabia pr um picante naturalismo nas suas declaraes 
romanescas, e s vezes um rubor intenso de excitao acendia as faces da Lena, cujo corao batia deliciosamente... A menina agarrava-lhe a mo, dizia: "s a minha 
inspirao, sem ti eu no saberia viver! Quem me dera que fssemos irms!" - Adlia, j nos trinta, o seu sangue rubro e impetuoso emprestava uma vida nova quela 
alma de fim de sculo.
O senhor Serrano vinha p ante p surpreend-las nos inocentes


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devaneios, e ficava a escutar pela porta entreaberta. Umas vezes fugia engolindo as lgrimas, os versos mexiam com ele l por dentro, e ia para a sala ler o jornal 
do Comrcio, para disfarar. Outras, inquieto, chamava Adlia de parte e perguntava-lhe se aquilo no fazia mal  Leninha, to nervosa e sensvel, to fraca
Mas a filha no podia passar sem a amiga, no a deixava. embora, implorava: "No me tire a Adlia, pap! A minha nica' amiga! Sem ela eu no resisto! " - Era tarde, 
ia nas onze, e no dia seguinte Adlia tinha de estar a p s cinco e meia, seis horas, para dar governo quele mundo de gente. Isso sim. O pap ia-se embora, abanando 
a cabea antes do tempo branca, de bigodes murchos, apoquentado com a sade da filha, que ardia numa perptua exaltao, dormindo pouco, comendo como um pisco. A 
Adlia, cheia de vida, frescura e vio na sombra do pombalino e do infortnio, ficava a entret-la at que a via adormecer: ento, tirava a mo com mil cautelas, 
da mo suada e transparente que a retinha, agora descontrada no sono, espreitava o morro da lamparina, dava um olhar a tudo, fechava a porta sem rumor, e ia para 
o seu quarto costurar at altas horas, ou ler poemas e romances que lhe nutriam a insacivel fantasia com razes na realidade. Calafetava as frinchas da porta para 
que de fora se no visse a luz, e era frequente o romper do dia vir encontr-la a p: ento lavava-se, penteava-se, e comeava a lida a rir e a cantar, como se tivesse 
dormido o sono dos bem-aventurados.
O senhor Serrano sofria de palpitaes e falta de ar, abafava aos ais na cama, ao lado da esposa bbeda como um matalote, toda em caracis, a babar as rendas da 
almofada: levantava-se e ia postar-se  janela de peitoril, a olhar a Rua dos Fanqueiros, por onde s passavam noctvagos e fadistas, mulheres de saias engomadas, 
um que outro polcia encolhido ou guarda-nocturno com a lanterna de furta-fogo, a sacudir o molho das chaves.  luz do gs a Baixa era triste e espectral. Davam 
horas na S, gigante insone e vigilante sobre a quietao dos velhos bairros, e ele arquejava como se todo o ar deste mundo lhe no bastasse para respirar. Vagueava 
ento pelo imenso primeiro andar silencioso, em pantufas, rodo de negros pensamentos. L em cima, no sto, o Zambujeira dormia havia muito, abraado ao livrete 
das economias: nica esperana do seu negcio. Os filhos...


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Uma noite entreviu luz no quarto da governanta: hesitou, parou, bateu de leve com os ns dos dedos, que a gota comeava a deformar:
- No abra, Adlia, no abra.  s para lhe dizer que so horas de descansar. J vai nas trs!
Ela, que no tinha medo a fantasmas, quanto mais quele justo, abriu a porta e ficou a olh-lo com pena, plido, de olhos aguados e papudos, metido no balandrau.
- Estas horas, e a Adlia sem dormir! Isso d-lhe cabo da vista, a costura no branco e a leitura  luz do petrleo. Que diria o seu paizinho, se chegasse a saber 
que eu consinto nisto! Deite-se, ande, e apague a luz.
Deixou-se ficar entreportas. E ela:
- Estava aqui a acabar uns pontos...
Tinha um irmo embarcado, o Amndio, e outro, o Cincinato, no Par; e os velhos l na terra,  espera do que ela mandava... A vida! Era tudo para os outros, nada 
para si. O senhor Serrano abanou a cabea:
- A Adlia  boa de mais. Olhe que parentes no agradecem. Sou eu que lho digo, que bem o tenho aprendido  minha custa. Aceitam a esmola, e mordem a mo que lha 
d!
Calou-se um pedao, ela de olhos baixos na costura, sem responder.
- Oxal encontre o marido que merece, honradinho e seu amigo. To inteligente e delicada!
- Oh, senhor Serrano...
-  mesmo. Mulheres assim hoje em dia h poucas. Veja a sorte que eu tive. Que me Deus me deu para estes filhos! Se um dia acabo...
Suspirou, inquieto com o futuro, a morte talvez em breve, e o lbio tremeu-lhe. Na torre da S soaram as trs, e a menina Adlia, vincando uma prega em cima do joelho 
com o polegar, reconfortou-o:
- No h-de ser tanto assim, senhor Serrano. O futuro a Deus
pertence.  preciso ter f, e ento com um anjo como a Leninha!
- Um anjo, a Adlia diz bem. A minha Leninha no  deste
mundo, no foi feita para a vida. Vai ver que me morre um dia



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destes. Com semelhante me! To fraquinha, um sopro a deita abaixo. A Adlia acredite, no me vai andar c muito tempo.
- Ora, aquilo  da idade - tornou Adlia confiante, ou mentindo para o tranquilizar. - Espere o senhor Serrano s mais algum tempo, que em ela arranjando noivo que 
lhe agrade, cria sangue novo. Quem me dera j esse dia! Hei-de-lhe fazer o enxoval todo pela minha mo.
Ele sorriu com uma esperana:
- Sim, quem na tirasse de ao p da me. A pobrezinha mata-se de assistir a estas vergonhas. Nem j do quarto quer sair... Ainda h paixes!
Do fundo da casa, em comentrio, veio de repente um rouquejar medonho, anelante, de agonia: Adlia ficou de agulha suspensa, os olhos muito abertos de ateno, e 
o senhor Serrano curvou a cabea, onde o cabelo parecia mais ralo e prateado. Era a esposa, na cama em suores, a debater-se com os fantasmas - serpentes, ces, lees, 
drages - que a genebra lhe gerava na mente.
- A minha vida! - suspirou ele.
Ficaram momentos a escutar, arrepiados, at que a voz aflita baixou para um riso gutural, desbragado e obsceno. J de mo no puxador, para fechar a porta, ele ainda 
disse de fugida:
- D Deus a sorte a quem a no merece. Uma rapariga como a Adlia...
A ama ergueu da costura o rosto em brasa: onde queria ele chegar? e porque lhe batia a ela assim o corao, deixando-a sem voz para responder? Um velho!
- V, veja mas  se se deita, no fique a a estragar a vista. A mocidade no sabe o que vale, por isso esbanja assim o seu tesouro... Boa noite!
Foi-se embora a arrastar as pantufas, um pouco aliviado, e Adlia, que tinha corao e sabia o futuro que estava reservado quele santo - ela, que no podia ver 
sofrer um bicho - encostou a cabea  mesinha de costura e chorou muito tempo. Para ela o senhor Serrano era como um pai, por isso lhe queria tanto. Podia t-lo 
abraado e beijado, o que nunca fizera a nenhum homem. To bom, to infeliz, to precisado de amor!


        259
(Ouvindo-a, a gueda olha o retrato e acaricia-o pensativamente: como ele faz lembrar o paizinho! Teria gostado dele a dona Adlia? Que mistrios o amor esconde!)
Ela era elstica, dava para tudo, escrevia as cartas das criadas aos namoros e parentes, cuidava da sua prpria gente dispersa, amparava a Lena na desventura, atendia 
a bbada nas crises, foi mestra de meninos e caixeiros. Ali passou a juventude, os melhores anos da sua vida, a dar s mancheias tesouros de energia, saber e corao, 
grisalha antes do tempo.
- Parece que o estou a ver, no dia em que ele saiu de casa, de revlver em punho, para matar os cunhados! O banco deles tinha fechado as portas naquela manh, sem 
aviso, falido. Comeram-lhe muitas dezenas de contos que ele lhes tinha confiado, uma fortuna naquele tempo! "Se eu no voltar a casa  hora de jantar, procurem-me 
no Limoeiro ou no hospital!" - O Severino saiu atrs dele, como louco... Mas no os encontrou, j se tinham posto ao fresco, com as algibeiras recheadas: um estava 
a bordo dum navio ingls, o outro dizem que se tinha refugiado na quinta dos Sumners, em Sintra. Ficou tudo em guas de bacalhau, as influncias que eles tinham!
Como se isso no bastasse, meteu-se-lhe em casa a sogra, com perto de oitenta anos, toda em sedas roxas e rendas pretas, ametistas e brilhantes, que dantes passava 
as manhs nos Mrtires e as tardes na Encarnao ou na Conceio Nova, e ia muito a Lurdes. Orgulhosa como era, o abalo desarranjou-lhe o miolo, e em poucos meses 
estava doida varrida. Tinha um filho militar, que andava pelas fricas, e outra filha casada com um diplomata, ao tempo em Paris, coleccionador de medalhas antigas 
e amigo dum tal Ea de Queiroz. Nem um nem outra a podiam recolher, foi para casa do genro "caixeiro". Deram-lhe o quarto da Adlia, que passou a dormir num anexo 
que em tempos fizera parte da capela. A velha levava o tempo a cantar loas, a rezar e a conversar com os mortos e ausentes: aos vivos no dizia palavra nem ligava, 
era como se no existissem. Passeava processionalmente pela casa, de vela acesa em punho, e deu em fazer as precises onde calhava, sobretudo nas grandes alcatifas. 
Era o gudio dos netos, j crescidotes. Noites houve em que, ao voltarem da pndega, a surpreenderam



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nos corredores, alta, morena e nua, de ancas largas e seios pendentes, toda em pelancas, coroada de flores, a cantar... Foi preciso meter-lhe enfermeira aturada.
Com a vergonha dos manos e a presena da me senil, a dona Leonor passou a beber menos, e deu em sair mais, de calea, para Avenida, o Aterro, e o Campo Grande, 
l no fim do mundo; refinou nos ps-de-arroz, nos caracis, nos vestidos e chapus garridos, e exibia-se nas corridas de cavalos, nos teatros e toiradas como a dizer 
ao mundo que as desgraas da famlia a no atingiam. O senhor Serrano, adoentado (tinha acar nas urinas) suspirava: "Se no fossem a minha filha e a Adlia, j 
tinha dado um tiro nos miolos! " O revlver, sempre carregado, estava na gaveta da secretria.
A Lena fechou-se mais, deixou de sair, s  fora de rogos o
pai e a Adlia a arrancavam do quarto e do oratrio. Adlia, coitada via correr os anos, e uma pessoa no se pode sacrificar assim para todo o sempre! Tinha levado 
a mocidade a viver para os outros, e aquela casa, de que ela fora por tantos anos a animao, tornava-se-lhe um tmulo em vida. J no cantava, pouco ria, e at 
dormir agora lhe custava: a capela, dessagrada, com as lajes dos tmulos intactos l em baixo, enchia-lhe as noites de ais, rumores, sufocaes... Levava horas a 
rezar para aquietar as almas penadas ou descontentes. Com os pais velhos a sustentar (a Encarnao, abandonada pelo marido, viera para Lisboa com os filhos), precisava 
dum afecto e dum marido. J no estava em idade de paixes, mas tinha encontrado aquele rapaz trabalhador e honrado, o senhor Augusto, que a apreciava, e resolveu 
aplicar melhor as suas reservas de carinho e actividade. Custava-lhe muito deixar a pobre Lena e o pai, to infeliz, to merecedor de melhor sorte: mas a vida tem 
as suas exigncias, que podem mais que todos os laos deste mundo.
Para minorar a mgoa da separao, guardou segredo dos seus projectos at o ltimo instante. Tinha alugado aquela gua-furtada cheia de sol e de horizontes,  Rua 
da Saudade; fizera o modesto enxoval pela sua mo,  luz do petrleo, nas horas roubadas ao repouso; tinha um vestido novo, cor de ervilha seca, e o chapelinho de 
palha com a pluma de avestruz... Inventou que tinha de ir  sua terra ver o pai doente, saiu, e dias depois estava

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casada, na S. Parecia dez anos mais nova do que era, apesar do cabelo j semeado de brancas.
Quando voltou para explicar e despedir-se, foram rios de lgrimas. Vinte anos a atur-los! Mas o sr. Serrano compreendeu: naquela famlia j no havia esperana. 
Adlia fazia bem. Deu-lhe um lindo cordo de ouro (ela j tinha o reloginho e o broche de safiras falsas, e o noivo oferecera-lhe os brincos de "brilhantes"): "Seja 
muito feliz, Adlia, como eu desejaria que a minha filha o fosse. Se ela me sasse de casa, creia que me no doa mais!"
A Lena, que ia ento nos vinte anos, no resistiu  ausncia da amiga. Em vo esta jurou (e cumpriu) que a no abandonava: ia v-la com frequncia, teimava em faz-la 
sair. Enclausurada, inconsolvel, Madalena chorava de noite e de dia, pedindo a Deus que a levasse, e recusava ver o prprio pai lamentoso. Voltaram-lhe as intolerveis 
dores de cabea, mas j sem a amiga ao lado, para lhe pr compressas de vinagre aromtico nas fontes, e segurar-lhe a mo fria e suada.
Uma noite, inquieto, o senhor Serrano foi dar com ela a gemer, com a cara torcida e os olhos revirados. Mandou um galego, a toda a pressa num trem de praa, a chamar 
o Dr. Moreirinha, mas este ao v-la abanou a farta cabeleira grisalha: era meningite, havia que confiar-se  graa de Deus. Prevenida, Adlia deixou o marido, a 
casa, tudo, para acudir como enfermeira solcita, dia e noite sem dormir, a amparar a doente, a pr-lhe o capacete de gelo na cabecinha que metia d, toda rapada, 
sem as suas tranas louras de Oflia. Aquele organismo frgil (mas s-lo-ia realmente?) resistiu muitos dias, como se nela duas foras se enfrentassem, disputando-lhe 
os despojos. Adlia dizia-lhe, a sorrir por entre as lgrimas, que no havia de ser nada; falava-lhe de flores, do cu azul, dum lindo casamento, e recitava-lhe 
versos, baixinho. A pobre mo suada tremia e relaxava-se na dela: ouvi-la-ia o anjo? Ou, se a escutava, no queria viver mais, toda empenhada naquele doloroso despegar-se 
dum mundo que no era o seu?
At que certa madrugada, pelas seis, recobrou de sbito a conscincia, soergueu-se na cama e apertou com fervor a mo da amiga: "No me abandones agora, Adlia! 
s o meu anjo da guarda! Acompanha-me... Ah, eu j vejo o cu abrir-se para mim, ouo a msica dos anjos... Vm ao meu encontro, agora! "


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- E, cantando em surdina, entrou na agonia. De manh estava serena, composta, sorridente, linda como nunca, livre do sofrimento. Adlia, cega de pranto, enrolou-lhe 
na cabea as fulvas tranas, cobriu de flores o corpo virginal, onde o fogo oculto se extinguira por fim. Era uma imagem! Ajoelhado, o pai chorava.
A dona Leonor atravessara a doena sem quase ir ver a filha, e enfrascou-se de novo em genebra, deu mais gritos, trancada nos seus aposentos. O senhor Serrano recusou 
o trem que os amigos teimavam em lhe oferecer, e foi a p, de cabea curvada e descoberta, todo o caminho at aos Prazeres, entre a Adlia e o antigo caixeiro, agora 
scio, o Zambujeira.
- Filha da minha alma! - murmurava. -  o ltimo passeio que damos juntos, antes de nos tornarmos a encontrar l em cima!
Decaiu rapidamente. Perdeu o cabelo quase todo, arrastava os ps, andava sempre de olhos marejados, cor de cera e balbuciante. Ia com frequncia "ver" a filha idolatrada. 
Mandava embora o trem aturado, e ficava horas a conversar com ela, sentado num banquinho de lona, ao lado da uma coberta com uma colcha de seda cor-de-rosa e sempre 
ornada de flores, que ele mudava a cada visita.  cabeceira, o retrato dela, lnguida e vaporosa, com dezoito anos. O Tejo, ao longe, era um lago sereno; a nvoa 
ligeira, riscada de fumos, dispersava a luz; o silncio caa sobre o parque da morte, aves trilavam nos ciprestes vizinhos, s vezes chovia brandamente na paz da 
solido, e ele contava-lhe o que ia l por casa, uma visita da Adlia, amiga fiel, j me de um filho; as loucuras da mam, os manos dois valdevinos, o Severino 
ambicioso, que olhava pelo negcio... Ele, que nunca lera versos, trazia agora um livro e lia-lhos de vez em quando, com os vidros dos culos embaciados.
- Minha Madalena! - chorava ele, cobrindo a cara com as mos que tremiam. - No tenho mais ningum no mundo, v l tu que sorte a minha, para o que eu tanto penei 
e mourejei! Nem mulher, nem filhos, nem amparo! Para que ando eu no mundo? Leva-me para junto de ti bem depressa!
Vinha o guarda preveni-lo que eram horas de fechar. O Severino tinha de arranc-lo quase  fora ao jazigo, levava-o para casa no trem, metia-o na cama com a borracha 
de gua quente, trazia-lhe

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um caldo, soletrava-lhe o jornal, falava-lhe de negcios para o distrair.
- s um bom filho! - choramingava o scio e patro, sem o escutar, mas esforando-se por tomar a srio o desvelo do herdeiro. - Ao menos, tenho a consolao de deixar 
as minhas coisas em boas mos... Mas no sejas ingrato, no te esqueas que tudo quanto sabes o deves  menina Adlia!
Como resistem os espectros! A velha Mendanha tinha cado na inconscincia e mutismo totais, um feixe de peles e ossos, repelente. Dois moos de fretes transportavam-na 
pela casa numa cadeira-padiola, como um dolo encarquilhado e fedorento. No conhecia ningum, no falava, no mexia um dedo. A dona Leonor nem a queria olhar, os 
outros filhos ausentes, ningum a visitava. O infortnio da famlia afugentava todos. Uma noite a "menina" Adlia veio trazer um folar de Pscoa ao antigo patro, 
e consol-lo. A velha cruzou-se com ela no corredor. Ento, para assombro de todos, voltou de supeto  vida, mandou parar os galegos com uma palmada, e disse:
- Ora, ento no  a Adlia! H quantos anos a no via! Bons olhos! Est uma senhora, de chapu de plumas... Que bem que a Adlia recitava! E o seu pai, coitado, 
tem tido notcias dele? Quando lhe escrever mande-lhe lembranas minhas.
Espicaou os carregadores com os dedos descarnados, e recaiu na mudez ou mutismo. Uma velha demente, que havia anos no falava, nem conhecia vivalma, lembrar-se 
assim de tudo sem mais nem menos, e falar com tanto juzo! S um milagre. Olharam Adlia com espanto.
Sentado no salo com a antiga governanta, o senhor Serrano chorou:
- A Adlia  uma santa, eu sempre o disse. Coisa assim... S de uma santa! Veja como a velha a conheceu e lhe falou! Foi como se voltasse do outro mundo.  um milagre, 
um milagre!
Agarrou-lhe as mos e quis beijar-lhas:
- A Adlia, se quisesse, at c podia chamar a alma da minha Madalena!
E olhou-a com uma splica...
- No durou muito, o senhor Serrano. A dona Leonor, como


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se costuma dizer, ainda lhe mijou em cima da cova. J vai nos oitenta! Parece que os maus duram mais... Com a morte dele deixou-se de beber. Herdou umas centenas 
de contos, casas, jias, papis de crdito, aquilo que o Zambujeira no conseg abarbatar. Nem os filhos, dois vadios!... Ainda se falou no testamento mas eu c no 
o vi. A mim no me deixou ele nada, recordaes! O Severino ficou dono daquele negcio, est hoje podre de rico!
- A mezinha podia ter casado rica! - diz a gueda
amuada.
- Cada qual para o que nasceu! O que o bero d...
- Quem foi o seu primeiro namoro? - indaga a menina, curiosa.
A dona Adlia ri-se...
- Marianito, balha-la-ursa! Coitadinho!
So lgrimas que ela tem nos olhos? Quem foi, quem foi o seu Primeiro Amor?
- Ah, onde isso tudo vai! L de longe em longe, na minha terra, ouvia-se rufar o tambor: L vm os saltimbancos! Corria a pequenada toda ao Largo do Pombal. Eles 
desenrolavam o tapete, tocava o cornetim... Seoras y caballeros! Uma menina com saia de tarlatana pulava num p s em cima do cavalo escanzelado. Marianito, no 
maillot desbotado, dava saltos e cambalhotas, e andava na corda bamba. Teria doze, treze anos? Era to triste e to bonito o Marianito! E que bem que ele cantava! 
No fim, o urso andava  roda, com a pandeireta na boca, a pedir, e o Marianito, com aqueles olhos srios e rasgados, que parecia que falavam... Vinham pela porta 
da nossa casa; ele encostava-se  ombreira a olhar: "Minha me, olhe que o Marianito tem fome!" - Ela dava-lhe umas sopas.
"De noite eu s via em sonhos o Marianito, to caladinho, a olhar para mim. At que deixaram de aparecer. A gente  espera dos saltimbancos, hoje, amanh, talvez 
pr ano... Muita pena eu tive, muita lgrima chorei! Vidas... Nunca o esqueci, o meu primeiro namorado. Teria eu dez para doze anos... Coisas de crianas, quem pensa 
agora nisso. Olha se me eu tenho casado com ele? ou fugido, como a Virinha do Cardal fugiu com o mestre

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Cunha?... Seriam vocs palhaos, saltimbancos como o Marianito, balha-la-ursa?....
E ri-se, como se pode ela rir! So eles que choram, comovidos, abraados a ela, com pena e saudade do Marianito que no conheceram, que a vida errante levou por 
esse mundo para nunca mais. Ser da que lhes ficou este amor que eles tm pelo Circo?




XVIII
MASSACRE DOS MIL-E-DUZENTOS
O dia clareava, mas ainda no havia sol. O ar tinha a pureza imvel, a finura penetrante das manhs de Outono. No cu plido comeavam a misturar-se aguadas indecisas 
de azul e cor-de-rosa.
Os trs irmos desceram calados, de dentes apertados, e esperavam que o pai viesse juntar-se-lhes no passeio. A rua deserta sonolenta deu-lhes frio.  distncia 
bateu uma porta, passos martelaram a calada, algum tossiu, chocalharam as bilhas dum leiteiro madrugador. No segundo andar abriu-se uma janela de peitoril, e a 
cabea da me desenhou-se na luz ainda incerta, logo seguida pela cabecinha de av, toda branca, da Vizinha Delfina.
O pai surgiu enfim  porta, nutrido e fresco, vestido com apuro, a olhar os bicos das botas engraxadas. A me comandou de cima:
- D a mo aos teus irmos, Santiago. Tenham juizinho!
O Gabriel correu para o pai, agarrou-lhe a mo:
- Eu quero ir consigo!
Puseram-se em marcha. Adiante, de olhos baixos, o Santiago equilibrava-se  beira do passeio. A gueda, de cabelos frisados caindo para as costas, sonhava no meio, 
carrancuda, no vestidinho em que a me estivera a trabalhar at tarde. Os passos vagarosos, pesados e firmes os do pai, acordavam um eco novo na calada, onde o 
p dormitava, retido pelo orvalho e pelo frio. Voltaram-se a dizer adeus  esquina. A me fez um gesto largo e ansioso:


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- Vo com Deus, vo com Deus!
A Delfina, como sempre, fazia adeusinhos abrindo e fechando rapidamente os dedos de ambas as mos. Era a primeira vez que o pai os acompanhava aos banhos, grande 
novidade, e iam agora mais longe, de comboio, a Pao-d'Arcos.
Desceram a rua, que mergulhava na sombra do bairro adormecido. O Gabriel tinha ao mesmo tempo sono, frio, e uma indefinvel excitao, um calor que parecia vir-lhe 
da mo firme do pai, e acariciava teimosamente com a polpa de um dedo a aliana e o anel. O pai tinha o cheiro habitual, de sabonete e tabaco francs. Apertou-lhe 
a mo com fora e confiana. Era sempre um mistrio penoso e gostoso, sair quela hora. O corao batia-lhe voluptuosamente, com esforo. Fechou os olhos e foi assim 
um pedao, abandonando-se, a cabea numa tontura doce, a flutuar num meio sonho. De repente teve um sobressalto: o pai puxou-lhe o brao, aguentou-o no ar, e disse 
com um sorriso:
- Vais a dormir, filho? Ias esbarrando no candeeiro...
Acordou por completo. A rua velha e triste, com prdios altos e sombrios, estreitava ali. Caminhavam numa semiobscuridade, ouvindo os passos trpegos de sono. Pensou 
na solido da gua fria, na praia deserta, no sol vermelho a boiar  tona, nas canes melanclicas dos banheiros, e sentiu um aperto no estmago, rangeu os dentes, 
que tiritavam: desejaria voltar para casa, a essa hora aconchegada e obscura, onde a me preparava o caf. Na rua cheirava a rama de pinheiro, duma padaria vizinha, 
e a imagem do po quente e mole, com a manteiga a derreter, fez-lhe rolar de fome as tripas.
 frente, os dois mais velhos, agora de mos dadas, pararam a olhar qualquer coisa numa montra, e o pai disse:
- Mexam-se, j vai nas sete, e ainda ns aqui estamos!
Por cima, entre os beirais, via-se uma esteira de cu vazio. Em poucos minutos, pela Travessa do Maldonado, estavam no Intendente. Para ele, a Baixa comeava ali, 
o mundo real. Largou a mo do pai e deitou a correr atrs dos irmos, que se distanciavam. O largo afunilado desdobrava-se para baixo, com prdios e palcios velhos 
 esquerda, novos e altos do lado oposto, e o chafariz monumental. Adiante, entre a fenda do Benformoso e a Rua da Palma (l estava a massa cinzenta e vermelha do 
antigo


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Coliseu de Lisboa) havia um prediozinho de cenrio, cor-de-rosa, com lojas e tabernas minsculas, tudo fechado. Debaixo das rvores ainda em folha, a gua sussurrava 
na taa do bebedouro de cavalos. Logo a seguir estava o quiosque.
Correu livremente e esperou que o pai o alcanasse. A luz azulada e fresca da manh banhava de sonho o largo. Apeteceu-lhe gritar no silncio... O homem do quiosque 
acabava de tirar os taipais e expunha a mercadoria: jornais, revistas e folhetos, cautelas, a lista da Santa Casa. Do outro lado, onde os prdios comeavam a tingir-se 
de rosa doirado, estava uma galera parada. Dois saloios enchiam no chafariz as bilhas de barro vermelho, incandescentes na azulina matinal. O pai riu-se:
- Vs, esto a encher as bilhas com gua de Caneas!
Depois puxou da bolsa de prata suspensa da cadeia do relgio e disse para o homem do quiosque:
- Francs.
O homem entregou-lhe a ona e disse:
- So oitenta ris.
Dentro do quiosque era ainda noite escura. Cheirava a limo, capil, caf requentado, charuto de picar, e o pequeno aspirou com delcia estes aromas. O homem agachou-se, 
saiu pela portinhola debaixo do balco, e continuou a pendurar a fazenda.
- Olha o Texas Jack! Este ainda a gente no leu! Oh, paizinho, compre-nos o Texas Jack!
De cabeas unidas e nas pontas dos ps puseram-se a devorar com os olhos o folheto, que quela hora lhes parecia mais excitante: Em cada nmero um episdio completo. 
E abaixo o ttulo - "O Massacre dos mil-e-duzentos". A estampa era negra e confusa, empolgante: destroos fumegantes, mos crispadas, cabeas decepadas, olhos arregalados, 
toucados de penas, um tomahawk...
- Paizinho, compre-nos o Texas Jack!
O pai sorriu com indulgncia e tornou a puxar da bolsa. O homem disse:
- So sessenta ris - e tornou a entrar de gatas no quiosque. Recolheu do balco, com as unhas sujas, as moedas de cobre: -  o desta semana. Chegou ont' noite. 
Vem bem bom.
Os pequenos agarraram-se ao folheto, borrando os dedos na tinta fresca.


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- Vamos! - disse o pai, impaciente. - Est-se a fazer tarde.
E tocou o rebanho em direco  Rua da Palma,  paragem dos elctricos. Os saloios tinham desaparecido com a galera das bilhas. No largo quieto ouvia-se o sussurro 
da fonte no bebedouro.
Nisto, de longe, uma surda exploso abalou o ar tranquilo da manh. Os pequenos pararam, voltaram-se a olhar o pai, que ficou srio,  escuta, um quase nada plido. 
O do quiosque deitou a cabea de fora, disse - "Temo-la armada! " - e desapareceu. Dois, trs estampidos cavos sacudiram de longe a cidade mal desperta. Depois houve 
um estranho rumor que parecia de pranchas a desabar confusamente, ou de portas de ferro ondulado a fechar-se a toda a pressa, um eco imenso...
-  fuzilaria! - disse o pai, e apertou os filhos ao corpo. Esqueceram por instantes o massacre dos ndios e o banho de mar. O do quiosque tornou a recolher  pressa 
a mercadoria exposta. Da Rua do Benformoso desembocou um homem em cabelo, calas de ganga desbotada e casaco remendado, com um embrulho debaixo do brao. Plido 
como um defunto, desgrenhado, passou por eles a correr, gritou:
- A revoluo est na rua! Viva a Repblica! - e desapareceu para o lado da Avenida Dona Amlia.
O largo recaiu na quietao, como se visse crescer a luz doirada da manh de Outubro e de insurreio. De longe continuava a rolar pelo cu a voz cava da artilharia, 
passavam rajadas intermitentes de fuzilaria. O homem punha os taipais. Muito branco, o pai abotoou o palet:
- Voltem para casa, filhos. A vossa me vai ficar ralada se os no v aparecer. Andem depressa. Digam-lhe que eu fui para o Hotel. Tu, Santiago, leva os teus irmos 
pela mo. Voltem pelo mesmo caminho, Travessa do Maldonado... Direitinhos a casa! V, tenham juzo e adeus...
Curvou-se a beij-los. Tinha os olhos molhados, os beios tremiam-lhe debaixo do bigode cor de cobre escuro. Juntou-lhes as cabeas numa carcia comum e murmurou:
- Viva a Repblica, filhos... Adeus!
Deitou a andar depressa e com firmeza, um quase nada cmico, e os meninos ficaram a v-lo ir, comovidos, depois deram meia volta. O homem do quiosque, de bon de 
pano, fechou a


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porta  chave, gritou-lhes: " Vo para casa, midos! " - e desatou a correr.
Sentiram-se ss e tristes no largo deserto. Pelo cu j invadido de sol vinham mais vivas as rajadas de fuzilaria, como o bater de asas de mil pombas assustadas, 
enchendo de ecos o cncavo da capital. Subiram de novo as ruas por onde havia pouco tinham descido. A artilharia troava longe, l para a Rotunda. Na Baixa latiam 
metralhadoras. O frio diminura. Pouco a pouco abrandaram a marcha. Afinal no iam ao banho, melhor assim. Espreitavam por entre as folhas fechadas da novela, para 
lerem alguma passagem que os excitava. Paravam, borrando de impacincia a tinta gorda da capa, impressa a preto e roxo.
Quando chegaram a casa era dia claro. A me esperava-os  janela, com as mos ansiosamente cruzadas no peito: "Depressa filhos! Que demora esta! " - e tirou-se para 
dentro. Atravessaram a rua a correr em direco  porta. Pelas janelas e s esquinas havia caras estremunhadas, assustadias. Circulava gente com timidez, indagando, 
hesitante, com medo duma bala perdida. Subiram a escada tropeando e rindo, falando todos ao mesmo tempo, respondendo aos vizinhos que acudiram aos patamares:
-  a revoluo! Os republicanos j esto na Rotunda!
A me, inquieta, indagou do pai. A Vizinha Delfina tranquilizava-a, quem  que se mete agora com um sujeito to pacato, to bem parecido! A casa cheirava a caf 
quente e a po fresco. Ningum tinha sono. O Gabriel correu ao quarto de vestir, tirou da sapateira do guarda-fato a bandeira azul e branca, enterrou na cabea o 
chapu de feltro encarnado e ps-se a correr a casa dando batalha a invisveis inimigos, agitando o estandarte estrelado da Unio, e cantando a meia voz um hino 
belicoso. Sentia-se muito orgulhoso do seu pai, que tinha ido para a Baixa, sem medo aos tiros.
Os irmos, indiferentes  fuzilaria,  insurreio, aos comentrios excitados que enchiam os ares, foram-se estender no cho da sala, absorvidos no Massacre dos 
mil-e-duzentos.
Durante dois dias e duas noites o ar de Lisboa andou esguedelhado de tiros, o cu riscado de fogos-de-vistas singulares. Pairavam no ar palavras novas, de intrigante 
e mgico sentido -


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metralha, granadas, museres, shrapnell, obuses, barricadas, Maxim's... O Santiago sabia tudo e explicava,  janela, tomado da excitao que vinha na aragem, no 
sol, nos ecos de longe, arrastando vozes e varrendo as fachadas, dando-lhes um estonteamento feliz, de grande festa. Era um espectculo empolgante, e ao p dele 
o Massacre depressa ficou esquecido.
Na rua passavam tropas, civis armados, ces desvairados, gritos. Pela meia-tarde desceu a calada uma fora da polcia cvica, devia ser das Mnicas: formados a 
quatro de fundo, armados de longas espingardas e fartas bigodeiras, os "savalidades" iam lvidos nas suas fardas cor de pinho. Marchavam  defesa das instituies, 
de olhos baixos, sucumbidos, como quem vai para o cadafalso. Havia gente pelas esquinas, de vez em quando subia no ar um repuxo de comentrios exaltados, e todos 
corriam a ver o que era. Mas quando passou a fora policial, fez-se um silncio de mau sestro.
Anoiteceu naquilo, e de vez em quando, a poente, as granadas raiavam de fogo o veludo macio do cu, onde a estrela da tarde fulgurava num resto de luz verdosa. Outras 
explodiam em pleno ar, deixando uma bola de fumo que a aragem dissipava lentamente. Parecia um arraial. Mas no houve remdio seno ir para a cama, deixando os outros 
 janela, a gozar. Adormeceu depressa, embalado pelo vozear confuso, as exclamaes de espanto, o troar distante dos canhes.
Ao acordar, ouviu dizer que durante a noite tinha ardido de alto a baixo um prdio na Avenida da Liberdade, e pouco lhe faltou para chorar: todos tinham visto o 
incndio, e porque  que o no tinham acordado para vir ver! Foi ento que, solcito e misterioso, o irmo explicou:
- O prdio foi incendiado com lanternetas!
Era outra palavra gostosa e nova, que lhe deu pasto  fantasia e o recompensou transitoriamente da perda do espectculo. Lanterneta: devia ser uma espcie de lanterna 
incendiria, vermelha, que rebolava em chamas pelos ares, entre nuvens de fumo... Tinha alguma coisa em comum com os gritos-do-diabo, valverdes, busca-ps, pistolas, 
foguetes de lgrimas, estrelinhas, fsforos de cores e outras maravilhas da pirotcnica, para no falar j do requentado shrapnell.



272        
Mais um dia correu, numa atmosfera de excitao nunca sonhada. Das janelas da casa via-se tudo, o Quartel do Carmo e o Cabeo de Bola, a Rotunda e a Penitenciria, 
o Campo de Sant'Ana... S no se via o Tejo nem a Marinha, e era O cruzador Dom Carlos tinha-se revoltado. Mas de tudo o bonito era sem dvida o cu riscado de obuses 
e exploses, que arrancavam brados de assombro e deslumbramento, como nas noites dos Santos de junho.
Altas horas, j ele dormia mas ouviu tudo confusamente, houve grande rebolio na escada. O sr. Mitelo do primeiro andar l pelas tantas da madrugada, soube por portas 
travessas que o conselheiro Joo Franco estava escondido no palacete ali defronte, sempre fechado e mudo atrs das grades do jardim, e que pertencia a uma senhora 
talassa, titular. Apesar do adiantado da hora, o sr. Mitelo, honrado e laborioso pai de famlia com fama de carbonrio, sentiu que tinha um papel histrico a desempenhar: 
prender o ex-ditador e entreg-lo s justias do Povo. Mas as coisas ainda estavam fuscas, e ele sozinho!... Desarvorou de casa, das quatro para as cinco da manh, 
Charca fora, de ceroulas e em chinelos de trana, com o gabo de Aveiro a adejar sinistramente na noite escura: ia buscar auxlio, um grupo resoluto.
(Nunca se soube ao certo o desfecho daquela patritica misso nocturna em ceroulas de fitas. O conselheiro sobreviveu, e a casa, fechada havia muito, no tinha l 
dentro seno mveis cobertos de lonas empoeiradas, bafio e recordaes. Houve mais tarde quem dissesse - decerto para arreliar o sr. Mitelo - que o Joo Franco tinha 
l estado, sim, mas fugira num coup particular, de cortinas corridas, antes que o vigilante patriota tivesse tido tempo de enfiar o gabo. Nem foi possvel tirar 
nada a limpo, porque depois do incidente-escaler, as relaes tinham esfriado um tanto entre os dois andares.)
Na manh seguinte, era a segunda desde o Massacre, a famlia estava toda  janela de sacada, menos o sr. Augusto,  espera de novas. Tinha-se espraiado um grande 
silncio, e o Gabriel, agarrado aos irmos, metendo a cabea por entre a gente crescida, perguntava a cada instante:
- J se acabou tudo? - com certa pena.
Mas ningum lhe dava ouvidos. Era em ocasies destas que ele

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sentia mais a ausncia do pai! Na vizinhana havia quem tivesse bandeiras republicanas escondidas, umas cosidas  pressa, outras autnticas, com uma esfera e a legenda 
Ordem & Trabalho.  falta de melhor, havia bandeiras francesas e at brasileiras. J falavam em pedir ao pai que lhes comprasse um mastro e uma bandeira.
Na sacada, batendo as solas de impacincia, o Santiago espiava os horizontes com o velho binculo que,  parte as brincadeiras, s saa do estojo uma ou duas vezes 
por ano para ir aos "benefcios" da Miquelina, da Desdmona, ou da Filomena, coitadas. O Santiago parecia um capito diminuto na ponte do seu navio. No se ouviam 
mais tiros. Tudo calado, a cidade desdobrava-se ao sol com a alegre preguia dum dia feriado.
Nas janelas da vizinha do lado, o sr. Sepulcra, sempre de preto, de lunetas azuis e beiorra cada, com a barba por fazer, tinha um ar de azedume doloroso e terrvel. 
No ia ao emprego havia trs dias. Ficava por casa de colarinho engomado e em pantufas, de chapu na cabea. Estava ali com as senhoras da famlia e a filharada: 
a Rita toda esgrouvinhada e j com a sua pinga quela hora, e a dona Mariquitas com a cabea em papelotes, muito plida da madrugao, e de olheiras azuis pintadas. 
Do marido nem a sombra.
De repente o Santiago deu um grito:
- Mezinha! mezinha! venha c ver! A bandeira republicana j est iada no quartel do Carmo!
(Para alguma coisa haviam de servir as Vistas!)
Correu de boca em boca e encheu o ar da vizinhana um Ah de assombro, surpresa, desolao e alegria. Todos quiseram ver, estenderam-se mos para o binculo, todos 
suplicaram... Mas havia um s. O sr. Sepulcra alongou fora da janela a beiana formidvel e o bigode mal pintado, e regougou com voz nasalada e desdenhosa (havia 
muito tempo que nem se cumprimentavam):
- O menino  parvo! Pode l ser, a bandeira dos desordeiros!
Houve um instante de dvida e frio. Sim, talvez o pequeno se tivesse enganado, isto crianas... Intimidado, com os olhos vermelhos de insnia e uma ponta de conjuntivite, 
o Santiago encolheu os beios e no contradisse o sr. Sepulcra, um cavalheiro imponente, e para mais funcionrio das Alfndegas d'el-rei



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nosso senhor. O binculo passou de mo em mo -, at a velha Delfina quis ver, mas no se entendeu com o objecto - "Troca-me as vistas!" disse ela - e todos confirmaram 
que sim-senhor, l estava a bandeira verde e encarnada, que at parecia ali a dois passos! A me, arrebatada, estendeu o aparelho ao vizinho:
- Veja, veja l se o pequeno  parvo, ou quem !
Entredentes chamou-lhe "caloteiro". Com certa repugnncia aristocrtica, o sr. Sepulcra pegou e olhou. Logo empalideceu, at a beiola de rabadilha perdeu a cor: 
era a bandeira da canalha! A dona Mariquitas, que estava toda inclinada para fora, com os seios de neve perfeitamente  vista no roupo claro, deu um gritinho e 
desapareceu com os papelotes. Atrs dela sumiram todos - um dos filhos do funcionrio ainda rosnou com desprezo: "Galegos! republicanos!" - e fecharam as janelas 
em protesto, com estrondo. Ouviu-se a Rita num grande berreiro. O binculo voltou a circular em mos amigas. At os Mitelos reconciliados, vieram ver. A monarquia 
estava acabada.
Comearam logo aos vivas  Repblica. A dizer a verdade foram eles que proclamaram a Repblica naquela encruzilhada. Os Mitelos - faces sem cor, olhos arregalados 
e inteligentes-puxavam para o dr. Afonso Costa. No segundo-esquerdo era-se "almeidista": o tribuno tinha tratado o sr. Augusto dumas gripes, e convertera o Gabriel 
 Repblica erguendo-o no ar chamando-lhe "meu correligionrio" com a linda voz bem timbrada. At o sr. Sotavento, leitor de A Luta, inspector de obras pblicas 
e pai de duas meninas namoradeiras, com carinhas de bilhete-postal ilustrado, e doente da bexiga (a senhora tirava-lhe as guas com uma seringa, era sabido), que 
perguntava por todos os lados com ar de inquietao e com os olhos cor de gua parada, sempre hmidos de lgrimas desnecessrias: "O que  que h? que  que h?" 
- at ele respondia l do quintal, aos vivas!
Do outro lado o prdio ficou mudo: no rs-do-cho direito morava o capito de infantaria, que "andava por fora" havia dias, o tal a quem a esposa, uma oxigenada 
sem papas na lngua, tinha obrigado a lavar a loua: a que tinha feito calar a pera do Gabriel. No primeiro andar do sr. Sepulcra (mas  criatura, quantas vezes 
lhe eu tenho dito que o nome dele  Seplveda!), a, reinava um



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silncio justamente sepulcral. Em casa de Mariquitas, Marido & Filhos, ia a mudez da consternao. Ela devia ter medo de perder os "empenhos" e as "relaes" da 
alta na Baixa.
O prdio embandeirou, mas s do lado esquerdo, numa espcie de hemiplegia republicana. Havia sempre um resto de serpentinas do Carnaval passado, e foi uma festa. 
Comeavam-se a vender na rua bandeiras, alfinetes, postais e globos de vidro colorido com cenas e retratos dos homens do regime. Era uma Vida Nova que raiava. Dir-se-ia 
que estava tudo preparado para a celebrao! Passavam bandos aos vivas, caminho da Baixa, da Rotunda, do Tejo, cantando a Portuguesa. Afluam de todos os lados os 
heris de ltima hora: as barricadas, at ali quase vazias, transbordavam agora de combatentes, eriadas de armas que no tinham chegado a dar fogo. Tiravam-se grupos 
memorveis, para depois se dizer "Eu tambm L estive!" A Repblica estava de antemo solidamente implantada nas almas e nas ruas. Lisboa transfigurada!
Pela tarde, em direco  Graa e ao Monte, subiu um numeroso grupo de combatentes: formados a quatro de fundo, cobertos de glria, de p e de palha dos fardos das 
barricadas, espingarda ao ombro, correame, cartucheiras, revlveres, trofus, uma bandeira improvisada... Vinham fatigados e sujos, mas triunfantes e marciais. Estalaram 
palmas e vivas, correu gente de todos os lados a v-los. O Santiago gritou da varanda:
- Olha, l vai o sr. Roque! O sr. Roque! Viva a Repblica! Viva o sr. Roque!
O sr. Roque, da mercearia do Monte, l ia na fileira, com a mauser s costas, galhardo e moreno, de nariz achatado e bigode muito preto na boca rasgada. Um filho 
de cada lado! Ergueu os olhos e sorriu: foi uma ovao! Todos os vizinhos aplaudiram aquele Roque obscuro que dava prestgio aos moradores. Que diabo faz a gente 
quando vai debaixo de forma e lhe do palmas? Empertigou-se de orgulho e popularidade, comovido, e fez continncia!
Todas as caras dos combatentes se viraram para cima, de barba crescida, sorrindo, felizes. Aquele olhar ficou preso  fachada, tornou o prdio memorvel.
Quanto mais geis e firmes aqueles paisanos, do que os tristes


276        
polcias, dois dias antes, que marchavam como quem vai  degola! E que orgulho o dos pequenos, ter aquele amigo entre os heris! O sr. Roque, to bom, to feio coitado, 
sempre sorridente, to honradinho na balana e nos trocos, e que ainda por cima lhes dava de graa um rebuado de musgo-e-alteia. Com a quinzena de cotim cinzento, 
de mangas curtas, remendada nos cotovelos, a mesma com que fora para a Rotunda ajudar a implantar o futuro. Tinha sempre um fogo de entusiasmo nos olhos muito negros 
e rasgados, tal-qual os filhos, que ainda eram mais feios. O Roque da mercearia.
- Viva o sr. Roque!
Naquela noite, contra o costume, o sr. Augusto chegou cedo. Trs dias tinha ficado fora de casa. Vinha plido e fatigado, nem se tinha despido, com a barba crescida, 
mas radiante. Trazia uma mancheia de shrapnell, duma granada que tinha explodido na lavandaria do Hotel, uma recordao do Cinco-de-Outubro.
Ficou acordado at muito tarde, a contar tudo  mulher, no quarto,  porta fechada. E pela primeira vez desde que o conheciam e amavam, os filhos o ouviram chorar 
como uma criana. A dona Adlia falava-lhe com ternura, ria-se daquela emoo...
Ento compreenderam que alguma coisa de grande e srio se passava: no era s festa, s vivas, s fogo-de-vista! E ficaram muito tempo calados, no escuro da noite, 
pensando no pai que chorava de alegria, at que o cansao daquele primeiro dia da Vida Nova os venceu, e adormeceram.






XXIX
BOI-DO-VAL'
Quem deu agora em visit-los com mais frequncia  o tio Amndio, o Boi-do-Val', que dantes levava anos sem aparecer, talvez por acanhamento da sua pobreza, ou porque 
estranha o cunhado, amaneirado e sorridente, quanto ele  brusco e taciturno. Ser a esperana de melhores tempos que o traz por c? - Pe ento o seu melhor fato, 
azul-marinho, j bastante coado, e a gravata vermelha que sempre usou. Olha os sobrinhos com tristeza e gravidade, e um pesado fulgor nas pupilas verdes, por cima 
dos culos de aros de ferro. Parece mais velho do que a irm: acabrunhado de sofrimentos e contrariedades, aos cinquenta anos  um homem precocemente gasto, e comea 
a arrastar um pouco os ps, talvez hbito do oficio. No l uma letra sem as cangalhas. Ainda assim,  uma figura galharda e varonil. Oleiro, tem as mos grossas 
e vermelhas, cortadas do eterno cieiro do barro. Fica sentado a ouvir a gueda tocar piano, e no fim no diz nada: abana a cabea e limpa os culos embaciados.  
como se s agora se apercebesse de outra coisa na vida... Como o sobrinho gosta de ler, um dia trouxe-lhe o primeiro livro de Jlio Verne que ele leu, Viagem ao 
Centro da Terra. Um bocado esfrangalhado,  verdade, mas foi um presente muito apreciado.
Se a dona Adlia indaga da cunhada, encolhe os ombros: "L est, a misria de sempre!"
Moram a Alcntara, no Ptio dos Alguidares, um corredor mal-empedrado entre casinhotos de um s andar, cheio de gritos,

278
de trapos grisalhos a enxugar em cordas, com guas turvas a escorrer na valeta, gatos e galinhas enfezadas a debicar no esterco. O filho mais velho, oleiro como 
o pai, muito bonzinho e calado, est tuberculoso sem esperana: sentado ao sol, embrulhado no varino,  porta de casa, de olhos oblquos, e sorriso descarnado e 
ossudo,  o tipo de operrio lisboeta. Ali fica o dia inteiro a ouvir os berros do mulherio,  espera que lhe arranjem um lugar onde v acabar, fora de portas, Pinheiro 
de Loures ou Montachique, onde h bons ares. Ainda tm uma menina de quinze anos e um moceto de treze, e o mais novinho  cretino, todo enrugadinho, a cara sempre 
num riso, a babar-se: o "Jorze".
A tia "Leotina", robusta e tronchuda, de olhos redondos e salientes, coberta de penugem como os pssegos, a farripa arruinada e suja cada para a testa suarenta 
e sulcada de arrelia, sempre a queixar-se de tudo e todos, do marido sobretudo, e a dar palmadas nas coxas vigorosas, ainda agora fala dos "parentes ricos" que a 
botarem ao desprezo por causa dela se ter casado com um "reles oleiro". Apesar da lngua desembainhada, estima e respeita a cunhada, toda pacincia. No fim de contas, 
esta nunca vem de mos a abanar... Ainda hoje, por exemplo: uma caixa de bolachas da Pampulha.
- Este vosso tio! - repete a dona Adlia, olhos perdidos no tempo.
... No alto do Castelo o sol de oiro e coral resplandecia ainda, mas na rua era o crepsculo, e na escada reinava a escurido. Adlia subia s apalpadelas, procurando 
apoiar-se na parede salitrosa, e tacteando com as botinas os degraus rangentes, gastos, com receio de resvalar naquele antro. Cheirava a canos de esgoto e a mijo 
de gato. Conseguiu enfim encontrar a corda que, num arco oscilante, manobrava de cima o trinco da porta da rua. Ouviu choros e ralhos. De repente a corda escapou-lhe 
da mo: achou-se num patamar. Virou  esquerda e continuou a subir. No andar de cima havia um pouco mais de luz, coada pelas teias de aranha empoeiradas dum olho-de-boi.
Mais um lano, e parou com um suspiro... Segundo, porta  esquerda, deve ser esta... O corao batia-lhe penosamente. Vinha da rua, abafada, a algazarra da canalha 
mida. Ergueu a mo


        279
no mitene arrendado e puxou o cordo ensebado da campainha, que tilintou debilmente naquele ermo. Estas campainhas de casas pobres, que soam como crtalos do cu, 
e espera a gente ver surgir entreportas a cabea dum anjo... Mas no foi nenhum anjo, foi uma velha grisalha que apareceu, de rosto papudo e esponjoso:
- A quem procura?
- O sr. Amndio, sou a irm...
- Ah! - A porta abriu-se, rangendo e estalando, e descobriu um corredor estreito e escuro - Entre, menina.  ao fundo,  sua esquerda. No repare...
Adlia insinuou-se com dificuldade entre a mulher e a parede, ergueu a saia para a no sujar. Atravs das solas sentiu as cabeas dos cravos do soalho. Cheirava 
a refogado, a mofo, a estagnao. Uma criana espreitou duma porta, a velha berrou:
- Qu' q'quer daqui? Girou! - e a carinha desapareceu.
No se via um palmo adiante do nariz. Avanou devagar, apertando o embrulho debaixo do brao, guiando-se com a mo livre ao longo da parede irregular. Passou uma 
porta, depois outra, e parou a escutar: a casa em silncio, da rua subia sempre a algazarra distante. Ouviu bater o reloginho de ouro, suspenso do peito do vestido 
pelo broche de safiras falsas, sua nica riqueza. Achou a porta e bateu de leve com os ns dos dedos, dominando as pancadas do corao. A velha ao fundo espiava. 
Uma voz spera respondeu de dentro:
- Quem est?
- A Adlia, a tua irm...
Houve um curto silncio, e a voz tornou com doura... - Entra...
Ergueu com cautela o trinco, abriu, e ficou um momento no limiar, meio sufocada: o quarto lanou-lhe  cara um relento quase irrespirvel de tabaco e exalaes indefinidas. 
No tinha janela, e era pouco mais do que um cubculo. Uma vela fumarenta, quase consumida, ardia no gargalo duma garrafa, pingando em cima do caixote coberto de 
livros e papis, que servia de mesa, ao lado do catre. A chama incendiava a cabeleira ruiva e marcava de sulcos precoces o rosto forte e srio: o seu Amandinho, 
o Boi-do-Val', o Anjo Lusbu das procisses! H quantos anos, e


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que mudana! Sentiu vontade de apert-lo ao peito, a vergonha
reteve-a.
- Entra e fecha a porta - disse ele. Ergueu-se num cotovelo, pousou no caixote o livro que estava a ler, e espevitou a chama da vela. A irm aproximou-se com o corao 
apertado, agarrada ao embrulho. - Que horas so isto?
- Cinco. E tu deitado!
- Oh, pr que eu tenho que fazer! Senta-te.
Adlia olhou em volta: um ba de marinheiro, de coiro de boi estoirado, enchia metade do espao que o catre deixava livre. Dum cabide na parede, cujas pinturas sucessivas 
de alguns scu los se desfaziam em escamas, pendiam roupas enxovalhadas, uma boina azul. Jornais, livros, trapos amontoavam-se em desordem Por cima do catre, colado 
 parede, um recorte de jornal estrangeiro, a cores, mostrava o retrato dum homem de barbas grisalhas, olhar grave e profundo. Adlia empurrou os papis e a roupa 
que cobriam o ba e sentou-se:
- No seria melhor deixares a porta aberta? Esta fumarada faz-te mal.
- No, a velha est sempre a escutar. Fala baixo. E ento.
Adlia olhou a capa vermelha do livro: A Conquista do PO Depois olhou o irmo, encafuado na ociosidade e na enxovia, teve vontade de rir e de chorar: a conquista 
do po, na verdade A cara torturada, a cabea violenta, os olhos duros de revoltado, a bondade de alma oculta... No podia v-lo sem que lhe voltassem em tropel 
as imagens da vida perdida. Levou as mos aos olhos, donde as lgrimas queriam rebentar. Meu anjinho, meu irmo, meu Boi-do-Val'! Coragem, meu Deus, dai-me coragem 
para lembrar e esquecer, para sofrer, acreditar e andar para diante!
No havia muito, o Boi-do-Val' era um atleta de vinte anos,
com um torso possante na camisola azul de embarcadio, toda a
beleza do anjo rebelde da infncia, e a gravidade do adulto que correu meio-mundo, leu livros, sofreu, meditou, e comeu o po que o diabo amassou. J ento aborrecia 
os homens e amava a
humanidade, acreditava nos pobres, nos humilhados e explorados. Dizia palavras carregadas de explosivos e ameaas, falava da revoluo e da Comuna, de Esprtaco, 
de Bakunine e da Internacional, assustando a irm realista e submissa, crente e habituada a


        281
hierarquias. Ia para o Par, juntar-se a um irmo mais novo, o Cincinato, que por l estava estabelecido. Adlia vestira-o dos ps  cabea, dera-lhe algum dinheiro 
das suas economias de abelha, a um tempo obreira e maternal. Tinha-o abraado a chorar, saudosa e orgulhosa daquele hrcules bondoso e desiludido, que parecia tomar 
enfim o rumo do juzo. E agora...
- E viste por l o nosso irmo? - indagou quase a medo.
- O nosso irmo! Aquilo no  um irmo,  um sovina. S pensa no dinheiro. Est bem, est rico, tem uma oficina de serrao e o negcio da borracha. A sugar o sangue 
dos desgraados de l e dos imbecis que de c lhe vo cair nas unhas. Come-lhes a camisa e bebe-lhes o suor do corpo, ali no armazm. Nunca se tiram das dvidas. 
Assim que l chego, diz-me ele assim: "Se queres comer, pega na serra ou no faco e trabalha. C no Brasil  assim. Eu tambm o cavei com estas mos. Parasitas no 
os quero c. Isto aqui no  a Folgosa! " Foi como me recebeu, o teu Cincinato! Disse-lhe logo: "Est mal enganado, se julga que vim pra c pra ficar s suas sopas. 
Desde os treze que ganho a vida com o suor do meu rosto. E nunca fui  gaveta dos velhos!" Apanhou logo pelas ventas! Ainda l fiquei seis meses, a trabalhar naquele 
inferno. Abalei, que nem adeus lhe disse.
- Aquele ingrato nunca me escreveu - disse Adlia, e baixou a cabea. - Fiz-lhe o enxoval todo pela minha mo, camisas, ceroulas, at lenis. De noite,  luz do 
petrleo, at de madrugada, s escondidas, com a porta calafetada para que me no vissem. A mulher nunca soube pegar numa agulha. At as onze libras que ele precisou 
para a viagem, eu as pedi emprestadas ao sr. Serrano, e tive de lhas pagar! Mas se ele est bom,  quanto basta. E a mulher? Eles tm filhos?
- Tm, tm dois, um rapaz e uma rapariga, dois enfezados. Quer mandar o rapaz para Coimbra, faz-lo doutor, como se os que c temos no chegassem. A mulher  outro 
coiro, foi ela que me fez sair de l mais depressa. Tem as chaves da despensa....
- E tu por onde tens andado, Amndio?
- Oh, corri aquele Brasil todo, dois anos. Fiz de tudo. Acabei nas docas do caf, em Santos. Por toda a parte o mundo  o mesmo. O dinheiro... Tornei a embarcar, 
tenho corrido seca e meca, nem vale a pena falar nisso. J c estou h meses, tinha



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vontade de te tornar a ver, mas envergonhei-me de te aparecer nesta figura l na Rua dos Fanqueiros... Como vo os nossos velhos?
- L esto, a mesma vida. O nosso pai, com aquela perna doente, quase sempre metido numa cama. Escreve-me s escondidas, coitadinho, a pedir-me vintns para o cigarro! 
A me, com a idade, j no pode amassar o po.... Perderam quanto tinham tu bem sabes o que foi toda a vida o nosso pai. Um mos-rotas Tiveram de largar a loja. 
Moram  Rua da Ponte, com a Encarnao, coitada.
- O Cincinato e o Sertrio, mais as mulheres, iam de noite  loja, com chave falsa, roubar o dinheiro da gaveta e a mercadoria. E tu ainda a ajud-los! Quanto mais 
tm mais se choram.
- Faz o bem, no olhes a quem. As aces ficam com quem as pratica. Eles pagaro... L que tem de haver uma justia, acredito! - e olhou a Conquista do Po.
- Espera por essa. A justia temos ns de faz-la por nossas mos.
-  preciso confiar na graa de Deus.
- Deus  o pio dos pobres.  com essas e outras que eles nos vo pondo o p no cachao.
- Tu bem sabes que eu nunca fui de andar metida pelas igrejas a bater a mo no peito e a tomar gua benta. A minha religio  trabalhar, fazer o bem que posso, ou 
o que me pede o corao, ter a conscincia tranquila. No espero recompensa, nem do cu.
- Enquanto os outros se fazem ricos  tua custa. H quantos anos trabalhas tu para essa gente, os Serranos!
- Desde que vim para Lisboa, com quinze anos, onde isso vai!
- Ao menos tens que vestir, boa cama, decncia - disse ele, e olhou-a da cabea aos ps. - E sempre podes ir dando uma esmola a quem precisa. Chega-te aos ricos!
Ela sentiu a amargura daquelas palavras e baixou os olhos:
- Sim, a gente se quisesse ajudar a quantos precisam, no havia dinheiro que chegasse. No tenho cinco ris de meu. S confio nestes dois braos!
- Tens corao,  o que  - tornou ele, tocado pela inexpugnvel


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mansido da Adlia. - Comeo a crer que neste mundo tem que haver de tudo... Os livros...
- Seria melhor que eu me deixasse ir  toa?, s para ter razo de queixa da vida? Ser melhor estar aqui metido num covil, a ler  luz duma vela de sebo, que te 
d cabo da vista?  espera de qu? - Depois sorriu: - Tinhas uns olhos to bonitos! Nunca perdeste o gosto pelos livros. Olha l, - rematou a sorrir, baixando a 
voz: - Ainda s republicano?
- Republicano?! No me confundas com essa cfila. O que eles querem  apanhar-se no poleiro pra se governarem como os outros. Ns somos contra todos os governos.
Adlia franziu a testa, apreensiva. Para ela, "anarquismo" eram bombas e atentados, desordem e destruio. Aqueles livros incendirios iam acabar por lhe dar volta 
ao miolo.
- Ests o mesmo!
- Sim, e agora  tarde para mudar.
Olhou-o com piedade e amor: quem o ouvisse falar assim, amargo, e o visse ali metido, havia de o julgar um criminoso sem remdio nem resgate. Mas ela conhecia-o: 
o Boi-do-Val' nunca tinha feito mal a ningum nem roubado o quer que fosse, nem aos pais, como o Cincinato e o Sertrio, que iam s arcas e gavetas dos velhos, e 
agora os deixavam s sopas duma filha pobre e abandonada do marido, e s esmolas da filha ausente. Se ele odiava o trabalho,  porque via nele um instrumento de 
explorao. E mesmo assim trabalhara sempre. Os seus olhos, apesar de congestionados e papudos, guardavam o fulgor de outrora. Estava mais duro e sombrio, mas sempre 
belo e robusto.
- Porque no vais tu ler l para fora, para um jardim, ao ar livre?
- O sol aflige-me a vista. E onde  que tu vs um jardim? A polcia no d descanso aos da minha laia. No posso ir ver ningum neste preparo. Quero sair, tratar 
da minha vida, ver se arranjo trabalho, nem camisa tenho, e ando com os dedos a espreitar fora das botas. O raio desta velha, devo-lhe trs mil ris do quarto, se 
me apanha na rua  capaz de me trancar a porta. Quem s vezes me vai comprar uma bucha  a pequenita, a neta.
Adlia comeou a desfazer o embrulho:
- Trago-te aqui duas camisas usadas do sr. Serrano, ainda te


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podem dar muito servio. Agora o calado  que eu no sei, tem o p pequeno. Talvez estas botas se possam trocar a num adelo da Mouraria. E um par de calas...
O irmo olhava-a, comovido: nada pedia nem aceitava a no ser dela, porque a amava e lhe conhecia o corao. No lhe feria o orgulho. Tinham da vida noes bem diversas, 
mas no fundo da sua revolta, ele continuava a querer-lhe como em menino, todo o amor que nem a me lhe soubera inspirar. Tudo o que fazia pelos pais, os irmos e 
at os estranhos, era com alegria, sem esperar gratido nem recompensa. Pelo amor da vida. Concebia a vida como religio, e esta como obras. No se queixava, era 
activa, sadia e tolerante e todos a adoravam ou invejavam. Vivia para os outros, trabalhando e cantando, infatigvel. Via humanidade no como abstraco, mas sob 
a espcie real das pessoas, dos dramas individuais que era preciso socorrer, e no recuava diante dum sacrifcio. Sempre a mesma, a gente muda... Sem querer, o Boi-do-Val' 
tinha os olhos hmidos.
- E no te casas! Uma rapariga perfeita como tu s!
- Nem tempo para pensar nisso! - riu ela. - No  que faltem pretendentes.
- Algum rapaz honrado. No te guardes para velha. J nos trinta...
- Olha quem fala! E tu?
- Eu? Casar-me com alguma trapicalheira da minha laia? Sem eira nem beira? Sei eu l. Eu no nasci para casar e ter filhos. Agora  tarde.
- Nunca  tarde para arrepiar caminho. Se em vez de estares aqui metido a sonhar com a maneira de endireitar o mundo, pensasses primeiro em governar a tua vida! 
Com o que sabes, tens lido e visto, e um artista como tu eras! Gostavas tanto da olaria... Porque deixaste o oficio? Custa-me ver-te neste estado! Talvez se pudesse 
arranjar alguma coisa...
- Ando a pensar nisso.
Conversaram mais algum tempo, no fim ele disse:
- Agora vai-te embora, que me quero levantar. Eu vou-te fazer uma visita um dia destes. E obrigado, irm!
Adlia foi dali falar com a dona da casa, na salinha de jantar atravancada de trastes velhos e fracturados, com um janelo que


        285
dava para a rua estreita e crepuscular, cheia de berros e do trovejar das carroas:
- Por este andar o seu mano est pronto. Ali onde o v, leva dias sem comer. Sempre agarrado aos livros, aquela mania... Eu s vezes inda le mando calquer coisinha 
pela minha neta, mas bem v, quem  pobre... Nem sei como vive. Nunca me deixa entrar na espelunca para lhe dar uma arrumadela. H seis meses! Que ele bom rapaz 
, seriozinho, uma jia. Nunca aqui mete uma mulher, e no  que elas no no queiram, bonito homem, uma torre de fora!... Renem-se a a discutir e a fumar noites 
inteiras, falam contra a lei, contra o governo e contra a religio, que eu at tenho medo que um dia a polcia... Deus nos acuda! O que vale  que no bebem. Mas 
isto inda pode acabar mal. Se a menina... Como  a sua graa? Adlia! Se a menina Adlia mo tirasse c de casa, era uma esmola que me fazia. Eu perdoava-lhe a renda 
atrasada s para me ver com assossego. Que eu gosto dele, sabe a menina? Bom corao, no tem uma palavra torta pra ningum, o que tem reparte-o com os mais... S 
aqueles modos, e as conversas! Se a menina lhe arranjasse uma colocao, l com os seus conhecimentos... Muito ele fala de si! Diz que  a nica pessoa que tem neste 
mundo.
Adlia ouviu-a, meteu-lhe o dinheiro da renda na mo, e saiu dali a meditar naquele irmo a quem queria como a um filho. O que  que o tinha feito assim? Que estranha 
vocao de amor e sacrifcio o arrastara at ali? Iria isto durar, e como acabaria? Ele, que em menino amava os bichos, poderia agora odiar os homens? Mas nem ela, 
com todo o seu amor e f na vida, poderia ter explicado o mistrio do Boi-do-Val', o revoltado solitrio, que vivia desiludido, despeitado de no achar nos homens, 
na ordem das coisas humanas, a resposta ao seu imenso amor recalcado e sem objecto.
Seguindo o conselho dela, o Boi-do-Val' tinha-se deixado de deambulaes, voltara ao oficio de oleiro para que parecia fadado, e, tempos depois, juntara os trapos 
com uma companheira da fbrica, ruiva e desempenada, nada feia, sem papas na lngua. A tia "Leotina" no sabia ler nem escrever. Logo ao primeiro filho, teimou em 
pedir a bno a um padre, contra a vontade do marido. Depois os filhos vieram vindo uns atrs dos outros, dois


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ou trs morreram na primeira infncia. Honrada e fiel, fez-se desleixada, uma lngua que era uma espada desembainhada, e tornou-lhe a vida um inferno de gritos e 
queixumes, criouinimizades, afugentou-lhe os amigos. O que ela falava dos parentes ricos", que a tinham botado ao desprezo por se ter casado com um reles! E que 
mais esperava?
Porque  que este homem lido e viajado, amigo das ideias, para quem a liberdade era a religio e o alvo supremo da vida, condescendera em se acorrentar a uma mulher 
vulgar e pretensiosa, "trapicalheira" (como ele dissera), que o amargurou ainda mais. O que  que os tinha aproximado? o destino? um impulso animal? a renncia? 
a identificao na misria? os contrastes de carcter, talvez? nele, um dever de conscincia, de reparao? "Cabeadas dos trinta anos! " - suspira a dona Adlia. 
"Esperou para tarde, como eu. " Ela sacrificara tudo aos pais, a ajudar parentes; ele dera tudo pelos ideais... Teria outra mulher feito dele um homem diferente?
 na fbrica da Pampulha que o sobrinho gosta de o ir ver: diante do boqueiro flamejante onde ele coze o barro e a loua, imensa p em punho, iluminado da cabea 
aos ps, verme como um semideus em luta com os infernos.
- Anda c ver como se modela o barro - disse ele um dia. Talvez te d tambm para seres artista!
Amontoou a massa crua e cinzenta, informe, em cima do prato do torno, sentou-se no banco muito alto, deu ao pedal, o prato rodou, e ele ps-se a afeioar o barro. 
Girando vertiginosamente sob a palma das mos e ao toque dos dedos, incrivelmente geis, o barro pouco a pouco tomou forma. Era primeiro uma bacia bojuda, depois 
um jarro, em seguida cresceu como se tivesse vida prpria, lanou-se, esgalgado, ondulou, fez-se melodia no ar - era uma nfora grega!
Olhando um momento, por cima dos culos, a frgil forma efmera, o Boi-do-Val' murmurou como se falasse sozinho:
- Eram coisas assim que eu gostava de fazer. Mas s tachos, panelas, alguidares! - e esmagou tudo com os punhos tremendos.
A Arte no tem nada que ver com o ganha-po!




XXX
REPBLICA, SOU TEU
Dos oito para os nove anos de idade, ele deu em descer sozinho  Baixa, de noite:
- Vai ter com o teu pai - diz a dona Adlia. - Fazes-lhe companhia, voltam juntos.
Haver nisso alguma razo que ele no entende? Nem se pergunta se gosta de andar assim em liberdade. Cedo comeam as deambulaes do sonhador.
Na Rua da Palma pra a olhar as montras das ourivesarias, em especial aquelas onde esto expostas as jias da que em vida foi rainha e Maria Pia. Fica um tempo sem 
fim a admir-las, sobretudo as pedras claras - quas, topzios, ametistas plidas, brilhantes... As jias da rainha velha (dizem que tinha enlouquecido, e regava 
as alcatifas do Palcio da Ajuda, cantando...) tm fulgores antigos, submarinos, na montra mal-iluminada.  sabido que as pedrarias ganham com o tempo tonalidades 
fanadas, moribundas: at os oiros velhos so mais brandos.
De nariz esborrachado na vidraa, entregue a si prprio ou ausente, ele deixa-se penetrar no seio dum grosso diamante ou qua-marina, e perde-se l dentro, flutua 
sem peso, de faceta em faceta, feito raio de luz, astro ou poeira, naquele outro universo de desmedida profundidade. Deixou de ser um corpo... Quando, passado tempo, 
desperta e volta a si, a vertigem da momentnea intimidade com o infinito d-lhe a sensao de ter perdido p no mundo real: a rua parece-lhe escura e lbrega, apesar 
do claro de


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caverna doirada das incontveis ourivesarias populares. Continua ento o seu caminho, vagaroso, divagando, entregue ao sonho tentando reabituar-se.
Gostaria de ter muitas jias s dele, influncia talvez das leituras que faz, ou ento por contraste com a modstia da famlia. No as quer para se enfeitar, e -lhe 
indiferente o valor delas, a no ser porque lhas torna inacessveis, ou talvez por isso mesmo mas para as ter guardadas numa grande sala forrada de veludo azul-nocturno 
ou roxo, metidas num cofre l no fundo. E tambm para mostrar aos amigos. Ele entra - isto, o que sonha! - em silncio, s apalpadelas, dirige-se ao cofre, abre-o 
uma luz oculta, branda como o luar, incide sobre as pedras que cintilam em reflexos quentes, irisados... Sente-se rico s de olhar, demoradamente, e no as quer 
para outra coisa. E o jardim oculto. Sonha aquilo que, na vida, no saber nem querer nunca alcanar como seu? Que importa. Esta sala, com as pedrarias escondidas, 
 como o seu primeiro sonho de amor: mas a frio.
Havia algum tempo que olhava aquelas flores de efmeras grandezas, quando sentiu um leve toque no ombro direito: Voltou-se sobressaltado, receando que fosse um polcia. 
No era. Um cavalheiro alto, bem vestido, de palhinhas e bengala, colarinho engomado e lunetas, com um bigode preto, olhava-o a sorrir:
- Gosta muito de jias?
- Gosto sim senhor - respondeu, delicado e tmido.
O cavalheiro parecia inquieto, olhou em volta, plido:
- Ento porque  que no vai um dia a minha casa?  l em cima na Estefnia. Tenho muitas jias, deixo-o brincar com elas..
Apertava-lhe o ombro delgado numa carcia trmula:
- Quer l ir no domingo  tarde? ou amanh? Tenho filhos quase do seu tamanho... Ou quer ir j? Est aqui parad tanto tempo...
Os olhos dele pareciam boiar, vtreos, de repente ficaram fixos e absortos. A boca abriu-se numa espcie de nsia quase repugnante, a mo incolor premia-lhe o ombro 
com nervosismo:
- Diga l se quer! Anda sempre assim sozinho, de noite?
Que instinto ou memria o advertiu? A me fala em ciganas que roubam meninas para lhes extrair os "santos leos" (que


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associa como algo de pudico e secreto). Retraiu-se, recuou devagar sem responder, com a garganta apertada. O cavalheiro olhou em redor, mais branco, e desapareceu 
na multido, empunhando a bengala.
No se atreveu a contar isto ao pai, como se fosse sua prpria culpa, nem tornou a parar diante das montras, donde as jias foram com o tempo desaparecendo. Ao passar 
agora ali, apressa o passo, com a imagem daqueles olhos assustados que tinham uma expresso estranha, alguma coisa de monglico... Mas no deixou de sair sozinho 
 noite: no tem medo de nada, nem do quarto escuro nem do fim do mundo - ao invs do Santiago, um audaz aventureiro, que anda sempre cheio de pavores e supersties.
Embora ele j no brinque como antigamente, no Hotel no faltam distraces. O pai confia-lhe recados importantes, manda-o  tabacaria da Rua Augusta comprar a ona 
de francs, e d-lhe dinheiro para um Texas Jack, um Raffles, ou uma destas novelas que ele comea a ler em espanhol (vm de Barcelona), e que so sempre a favor 
dos ndios. A Amrica do grande Manitu, das florestas impenetrveis, das pradarias e rios caudalosos, dos lagos salgados, das montanhas rochosas, dos caadores de 
peles, de bfalos e trilhos e mocassins silenciosos, exerce sobre ele uma atraco irresistvel. Comea a procurar em vo nos dicionrios os nomes misteriosos de 
tribos e regies - Algnquins, Iroquois, Mohicans, Hurons, Pawnies e Sioux, Cheyerines, Comanchos e Apaches... Se tudo isso existir?
Na tabacaria vendem tambm,  luz verdosa do gs, umas brochuras e postais como os que o irmo tem escondidos. Os homens riem-se, mostram-lhe essas coisas, perguntam-lhe 
se gosta, e ele cora, estrangulado de vergonha e curiosidade.
Trs vezes por semana, depois do servio, o pai leva-o consigo ao barbeiro. Com as luzes nas tlipas cor-de-rosa multiplicadas nos espelhos, o fumo dos cigarros 
e charutos, os aromas mistos flutuando, as nuvens de p de talco, o zumbir das ventoinhas, o sussurro de conversas e risos, as perguntas corteses ou familiares, 
as ordens breves, o sacudir de alvas toalhas, o canto cristalino das tesouras, o rpido e firme assentar das navalhas, a leitura de revistas e jornais - uma atmosfera 
a um tempo viril e delicada 
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a barbearia permite-lhe afundar-se numa dormncia secretamente voluptuosa.  sempre tarde, por volta das onze...
...Nisto, acordou alarmado na loja quase deserta, e no viu o pai. Pulou da cadeira abaixo e indagou com a timidez habitual. Os barbeiros olharam-no espantados: 
"O seu pai?! Foi-se embora h que tempos! J deve estar em casa. Se calhar esqueceu-se de si.
Mas no faz mal, fica a morar c na loja, ns precisamos de ajudante... "
Enraivecido, mordeu a boca sem falar, e abriu a porta envidraada que dava para o trio do prdio ao lado: sentado no trono dos engraxadores, imponente como um nababo, 
de pernas abertas e calas arregaadas, o pai sorriu-lhe:
- Julgavas que eu tinha fugido? Adormeceste! -e estendeu-lhe a mo.
Ignorando o gesto (no gosta de brincadeiras!) encostou-se um joelho do pai, a ver os engraxadores de blusa de ganga inclinados sobre as biqueiras das botas a puxar 
lustro com alma no calf ingls. Sorriam-lhe com simpatia. Estava aborrecido e com frio. Em cima do banco desdobrava-se um jornal, A Comarca, de Arganil.
Por fim, o pai olhou as botas, satisfeito, bateu as solas no lajedo
e pagou. Os homens, de joelhos, disseram: "Muito obrigado,senhor Augusto!"
Com o pai em casa ao domingo, graas ao descanso semanal, o almoo prolonga-se como nos dias de festa. O sr. Augusto brinca com os filhos, joga as cartas com a mulher, 
riem-se, a vida ganha miolo e naturalidade. Alm dos passeios e visitas a museus e monumentos, vo ver pessoas conhecidas, como o dom Marcelino, cozinheiro, ou o 
sr. Severiano, que tem uma tabacaria  Escola Politcnica, com centenas de canrios em gaiolas imensas, numa espcie de garagem.
Param a olhar casas, discutem estilos, sonham com uma moradia s deles: "Uma casinha assim era o meu sonho! - diz a dona Adlia. - Trs degraus e o alpendre, que 
lindo! " - Quer rosas de toucar, madressilva, lilases, a hera sobretudo encanta-a. O sonho de decncia e estabilidade  nela a maneira de reatar com a infncia. 
Os filhos nem sempre esto de acordo com o gosto dos

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pais, mas procuram no os contrariar. O Gabriel, ento, com uma intuio quase penosa das formas, distingue entre uma fachada clssica ou barroca e as tristes e 
mesquinhas imitaes que passam por "casa  antiga portuguesa": antes um casal saloio! No se sabe onde  que este pequeno foi aprender isto, ele que tem na escola 
to ms notas.
O sr. Augusto escuta com respeito este filho franzino, que l muito, fala de coisas e loisas, e j em pequenino o assustou com a rapidez com que aprendeu a falar. 
Gosta da sua fantasia, admira-lhe os conhecimentos com esta superstio to comum entre os prticos e os autodidactas - "Ah, tivesse eu tido quem me mandasse  escola! 
" - inconscientes ou duvidosos do seu prprio saber s de experincia feito: mas no fundo orgulhosos do que aprenderam ou ganharam sem l ter ido. Um dia, por exemplo, 
que passeavam juntos, o pequeno falou da Idade de Ouro; e o pai disse timidamente:
- Sim, j tenho ouvido dizer isso, mas no acredito. A Idade de Ouro est no futuro, feliz de quem l puder chegar! O que eles chamam Idade de Ouro  a infncia, 
a idade da inocncia, os que a tiveram...
O filho olhou-o: to srio e doce ao dizer isto! Era bom am-lo e confiar nele. Apertou-lhe com fora e carinho a mo quente e firme, cuidada, com as unhas chatas 
sempre bem aparadas. O paizinho, o "galego", o Agustn da Ryala, o mocinho de padeiro que no teve infncia nem mocidade, e  to digno, apurado e cheio de brandura! 
No h nele amargura alguma: ao contrrio, cada passo em frente parece dar-lhe uma satisfao maior de viver. So talvez as memrias da infncia infeliz que o fazem 
crer e confiar no futuro, meta e motor do seu avano!
Vo a toiradas  antiga portuguesa: o sr. Augusto aprecia imenso as cortesias, e reprova a sangueira das corridas  espanhola. Cultiva nos filhos um vago sentimento 
anticastelhano, fala com esperana na fuso de Portugal e Galiza, e at inventou em segredo um lindo nome para a nao futura: Portugalcia! Se menciona a Unio 
Ibrica, acrescenta logo: "Sim, mas cada qual na sua casa!" - At lhe trouxe um livro em catalo, que eles no podem ler, com estampas dos quadros dum tal Nuno Gonslvez, 
portugus. Consoante o prometido, visitam a Batalha e Alcobaa:

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com que gosto ele ouve descrever a refrega de Aljubarrota, e louva o Condestvel mailo seu caldeiro - "Santo Condestabre, bone portugus!" No Mosteiro percorreu 
tudo com venerao, experimenta sonoridades, calcula a altura das naves (talvez a do elevador de Santa justa!), mede a gtica espessura das paredes com a bengalinha 
de cavalo-marinho, e repete aos filhos, que esto' fartos de sab-la, a do arquitecto ceguinho da Sala do Captulo: "A abbada no caiu, a abbada no cair!"
Em Lisboa, mostra ao filho as residncias de homens importantes, alguns com polcia fardado  porta: os perseguidos de ontem so agora deputados, senadores, ministros, 
diplomatas como um que ele ajudou uma noite a fugir do Hotel, disfarado de mulher, num coup de praa, quando estava cercado pelos bufos do Joo Franco. "Bons tempos!" 
- suspira, como se as coisas, apesar de diferentes, no tivessem mudado.
Conhece um mundo de gente, tira chapeladas respeitosas para a direita e para a esquerda, com muitos vossas-excelncias, e alguns domingos assinalam-se pelo encontro 
com juzes, inclusive do Supremo e do Ultramar, ou eminncias da Repblica, que falam afectuosamente ao empregado de hotel, esposa e filhos. Por vezes so africanistas 
bronzeados ou "brasileiros" amarelos das febres, lojistas da Baixa com vincos de inquietao na cara em vez do esperado repouso hebdomadrio, ou antigos conspiradores 
de quem ele diz, baixando a voz: "Este  da Maonaria!" (ou da' Carbonria). Usam gravata lavalire, preta e flutuante (o Gabriel tambm, mas a dele  de "escocs"). 
H um oficial muito simptico, que foi ajudante do rei Dom Manuel, narrava misrias' e baixezas de altezas e grandezas, e um dia at deu ao sr. Augusto' o charuto 
que sua majestade lhe oferecera depois do jantar: no era monrquico, mas ficou fiel ao rei, demitiu-se, casou rico, e agora  negociante. O general Belchior, velho 
e gag, sempre a meter-se na rua com as costureirinhas, dizia cobras-e-lagartos da' Casa Real, andou metido de gorra com o Jos de Alpoim, e agora, com a Repblica, 
est um talassa rabioso. Vo l entend-los. Tambm encontram o sr. Pompeu, redactor do Mundo, com as calas muito justas e os dedos queimados do cigarro, com um 
ar sombrio e apoquentado. Senhoras elegantes, que metem rebuados e tostes novos, perfumados, nas mos dos meninos, com


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grande ferro da mezinha. Gente da Parvnia, sempre a falar de cmbios, juros, veiguinhas, a vaca parida, como se no houvesse mais nada neste mundo, e no h. E 
o pessoal superior do Hotel, mundo empolgante de intrigas, rivalidades, podrides, amores ilcitos, deboches de automvel em quintas dos arredores. Por exemplo, 
contam dum cnego - apurem agora o ouvido! - que estava para sair bispo, e morreu de repente depois de jantar no quarto onde... (Aqui um cochicho inaudvel.) E tiveram 
de o levar dali s escondidas para... (Outro cochicho!) Ah, porque  que eles no falam mais alto, para a gente ficar a saber tudo! O Teatro, a Poltica, a Magistratura, 
o Escndalo, tudo por l tem passado. Ali vai o sr. Filgueiras, empresrio teatral, gordo, de lunetas azuis, cala de linho e panam, todo frescura-das-praias, acompanhado 
da amante, uma francesa pequena e mercurial, que abrasa Lisboa a cantar o Fad com acentos canalhas, parisienses...
Melhor do que isto s o Animatgrafo. Imagine-se que at j viram Desenhos Animados! Foi no Olympia, as aventuras do Capito Cocktail. Mas s vezes estes encontros 
derreiam os lombos e a pacincia dum menino cristo.
Logo depois do Cinco-de-Outubro, o sr. Augusto tinha comprado um lindo mastro pintado em espirais verde-rubras, e aos domingos e feriados a bandeira est sempre 
hasteada na sacada. No  de pano to fino nem de cores to vivas como a dos Mitelos, mas  maior e serve perfeitamente para proclamar as convices da famlia. 
O Gabriel  quem est encarregado de a iar e arriar, com muito orgulho.
Mas voltemos um pouco atrs, se no se importam. Para a escolha da bandeira houve um grande debate nacional e familiar. O sr. Augusto era a favor da verde-encarnada, 
mas o filho, por motivos ignorados, preferia a azul e branca, com estrelas de oiro em vez da coroa por cima do escudo. Segundo o Santiago, sempre bem informado, 
receava-se que os "pretos" com perdo de quem nos ouve, no acatassem a bandeira nova, e se revoltassem, tomando-a por estrangeira. So-nos muito fiis, os "pretos", 
e dedicados  monarquia que Deus haja. Ou inocentes?
Bem, foram uma noite ao Teatro Apolo, ex-Prncipe Real, ver uma revista em que por sinal a Mquelina fazia uma rbula, e no



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fim houve uma Apoteose, com centenas de estandartes de mil cores e feitios. Uma actriz avanou, mascarada de Repblica (s que o barrete frgio no estava muito 
parecido), e recitou com voz de contralto umas estrofes picas  bandeira republicana, que empunhava: a sala ia desabando com tantas palmas! - Ento, adianta-se 
outra, alta e magra, muito sentimental, embrulhada no estandarte azul e branco, e recita pouco mais ou menos isto:
Repblica sou teu,
podes pedir-me a vida; mas dentro do meu ser nenhum poder arranca esta raiz de amor - Bandeira azul e branca!
E o Teatro quase que vinha abaixo com os aplausos... No se percebia muito bem porque  que, sendo mulher, ela dizia teu - "sou teu". Nem sequer rimava. As estrofes 
eram um bocado pfias, mas ainda assim o Gabriel lacrimejou: paradas, hinos, estandartes, uniformes, so coisas que sempre puxam a lagrimazinha, embora contrariada.
No fim,  claro, ganhou a bandeira da revoluo, e no admira. Comearam logo as piadas - que o verde  para avanar, e o encarnado para parar, por isso a Repblica 
faz que anda, mas no anda! Esta gente para tudo encontra uma piada.
Havia desfiles de meninos com muito juzo, bibe de riscadinho azul e branco, chapu de palha, bandeirinhas, hinos e loas. At iam assim para os banhos de mar, debaixo 
de forma, cantando O Semeador. As escolas semeavam, quem viria colher! - O Gabriel foi ouvir um discurso do Fundador da Repblica no Teatro Moderno: na realidade 
no ouviu nada, a voz era montona e apagada, mas ficou-lhe a memria dos culos a luzir na face incolor, a farda sem brilho, o orador sem gestos. Ranchos de meninas 
muito republicanas,  maruja, marcharam airosas, no palco, cantando, empunhando flores... Era tocante e paroquial. No Salo do Borralho, ali ao lado, o coro cantava: 
"E viva o dr. Afonso Costa, de quem o povo sempre gosta! " - Na parada dum

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quartel distante, o Capito Palla, de p em cima dum canho de campanha - que o Chiquinho explicou ser um Schneider-Canet de 75 mm, tiro rpido - falou aos soldados, 
saloios mazombos, e aos numerosos convidados: o vento arrebatava-lhe as palavras, no se percebia nada, s ficavam gestos, um brado sacudido no ar, de exaltao, 
rajadas de msica, aplausos e foguetes... Todas estas coisas lhe deixavam a vaga melancolia dos entusiasmos frustrados, sem derivativo.
Chegado o Carnaval, as meninas mascararam-se de Repblica, e os meninos de Grandes Homens do regime em miniatura, e marchavam com solenidade, muito admirados. E 
de repente - mas como  possvel, j l vai um ano! - Lisboa est toda engalanada: arcos de triunfo, mastros, coretos, palmas, flmulas e pendes, grinaldas e festes, 
escudos e esferas armilares doiradas, granadas de papelo prateado, um deboche de cor e fantasia, areia vermelha nas caladas, marchas, estoiros de morteiros e foguetes, 
fogos-de-artifcio, as ruas um mar de povo... At parece um Centenrio! "Oxal isto dure!" - diz a dona Adlia, amiga da paz e do trabalho. "Se  assim que o povo 
se sente feliz..."
Mas alguma coisa se passa, que traz o sr. Augusto apoquentado. Os monrquicos concentram-se na Galiza e atacam na raia. Ento consente-se uma coisa destas, um exrcito 
invasor formado em territrio estrangeiro, e ningum faz nada?... Onde esto os Portugueses-de-Outras-Eras?  a interveno espanhola descarada! Dizem que o Afonso 
XIII at mandou o exrcito espanhol fazer manobras na fronteira do Alentejo. O povo odeia-o, e o Santiago canta s escondidas: "O rei de Espanha tem s meio bigode 
e a rainha no  com ele que... "
O pai ri-se, manda-o calar.
L para o Minho at abades andam de pistola  cinta, a comandar guerrilhas, como no tempo -da Maria da Fonte. Se isto  possvel, em pleno sculo vinte!...
Cidados muito valentes, voluntrios, marcham nas ruas e paradas dos quartis, na farda de cotim, roseta verde-rubra no barrete, meia-volta volver, em treino militar 
sem armas, para ir dar combate ao inimigo. O sr. Mitelo c de baixo tambm anda, at nos faz um bocado de inveja, mas esse temos a certeza que no chegou a ir at 
 Galiza.




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Por fim um sargento, sozinho, emboscou-se na Portela do Homem e dizimou uma coluna invasora. A Repblica venceu. Houve muitos prisioneiros, os canhes parecem brinquedos, 
espingardas apreendidas tm a marca de Toledo (aprova!), mas cadveres amontoados no cho, descalos, num lago de sang esses no so a brincar! Antigos polcias, 
oficiais, at condes e marqueses... "Desgraados! - suspira o sr. Augusto. - Irmos, a matarem-se uns aos outros, para qu! Isto para trs  que no pode andar!"
Acabou-se o sossego, se  que alguma vez existiu. Vejam vocs: comeou com a guerra dos Boers - ns at sabemos o hino deles de cor, veio no Almanach Hachette: "Connaissez-vous 
peuple fier, etc. " - Muita pena tem a dona Adlia do presidente Kruger, coitadinho. E o sr. Augusto admira muito o general Botha, que nome este. Mas agora esto 
todos reconciliados, muito felizes, l nisso os ingleses, justia lhes seja feita... Depois atiraram pela janela fora a rainha Draga da Srvia, que drama que foi! 
Agora, at a China imitou Portugal, e proclamou a Repblica. As monarquias foi um ar que lhes deu. Quantas  que restam no mapa da Europa?... Sun Yat-sen tornou-se 
o heri do dia, at que veio o general Yuan Xi-kai, e a rapaziada cant alegremente: "Kai, kai, kai!..."
Mas nem tudo corre como se esperava: h boatos, greves assaltos e prises, rebentam bombas, a cavalaria carrega sobre o povo... Ento a Repblica no  a harmonia 
e a fraternidade, liberdade e o po para todos? Ou no ser esta a Repblica que eles sonharam?... A verdade  que h muitos descontentes e conspiradores. "Tudo 
neste mundo  luta, no h parto sem dor - comenta o sr. Augusto, e acrescenta: - Nem muito ao mar, nem muito  terra! No meio  que est a virtude!" - A questo 
, achar o meio. Imagine-se que at apuparam o dr. Antnio Jos no Rossio, teve que se refugiar numa espingardaria. Para o que isto estava guardado! E o sr. Augusto 
abana a cabea: "A Rep blica tem muitos inimigos! Se no se unem todos outra vez, no sei o que vai ser... "
Se uma banda militar toca nos coretos do Rossio ou no Terreiro do Pao, o pai leva o filho a ouvir msica. A Alma de Dis derrama-se na noite estrelada como um grosso 
mel de lgrimas


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fceis: "Canta, vagabundo, tus miserias por el mundo... " De repente tocam A Portuguesa, a multido agita-se, e o pai diz: - Tira o chapu, filho.
H sujeitos-que vm aqui de propsito para no tirar o chapu. Intimados pela numerosa assistncia, mas muito portugueses, muito do contra e valentes, recusam-se. 
Ento cresce no ar a floresta rumurosa de paus sem folhas, a msica l no coreto faz as malas  pressa, h vivas e morras, e o Gabriel ouve com espanto a ressonncia 
baa de cacetadas em chapus de coco, em crnios obstinados, e h correrias, sujeitos levados em braos a escorrer sangue... No se v um polcia: ou antes, v-se, 
mas lvido de susto... Mas o que  que se passa? Estes adultos esto absolutamente infantis! O sr. Augusto ainda consegue sorrir: "So como
beijos de me... "
Tudo isto  demasiado complicado para os nossos verdes anos, no acham? E temos de aprender Francs, Geografia e Histria, Matemtica, Cincias Naturais, a ortografia 
nova... A gueda decora a Estilstica de fio a pavio, e versos em francs, Alfred de Vigny, Vtor Hugo... E ele, o Gabriel? Ah, ficou aprovado no segundo grau, nem 
pode acreditar. Resolveu tirar o curso dos liceus, a ver no que isto d. Mas que indiferena, que alheamento o seu! Brinca sozinho, l livros, vagueia, faz bonecos... 
"Que ter este pequeno?" - medita a dona Adlia, inquieta. Mas no tem nada, senhora! Sonha, aprende como pode, cresce. Entregue a si mesmo, como toda a gente. O 
tempo dele  longo, o nosso  curto...










XXXI
O FILSOFO E O COZINHEIRO
Era domingo, pela tarde e com frio, quando encontraram  esquina da Rua Mrtens Ferro o professor nervoso e torrencial, de lunetas fuzilantes e bigodes em pincis 
explodidos. Ficou ali duas horas puxadas a falar de clculo diferencial ou integral (no puderam distinguir bem), e o sr. Augusto, rodeado da famlia atnita, a 
ouvi-lo atentamente do fundo da sua pequenez e das quatro operaes aprendidas graas  esposa, j de barbas na cara, tem-te no caias, sorria com bonomia, e assentia 
com a cabea, a olhar c de baixo o Mestre, nem que ele fosse o abade da sua parquia a falar-lhe de Teologia Mstica:
- Sim senhor, senhor doutor! Vossa excelncia que o diz... Vossa excelncia  um sbio!
Diante desta anuncia, mais sincera e admirativa que a dos alunos da Universidade, o Professor retomava o voo pelos cus inacessveis da filosofia e da anlise matemtica, 
e repetia a cada instante:
- Entende? Entende? - aos gritos de impacincia na Rua Mrtens Ferro. Parecia empenhado em arrebatar aquela famlia atravs da selva escura de frmulas e teoremas, 
de axiomas, postulados e raciocnio pelo absurdo, em que ele prprio, era evidente, se perdera. Chegou a escrever coisas com o lpis na parede dum prdio, e os meninos 
cheios de receio no aparecesse um polcia e ralhasse. Disparava nuvens de perdigotos.
- Entende? Entende?


        299
E o sr. Augusto, risonho e conciliatrio, embora j um pouco modo:
- Entendo, senhor doutor, entendo perfeitamente. Vossa excelncia que o diz... Vossa excelncia  um sbio!
O acatamento da autoridade-porque-sim, em vez de o irritar, parecia lisonje-lo e exalt-lo: nunca o tinham escutado talvez assim, num mundo onde todas as ruas tinham 
nomes de reformadores de cdigos e de chafarizes, ou de tenentes imortais desconhecidos. Mas era uma satisfao extempornea e estril...
Duas horas daquilo. Estragou-lhes a tarde, empeonhou-lhes o domingo. Em volta dele,  espera do fim, os pequenos ensarilhavam e desensarilhavam as pernas de cansao, 
e chupavam os dedos com fome de po saloio, de jantar fora, de cinema ou Coliseu, de carro elctrico, de W. C. forrado de azulejo - de tudo o que era domingo e era 
bom e alvio, e suplicavam em voz sumida:
- Vamos embora, paizinho! Vamos ao animatgrafo!
Viram o sol fazer-se amarelo  Rua Mrtens Ferro, e j da cor dele, transidos, com os ps frios e o estmago pegado s costas, s desejavam que o cho se abrisse 
como no terramoto, para tragar o insigne sbio. A me, com as faces cavadas de trabalhos, noitadas e esforos para fazer do domingo um xito, abria-lhes olhos feios 
e apertava-lhes os ns dos dedos s escondidas. O pai nem ouvi-los parecia.
- Sim senhor, senhor doutor. Vossa excelncia que o diz...
O Professor despediu-se bruscamente e foi-se embora, a puxar pelo leno de seda vermelha com ramagens para enxugar o suor da cara. Soprava um vento gelado e triste 
quando o domingo morreu. Mas j no podiam ressuscit-lo: do prprio sol havia apenas um rasto azulado. Desceram ento pela Avenida Fontes  Rotunda, a caminho da 
esperana de jantar num daqueles restaurantes pacatos, arte-nova, e de uma ida ao Salo Central.
- Este pobre homem tem uma aduela a menos, no se pode contrariar - disse o sr. Augusto. - Mas  um sbio, um sbio, basta ouvi-lo!
Contou ento que o professor no tinha c famlia, vivia sozinho, e ia comer ao Hotel. Os burros comensais queixavam-se: ele arremessava ossos e espinhas para todos 
os lados, cuspia  toa, falava sozinho assustando as crianas, derramava o vinho, partia


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vidros e louas, irritava-se com toda a gente... Queriam ver-se livres dele, mas no sabiam como. Deram em pregar-lhe partidas para o afugentar. Uma noite, num daqueles 
corredores mal iluminados, surgiu-lhe pela frente um fantasma de sudrio branco, a dar ais de meter medo: era o Caixa, um bomio, um estoira-vergas, mas uma prola 
de rapaz (anda agora a deitar os pulmes pela boca). O Professor fugiu espavorido, parece que a filosofia o no robustecia suficientemente contra os assaltos do 
sobrenatural. De outra vez, um-gracioso meteu-se-lhe debaixo da mesa (ele passara a jantar mais tarde, para evitar reclamaes), e pela altura do assado desatou 
a latir, a caminhar como um cachorro espezinhado, e a fingir que lhe abocanhava as canelas. O sbio teve um sobressalto terrvel, e precipitou-se pela escada abaixo 
aos gritos, completamente fora de si, em riscos de se despenhar, perdeu o chapu, e s parou numa travessa distante, a arquejar e a enxugar
o suor da testa com o leno de ramagens. (J o Sr. Braud, professor de francs, tinha endoidecido, alcolico de desespero, por no poder aturar os alunos.)
 - Acabam de lhe dar volta ao miolo! - rematou o Sr. Augusto. - Branduras tradicionais dos nossos costumes...
 Foi talvez para se proteger destes assaltos do Ininteligvel que o Professor deu em aparecer acompanhado dum discpulo cor de cera, com bigodes de crepe, abotoado 
at ao pescoo numa andaina semi-sacerdotal, e que o escutava, ou fingia escutar, como
o        Orculo. Com aqueles ares de gato-pingado, puseram-lhe a alcunha de Vela-de-sebo.
 Pronto para recolher a casa, o Sr. Augusto dava instrues ao Ajudante quando ouviram passos e vozes excitadas na escadaria nobre:
 - L vem o Professor com o Vela-de-sebo! - murmurou contrariado, e tirou o chapu, tornou a ser de repente o empregado solcito. O pequeno voltou-se e reconheceu 
o sbio, que transpunha o trio rapidamente, com o andar um pouco arrastado, e seguido a custo pelo aclito serfico ou ceroso. Dirigiu-se
o Sr. Augusto, que com o filho ao lado, parecia esperar a arremetida dum touro, e sem mais nem menos agarrou-lhe a mo direita, depois a do pequeno espantado.


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Durante alguns minutos, no silncio amarelo e elctrico do trio, atropelando as palavras e disparando girndolas de perdigotos, o sbio explicou ao aclito, numa 
linguagem crptica, ininteligvel, alguma coisa de misteriosamente anlogo ou hereditrio que lia nas palmas de pai e filho. O Vela-de-sebo aprovava com o sorriso 
petrificado. Os seus olhos rasgados, untuosos e perscrutadores no fitavam, porm, as duas mos abertas, mas sim a cara do menino: com uma expresso absorta e langue, 
em que este reconheceu um parentesco com o cavalheiro da Rua da Palma. Fez um movimento para se furtar, mas sentiu-se agarrado com fora...
Numa excitao crescente, instantes depois, o professor largou de sbito os objectos da demonstrao, e virou-se para o discpulo, que sorriu mais; depois, sem deixar 
de falar, meteu a mo num bolso das calas, sacou um punhado de moedas e, supondo decerto que o Gabriel ficara de mo estendida, abriu os dedos nodosos e soltou-as 
no ar...
Entretido a espiar-lhe a expresso, as lunetas trmulas, os vincos fundos do rosto, a boca espumante, ele no esperava ou no compreendeu logo o gesto, e as moedas 
de prata, as novas e reluzentes da Repblica a par das mais gastas e baas da Monarquia, despenharam-se em cascata, tilintaram nos mosaicos, pularam elsticas, rolaram 
em todos os sentidos entrechocando-se e tinindo, foram-se perder debaixo de mesas, cadeiras e capachos.
Seria preciso correr atrs delas, curvar-se a apanh-las uma por uma... O sangue subiu-lhe toda  cara e ele teve uma vertigem: Nunca! Para cmulo, o comboio do 
Norte parecia ter chegado mais cedo, porque o trio encheu-se repentinamente de vozes, de rumor e movimento. De todos os lados correu gente a apanhar moedas, e o 
Porfrio do ascensor, amarelo de cidra sempre enjoada, veio entregar-lhe cinco: recebeu-as com as faces a escaldar, os olhos turvos de lgrimas, e nem disse obrigado. 
Ter-se-ia perdido alguma?
Sem lhe prestar mais ateno, o Professor tinha agarrado o aclito pelo brao, e sempre a falar torrencialmente arrastou-o para a rua. O sr. Augusto regressara aos 
seus deveres de hospedeiro, rodeado de gente, invisvel. O pequeno odiou o Professor, o Vela-de-sebo, e a prpria prata que, se alguma tinha, costumava


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arear com extremos de amor, e pomada do mesmo nome Como lhe pesavam agora no bolso aqueles cinco ou seis mil-ris. O dinheiro pareceu-lhe de sbitp associado  sordidez, 
 humilhao e  loucura.
Ficou envolto por alguns minutos numa nuvem, at que tudo voltou a serenar. Sentiu por fim a mo do pai agarr-lo afectuosamente, e ouviu a voz macia dizer-lhe:
- Anda, vamos visitar o meu amigo Marcelino!
Saram. Meteram  Rua do Ouro, Rossio, viraram  Rua do Prncipe, andaram um pedao, e pararam  porta da cozinha dum grande restaurante, escura e gradeada. O pai 
bateu, um moo acudiu, a suar, e cumprimentou-o com respeito:
- Est por c o meu amigo Marcelino?
Entraram. Dom Maralino (assim era, no trato dos conterrneos) menos ocupado quela hora, veio logo, de barrete branco para a nuca, a melena preta  mostra, o avental 
enodoado de sangue e de molhos, e fez uma carcia gordurosa na cabea do pequeno. Depois foi-lhe buscar um pastel folhado. O Gabriel ficou a comer o pastel ainda 
quente, que lhe estalava deliciosamente nos beios, em folculos, e os dois amigos puseram-se a conversar, em p, no calor e claro dos foges, entre o estardalhao 
das louas e caarolas de "arame" (porqu, se eram de cobre?), e dos gritos e ordens que vinham da copa, quela hora adiantada. Havia gente importante que ceava 
tarde.
A cozinha, de tecto em abbada, era comprida, toda forrada de azulejo branco-sujo. Os foges estavam enfileirados a um lado, e do outro havia uma srie confusa de 
mesas e lavadouros. Naquela atmosfera sufocante e aromtica, vestidos de branco e de barrete na cabea, os homens suavam e corriam. O calor infernal j atenuava 
um pouco, mas as grandes marmitas ainda popotavam fumegando. O sr. Augusto postou-se onde um pouco de ar fresco soprava da porta entreaberta.
Dom Marcelino era magro e pequeno, tinha um bigode que ultrapassava de alguns centmetros a largura da caveira. No sorria. Os seus olhinhos sempre em movimento, 
ao abrigo das fartas sobrancelhas, no perdiam nada do que se passava em torno dele. A voz saa-lhe em arrancos asmticos do estreito cavername - sofria de bronquite 
crnica (este sim) contrada em vinte anos de
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trabalho naquele antro e nas sadas repentinas para o frio das hmidas e tardas noites do inverno lisboeta. Preocupado e taciturno, cofiava longamente os bigodes 
de gauls com os dedos lvidos, ossudos, deformados do reumtico, mas cheios de prestgio: chefe de cozinha dum restaurante famoso, aqueles rgos tortulhosos, cadavricos, 
preparavam as maravilhas que faziam a delcia de prncipes (da, talvez o nome da rua?), diplomatas e mundanas. Era uma celebridade profissional, com medalhas de 
ouro e prata e diplomas ganhos em concursos. Aparecia em fotografias, que oferecia ao amigo e conterrneo, de barrete e avental impecveis, medalhas ao peito, posando 
com os camaradas ao lado das suas obras-primas de culinria e pastelaria: pudins monumentais que representavam a torre dos Clrigos ou a torre Eiffel, o Castelo 
da Pena ou a Abadia de Westminster - um tudo-nada deformados, j se deixa ver, simplificados em ovos, acar, chocolate, gelatina, cremes e glac. Exalava o indelvel 
cheiro peculiar dos homens que vivem perpetuamente entre gorduras, caldeires, fritadas e temperos. Falava mal o portugus. A dona Adlia estimava-o muito, um homem 
honrado, mas aborrecia a mulher, ou amiga, uma portuguesa ch-ch do Fundo, escura e bexigosa, com "cara de bruxa". Era destas mulheres que em Lisboa lavavam e 
engomavam a roupa dos honestos galegos, e acabavam por lhes fazer outros favores ou juntar-se com eles. Acontecia que alguns, sem o confessarem, j eram casados 
na sua terra, e da resultavam lgrimas, cenas, separaes desgarradoras, filhos sem pai.
Dom Marcelino para aqui, Dom Agustn para acol, a conversa arrastou-se, obscura e subsoprada sobre os eternos temas - capitais, juros, converses, cmbios, gios, 
inscries, vacas, pinheiros e lameiros, canastros, contas em papelinhos inverosmeis, amarrotados... Dom Marcelino fazia economias, pairava em altas esferas financeiras, 
era respeitado. Puxava nervosamente o bigode, com a cabea sempre de lado e em movimento, como a dum pssaro, e grunhia cavernosamente palavras incompreensveis. 
Falavam do Callante e da Ryala, do Senor Abade conterrneos outros.
Lisboa, para aqueles imigrantes, era a vida nocturna e subterrnea, o trabalho forado, a mina; e a Galiza, o mundo azul e


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verde da esperana e redeno, de abastana e repouso. Quantos l chegaram?
Um subordinado veio interromp-lo, a pedir instrues, e o galego asmtico, artrtico e franzino ergueu-se a toda a sua estatura de deus das caarolas, transfigurado: 
provou coisas de imensas colheres de pau, e  ordem dele as chamas estalaram e rugiram nas fornalhas, clares de forja lamberam as caras suadas e os azulejos, subiram 
com os aromas capitosos at s abbadas daquele antro de feitios culinrios. Os metais entrechocaram-se com fragor, os caldeires espumaram, enraivecidos, como 
gigantes prisioneiros, chiaram frigideiras, os cozinheiros correram em todas as direces... Era talvez um Prncipe estrangeiro que esperava a ceia!
Todos se entendiam, como a bordo dum navio, por meias palavras e sinais cabalsticos.
O Gabriel caa de sono e abafava de calor, mas tudo isto exercia sobre ele um irresistvel atractivo. Se no sentia aqui o sopro pico dos fornos de olaria do Boi-do-Val', 
ao menos no sofria daquele indelvel hlito de misria, decadncia e morte que soprava das bandas da gente materna.
 no mundo dos vivos que ele gosta de mergulhar e perder-se.
Se dantes a vida era um encontro casual com pessoas e acontecimentos - episdios soltos que a sua fantasia ia bordando numa talagara de continuidade - tudo agora 
lhe parecia pouco a pouco ganhar volume, profundidade e perspectiva, para ficar retido na sua prpria substncia, como impalpvel alimento. A cada instante alguma 
coisa acaba e algo comea, nada se improvisa ou gera de repente, antes tudo se encadeia, permanece e se transforma: ele prprio vai crescendo e mudando sem deixar 
de ser quem era, embora por vezes pense no Eu de ontem com espanto e estranheza.
Fora dele, tudo parece decorrer numa grande esfera ofuscante e clamorosa como o cu da tarde em que, embriagado, tentou trepar ao mastro da macaquinha. (J sabem 
que ela morreu, no  verdade? Mordia a cauda, teve uma infeco!)  um gro de poeira arrebatado no rasto de um cometa, e esbraceja por se deter, apreender o que 
se passa, identificar-se e definir-se: mas, por enquanto,



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no passa de mera testemunha dum mundo que o excede e o ignora, e no qual a sua vida se entretece, annima e livre, e ainda assim responsvel...
As evocaes da me deram-lhe a noo das suas prprias origens, dum passado. Mas o presente  feito de instantes imensurveis, decorrentes, arrancados ao nada do 
futuro, para o qual a gente avana s arrecuas, cego, o remador de costas para a proa!, s se apercebendo da realidade do Tempo como retrospecto, alguma coisa que 
se enrola para trs  maneira das paisagens quando se viaja, e a cada instante se congela em passado. De repente, porm, a marcha acelera-se, as guas do rio avolumam-se 
e adensam-se como ao acercar-se do aude, da queda tumultuosa... Ento, sente-se tomado duma leve angstia, o corao bate-lhe de exaltao e anseio, sem que ele 
saiba porqu nem para qu.
Entretanto, a timidez e o alheamento so uma couraa que o protege dos desaires e emoes. Imagina-se invisvel dos outros (e at mesmo de si) para poder sentir-se 
abrigado e aconchegado no seio do torvelinho. Evadir o sofrimento, por agora,  melhor do que afront-lo. Continua a esperar a noite aveludada e sem corpo, para 
sonhar aventuras e evocar as vises que o exaltam e enlanguescem. Mas, com o tempo e a conscincia, cresce entre ele e os amigos uma reserva, a do orgulho ou pudor 
das fraquezas. A inocncia era a nudez, saber  ocultar-se... Depois, acentuam-se as diferenas de condio e aspiraes: o Chiquinho, por exemplo, quer ser militar, 
s sabe e pensa e fala de armas, arreios e cavalos. O Orellana  rico, e no tenciona mudar de oficio. E ele? ser marinheiro? artista? ou simplesmente oleiro, como 
o Boi-do-Val'? ou nada? - O futuro comea a tomar um vulto inquietante, como antecipao angustiosa do presente: um nada que se converte em outro nada, mas atravs 
da penosa experincia de cada dia, para se ir sobrepondo  experincia cristalizada, que  o passado.
A eloquncia da dona Adlia transfigura as coisas, mas no basta para alter-las... Cumprida a sua misso retrospectiva,  um pio, um museu de figuras de cera... 
Chegam a vir visitas s para a ouvir, como o pai do Chiquinho: um homem de cincia, com laboratrios, microscpios, toda a casta de bichos em jaulas e


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gaiolas. (Foi ele que revelou ao Gabriel as paisagens, inacessveis aos sentidos nus, do mundo dos micrbios: os primeiros que ele viu, a mexer, numa chapinha de 
vidro. Assim, portanto, alm mundo no Tempo, existe um outro mundo, no Espao, de infinitesimal pequenez, ou de grandeza desmedida, o da esfera noc turna, que j 
em pequeno lhe deu vertigens. Onde pairamos ns ento? entre os dois? - Teve a noo empolgante desta nova insondvel coexistncia...) O senhor doutor entra, senta-se 
na saleta, fita a dona Adlia com os olhinhos penetrantes, que parecem cabeas de alfinetes atravs dos culos de mope, suspira e diz:
- Vim c hoje s para lhe pedir que me conte uma histria. Estou to cansado, nem calcula o bem que me faz ouvi-la!
- Um professor da Universidade, e gosta de histrias da Carochinha!
Mas no so tanto assim da Carochinha...


XXXII
O PNTANO FERMENTA
 noite, e ele ouve da cama a voz do irmo a namorar da janela a filha mais nova do sr. Sotavento, romntica, bonita, de grandes bands frisados, e "carinha de bilhete-postal 
ilustrado", no dizer da gueda. A pequena l no rs-do-cho, de nuca apoiada no peitoril, a receber na cara os pingos da chuva que vm do alto, horas a fio nisto, 
e no se fartam. A canafistula ramalha com brandura, a noite enche-se deste murmrio dolente e embalador,  bom estar assim a escutar nas quase-trevas as vozes cautelosas, 
o sussurro da chuva na folhagem... (s vezes h luar!) Que diro eles? Muito tem que se dizer quem ama! Quando o paizinho volta - o Santiago avista-o da janela, 
ao dar a volta  esquina - tiram-se para dentro.
V l, com este namoro sempre tem tomado algum assento, fica mais por casa. Namoradas tm sido umas atrs das outras, e duas ou trs ao mesmo tempo, uma a cada canto. 
Sempre numa correria, e ento a escrever cartas com aquela caligrafia digna de medalhas! Tem uma coleco de aparos para toda a espcie de grossos e finos, e at 
gtico! Serve-se do Guia dos Namorados (epstolas, versos, mensagens adequadas a diversas circunstncias), mas melhora sempre o estilo. Tambm tem a Guitarra de 
Ouro, fados de outro tempo, corridinhos, alexandrinos, marialvas, com motes e glosas. Aqueles olhos rasgados e pestanudos so os da me, parece que falam. (A conjuntivite 
no deixou vestgios.) Mas juzo  o que se v. "No me sais a mim!" - diz a

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dona Adlia. E quem sabe?, talvez ela tenha escondido o que nele se revela... Os irmos suspeitam que ela tem um fraco pelo mais velho: nem admira, o que ele sofreu!... 
A Agueda, essa, o pai adora-a, f-lo talvez pensar na me Ryala, mas  muito arisca esta pequena! Se ele a beija, limpa a cara com a mo, e s d beijos de boca 
espremida, parece que tem medo que lhe peguem alguma doena. O fogo mais violento ser talvez o que lavra oculto... Muito estudiosa, embora infeliz nos exames,  
quase sempre primeira no colgio, e a cabea de todas as brincadeiras. Por isso volta e meia fica de castigo: "A menina Agueda s sai s seis!" (Isto quando o irmo 
a vai buscar.) Ou ser que paga pelas outras? As colegas pedem-lhe que invente partidas, ou que toque o estudo de Chopin de que elas gostam... Toca tudo  primeira 
vista com tal facilidade, que a professora at j lhe disse: "A menina, com esse hbito, nunca vai tocar nada que preste! " Saiu do colgio lavada em lgrimas. Mas 
voltemos ao Santiago!
Impulsivo e apaixonado, aventuroso, metido em enredos embora facilmente amedrontado de sombras, fantasmas, inimigos - ora chora ora ri, canta e ralha, recita, faz 
desenhos e aguarelas, versos de amor, e cala sempre o p direito antes do esquerdo. Tem coisas escondidas, livros e fotografias, aventuras do Casanova, poesias 
do Bocage, as Prises do Slvio Plico, nmeros do Pimpo. Fecha-se por dentro com os amigalhaos, enchem o quarto de conversa e risos, fumo e cheiros arrapazados. 
O Gabriel bate  porta, eles no o deixam entrar: fica amuado e ciumento.
- No te vs l meter com eles - diz a me da cozinha. Deixa-os  vontade!
Mas se o quarto tambm  dele!
Depois saem a correr, de escantilho pela escada abaixo, nem demoram como dantes a ouvir a irm tocar a Valse Triste, ou a Partida do Comboio, com as suas onomatopeias 
(figura de estilstica!) nostlgicas de apitos e sinetas e sopros de vapor. Ou a Tempestade, to bonita:
-  me, no ser eu marujo, no ser eu avenntureiro...


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Assim que o pilha fora de casa, o Gabriel corre ao quarto e pe-se a rebuscar nas gavetas, nos livros e postais, nos desenhos esquisitos que o irmo faz em livros 
e cadernos... Um dia descobriu um saquinho de borracha muito macia, enroladinho, que se podia soprar de vento e parecia um chourio ou um dirigvel: para que serviria? 
J tinha visto um assim na tabacaria, e ficou todo contorcionado de suspeitas. At o foi encher de gua no lavatrio: mas teve de o esconder a toda a pressa, porque 
vinha algum. Nunca h sossego nem se pode brincar. Quando o vem quieto, entregue aos seus devaneios, pelos recantos da casa, estranham logo e perguntam: "Que andas 
tu a fazer to calado? No pode ser coisa boa! " -O Santiago  o que se v: faz o que quer. Porque no lhe perguntam a ele? E a mezinha ainda por cima lhe d dinheiro 
s escondidas, "para o cigarro", diz ela! Tudo isto o excita e lhe d uma volpia indefinida, lazeiras, melancolias. De repente o Santiago agarra-o pelos ombros, 
e fita-o muito srio:
- Deixa c ver se tens olheiras. Olha que perdes a memria! D cabo da sade! Tu pensas que eu no sei? Se tornas a fazer, eu digo  nossa me!
Sabe o qu, que pode ele ir contar? Na noite escuta o sonho, o apelo, o tmido tacteio do mistrio, a interrogao?... Mas toda a gente tem olheiras! Porque o h-de 
ele fazer sofrer assim? Podiam ser to bons amigos! Tudo isto agrava a diferena de idades que os separa. Gostaria imenso de manifestar o amor e admirao, a pena 
sobretudo, que o prendem quele irmo: sim, h alguma coisa de secreto e doloroso na vagabundagem, nos amores e aventuras, e fados ao luar.... Ouve-o durante a noite 
a dar voltas e suspiros na cama, a sonhar em voz alta, um murmrio sem tom nem som que ele se esfora em vo por entender, s vezes convulses e risadas que so 
de arrefecer o sangue nas veias da gente. Depois, pela manh, numa inquietao, o Santiago inspecciona as roupas, diz que teve sonhos - e quem  que os no tem?-, 
envergonha-se, tira os lenis e vai escond-los, ou met-los na barrela..". No quer que a me d por nada. Porqu, pergunta a gente. A me v tudo com certeza, 
mas talvez finja que no.
Continua a vender os livros, as coleces de selos to lindos que o pai lhe deu a guardar; empenha coisas para sair naquelas_ excurses nocturnas, ir a bailes e 
festas, a clubes e teatros. At os


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Texas Jack ele furtou ao irmo, e os Raffles, vendeu tudo! Mas quem no h-de amar um irmo que sofre assim, e ri, e nos fascina com as suas aventuras?...
  O paizinho, esse ento, ralha: Quando  que ele acaba esse curso, a vadiagem? O que os estudos tm custado, s em livros  uma fortuna! A me o que mais receia 
 alguma doena: "Est-se aqui a fazer outro desgraado!" - Mas ento porque  que o no ajudam a salvar-se?! Ele  to carinhoso, sempre aos beijos e aos abraos! 
"Com uma casa destas, o trabalho, cozinhar, mand-los ao Colgio,  tudo em cima de mim - e no posso meter uma rapariga que me ajude (ela nunca diz "criada"), porque 
o doidivanas anda sempre a cheirar atrs de-saias, capaz de dar uua cabeada! Se isto j se viu, um fedelho que nem dezassete anos fez ainda!" (Alguma coisa, na 
voz dela, exprime a secreta satisfao.) O Gabriel medita: mas que  que h ento de terrvel nisso das saias? Que tem isso que ver com o Amor, com os sonhos, com... 
Porque sofrem tanto as pessoas com o que mais parecem desejar?
 Frmula do sr. Augusto: "O trabalho  remdio para tudo. Andasses tu com o corpo bem modo! Da tua idade eu no dormia cinco horas por noite. Quem te pusera as 
correias s costas!" - O sr. Sottomayor j lhe ofereceu um bom emprego no Brasil: assim que acabar o curso, ala. A vida  a grande escola. Mas o Santiago, s de 
ouvir falar no Brasil, chora com saudades da me. E esta tem l metido na cabea que o Brasil  uma "terra de febres": desde que viu regressar o irmo Cincinato, 
amarelo e chupado, pobre, com a famlia s costas. Mas foi do Par, santinha, no foi do Rio!
  Houve uma grande festa no Colgio, comdia em um acto, variedades, baile, um bufete que metia medo, comeram at lhe chegar com o dedo (nunca tinham provado pastis 
de camaro). O Programa lindo, impresso em doirados, como os do Coliseu, guardaram-no para recordao. Um menino recitou a "Lgrima", de Junqueiro, mas dizia lg-guima, 
e todos se riram. Outro cantou um trecho de opereta:
 Zs, catraps, grande tareia minha sobrinha vai apanhar...

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Um dos mais crescidos cantou "Ai, descerra essa janela, minha gentil Maria! " - como os palhaos. As meninas fartaram-se de danar, namorou-se  vontade, e s voltaram 
para casa depois da uma, imagine-se, at julgaram que ia amanhecer. Foi a primeira vez, e no dia seguinte levantaram-se todos quase ao meio-dia, o Gabriel com uma 
grande dor de cabea, de no estar habituado.
O Santiago recebeu duas medalhas de prata, uma de Caligrafia, a outra de... Ora deixem c ver... Ah, de Dactilografia!  o segundo do curso em rapidez, um bom aluno! 
Deram-lhe um retrato do curso inteiro, tirado no ginsio, todos muito srios sentados s mquinas de escrever Smith-Premier. O retrato vai para a sala, emoldurado, 
sempre enfeita. E o sr. Augusto, muito orgulhoso, beija o filho, d-lhe um relgio de ao muito bonito, com uma corrente de prata e cobre, parece.
Como ele no quer ir para o Brasil, pode ir para a provncia. Empregos no faltam. H muitas casas que precisam de quem saiba escriturao e contabilidade, cmbios, 
gios, seguros, correspondncia, escrever  mquina... E boa caligrafia! Aprender quanto custa a vida, deixar-se de vadiagens! "Ests um homem! " - Eram capazes 
de jurar que viram uma lgrima nos olhos do sr. Augusto.
Afinal empregou-se em Lisboa. Mas no gostava, era mal pago (dez mil-ris por ms), teve conflitos, mudou vrias vezes de casa. Resultado: o pai zangou-se, resolveu 
mand-lo para o Ribatejo, onde tem uns clientes do Hotel muito ricos, madeireiros, amigos dele. Ia ser guarda-livros, com aquela idade era um bom comeo, tinha um 
futuro, ganhava melhor, davam-lhe casa e comida!
Apesar de ser uma viagem s de algumas horas, houve lgrimas. Mas no era como no tempo do Boi-do-Val' ou do Cincinato, ele podia vir a Lisboa uma vez por outra. 
Levou o enxoval numa mala forrada de lata, com ripas encarnadas. Deixou atrs de si um rasto de bichos-da-seda encarquilhados em caixas, de tabaco entranhado e moinha 
de cigarros nas gavetas fechadas  chave. Ia ter vida prpria, um quarto fora, at deixou crescer um bigodinho  Max Linder. Estava um lindo rapaz, e a Vizinha Delfina, 
que ajudou a atrapalhar os preparativos, dizia de boca aberta: "J olha pr sombra! Est um homem capaz de casar e ter filhos!


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Na vilria, um lugarejo, havia pndegas, rapaziadas, bomia rural. Pregavam partidas aos recm-chegados, como por exemplo lev-los  caa dos gambuzinos. Ah, no 
sabem como ? - Leva-se o sujeito de noite para os montes, com um saco, e diz-se-lhe assim: "Agora ns vamos dar uma batida por a. Vossemec fique aqui  espera 
que eles venham por essa ravina abaixo. No tm outra sada. Quando os vir vir,  s abrir a boca do saco, e eles esto cados. Em achando um buraco, enfiam logo 
nele. Mas veja l, no durma nem arrede p daqui! " - O sujeito espera e torna a esperar que a "batida" d resultado, as horas passam, ele j entorta os olhos com 
o sono, e da fora que faz a olhar a ravina at lhe parece que as moitas danam; e a pensar, que diabo sero gambuzinos? Ao amanhecer j no se tem nas pernas. Rompe 
o sol, e ele l volta para a vila, de saco vazio e orelha murcha, com medo no se perca, e meio desconfiado da "caada".. No lhes conto nada: est o pessoal todo 
 espera, e fazem-lhe uma assuada medonha: Quantos  que voc apanhou,  seu fulano?
Mas o Santiago, olha quem, esse  que no caiu na esparrela. Levaram-no  caa dos gambuzinos. A noite calada, tudo muito quieto, os montes desertos, quando se viu 
sozinho, ou teve medo das bruxas, ou se lembrou de que a Zoologia no fala de tais bicharocos, e desandou para casa, deitou-se e dormiu toda a noite regalado. De 
manh cedo, no o vendo voltar, foram procur-lo ao quarto. Quando lhe perguntaram pelos gambuzinos, ele ps-se em p na casa e mostrou-lhes... Calculem o qu! Ser 
este?... Riram-se imenso e ficaram muito amigos dele. Nas aldeias  assim. Com aquele feitio galhofeiro e sentimental, tornou-se logo muito popular e querido.
J tinha um violino em segunda-mo. Da a pouco comprou uma bicicleta Simplex, na Rua da Palma, por quinze mil-ris, para correr mundo. Ia a bailes e festas, arranhava 
o violino, cantava serenatas pelas estradas ao luar lacrimoso do Ribatejo. Arranjou outra namorada em Tomar, e aos sbados pedalava at l, um estiro daqueles, 
tudo a subir, para passar umas horas perto dela. Chamava-se Ermelinda. Fez-lhe versos ardentes. Capaz de arranjar uma doena de peito, com as estafas. "Este vosso 
irmo  um doido!
Escrevia cartas transbordantes de amor e nostalgia, com versos


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e ptalas de flores esmagadas, em que contava as suas aventuras sentimentais. At havia meninas inocentes, com dote e borbulhas na cara, filhas de gente abastada, 
que o queriam para casar, a srio! Quem pensa agora nisso... Tinha saudades de Lisboa, da famlia, das noitadas, dos amigos. Queria voltar, empregar-se num banco, 
andar pinoca. A sua paixo era agora o Max Linder: at o imitava, bigodinho, o sorriso, chapu de coco, a bengala...
Foram visit-lo numa daquelas excurses familiares. Por sinal, no mesmo compartimento de segunda classe ia com o marido uma senhora ainda nova, que se parecia imenso 
com a senhora-do-senhor-Chteaudepraz, se ainda esto lembrados. Muito bem vestida, lnguida e friorenta, com muitos abafos e sorrisos. Ia para as serras tratar-se. 
O Gabriel no tirava os olhos dela, meiga, apetecia-lhe esconder a cara nas peles macias, ficar a acarici-las, adormecer afrouxado em quentura... (Um garoto com 
dez anos feitos! Mas era s imaginar...) Meteram conversa, contaram a vida toda uns aos outros, ela simpatizou muito com os meninos, e a certa altura tirou bombons 
do regalo e ofereceu-os: ainda vinham mornos. Eles aceitaram logo, pudera, mas a mezinha (porque estava ela to sria, quase feia?) que no senhor, quela hora 
ia-lhes tirar o apetite para o Grande Almoo que os esperava em casa dos patres do filho, e tal. Agradeceu muito, mas ficavam para "depois". Guardou-os.
Admiraram muito das janelas o Castelo do Almourol e as paisagens, to diferentes do Ribatejo seu conhecido. Havia uma leve neblina prateada sobre o Tejo, e chegados 
 Barquinha despediram-se com muita amizade do casalinho, at trocaram cartes-de-visita, e o comboio partiu a apitar para o leste, que  longe, l para a raia da 
Espanha, levando a senhora das peles, a acenar da janela. Ento a mezinha, muito carrancuda, deitou fora os bombons todos para trs dumas silvas. Oh, mezinha! 
Forradinhos de papel de prata e de cores, lindos, como os daquele primeiro Natal distante! E, eles nunca comiam bombons! - Queriam apanhar alguma dor de barriga, 
no? E quem sabe se a senhora no teria uma destas doenas-que-se-pegam? Com o suor das mos metidas no regalo!... Ficaram com muita pena. H qualquer coisa de severo 
e duro na dona Adlia, to boa, que eles no entendem. Ter ela cimes? Mas se eles lhe querem como s meninas dos seus olhos!

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  Foi de facto um lauto almoo, pratos sem conta, caldeirada de enguias, montes de svel frito (uma especialidade da terra, pescado ali mesmo entre as areias do 
Tejo), lombo de porco assado, arrozada, um nunca acabar, e tudo muito bem regado. A mesa interminvel, cheia de gente, homenzarres abrutalhados e vermelhos, conversa 
e risota de ensurdecer. O Gabriel, atafulhado de comes e bebes, afundado na cadeira de palha espipada, entre duas senhoras muito delicadas, sentia-se entorpecido 
de sono e calor. At lhe lembrou o baptizado da Fil, mas era outra coisa. O desejo dele era fugir para o ar livre, ver-se s, respirar. A senhora da direita ofereceu-lhe 
mais, e ele respondeu, sumido:
- No quero.
O Santiago, que estava logo alm dela, corrigiu-o:
  - No se diz no quero, diz-se muito obrigado, minha senhora, mas j tenho o suficiente. Seja bem-educado!
  A senhora sorriu com desmaiada indulgncia. Ora esta. Mas se ele no queria, para que  que havia de fingir, ou estar com cerimnias? Ento no se deve ser franco? 
Muito ele tinha que
 aprender em questo de "franquezas"! Embezerrou. Para cmulo, estava com uma espinha de svel cravada na garganta, a doer-lhe. J no fim do almoo, quando se queixou, 
desataram todos a abrir-lhe a boca, iam-no desmandibulando, e a bradar: "L est ela! l est ela! E comprida! So as piores!" - Sofreu torturas. Fartou-se de engolir 
buchas de po sem mastigar, contravontade, para ver se a espinha descia,  o desces. Por fim, o irmo foi  botica pedir uma pina emprestada, mas o boticrio, que 
tambm tinha vindo ao almoo, estava a dormir a sesta como uma pedra no fundo dum poo, e a coisa foi demorada. O Santiago l lhe arrancou a farpa entre brados de 
espanto e admirao. At deitou sangue. Toda a tarde cuspiu, a espiar a saliva, que pouco a pouco deixou de vir rosada. Sempre se sentiu um bocado mais importante.
  Foi nesse dia que ele compreendeu a vida que o irmo levava. Ao entardecer acompanhou-o, num grupo de amigos, entre eles o chefe mais novo da casa, um pndego 
obeso e falador. A garrafa de aguardente de medronho andou de mo em mo, de boca em boca, e o Gabriel recusou espavorido. Ouviu palavres, frases que nem imaginava 
que existissem e nunca mais esqueceu, anedotas a


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respeito de "pegas" e de padres. Os risos ecoavam nas colinas doiradas pelo entardecer. Era estranho, aquele contraste de quieta melancolia da natureza e do bulcio 
dos homens.
O quarto do Santiago ficava fora da aldeia, numa enfiada de casinhotos de um s andar, parecia um "ptio" de Lisboa, mas era muito mais asseado, e tinha porta para 
um desvio da estrada. L estava a rabeca, desafinada e com uma corda partida, a resina para o arco e a mala de ripas, a mesa de pinho envernizado a fingir mogno, 
esta 'mania. Parecia sabem o qu?, a cela dum frade. Frade? - O irmo ps-se a contar qualquer coisa a respeito da criada que lhe vinha arrumar o quarto todas as 
manhs - "ali mesmo, em p contra a esquina da mesa... " - As gargalhadas estrugiram os ares. O Gabriel percebeu vagamente e corou. Os homens tropeavam nele, pequeno 
e perdido. Tinha frio no corao, anoitecia, o mundo cheirava a aguardente de medronho. Foi vomitar o grande almoo atrs dum valado, e manchou para sempre a gravata 
lavalire de "escocs".
A noite andaram a passear na estrada, a lua nasceu muito redonda e amarela, as meninas cantaram, as senhoras gostaram muito, conversaram de coisas inocentes, sentadas 
num murinho da residncia. Pairava uma languidez no ar morno. Eram todas solteiras, prendadas, bem-falantes. Ento porque  que no se casavam? No havia tantos 
homens? Ali sequestradas naquele ermo... O Gabriel teve pena delas, no podia entender. Era como se houvesse uma vida de decncia, maneiras, sonhos, lgrimas, bordados, 
casamentos, e outra vida de boalidade, bomia e palavres, quem sabe qual delas a mais sincera? Mas ento porque  que as pessoas andam sempre a fingir? Tudo isto 
o entristecia. E tinha sono.
Voltaram para Lisboa no domingo  noite, arrasados e com a tripa desarranjada. (Fora de casa, ele nunca conseguia fazer o seu servio.) No contou  famlia nada 
do que vira e ouvira, a infncia tem os seus segredos.
Com a sada do Santiago, tinham-no mudado para o quartinho da frente, cor-de-rosa, com a sacada donde em tempos ele costumava observar os vizinhos. Estavam ali os 
mveis do irmo, a secretria e a cama de ferro de bolas amarelas com a colcha de
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ramagens, a mesinha de cabeceira com a palmatria de lato, que o Gabriel areava escrupulosamente. Era o seu refgio, podia ler, dormir, sonhar  vontade. Tinha 
porta para a escada, tapada com o reposteiro atrs do qual a Dalilah se escondia dantes. (Andava agora no liceu das raparigas.)
Veio-lhe o primeiro ataque de gripe, e a me ps-lhe emplastros e sinapismos, esfregou-o com lcool canforado; atou-lhe  cabea um leno molhado em gua sedativa, 
bem apertado. O quarto cheirava a farmcia. H sempre um certo gozo em estar doente: o sono  profundo, a modorra da febre deliciosa, o peito num calor voluptuoso, 
o tempo passa sem se dar por isso, e no tem a gente que ir  escola.
Uma noite, o pai voltou e sentou-se na cama a conversar com ele. Sentia-se tonto, a luz era vermelha e quente, uma brasa irradiava-lhe no peito... De repente, sem 
saber porqu, desatou a falar na nomenclatura do Congo, andava a aprender a geografia da frica, e mencionou uma cidade chamada Banana. O pai riu-se: " Ests a variar, 
filho. V se dormes! " - Voltou-se para a mulher: "Estar ele com delrio?" - e aconchegou-o. Sim, era aquilo o delrio, delirante, dizer coisas sem tom nem som... 
Adormeceu com a sensao de mergulhar num poo de gua a escaldar.
Dias depois, na convalescena, a me mandou-o para a cama de casal: era sempre o melhor das trabuzanas.
Meteram enfim criada, a primeira. Chamava-se Arcolina e viera l dos stios da dona Adlia. Com dezoito anos era uma mulher, alta e robusta, a cara dum moreno mate, 
o perfil regular, os dentes perfeitos. Mas era tapada, valha-me Deus: a boca aberta e o ar espantado, no sabia ler nem escrever, falava pouco e nunca sorria. Quando 
ia s compras demorava-se um tempo infinito, e enganava-se nos trocos. A dona Adlia abanava a cabea: "Quem viu as raparigas do meu tempo! " - Tinha um andar pesado, 
de pato, que abalava a casa nos chinelos de trana acalcanhados, e a barriga saliente nas saias multicores, emolhadas em pregas  cintura, quase a arrastar no soalho. 
A patroa ensinou-a a usar o pente-fino e a lavar o pescoo, mas ela no gostava da gua. Tinha um cheiro vagamente azedo, que fazia lembrar a Lcia. Lavava as roupas 
na varandinha das traseiras, batendo-as com fria e cantando horas a fio:


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 Manuel, toma l, toma l, o m corao arrecada-o l!
Quando se encontrava com o sr. Augusto no corredor escondia-se no quarto. E que se lhe havia de fazer? Era boa rapariga, pouco respondona, e por trs e quinhentos 
ao ms... A dona Adlia fazia a cozinha e todos os trabalhos de responsabilidade.
Chegaram de novo as frias grandes, os dias quentes e arrastados, e ele, com os amigos quase todos fora de Lisboa, no tinha com quem brincar, nem mesmo na rua. 
A amizade dos Mitelos esfriara de vez, dos outros vizinhos nada havia a esperar. Ficou mais inactivo e solitrio, fazia bonecos, modelava figuras em massa de vidraceiro, 
lia Jlio Verne, as Mil e Uma Noites, apaixonou-se por Fantina, que "era bela sem o saber", chorou as desgraas do sr. Madeleine, sofreu com Cosette a tirania dos 
Thenardier, precipitou-se com a cavalaria de Napoleo no fosso da morne plaine... Olhava demoradamente as ilustraes, integrava-se naquele mundo do Paris subterrneo, 
das barricadas, de Enjolras. Mas ainda lia aventuras policiais, histrias de peles-vermelhas, volumes soltos de Gabriel Ferry, Mayne-Reid e Fenimore Cooper. Corria 
as ruas sozinho, subia s terras proibidas e ao Monte, a olhar do alto a cidade, nostlgico e meditabundo, sofrendo de no estar em toda a parte ao mesmo tempo. 
Ia  Pampulha visitar o tio Amndio, de caminho entrava no Museu das janelas Verdes, ficava horas l metido. De noite, segundo o costume, descia  Baixa, a encontrar-se 
com o pai.
Tinha aprendido a forar as gavetas do irmo com uma chave de parafusos,  laia de p-de-cabra, sem deixar vestgios. De tempos a tempos rebuscava nelas, agitado: 
ali estavam as cartas e recordaes de amor, retratos de namoradas, os desenhos obnxios, as fotos de mulheres, corpos sem graa nem inspirao, algumas em grupos 
e em posies grotescas. E as brochuras com estampas mal-impressas, confusas, mas ainda assim capazes de o deixar estrangulado de emoo.
Naquela tarde a me sara, a Arcolina tinha-se calado, o sol causticava a fachada e os caixilhos pintados de fresco, espalhando um cheiro adocicado e enjoativo de 
linhaa. A porta fechada, o



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silncio, a luz dum rosa quente filtrada pelas janelas encostadas, apoderou-se dele a clandestinidade. Acabava de descobrir um folheto que nunca vira: era a histria 
de um casamento no Minho, com arraial, foguetrio, msica e muita comezaina. A certa altura os noivos impacientes deixavam os convidados entregues  folgana e ao 
verdasco, e refugiavam-se no palheiro. Depois de vrias experincias, o noivo galante e servial (tinha andado por Lisboa, na tropa e no comrcio) revelava  esposa 
certos segredos de amor pouco aldeos. Uma das fotos, em borres de um verde-claro, representava a lio da novidade.
Apoiado  cama, de p e a latejar, com o livro na mo esquerda, ele lia e relia as frases ambguas, procurava decifrar o enigma das estampas, hesitava entre a tentao 
e o remorso antecipado. Para ele j no havia segredos, conhecia a febre e o desvairamento das convulses, a crispao seca e deliciosa que o envolvia como uma labareda, 
para o deixar prostrado e triste. A ausncia do irmo, ao menos, poupava-o a vexames; e os pais no se ocupavam da sua intimidade.
Nisto, a porta entreabriu-se sem rumor, e uma cabea espreitou: era a Arcolina, que vinha talvez arrumar umas roupas, ou indagar do que fazia o "menino", to calado, 
horas sozinho, agarrado aos livros, no quarto abafado como um forno: mas um gonzo gemeu, ele pulou sobressaltado, cobriu-se rapidamente e escondeu o folheto debaixo 
do travesseiro. Nem ousou erguer os olhos. Ela vira-o com certeza, pois fechou logo a porta e foi-se embora sem falar.
Perplexo, procurava ouvir-lhe os passos a caminho da cozinha, e no sabia se devia recomear ou esquecer tudo, quando a porta se tornou a abrir, de repelo, e a 
rapariga entrou - desta vez ele olhou-a: afogueada, de olhos castanhos arregalados, a boca entreaberta de secura... Correu para ele, agarrou-o com fora, e disse 
numa voz que queria ser risonha mas era espasmdica:
- O menino, que  que est a fazer? Mostre-me c!
Sentiu-se descoberto e tacteado com impacincia. A Arcolina atirou-se para cima da cama, com um soluo, e ele ouvia-a dizer, atabafada pelas saias que lhe cobriam 
a cabea:
- Olhe, menino, olhe o que eu aqui tenho... Veja,  para si!
Sem compreender, olhou as meias de algodo cor de creme,


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atadas com fitilhos encarnados abaixo dos joelhos, as coxas morenas e rolias, e alguma coisa de escuro e confuso que se entreabria numa ferida esbeiada... Ela 
esperou um instante, e tornou:
- Ande, menino, depressa! Antes que venha a sua mezinha!
Como ele no se mexia, mudo de assombro, a rapariga soergueu-se, agarrou-o pelo pulso, e ele sentiu nos dedos o que quer que fosse de gomoso e escaldante, ao mesmo 
tempo que um cheiro acre lhe pungia o olfacto. Agitada e convulsa, ela comprimia-lhe a mo, soluava...
- Sente, menino, sente? Gosta?  bom? Ai,  bom...
Que queria ela dizer, onde queria chegar? Esta brincadeira tinha uma violncia adulta, aterradora e repelente. No era como brincar com a Dalilah, nem como sonhar 
com a Mariquitas, as fantasias ou as leituras secretas que o exaltavam. Sentiu-se em perigo. Puxou a mo com quanta fora tinha, a libertar-se, e antes que ela o 
tornasse a agarrar, fugiu a correr, deixando a porta aberta, a caminho do quarto das lavagens, em nsias, com a memria indelvel daquela chaga e daquele cheiro 
a persegui-lo.
Uma tarde, ainda era dia claro, comeavam a jantar quando chegou a mulher-a-dias do Monte com a notcia: a dona Miquelina estava a ensaiar um nmero de revista no 
Teatro Apolo, quando de repente lhe deu uma coisa e caiu redonda: o marido correu a levant-la, estava morta...
- Morta! A Miquelina! Na fora da vida!
E este pormenor, que absorveu e deliu todos os outros: tinha umas manchas roxas na testa e nas fontes.
Houve um silncio de lgrimas engolidas, ningum teve coragem para continuar a jantar. A dona Adlia ergueu-se da mesa com as mos a apertar o peito e foi l para 
dentro a gemer:
- Pobrezinha! Pobrezinha! No palco... Toda a vida aquele sonho, e afinal! Ali tinha de acabar!
Comeou a vestir-se de preto para ir velar a amiga.
O Gabriel ficou sozinho  mesa, sem vontade, com a cabea inclinada para o prato de sopa fumegante. O silncio encheu a casa, em frente da janela a canafistula estava 
imvel, a luz desmaiava. Tudo lhe pareceu de repente enlutado. Os vivos iam-se indo um por um, quem  que viria tomar-lhes o lugar? Receou ver-se num mundo deserto...



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A Arcolina, em p ao lado dele, acariciou-lhe amorosamente o
cabelo e disse:
- Coma ao menos a sopinha, menino. Se  meu amigo! At ela era capaz de ternura, e tinha os olhos rasos d'gua.



XXXIII
DOMINGO MALOGRADO
Dadas as dez, caiu sobre o trio do Hotel uma pesada lona de silncio e cansao, e o domingo teve de sbito o sabor familiar e compungente dos dias malogrados. O 
sr. Augusto deu por findo o servio e, como quem vira a ltima pgina dum livro e o fecha, ps-se a arrumar as gavetas. O filho apoiou-se  borda da mesa e ficou 
a seguir-lhe os gestos comedidos. As gavetas de fecharia amarela - cheias de lpis, caixinhas, canetas, selos, moedas estrangeiras, postais, livros de contas e endereos, 
canivetes, tabaco de ona, tesouras e limas de unhas, mil coisas perdidas e achadas, e at segredos que os hspedes confiavam ao empregado - sempre lhe tinham inspirado 
um sentimento reconfortante e quase voluptuoso de ordem, asseio e nitidez. Gostaria de ficar a remexer nelas, vagarosamente, com um calor gostoso na boca do estmago.
A mesa antiga e torneada, com um brilho bao na cor castanha, madura e apetitosa, dera-lhe, em pequeno, o hbito de a lamber e morder secretamente. Os hspedes - 
viajantes, coloniais, "brasileiros", provincianos abastados, estrangeiros, solitrios a quem Lisboa era estranha e a vida de hotel aborrecia - costumavam acotovelar-se 
 grade de lato que a rodeava, e ficavam de conversa: procuravam companhia e distraco, e o sr. Augusto, solcito, sorria, dava-lhes informaes sobre teatros, 
cambistas, comboios, alfaiates, rouparias. Meticuloso, s vezes consultava um guia ou horrio.

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Guardou por ltimo a carteira no bolso interior do jaqueto, ps o porte-monnaie e as chaves na algibeira das calas, lado esquerdo, sorriu, fez uma carcia no rosto 
do filho e disse:
- Bom, vamos agora  ceia.
Recolheu pausadamente ao cubculo envidraado, do lado oposto, por cujo postigo podia ver tudo o que se passava no trio, quem entrava e quem saa pelas duas grandes 
portas com molas de presso-de-ar e as iniciais do Hotel em fosco, entrelaadas nas chapas de cristal.
quela hora o trio era um mar-morto. L fora, no passeio empedrado, o ajudante, sr. Jos, digeria o jantar com um palito usado entre os bigodes grisalhos, e contemplava 
com bonomia o trnsito rarefeito, a modorra nocturna e domingueira da Baixa, as matriculadas que rodavam a distncia, nas ruas e travessas vizinhas. A noite estava 
hmida e tpida, de um aconchego tardo e voluptuoso. Dois carregadores dormiam sentados no comprido banco de espaldar, de madeira clara, folheada, contra a parede 
do lado da entrada de servio: num extremo, o corretor Antnio, curto, robusto e cor de vinho, lutava contra o sono e a dispneia, soletrando um jornal da noite enquanto 
no eram horas do Correio.
Sozinho e pensativo, Gabriel percorreu com a vista o trio, como se visse pela primeira vez o cenrio da sua infncia: as cadeiras de pregaria baa, a grande mesa 
ao centro coberta de revistas esfrangalhadas, a entrada do elevador de mogno vermelho reluzente, com espelhos biselados, as duas portas de arco redondo que levavam 
s escadarias: tudo o que ali de h muito lhe era familiar, e no entanto lhe dava de sbito a sensao penosa de uma insondvel estranheza e antiguidade. Perplexo, 
como um murganho estonteado, correu em ziguezagues nas pernas delgadas, patinando em rpidas curvas nos mosaicos duma complicada geometria tricolor onde ele dantes 
costumava perder-se em vertiginosas exploraes de profundidade. Com o tempo, tinha perdido o gosto a esse jogo de entrar sozinho no mundo subterrneo dos mosaicos. 
Foi-se deter em frente da escada nobre: trs degraus baixos, largos, um tanto gastos, com as eternas aspidistras em vasos de faiana amarela e branca a imitar vime 
entranado, davam acesso ao primeiro patim, onde duas esttuas de bronze





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-lata, mulheres seminuas cor de chocolate, seguravam as complicadas ramarias arte-nova da iluminao. Os degraus, corrimes e lambrins de mrmore (este em losangos) 
e a passadeira de cairo vermelho com varas amarelas, galgavam de um lano at ao patamar de cima, com o imenso espelho onde ele se olhava s vezes, plido e sumido, 
mais aspidistras e lampies de falso bronze: e tudo tinha uma verde e submarina quietao, ou transpirava uma adstringente humidade. Desejou subir no silncio, perder-se 
nos soturnos corredores atapetados, no segredo das imensas portas de acaju polido, nos cheiros inquietantes, nos recantos misteriosos - a sala abandonada na luz 
espectral, o escritrio deserto, a copa obscura, a rouparia no ltimo andar, com as prensas de rolos de madeira, onde ele um dia entalara um dedo. Mas a solido 
do Hotel a esta hora oprimia-o, fazia-o sentir-se ainda mais estranho. Raras vezes subia, a no ser para ir s retretes, forradas de mrmore, com as portas em guarda-vento 
de ripas, que o inibiam de fazer o servio, porque imaginava que de fora lhe viam as pernas pendentes, de calas cadas. Ainda assim, as porcelanas impecveis, os 
metais areados, os trincos de correr, os autoclismos, as caixas do papel-higinico fechadas  chave, tinham um luxo que o atraa, mesmo sem necessidade. Ficava l 
metido muito tempo, a escutar os rumores abafados do Hotel e da rua, passos nos corredores, vozes e risos, o estreloiar de pratos, o zumbido das canalizaes ou 
os soluos das vlvulas: at que o irmo se inquietava e o ia buscar. Um dia o Santiago, com o seu pavor das doenas, correu a dizer  me que o Gabriel tinha "apertos 
de uretra", porque se demorava tanto tempo a verter guas, e o pai riu-se: "Como queres tu agora, daquela idade!... " - O Hotel mergulhava numa paz nocturna e misteriosa 
que lhe excitava a fantasia; imaginava as vidas dos hspedes, espreitava pelas portas entreabertas dos quartos, as camas desfeitas, uma criada de avental branco 
a arrumar as gavetas duma cmoda... Se o desconhecido o atraa, recuava diante dele para o imaginar melhor.
Voltou atrs, vagaroso, como se procurasse o que no podia achar. Parou junto da mesa de pau-santo, no centro, e passeou um dedo hesitante nos lavores da madeira, 
nos metais caprichosos do bojo das gavetas falsas, que tantas vezes tentara abrir; depois acariciou
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as pernas barrigudas, as travessas espiraladas que as uniam nos cubos de encontro, com ornatos de lato semelhantes a esporas embotadas. Aquela mesa fora umas vezes 
templo, castelo, ou caverna; outras, garagem, block-house, barraca ou barquinha de balo. Negra, dura e espelhenta, era-lhe preciso transfigur-la  fora de guindastes 
de imaginao: o seu peso e rigidez, a secura implacvel, tinham-no pouco a pouco desencantado e repelido, deixando-lhe o intolervel sabor da desiluso. O capacho, 
em baixo, era-lhe odioso: spero, com m cheiro irritante de p. Acocorado a sonhar, ou a olhar os semicorpos que estacionavam ou circulavam em torno dela, e a ouvir 
o besoirar das conversas por cima, ali ficava muito tempo escondido, invisvel. Um dia a me julgara-o perdido ou em fuga, e correra o Hotel de alto a baixo, aflita, 
a indagar: viera dar com ele, prisioneiro, sem se atrever a abrir caminho por entre os hspedes, espantados de o ver sair dali, agarrado pela orelha, como um caapo, 
de beio encolhido e olhos baixos. Foi ali tambm que ele pela primeira vez observou  vontade, com indefinvel emoo, as curvas sumptuosas dumas pernas de mulher: 
a mo cuidada, de unhas aguadas, tinha descido a coar a meia com um som raspante nas malhas de seda, e depois erguera a saia a ajustar a liga. Como  estranho 
o movimento de uma mo que age por si, alheia ao corpo,  cabea que a comanda, como dotada de vida e vontade prpria! - Certa noite um hspede, entretido a olhar 
revistas ou jornais, pisou-lhe barbaramente a mo esquecida numa travessa. ao berro de agonia pulou, receando talvez (como o Sbio) que um co danado lhe mordesse 
s canelas... O pai lavou-lhe os dedos trilhados e ralhou: Que mania a dele, sempre metido debaixo da mesa, como um bicho numa jaula! J no era a primeira vez que 
aparecia  me com os fundilhos empoeirados, ou os joelhos sujos. Mas que outra coisa podia ele fazer ali? No saguo nem pensar: atravancado de confusas bagagens 
eternizadas nas trevas, e com ratazanas do tamanho de coelhos, que faziam frente ao fox-terrier, assanhadas!
A que ponto ele tinha conseguido iludir-se outrora! Como podia ter acreditado, brincado assim? No se reconhecia nessas memrias absurdas, e assustava-o agora essa 
ruptura de continui dade consigo prprio, como se tivesse sido outro... E no entanto,



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aquele refgio fora-lhe indispensvel para encher o vazio sem fundo da inexperincia.
As cadeiras enormes, inamovveis, de alto espaldar de couro e
pregaria areada, dispostas em torno da mesa, eram soldados de grande uniforme a dormir em p na parada esquecida do Tempo: quantas vezes as tinha contado, e nunca 
sabia quantas eram? Ficou instantes indeciso, a acariciar os ornatos de metal, mordendo a boca, com a poupa teimosa do cabelo cada para a testa. Era agora um menino-do-liceu, 
e embora continuasse a andar de
calo, j no se vestia  maruja: tinha um fato de cotim estambrado, com muitos bolsos, uma lapiseira de disparar pela boca, e um reloginho de ao, como o do Santiago, 
com corrente de prata, presa da lapela. O mesmo e outro... O tempo  terrivelmente longo, fibra a fibra, e de repente - por onde se escoa ele?
Nos cinzeiros de cobre fediam pontas de cigarros e restos de charutos frios. Folheou jornais e revistas gastas de impacincia e ociosidade, como nas salas de espera 
dos consultrios. Um anncio medicinal reteve-lhe a ateno: um homem de olhos esgazeados, com a cabea dum vitelo entalada na boca - "COMER MUITO!! BEBER DE MAIS!!!" 
- era um pesadelo...
O trio enorme, brilhante de luzes, imponente de nudez decorativa, estava duma solido intolervel. No extremo do banco o corretor ressonava por fim, de boca aberta, 
roxo, com o jornal nos joelhos. Um ar de abandono pervadia tudo, a prpria rua deserta e silenciosa. Teve saudades sem saber de qu, talvez da infncia que findava, 
ou do domingo que morria devagar, numa lenta sangria, domingo perdido e sem futuro. Veio-lhe um sentimento angustioso de inutilidade, de tempo parado, de beco sem 
sada e estagnao. Haveria em tudo isto alguma coisa de real? A vida desaguava num charco de imobilidade.
Com os olhos procurou o pai: atravs do postigo, sobre o fundo verdoso do cubculo, como num aqurio, viu-lhe a calva luzir tranquilamente. O sr. Augusto, de guardanapo 
entalado no colarinho, comia o seu jantar tardio. Para ele a vida tinha realidade, no era s passado morto, mas futuro e avano... Sentiu-lhe a distncia o olhar 
compassivo. Ento, correu para ele como se, num mar vazio, procurasse a jangada salvadora.
Era ali que o pai dormia, outrora, noite sim noite no. O catre



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alto e duro, coberto com a manta vermelha de barra s listas de cores vivas, ocupava quase todo o fundo do acanhado espao. Na frente, contra as vidraas lapidadas, 
foscas, uma prancha servia de mesa. A um canto estava o lavatrio minsculo, com o espelhinho oval por cima. Era ntimo e confortvel como o camarote dum navio. 
Fechando os olhos podia rever todos os pormenores. Ali, o sr. Augusto mudava de roupa para sair, ou envergava o uniforme azul-marinho, que lhe assentava muito bem. 
Mas os filhos preferiam v-lo  paisana. Naquele catre, o Gabriel gostava de dormir, nas noites em que o servio retinha o pai at mais tarde. Quantas vezes... O 
sono dava-lhe tonturas, o trio amarelo, as luzes cruas, as cadeiras de couro pregueadas, o ascensor e os espelhos, os mosaicos e as aspidistras, tudo se punha a 
girar vertiginosamente, numa embriaguez atormentada e voluptuosa. A mo da me sustinha-o de repente: "No durmas! " - Ento o pai - "Ele est a cair com sono!" 
- levava-o ao colo, deitava-o no catre, cobria-o com a manta ou um capote: " Dorme! " - e ele adormecia de repente, feliz, embalado no sussurro das vozes, nos rumores 
da rua, e nos cheiros do Hotel.
Entrou, encostou-se  prancha a olhar o pai, que mastigava metodicamente, como fazia tudo: os msculos bailavam-lhe debaixo da pele luzente e clara. Como era domingo, 
a ceia viera da copa um pouco mais cedo que o costume - nunca antes das dez e meia, onze horas - em tachos de alumnio tapados.
- J ests com sono?
- No senhor.
O pai cortou um naco do bife grosso e vermelho, quase frio, era
assim que ele gostava, e entalou-o numa cdea de po moreno: - V, come.
Comeu em silncio. Depois, com a placidez habitual, o pai
deu-lhe um pedao de bolo e um pouco de ch vermelho e escuro,
que cheirava a rosas secas na xcara pesada e funda, com um filete
verde e as iniciais da casa. Embrulhou o resto do bolo num papel,
entregou-lho e murmurou:
- Levas isto para a tua irm.
Enquanto ele acabava de mastigar e engolir vagarosamente,
aspirando o aroma da infuso, o sr. Augusto lavou as mos,



bochechou, olhou-se no espelhinho, penteou amorosamente o bigode, mudou de roupa, sorriu e disse:
- Encheste o papinho?
No trio, o silncio continuava. Ao domingo, o comboio do Norte trazia poucos hspedes, e os que chegassem depois daquela hora podiam ficar a cargo do ajudante. 
O sr. Augusto, j de chapu na cabea para sair, dava-lhe instrues.
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Foi quando, da calma da noite e da rua - como um trovo subterrneo que anuncia o. sismo, ou o marulho duma vaga de fundo em plena calmaria - se ergueu de repente 
um confuso clamor e tropel alarmante, que em rpido crescendo se veio aproximando e definindo.
O sr. Augusto empalideceu e apertou o filho ao corpo. O corretor despertou do sono apoplctico e pulou do banco abaixo, como os carregadores. Ficaram todos a olhar 
a rua, donde vinha o tumulto de mil bocas escancaradas num grito, de passos em roldo. Mas no tiveram tempo de pensar ou dizer o quer que fosse: a larga porta de 
servio escancarou-se com violncia, como empurrada por um ciclone, e houve uma brusca e tumultuosa irrupo de gente, de brados, de gestos desvairados e bengalas 
erguidas no ar.
Um homem de fato claro, e com um pequeno bigode, destacou-se da massa e atravessou rapidamente o trio, em diagonal, contornando a mesa seguido de perto pelo vociferar 
de ininteligveis apupos. A torrente humana envolveu, separou pai e filho, e este sentiu-se submerso, rolado, irresistivelmente impelido na direco da escadaria 
nobre.
O sujeito tinha subido os trs degraus e, j no patim, voltou-se a enfrentar de cima o populacho, como se quisesse det-lo. Gritou qualquer coisa, palavras perdidas, 
ergueu um brao, uma arma brilhou... O clamor recrudesceu, houve confusos gestos precipitados, o entrechocar de cacetes, um adensamento de vaga humana magnetizada. 
Depois um tiro, outro tiro, o cheiro da plvora queimada, o rumor de matracas batendo, esmigalhando algo de duro e frgil, ossos...
Seguiu-se um curto silncio imvel, depois a multido recuou devagar, de comeo compacta e solidria, logo em seguida dispersa,


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desfeita em gotas-homens que correram para as portas e se escoaram na rua to depressa como tinham vindo. O trio ficou de novo estranhamente quieto.
Sem pensar no que fazia, sozinho no deserto dos mosaicos, Gabriel avanou na direco da escadaria e parou: entre as esttuas de bronze e as aspidistras, na quietao 
subaqutica do patim, o homem jazia de costas, com os braos e as pernas em cruz, os olhos abertos, a boca torcida no esgar do derradeiro grito, e da testa amolgada 
escorria-lhe, com um pouco de sangue, uma massa esbranquiada. Um pequeno revlver niquelado, com cabo de madreprola, reluzia inutilmente perto da mo, aberta agora, 
que o empunhara. O chapu tinha rolado, e mostrava a marca no forro de seda branca.
Ficou a olh-lo, hipnotizado: o homem tinha entrado ali a correr, havia pouco, voltara-se a falar, fizera um gesto vo - e de repente a vida abandonara-o definitivamente, 
e com ela a conscincia e a vontade. Imvel, insensvel, deixara de existir como pessoa: era um cadver. Ainda quente, mas j devia comear a arrefecer... O Gabriel 
olhou em volta: nada tinha mudado. A onda invadira o trio, rugindo, galgara at ao patim da escada nobre, rebentara com estrondo, depois recuara, desfizera-se, 
voltara ao seio da noite donde surgira, deixando atrs de si, no cais deserto, a carcaa dum nufrago, vazia.
Ento compreendeu. Um arrepio gelado desceu-lhe as costas, depois uma labareda envolveu-o. Contagiado, oprimido pela solido do morto, tentou afastar-se devagar, 
sem o desfitar. Mas esbarrou em gente que entrava, polcias, hspedes, curiosos. Um vozear imenso, de caverna, ecoou-lhe nos ouvidos. Deu meia-volta e, abrindo caminho 
 fora, correu a sentar-se no banco, do lado oposto. Entreviu de passagem o pai, rodeado de homens, muito branco, a explicar alguma coisa e a apontar na parede, 
entre as janelas e por cima da cabea, o ponto onde uma bala estilhaara a pintura amarela, deixando a descoberto o estuque interior. Ainda segurava o auscultador 
do telefone.
O trio ps-se a girar como um carrossel, o rumor nos ouvidos tornou-se intolervel, e ele tentou, agarrado ao banco, dominar a vertigem e a nusea. Um negrume sbito 
engoliu as luzes, os homens, os sons, o mundo inteiro. Por segundos ou minutos, no

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saberia diz-lo, lutou contra a escurido. Reabriu os olhos com esforo, mas aos ps dele os mosaicos eram um plano inclinado, por onde uma fora imensa o impelia 
para um buraco sem fundo... Quis resistir: com um movimento de recuo violento deslizou at ao extremo do banco, pulou ao cho, atirou-se  porta, abriu-a, e lanou-se 
a correr ao longo do passeio com quanta fora tinha.
Chegado  esquina, ao pr o p no pavimento, um automvel que descia a Rua Augusta rangeu com estridor no empedrado e guinou bruscamente para a esquerda, a evit-lo: 
Gabriel estacou, e percebeu que o corao lhe batia com violncia desordenada, vivo... ouviu gritos. Algum corria atrs dele, a voz do pai encheu de um eco enorme 
a rua quieta:
- Gabriel! Gabriel!...
Voltou-se. O pai aproximava-se, ofegante:
- Para onde ias tu, filho? Porque fugiste?
No respondeu. Sim, ia a fugir, mas no sabia de qu. Talvez deste mundo atormentado, da morte que espreitava a cada canto, ou da vida, que comea no sangue e acaba 
em sangue. E para onde ia? No tinha para onde ir. O paraso, a idade de ouro, o sonho - nada disso existia fora dele. Estava dentro da vida e no podia fugir-lhe. 
Alguma coisa mais do que um homem morrera ali: um tempo, a sua infncia. Era preciso recomear tudo noutro plano, trepar a ladeira arrastando o peso das cadeias. 
Sentiu-se de repente s, e teve medo. Ento, num impulso, atirou-se contra o peito do pai, e escondeu a cara, sacudido de soluos. As lgrimas correram-lhe por fim, 
arrastando e dissolvendo a escurido. O sr. Augusto esperou, calado, enlaando-o pelos ombros com um brao, e a acariciar-lhe a cabea com a mo direita.
Quando o viu mais calmo, disse com brandura:
- Anda, filho. Vamos para casa, que a tua me j deve estar apoquentada com a demora.

NDICE





PRIMEIRA PARTE
I - O Gato Preto         
5
II - "Tiro Um Olho a Ti"         
12
III - Cais de Embarque
......................
14
IV - "Abajur! Abajur!"
......................
19
V - Aleluia na Mansarda
.....................
25
VI - A Escola do Paraso
.....................
29
VII - O Vestido Cor de Ervilha
Seca         
40
VIII
- A Mquina "Memria"
..................
48
SEGUNDA PARTE
61
IX - No Teatro da Miquelina
..................
X - Tu Irs e Voltars         
74
XI - "Toma l Cinco Ris"
...................
76
XII - A Secreta Melodia
......................
85
XIII
- A Bola Histrica         
98
XIV
- Animais Nossos Amigos
..................
100
XV - O Menino e o Bacalhau
................
113
XVI
- Don Clodomiro Regressa
dos Pampas         
115
XVII
- Ele Tinha Umas Asas
Brancas         
127
XVIII
- Um Drama sob o Terror
..................
132
TERCEIRA PARTE
145
XIX
- Bolacha "Marselhesa"
....................



334        
XX - Pe-te na Rua         155
XXI - No Comeo o Fim-do-Mundo         168
XXII - A Noite da Falperra         180
XXIII - Meninos no Wild-West         195
XXIV - Naufrgio em Seco         208
XXV - Sangue do Nosso Sangue         218
QUARTA PARTE
XXVI - Fado Lir         237
XXVII - Retrato Cor de Marfim         250
XXVIII - Massacre dos Mil-e-Duzentos         266
XXIX - Boi-do-Val'         277
XXX - Repblica, Sou Teu         287
XXXI - O Filsofo e o Cozinheiro         298
XXXII - O Pntano Fermenta         307
XXXIII- Domingo Malogrado         321


FIM DO LIVRO
